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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Célio Simões (O nosso português de cada dia) “Custar os olhos da cara”

A origem mais conhecida dessa expressão, revela o alto preço pago por Diego de Almagro (1475-1538), companheiro de Orelana e dos Pizarros, que no Século XVI, representando os espanhóis, conquistaram o Peru pelo Pacífico e retornaram à Europa descendo o Amazonas até a foz a partir de Quito - ao contrário de Pedro Teixeira, que representando Portugal, subiu o grande rio desde o Atlântico até os Andes, tendo o mérito de implantar vários povoados, que no futuro viraram cidades. 

Após ouvir lendas sobre um povo que comia e bebia em vasilhas de ouro no Novo Mundo, os exploradores espanhóis navegaram com suas tropas, em 1524, rumo às terras desconhecidas. A primeira expedição chegou até o Equador, porém na segunda, surgiram evidências sobre a existência do Império Inca.

Assim, em 1526 saíram eles do Panamá em dois pequenos barcos, desembarcando na costa da atual Colômbia. Na ocasião, tiveram o primeiro contato com a riqueza daquele povo, confirmada também mais ao sul, onde a expedição foi confrontada por jangadas repletas de guerreiros Incas, que admitiram a existência de muitas outros tesouros naquela desabitada região.

Tais notícias encheram os ouvidos dos reis da Espanha, que buscavam avidamente ouro e prata em suas colônias para salvar a economia do país e com esse desiderato, os citados aventureiros foram autorizados a conquistar o Peru. E foi aí que a empreitada bélica vitimou Almagro, pois na tentativa de invadir uma fortaleza Inca, perdeu ele um dos olhos, atingido por uma flecha.

Sujeito sortudo, sobreviveu ao ataque e anos depois, ao pessoalmente relatar ao rei da Espanha Carlos V, os imensos custos e sacrifícios humanos da viagem destinada a conquistar as terras peruanas, Almagro declarou enfaticamente: “Defender os interesses do rei custou-me um olho da cara”.

A par da narrativa feita diretamente ao monarca, o conquistador continuou alardeando o heroico feito e seu enorme ônus pessoal para quem quisesse ouvi-lo. E esse episódio de tão exaustivamente repetido, chegou aos ouvidos dos soldados sob seu comando e deles, para a boca do povão.

O relato de Almagro ganhou tom metafórico, espalhou-se pela Península Ibérica e a expressão acabou incorporada ao espanhol, sendo adaptada depois ao português, para descrever qualquer coisa extremamente cara ou de valor exorbitante que alguém tem que pagar para conquistar algo que reputado valioso, quando não, para satisfazer caprichos pessoais. Nas compras que fazemos há sempre estabelecimentos comerciais que praticam preços convidativos e aqueles famosos por cobrarem “Os olhos da cara”. 

Frutas sazonais encarecem nas entressafras, e o melhor exemplo disso é o nosso festejado açaí, base da alimentação do povão. Fruta típica do verão, no inverno amazônico evapora dos pontos de venda e quando é encontrado, mesmo com aquele gosto insípido de palha velha, custa os olhos da cara.

Há quem diga que a origem dessa expressão é bem mais antiga, vinda do hábito dos povos da Mesopotâmia de arrancar os olhos de quem pudesse colocar em risco a estabilidade do governo. Os assírios organizavam guerras sangrentas e os prisioneiros tinham as mãos, pés, orelhas e olhos arrancados, para tornar os inimigos, assim cruelmente cegos e mutilados, completamente inofensivos (...felizmente esse ritual macabro não pegou por aqui!...).

Na musica popular brasileira, a expressão virou mote para a canção "Os olhos da cara", de Mauro Aguiar e foi gravada no álbum “Transeunte” (ano de 2010), refletindo o preço emocional de uma paixão. Vejamos uma das estrofes: 

“Entrando em cena sem me mostrar
meu coração dispara
não para de interpretar da boca pra fora
e sigo trocando as falas
por cima das horas ralas
arquitetando um filme no ar
só de sequências raras
que me poderá custar os olhos da cara”.

Quem ainda fala da Copa do Mundo deste ano? Nela, o ingresso mais em conta, estava por estratosféricos USS-2.200 cobrados pela FIFA, preço acessível apenas a quem pertence à elite econômica. Isso afastou muita gente boa que sonhava comparecer com a família à tradicional competição esportiva, que a cada quatro anos galvaniza todas as atenções, mesmo daqueles que nem se ligam muito em futebol. 

Cada qual gasta sua grana, seja farta ou minguada, como acha que deve, é claro! Mas, “no meu fraco pensar” como dizia o saudoso vaqueiro Gregório antes de manifestar sua opinião entre os doutos, em vez de ir a eventos esportivos internacionais, onde se gasta os tubos, acho mais válido ficar por aqui mesmo, poupar os trocados e assistir a um eletrizante Remo X Paysandu no belo Estádio do Mangueirão, com ingressos infinitamente mais acessíveis dos que os da Copa, pois na Capital paraense, quando esses dois ícones do esporte se enfrentam, é de cediço conhecimento que apenas os flanelinhas “cobram os olhos da cara” para fingir que vigiam os nossos carros.
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Célio Simões (1947)
O advogado e escritor CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é uma das personalidades intelectuais e jurídicas mais respeitadas do estado do Pará, destacando-se como cronista, poeta e guardião da memória histórica e cultural da Amazônia. Nasceu na histórica cidade de Óbidos/PA, em 1947. Embora suas raízes obidenses definam profundamente sua identidade literária, ele construiu grande parte de sua vida residencial e profissional em Belém, capital paraense, onde mora atualmente. Entre 1945 e 1953, durante a juventude, também viveu em regiões de várzea às margens do Rio Amazonas. Sua trajetória na área jurídica e acadêmica é extensa e renomada: Graduou-se em Direito pela Universidade Federal do Pará e pós-graduou-se em Direito e Processo do Trabalho pela Universidade Cândido Mendes (RJ). Atuou como Juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Pará (TRE-PA) na classe de jurista e foi membro da Advocacia Consultiva da União. Professor na Universidade da Amazônia (UNAMA), na Escola Superior de Advocacia (ESA) e na Escola de Árbitros e Mediadores do Pará. Serviu como Conselheiro Estadual, Juiz do Tribunal de Ética e Disciplina e presidiu a Comissão de Combate ao Trabalho Forçado.
Prolífico cronista, ensaísta, poeta e memorialista. Suas produções abordam desde a cultura popular, expressões idiomáticas e histórias do cotidiano até profundos resgates históricos regionais. Pelo seu prestígio, integra importantes instituições: Academia Paraense de Letras (APL) – Membro "Imortal"; Academia Paraense de Letras Jurídicas (APLJ) – Membro titular e ex-presidente; Academia Paraense de Jornalismo (APJ) – Sócio-fundador e ex-vice-presidente; Academia Artística e Literária de Óbidos (AALO) – Idealizador, fundador e seu primeiro presidente; Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP) – Sócio efetivo; Sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGT), fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém, membro do Instituto dos Advogados do Pará. membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras (de Floresta/PR).
Ao longo de sua carreira literária, recebeu três prêmios literários principais, incluindo uma destacada Medalha de Prata em concurso promovido pela tradicional Revista TROFÉU, de São Paulo. Em 2022, também foi condecorado com o Título Honorífico de Honra ao Mérito pela Câmara Municipal de Belém. Possui seis livros autorais publicados, além de coautorias. Destacam-se: Recados da Memória (2018) – Cujas rendas de lançamento foram inteiramente revertidas em doação para a Santa Casa de Misericórdia de Óbidos; Um Pouco de Muitas Histórias (2017); Rio Amazonas – Um Abraço Apertado – Obra em coautoria.
A relevância de Célio Simões para a literatura paraense e amazônica reside na sua atuação como um "escritor memorialista". Assim como fez o clássico autor obidense Inglês de Sousa, Célio Simões transporta para as suas crônicas e contos a alma do Baixo Amazonas, o cotidiano ribeirinho e a identidade do povo paraense. Além disso, seu papel institucional foi fundamental para descentralizar a cultura no estado; ao idealizar e fundar a Academia Artística e Literária de Óbidos, ele criou um polo essencial para a preservação e fomento de novos talentos fora da capital jurídica e literária de Belém.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem criada com IA Microsoft Bing
Biografia = Obidos.net, Obidense, Jeso Carneiro, Instituto Histórico e Geográfico do Pará, Confraria Brasileira de Letras. 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Célio Simões (O nosso português de cada dia) “Erro crasso”

General romano Crasso

A cultura popular incorporou essa expressão a partir do erro do general romano Marco Licínio Crasso, que em 53 a.C. perdeu a batalha de Carras e nela também a própria vida. Crasso era um figurão que dividiu o poder com Júlio César e Pompeu no ano 59 a.C, no período historicamente conhecido como Primeiro Triunvirato. Obcecado por conquistar o Império Parto, na Mesopotâmia, esse oficial atacou a cavalaria inimiga em campo aberto com uma tropa de infantaria a pé, e o resultado foi que teve seu exército dizimado. 

Assim, a expressão "Erro crasso", equivale a um erro grosseiro, visível, primário, inaceitável e possui duas conotações: a da sua origem linguística real e a aventura militar que devastou tantas vidas. 

A palavra deriva do latim “Crassus”, que literalmente significa gordo, denso, espesso, bruto ou volumoso. Com o tempo, passou a ser usada em sentido figurado para indicar algo sem refinamento, tosco ou muito evidente. Um "Erro crasso" é um erro elementar, percebido de cara, algo tão denso, volumoso e visível, que não pode passar despercebido. 

Quanto à origem histórica, como dito antes, a expressão é associada à tragédia das tropas do general romano Marco Licínio Crasso, que viveu de 115 a.C. a 53 a.C., o homem mais rico de Roma, cujo eco anabolizado e superlativa vaidade, eram infinitamente maiores do que sua própria fortuna pessoal.

Faminto por glória militar, liderou ele uma campanha contra o Império Parta (região onde está o Iraque), porém ignorou os conselhos dos oficiais do seu “staff”, recusou a ajuda de aliados e marchou com 40.000 soldados pelo deserto para o combate frontal, sem o devido respaldo tático ou logístico. O resultado dessa sandice foi que, ao encontrar as tropas adversárias na Batalha de Carras, a infantaria romana foi cercada e quase aniquilada pelos arqueiros partas, que disparavam flechas certeiras de um plano mais alto, montados em seus cavalos. 

Na refrega, que os apanhou desprotegidos, mais de 20.000 combatentes de sua tropa morreram, incluindo o general e seu filho, sendo os milhares de feridos e sobreviventes, capturados e aprisionados. Foi um dos piores desastres militares de toda a história de Roma, que desfrutava da fama de ser imbatível. 

Embora linguistas reforcem que o adjetivo “crassus”  já existia no latim com o sentido de "grosseiro" antes mesmo do general Crasso ficar famoso pela fragorosa derrota, que consolidou para sempre a expressão na cultura popular. 

No cotidiano, jornais, blogs, sites, redes sociais e o noticiário televisivo nos revelam notícias estarrecedoras sobre erros crassos cometidos nas mais diversas profissões, sejam manuais, técnicas ou intelectuais. 

Cirurgiões esquecem pinças no abdome de pacientes; engenheiros constroem prédios que desabam ao sopro mais vigoroso do vento; comandantes encalham navios por equívocos nas plotagens de rumos; motoristas morrem e matam ao ultrapassarem em locais proibidos; árbitros de futebol validaram gol feito com a mão em Copa do Mundo, dentistas erram nos moldes das próteses móveis e o cliente sai praticamente mudo do consultório...  

Na literatura, na música popular brasileira e em geral no cancioneiro nacional, o termo "erro crasso" é frequentemente usado por críticos literários, professores e linguistas para classificar graves desvios gramaticais, de concordância nominal ou verbal, inadvertidamente cometidos por desatentos autores. As petições judiciais, redigidas na refinada linguagem forense, é o território fértil onde argutos advogados alfinetam impiedosamente colegas que por pura desatenção cometem gafes primárias, denunciando-as ao juiz em termos respeitosos, porém destilando veneno contra “quem de direito”. Um exemplo, pinçado do anedotário jurídico, foi o que escreveu o causídico, contestando incisivamente o pedido feito pela parte contrária:

“MM JUIZ: O pedido da autora é improcedente. Ajuizou a presente ação de investigação de paternidade em favor do menor M.D.C, porém laborou em grave equívoco, pois na aludida ação figura como ré Marinusa da Silva(*). Trata-se, a toda evidência, de clamoroso, lamentável e imperdoável erro crasso de  para V. Exa., por impossível biologicamente, que a senhora Marinusa Silva não é o pai do menor M.D.C!!!...”

Ainda no universo das relações jurídico-processuais, os Oficiais de Justiça, quem diria, eventualmente engordam as extravagâncias forenses com suas certidões incorretas, imprecisas, quando não simplesmente anedóticas. Em “Ação de busca e apreensão de uma motocicleta” proposta por uma instituição financeira contra o cliente que deixou de pagar as prestações do financiamento, o zeloso meirinho certificou nos autos: 

“CERTIFICO E DOU FÉ, que no dia 28/07/1997 compareci ao endereço constante do mandato e lá chegando, fui informado na portaria do prédio que o requerido não mais residia naquele endereço. Dialogando com alguns moradores presentes ao ato, uma atenta e bem informada vizinha do réu declarou que tão logo soube da ação visando apreender sua moto, o devedor se evadiu para lugar ignorado, montado na mercadoria. Assim, devolvo o presente mandato para os devidos fins”. 

O festejado escritor, historiador, pesquisador, palestrante, artista plástico, acadêmico e advogado Sebastião Godinho, destacado membro do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Academia Paraense de Letras e da Academia Paraense de Jornalismo, que lidera quixotescamente as batalhas contra a dilapidação dos monumentos de Belém e a deturpação da memória história do Pará, recentemente se valeu da expressão “Erro crasso” para denunciar mais uma danosa omissão da Prefeitura, quanto à incorreta denominação dos logradouros da Capital paraense. Profligou ele, em sua apreciada página no Facebook e sem dissimular a indignação, a grafia incorreta da placa que identifica uma das nossas importantes ruas:

“Outro erro crasso que compromete o bom entendimento da História. Angostura e não Angustura era o nome da fortificação que se rendeu, sem combate, às forças brasileiras que a ocupou em 30 de dezembro de 1868, dentre os conflitos ensejados pela Guerra do Paraguai. Mais um equívoco que expõe a nossa ignorância a respeito do tema, sem que ninguém mova uma palha para retificá-lo. Enquanto isso, o presidente da câmara de Belém se preocupa em aprovar uma lei que eleva a condição de patrimônio imaterial do povo belenense, o som automotivo. Pode?”.

Ressalve-se, por necessário, que no ilimitado universo da arte, em especial na poesia, o que poderia ser visto como "erro crasso" é tolerado e aceito como licença poética, recurso estilístico ou variação linguística necessária para manter a métrica, a rima e a identidade cultural de uma canção. 

Ildefonso Guimarães, saudoso mestre da ficção que no passado abrilhantou a Academia Paraense de Letras, em seu livro “Senda bruta” (que em 1963 merecidamente recebeu o Prêmio Samuel Mac Dowell da APL), discorrendo sobre as antigas festas juninas, nos mostra em “Caminhos do Vento” (p. 40/41) que fazer rimas perfeitas não é a única forma de dar musicalidade aos versos:

“Eu sou caçador afamado
Que vim lá da cabeceira;
Hoje eu mato esse boi,
Seja lá de que maneira!

Não caçador!
Faz pena, faz horror!
Não mate esse boi
Que meu amo criou!!!”

Um verdadeiro show, em especial por se tratar de texto da lavra de poetas anônimos, o que nem de longe significa escrever errado. E a prova disso são os versos de rima falsa que o genial escritor utilizou, como acima se vê. Regra geral, versos rimados precisam terminar com a mesma sonoridade, isto é, não se pode combinar singular com plural, som fechado com aberto, nem tônico com átono, etc. Por tal razão, fora do amplo espectro da licença poética, rimar de outra forma, sempre é vista pela crítica como “erro crasso”, expressão cuja origem o leitor agora já sabe exatamente de onde veio, assim como e porque se albergou em definitivo no nosso português de cada dia!
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(**) Nome fictício
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Célio Simões (1947)
O advogado e escritor CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é uma das personalidades intelectuais e jurídicas mais respeitadas do estado do Pará, destacando-se como cronista, poeta e guardião da memória histórica e cultural da Amazônia. Nasceu na histórica cidade de Óbidos/PA, em 1947. Embora suas raízes obidenses definam profundamente sua identidade literária, ele construiu grande parte de sua vida residencial e profissional em Belém, capital paraense, onde mora atualmente. Entre 1945 e 1953, durante a juventude, também viveu em regiões de várzea às margens do Rio Amazonas. Sua trajetória na área jurídica e acadêmica é extensa e renomada: Graduou-se em Direito pela Universidade Federal do Pará e pós-graduou-se em Direito e Processo do Trabalho pela Universidade Cândido Mendes (RJ). Atuou como Juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Pará (TRE-PA) na classe de jurista e foi membro da Advocacia Consultiva da União. Professor na Universidade da Amazônia (UNAMA), na Escola Superior de Advocacia (ESA) e na Escola de Árbitros e Mediadores do Pará. Serviu como Conselheiro Estadual, Juiz do Tribunal de Ética e Disciplina e presidiu a Comissão de Combate ao Trabalho Forçado.
Prolífico cronista, ensaísta, poeta e memorialista. Suas produções abordam desde a cultura popular, expressões idiomáticas e histórias do cotidiano até profundos resgates históricos regionais. Pelo seu prestígio, integra importantes instituições: Academia Paraense de Letras (APL) – Membro "Imortal"; Academia Paraense de Letras Jurídicas (APLJ) – Membro titular e ex-presidente; Academia Paraense de Jornalismo (APJ) – Sócio-fundador e ex-vice-presidente; Academia Artística e Literária de Óbidos (AALO) – Idealizador, fundador e seu primeiro presidente; Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP) – Sócio efetivo; Sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGT), fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém, membro do Instituto dos Advogados do Pará. membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras (PR).
Ao longo de sua carreira literária, recebeu três prêmios literários principais, incluindo uma destacada Medalha de Prata em concurso promovido pela tradicional Revista TROFÉU, de São Paulo. Em 2022, também foi condecorado com o Título Honorífico de Honra ao Mérito pela Câmara Municipal de Belém. Possui seis livros autorais publicados, além de coautorias. Destacam-se: Recados da Memória (2018) – Cujas rendas de lançamento foram inteiramente revertidas em doação para a Santa Casa de Misericórdia de Óbidos; Um Pouco de Muitas Histórias (2017); Rio Amazonas – Um Abraço Apertado – Obra em coautoria.
A relevância de Célio Simões para a literatura paraense e amazônica reside na sua atuação como um "escritor memorialista". Assim como fez o clássico autor obidense Inglês de Sousa, Célio Simões transporta para as suas crônicas e contos a alma do Baixo Amazonas, o cotidiano ribeirinho e a identidade do povo paraense. Além disso, seu papel institucional foi fundamental para descentralizar a cultura no estado; ao idealizar e fundar a Academia Artística e Literária de Óbidos, ele criou um polo essencial para a preservação e fomento de novos talentos fora da capital jurídica e literária de Belém.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Imagem =  Zentral Media 
Biografia = Obidos.net, Obidense, Jeso Carneiro, Instituto Histórico e Geográfico do Pará, Confraria Brasileira de Letras.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Célio Simões (O Nosso Português de Cada Dia): “Quem não te conhece, que te compre”

Imagem criada com Microsoft Bing

Quem lida com pessoa falsa, do tipo conhecido como “morde e assopra”, que publicamente simula afeição por outrem que particularmente detesta, nada melhor para defini-la do que essa expressão que remonta aos nossos avoengos e resume o perfil de quem assim se comporta: “Quem não te conhece, que te compre!...

Provérbio de largo emprego na terra de Camões – há quem diga que se originou na Espanha - onde também existe gente escusa, é a opção preferencial daqueles, destes e também dos brasileiros, para indicar depreciativamente quem cultiva a enganação, a mentira, a fofoca, o logro, a desonestidade, a sordidez e a intriga.

Desde cedo testemunhamos quando e como nossos pais a diziam, para evidenciar que alguém supostamente bonzinho, ocultava personalidade sórdida, mesquinha e reprovável, disfarçando sorridente sua letalidade de ofídio, a quem por sinal se amolda outro ditado: “É um lobo em pele de cordeiro”... 

Tal expressão não significa admitir, a contrario sensu, a licitude de suposto comércio de pessoas de boa índole, que não carregam o labéu de “não confiáveis” e sim, deixa claro que só confia na bisonha figura, quem com ela não convive, para saber de sua capacidade de dissimulação. A aparência, a simpatia, a conversa fluida, o sorriso postiço na cara, seduz apenas o desavisado "comprador" desses conhecidos campeões do engodo. 

Quem convive com esse time de aleivosos, por sinal fartos nos ambientes sociais e acadêmicos, empresas, repartições, associações e até nos templos religiosos, já deve ter sofrido na pele as falsidades desses artistas do disfarce, e devidamente escaldado, não mais se deixa levar pela encenação do impostor, nem se seduz quando ele usa sua pele de cordeiro. Porém, aonde, quando e como teria ela surgido? 

Existe a versão, que se afigura surreal, que conta que do interiorano simplório, nativo de Carmona, na espanhola Andaluzia, sabidamente generoso e afável, que além da modesta casa, possuía de seu apenas um burro de estimação, que evitava a todo custo usar no labor da roça, para não fatigar o animal. E para demonstrar seu apreço pelo animal, acostumou-se a andar nas ruas e estradas da região puxando-o pelas rédeas, em vez de simplesmente montá-lo. 

Certa vez, alguns estudantes arruaceiros, como de resto existem em qualquer lugar, o viram passar conduzindo desse jeito o jumento e decidiram roubá-lo. Enquanto uns levavam o animal sem que dono se apercebesse, o mais ousado do grupo ficou no lugar do burro, com a mão atada ao cabresto. Foi quando o ancião o viu e ficou pasmado, achando que o burro tinha se transformado em gente, pelo tanto que já se entendiam em razão do longo e carinhoso convívio.

Flagrado, o estudante foi inventivo: mentiu que no passado tinha sido brigão, arruaceiro, amante do copo e do baralho, vadio e vidrado num rabo de saia. Por isso seu pai o amaldiçoara com uma terrível praga: “Tu és um asno e em asno vais te transformar”. Foi tiro e queda. A maldição se concretizou, ele virou um vistoso burro e por alguns anos vinha vivendo daquela forma. Porém agora, arrependido dos pecados cometidos na fase errática da vida, tinha finalmente voltado ao normal, humanizara-se, pois a praga paterna havia perdido a força.

Maravilhado com a história, o crédulo ancião teve dó daquele estudante e nem se importou com o dinheiro que estava perdendo sem o burro que tanto o ajudava em suas tarefas. Generosamente, aconselhou o jovem a ir procurar o pai para com ele se reconciliar, virar a página e dar o assunto por encerrado. O pilantra, com lágrimas de crocodilo nos olhos, simulando gratidão, aproveitou a leniência do outro e simplesmente vazou, sumiu do mapa.

Tempos depois, passeando numa feira, o ingênuo dono do animal surrupiado ficou perplexo, ao ver que estava à venda um burro em tudo idêntico àquele que um dia fora seu. Óbvio que era o mesmo animal, entretanto, o crédulo sujeito concluiu que aquele estudante com quem conversara havia voltado à sua vida de bacanais e estripulias, por isso o pai o amaldiçoara novamente e por tal razão ele estava ali para ser vendido. Foi então que decidiu ir à forra. Aproximou-se do quadrúpede, crente que estava falando com o jovem, segredando-lhe ao ouvido: “QUEM NÃO TE CONHECE, QUE TE COMPRE!...” 

Na musica popular brasileira, a dupla Flávio Aquino e Gabriel compôs uma música que tem como titulo a dita expressão popular, cujo texto poético tem  pouco a ver com o seu tradicional significado: 

Todo mundo fala 
Todo mundo vê
Que meu corpo ferve 
Que eu amo você
Mas você disfarça 
E diz que não percebe
Diz que está sozinha pra ser mais feliz
Diz que não achou alguém à sua altura
 Esse orgulho besta, te leva a loucura
 Igual tensão de pré-vestibular

Quem não te conhece, que te compre...
Me leva de brinde, paciência
Pra esperar sentando, que isso ainda vai longe
Porque você se esconde?!...

Faltou um pouco mais de criatividade para melhor aproveitar um jargão cujo uso não se limitou à Península Ibérica. Atravessou o Atlântico e estacionou em Pindorama, varou gerações e até hoje se amolda de forma perfeita para qualificar os desqualificados, quais sejam, aqueles sobejamente conhecidos por suas falsidades, encenações, falcatruas ou grotescas enganações.
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CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana, da Confraria Brasileira de Letras em Floresta (PR) e membro honorário da Academia de Letras e Artes da Polícia Militar do Estado do Pará. Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados, dentre eles um E-book e recebeu três prêmios literários. 

Fonte:
Texto enviado pelo autor. 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Célio Simões (O Nosso Português de Cada Dia) “A mesma procissão por outra rua”


A Igreja Católica, desde tempos imemoriais, sempre utilizou as procissões (cortejo solene que se desloca com um objetivo comum e destino predeterminado) para evangelizar.

Na liturgia do catolicismo existem miniprocissões dentro dos templos, antes, durante ou ao final das missas, como a cerimoniosa entrada do sacerdote, a das oferendas e a do momento da comunhão, o que evidencia sua relevância no processo de evangelização, simbolismo e a manutenção das tradições religiosas do povo católico. 

A primeira procissão que ocorreu no Brasil foi a de Corpus Christi (celebração dos 60 dias após a Páscoa) e veio com os colonizadores portugueses, realizada pela Igreja com o decisivo apoio da monarquia, tendo até hoje duas marcantes peculiaridades: é o único préstito onde o Santíssimo Sacramento é exposto em via pública e também a única que se desloca sobre as ruas profusamente decoradas, criando um caminho simbólico e artístico, para lembrar o momento em que Jesus foi triunfalmente recebido em Jerusalém. 

Os desenhos coloridos são artesanalmente feitos com serragem, sal, areia, borra de café, palha de arroz e tintas especiais, versando sobre temas bíblicos,  cenas da vida de Cristo e objetos do culto eucarístico como cálices, pães e outros símbolos religiosos, fruto do trabalho coletivo, na quietude da madrugada, que reforça a união de famílias, vizinhos, bairros e comunidades, fortalecendo laços de amizades e a fé católica, haja vista que os belos tapetes e passarelas são efêmeros - duram apenas o tempo do cortejo sobre eles desfilar, simbolizando a brevidade da vida humana diante da eternidade de Deus.

Quem mora em Belém do Pará, testemunha todo ano aquela que é considerada a maior romaria católica do Brasil e uma das maiores do mundo - o Círio de Nazaré – invariavelmente no segundo domingo de outubro, congregando mais de dois milhões de romeiros, tradição iniciada nos idos de 1793, e com toda justiça reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial pelo IPHAN e declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO. 

Tão fabuloso é o evento, que além das principais - Círio e Transladação - acontecem “a latere” nada menos que catorze outras romarias oficiais, todas eivadas de grande significado, como o belíssimo Círio Fluvial tendo como palco as águas turvas da Baía de Guajará e a Moto-Romaria, esta pela principal rodovia de acesso à Capital, com a participação de milhares de motoqueiros.

A Procissão do Mastro é outro desfile portentoso que acontece no badalado distrito de Alter do Chão, considerado o “Caribe Brasileiro” em Santarém (PA). Após o ritual de levantamento, acontece a procissão do mastro, considerada a maior e mais antiga manifestação cultural do interior da Amazônia, prestigiada por autoridades, moradores, turistas e visitantes. 

No auto, homens e mulheres transportaram nos ombros o pesado tronco de árvore abatida na floresta, ornamentado com galhos, flores e frutas que simbolizam a fartura, levando-o com esforço até o Barracão da Festa na Praça do Çairé, onde tem lugar o hasteamento das bandeiras do Brasil, do Pará, de Santarém, de Alter do Chão e também do próprio Çairé. É uma festa para ninguém botar defeito, tal o alto astral de seus entusiasmados participantes. 

Uma das mais cativantes criações do cantor Gilberto Gil e Edvaldo Araújo brindou a música popular brasileira com a composição “Procissão”, cuja letra bem retrata o formado do cortejo em seu lento deslizar pelas ruas das grandes e pequenas cidades brasileiras: 

“Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos, os homens escutando tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na Terra
Esperando o que Jesus prometeu...(...)”
E Jesus prometeu coisa melhor

Até aqui, tudo bem, considerando que não há nada muito antigo que não tenhamos herdado dos costumes e das tradições lusitanas. Mas qual o significado de alguém comentar, sempre em tom jocoso, de que “já viu essa mesma procissão por outra rua”?

Exatamente o que todo mundo sabe ou sempre soube. De ser essa uma expressão que se popularizou para demonstrar que uma situação ou problema continua exatamente do mesmo tamanho que sempre teve, que apenas mereceu mudança cosmética na sua exteriorização, sem nada ou quase nada alterar na essência ou no resultado final. 

Ou seja, o mesmo drama ou episódio continua, vestido de nova roupagem que lhe disfarça o caráter repetitivo e inoperante. Em suma, é uma forma de dizer que as aparências mudaram, mas ao fim e ao cabo permanece inalterada. É como também se fala: “já vi esse filme antes...”

Ano eleitoral é uma época propícia para promessas de políticos em campanha, como o fim da corrupção, saúde pública de primeiro mundo, redução de impostos, aumento da segurança pública, ensino de qualidade nas escolas, isso para ficar apenas em algumas, que os eleitores, abertamente ressabiados por tanto cinismo e enganação, se limitam a redarguir que, ganhando esse ou aquele candidato, terão de novo a velha procissão andando por outra rua...
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CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana, da Confraria Brasileira de Letras em Floresta (PR) e membro honorário da Academia de Letras e Artes da Polícia Militar do Estado do Pará. Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados, dentre eles um E-book e recebeu três prêmios literários. 

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quinta-feira, 9 de abril de 2026

Célio Simões (O Nosso Português de Cada Dia) “Não precisa ser nariz de santo”


Essa expressão popular, não muito conhecida pelas gerações mais jovens, era de usada por nossos pais e avós, quando desejavam descrever um trabalho ou tarefa que não exigia grande perícia ou versatilidade de quem o executaria, nem acarretava grande responsabilidade técnica do seu operador - ao contrário do trabalho pormenorizado, delicado e especializado que é esculpir e moldar o nariz da imagem de um santo, danificada por fatores externos ou pelo desgaste natural do tempo.

Assim, dizer que para ultimar determinada atividade que ela "Não precisa ser nariz de santo", resta claro a intenção de dizer a quem vai executá-la, que não é exigível perfeição, nada rigorosamente impecável, inquestionável ou que o executor deva ter alta especialização para realizá-la, bastando aquele conhecimento básico daquilo que vai ser realizado. 

A expressão reforça a ideia de que a imperfeição humana é aceitável e que os erros ou defeitos encontrados na elaboração de qualquer obra, não impedem o reconhecimento da competência ou da boa intenção do executor, porquanto a boa intenção e a vontade de acertar de alguém, importa mais do que a fama ou da perfeição, que muitas vezes serve de mote para cobranças abusivas da contraprestação daquilo que foi feito, só porque o sujeito tem fama de “expert”. Na prática, é o reconhecimento de que todos nós temos falhas, ainda que toleráveis.

E qual seria a origem dessa curiosa expressão? 

Tudo indica que ela decorre do imaginário religioso vinculado à arte sacra, com destaque para o período do barroco no Brasil, estilo predominante no período colonial do século XVII, caracterizado pelo contraste, pela riqueza de detalhes, pela temática essencialmente religiosa e pela forte influência europeia adotada pelo Brasil daquela época, tendo seu auge ocorrido na escultura, na pintura na  arquitetura), principalmente em Minas Gerais, Bahia e Pernambuco. 

Na fase barroca, as imagens dos santos da Igreja eram esculpidas de forma perfeita, delicada, serena e inalterada, com os traços faciais e o próprio nariz bem definidos, realçando a beleza física idealizada pelo ser humano e a completa ausência de qualquer defeito física na obra de arte elaborada.

Acrescente-se que historicamente, a quebra do nariz das imagens ou estátuas era vista como mutilação apta a negar, tirar a honra e a ultrajar a respeitabilidade da obra representada, isso tanto no Brasil como em outros países, num quadro de lamentável vandalismo religioso, social, amoroso ou político.

É possível que alguns ainda lembram da icônica novela Roque Santeiro, exibida pela TV Globo entre 24/06/85 a 22/02/86, que galvanizou a audiência do público brasileiro, tendo como autores Dias Gomes e Aguinaldo Silva, um dos maiores sucessos de audiência da história da televisão brasileira, durante a qual houve a quebra do nariz da estátua do protagonista, pelo professor Astromar Junqueira (que na calada da noite “se gerava” em vampiro...). 

A quebra do nasal da estátua de Roque, que dominava a pequena praça em frente à igreja local, configurou ato de vandalismo motivado por ciúmes, com a intenção de ridicularizar o ídolo da minúscula Asa Branca, tudo para chamar a atenção de Mocinha, deixando, entretanto, a população absolutamente chocada. Foi ato pensado pelos autores como forma de desmistificar a figura do herói, utilizando um gesto de destruição para gerar conflito, revolta e ciúme.

Assim, se em algum momento for dito por alguém da geração passada, que para a realização de qualquer obra, peça ou tarefa “Não precisa ser nariz de santo", tenha a certeza que tal metáfora indica de modo induvidoso que a  aludida missão não exige alta performance para ser realizada, que o labor a ser desenvolvido terá seu valor e legitimidade reconhecidos e que eventuais deslizes durante a execução ou no resultado final serão tolerados...
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CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana, da Confraria Brasileira de Letras em Floresta (PR) e membro honorário da Academia de Letras e Artes da Polícia Militar do Estado do Pará. Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados e recebeu três prêmios literários. 

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quinta-feira, 26 de março de 2026

Célio Simões (O nosso português de cada dia) “Vai pro quintos dos infernos”


A expressão "QUINTOS DO INFERNO" surgiu na fase do Brasil Colônia, quando nosso país era o saco de pancadas de Portugal e os galegos mandavam e desmandavam aqui dentro. 

Era também a época das grandes navegações, quando Portugal reinava nos mares e inegavelmente conquistou locais longínquos com suas indefectíveis caravelas com a cruz de malta, posteriormente transformadas em colônias, sendo igualmente exploradas economicamente, propiciando aos lusos substanciais lucros, que sustentavam as tradições e o luxo da monarquia portuguesa.

Virou expressão costumeira quando nossos patrícios viam uma embarcação chegando de muito longe, proveniente do Brasil, quase em uníssono os circunstantes presentes no cais do porto dizerem: “Lá vem mais uma nau, dos quintos do inferno”. Esse indigitado “inferno” era como os portugueses chamavam o Brasil ainda em seus primórdios, selvagem e inculto. 

Que mal lhe pergunte: e os “quintos”, de onde mesmo surgiram? 

Pois é... Eles faziam referência ao imposto de 20% (correspondente a um quinto) de todo o ouro que era extraído das generosas minas brasileiras, cuja arrecadação, que se podia estimar em toneladas, era simplesmente levada via marítima para o território português, para abastecer as burras da monarquia, isso quando não passava diretamente para a Inglaterra, que com seu poderia bélico naval garantia o livre trânsito dos navios lusitanos, com suas preciosas cargas de especiarias e outros gêneros extremamente valiosos. 

Por isso, dizer para alguém que fosse para o quinto dos infernos, naquela época recuada significava mandar essa pessoa (muitas vezes banida) para o lugar longínquo e desconhecido que era o Brasil. A propósito, a cobrança dos tais 20% foi uma das principais causas da Inconfidência Mineira, revolta que acabou sendo reprimida em 1789 pela Coroa Portuguesa de forma draconiana, como sabemos.

Daí a ser consolidada como uma expressão de puro xingamento foi um passo, a partir principalmente de quando se descobriu a sensação de alívio ou desforra de mandar alguém chato ou impertinente, para o quinto dos infernos. 

Mutatis mutandis, dá também no mesmo mandar o distinto “pro raio que o parta”, outra expressão popular usada para extravasar a raiva, indignação ou desprezo em relação a outrem, com a subjacente sugestão de que o dito cujo desapareça, “vá cantar em outra freguesia” ou “vá plantar batatas”... Viu só como o nosso português de cada dia é rico em tiradas que o povo usa sem se dar conta ou saber das motivações que lhes deram origem?

Na música popular brasileira, um cantor intitulado “Missionário”, gravou em 2024 pela USADISCO a música denominada “QUINTO DOS INFERNOS”, que se ninguém nunca ouviu, não está perdendo absolutamente nada. 

Trata-se de uma espécie de xote gaúcho, que se por um lado desperta nos afoitos a vontade de dançar, mercê do ritmo marcante da sanfona, a letra revela-se grotesca, verdadeiro monumento ao mau gosto, em especial para os curtem os encantos e a magia do que temos de bom e de melhor na MPB.

Como se não bastasse, existe também uma cerveja mexicana batizada de “QUINTO DOS INFERNOS”, produzida pela cervejaria UberBrau, diz que elaborada para a celebração da vida, utilizando cinco maltes diferentes e uma única variedade de lúpulo, com aroma floral e sabor levemente caramelizado.

Aposto que nem chega aos pés da festejada aguardente “Santo Grau”, de qualidade superior, fabricada em Minas Gerais e ideal para confraternizações ou coquetéis à base de caipirinha, para celebrar os bons momentos da vida com os amigos na amena temperatura das Alterosas, quando se revela imbatível. Há os abstêmios que não chegam nem perto, é claro, mas isso são casos à parte... 
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Célio Simões de Souza é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. Membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras, em Floresta (PR). Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados e recebeu três prêmios literários.

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quarta-feira, 11 de março de 2026

Célio Simões (O nosso português de cada dia) “Além da queda, o coice!...”


Osvaldo Sargentelli, radialista, apresentador de televisão e empresário brasileiro, que se autodefinia como "mulatólogo" e foi um dos grandes ícones da história do samba no Brasil (tanto que na data de seu aniversário é comemorado o Dia da Mulata) e alegrou as noites cariocas enquanto viveu, nos magníficos shows que apresentava na década de 70 na boate "Oba-Oba", contava sempre que podia uma piada de gosto duvidoso (eu diria que péssimo gosto), mas que levava o público a não conseguir conter o riso. 

Dizia ele que um médico, desses cuja sutileza se compara a uma jamanta desgovernada, entrava no quarto de um paciente em grave situação de saúde e foi direto ao assunto:

- Amigo, tenho duas notícias para lhe dar. Uma ruim e a outra pior...

- O enfermo, em desespero, indagou o que de tão ruim estaria acontecendo com ele.

- É que infelizmente, o senhor só tem 24 horas de vida...

- Meu Deus doutor! Existe notícia pior do que essa?

- Sim amigo, é que me eu esqueci de lhe dizer isso ontem!...

Essa situação fictícia, bolada pelo famoso apresentador para divertir seu público, é uma típica situação em que cabe, em sua inteireza, a expressão popular objeto do tema de hoje, que denota o acúmulo sequencial de infortúnios. 

Ela significa que, após um fracasso, erro inicial, perda de prestígio, demissão do emprego, fracasso financeiro ou prejuízo (a queda), a pessoa ainda sofre uma consequência negativa adicional, desproporcional ou humilhante, espécie de golpe final que agrava sobremaneira uma situação por si já muito ruim (que é o coice). A metáfora demonstra que uma situação que poderia ser apenas passageiramente negativa, reveste-se de gravidade, às vezes até trágica, com o segundo revés sofrido logo em seguida pelo seu infeliz protagonista. 

É induvidoso que tal expressão surgiu no meio rural, nas fazendas mineiras e paulistas do fim do segundo império, onde começava a despontar a atividade pecuária com alternativa ao plantio do café e da cana de açúcar. 

Vaqueiros, jóqueis e quem já cavalgou ou cavalga com regularidade, tem pleno conhecimento de que ao eventualmente cair do cavalo, ainda corre o risco de, estando no chão, ser atingido pelo coice do animal, principalmente quando ele, embora manso, por algum motivo resta assustado ou indócil, tornando o acidente muito mais grave (para quem não sabe, o coice de um cavalo é poderoso, pois é capaz de gerar uma força superior a 2.000 libras por polegada quadrada,  equivalendo a mais de uma tonelada de força em impacto, capaz de quebrar ossos, amassar metal e produzir ferimentos fatais ou muito graves). 
 
Expressão tão corriqueiramente empregada por todo mundo, inclusive no contexto esportivo (como no futebol, por exemplo, "DEPOIS DA QUEDA, O COICE" se diz abertamente, como gozação, quando determinado time nada ganha no Brasileirão e ainda perde desastradamente o campeonato regional para o tradicional rival). 

Na música brasileira, os Paralamas do Sucesso, célebre banda de rock brasileira formada em 1982 no Rio de Janeiro, tendo como principais integrantes Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone, não deixaram por menos e lançaram como mais um de seus muitos sucessos, a música com título similar - "Depois da Queda o Coice", cuja estrofe inicial 

"Hey na na na!"
Depois da queda, o coice
O selo do castigo
Pra uns só traz a foice
Pra outros traz alívio
Dançando toda a noite
Bem rente ao precipício
Depois de tanto açoite
A dor virou teu vício...

A referida expressão não chega ao status desmoralizando de uma outra, infinitamente mais cruel, que é "chutar cachorro morto", traduzida como aquela situação em que alguém tripudia sem consideração ou piedade em cima de quem já está no fundo do poço e não tem meios para esboçar qualquer reação - mas sim, tem como foco o fato de que o infortúnio veio logo após o primeiro desastre, seja ela qual for ou de que tamanho for.
 
Em resumo, pode-se afirmar que essa máxima descreve uma situação que vai de "mal a pior", onde o problema inicial, por si já bastante grave, vem em seguida acompanhado de um castigo extra, como uma espécie de “bis in idem” que vitima qualquer pessoa, que ainda por cima fica com a fama de “rei da urucubada”, má sorte, “zica” ou energia negativa que persegue e não livra a cara de ninguém. 
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(*) CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras em Floresta(PR). Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados e recebeu três prêmios literários.

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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Célio Simões* (O Nosso Português de Cada Dia): “Para Inglês Ver”


Essa conhecidíssima expressão, que muitos reiteradamente já utilizaram na linguagem coloquial, tem como significado fingir que se fez algo, simular que se adotou determinada providência, que algo foi mal feito ou feito de forma superficial e passageira, burla muitas vezes exercitada para salvar as aparências, enganar alguém, um grupo ou uma coletividade de pessoas.

Ela é tipicamente brasileira, tendo surgido no século XIX, referindo-se às leis e fiscalizações propositadamente ineficazes criadas pelo governo brasileiro para atender às pressões exercidas pela Inglaterra exigindo o fim do tráfico de escravos, sem realmente ter a menor intenção de cumpri-las ou efetivá-las. 

O comércio e a manutenção de escravos africanos pelos senhores feudais, impondo-lhes abomináveis castigos físicos, psicológicos, humilhações e ultrajes de toda ordem, é um episódio que nos envergonha, mesmo porque, o último país das Américas a abolir a escravidão foi o justamente o  Brasil, em 13 de maio de 1888, por meio da Lei Áurea, assinada pela veneranda Princesa Isabel, que passou por esse gesto a ser popularmente chamada de "Redentora", embora seu título nobiliárquico oficial fosse o de Princesa Imperial do Brasil. 

Acrescente-se, por oportuno, que lamentavelmente fomos também a nação com o maior número de escravizados no continente e só mais recentemente - mercê de legislação rigorosa contra a discriminação, o preconceito, o racismo, a injúria racial, as piadas de mau gosto que enxovalhavam e deprimiam a condição humana apenas pela cor da pele - é que os negros passaram a exercer, não sem uma série de percalços e tribulações, com mais liberdade, autoestima, autonomia e independência, todos os direitos inerentes à sua cidadania.   

Voltando à origem do tema hoje abordado e num breve retrospecto histórico, antes da Lei Áurea, de 13 de Maio de 1888, foi promulgada em 1885 a Lei dos Sexagenários (concedendo liberdade aos escravos maiores de 60 anos), a Lei do Ventre Livre de 1871 (libertando filhos de mulheres escravizadas nascidos a partir de sua promulgação), a Lei Eusébio de Queirós de 1850 (que proibiu definitivamente o trafico de escravos pelo atlântico) e a famigerada Lei Feijó, de 1831, fruto da pressão da Inglaterra com ameaça de sanções, caso o País não abolisse a prática do tráfico negreiro, de incipiente ou nenhuma aplicação na prática, encenação que a tornou conhecida como lei “PARA INGLÊS VER”.

Ou seja, o Brasil Império simulava tomar providências efetivas, determinava à Marinha Imperial que patrulhasse o nosso avantajado litoral, porém tudo era feito de mentirinha, sem a menor intenção de reprimir as embarcações que transportavam escravos africanos para o trabalho nas lavouras, porém sem qualquer intenção concreta de acabar com a escravidão, apenas para acalmar a Inglaterra, eis que o labor gratuito dos escravizados era indispensável durante os ciclos do açúcar, do café e depois no cultivo do algodão, do tabaco, do milho e finalmente na pecuária, considerando que toda a produção agrícola brasileira da época, baseava-se no trinômio “monocultura”, “latifúndio” e “trabalho escravo”. 

A expressão é usada para descrever situações em que uma atividade é feita sem seriedade, apenas para criar boa impressão ou disfarçar aquilo que se deseja ou pretende ocultar. De há muito ela passou a ser utilizada em diversos contextos, entretanto todas como o mesmo sentido de simulação, como as “reformas para inglês ver", os "relatórios para inglês ver", as “prestação de contas para inglês ver”, as “eleições para inglês ver”, etc. 

Prestou-se também esse dito popular para satirizar a nossa realidade social, como se depreende da música “Canção Pra Inglês Ver” do célebre Lamartine Babo, criticando de forma divertida o vezo dos brasileiros, que tudo copiam da cultura estrangeira, isso desde os anos 30 até hoje. Veja-se, a propósito, no nome de vários edifícios residenciais ou estabelecimentos comerciais aqui mesmo em Belém, para essa fácil e lamentável constatação. 

A letra é uma mistura de português, inglês e francês de forma intencionalmente confusa e sem tradução para a língua pátria, sem sentido lógico, como no exemplo citado pelo acadêmico e romancista Ademar Amaral, ao noticiar a existência de uma menina batizada com o nome de “Madenusa”, depois que os pais ribeirinhos, residentes no telúrico Paraná de Dona Rosa, região do Baixo Amazonas, leram na embalagem de um produto que lhes chegou às mãos, a sua origem: “Made in USA”. Esse fato, se verdadeiro, evidencia como o uso de termos estrangeiros era e continua sendo adotado apenas para impressionar, sem qualquer compreensão verdadeiro sentido ou sem nenhuma necessidade de substituição pelas expressões do vernáculo.

Na esteira da genialidade de Lamartine Babo, as Frenéticas (que saudade delas!...) não deixaram por menos e engataram um histriônico foxtrot denominado “Para Inglês Ver”, da qual vale destacar uma estrofe do longo texto poético, que materializa a reação do famoso grupo de cantoras à invasão dos estrangeirismos na cultura brasileira: 

Ai Jesus!
Abacaxi, whisky of chuchu
Malacacheta independancin day
No strit flash me estrepei (step way)

Penso que o século XX foi o período de ouro da música popular brasileira, tomando por referência o samba, nosso ritmo representativo por excelência. Prova disso é que Zizi Possi foi um pouco além da expressão aqui abordada e compôs a música “Para Inglês Ver...e Ouvir” em 2005, primeiro álbum “ao vivo” da famosa cantora, entre os muitos que ela possui, lançado em 2005 pela Universal Music. Realmente, tratando-se de fertilidade de imaginação, quero crer que os brasileiros são realmente imbatíveis... 
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* CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras (PR). Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. É autor de seis livros, coautor de outros quatro e organizador de obras de autores paraenses. Recebeu várias menções honrosas e três prêmios literários.

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Texto enviado pelo autor.
Imagem criada por José Feldman com IA Microsoft Bing

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Célio Simões (O nosso português de cada dia) “Tirar o cavalo da chuva”


Neste início de inverno, quando as chuvas passam a cair com frequência diária na Amazônia durante todo o primeiro semestre, em especial a invariável chuva da tarde da capital paraense, aí está um tema apropriado para abordagem, embora a modernidade de há muito nos propicie os automóveis, a motos e os transportes coletivos como meio de locomoção pessoal, para folga dos animais de tração, não raro muito maltratados pelos próprios donos. 

Porém, em tempos pra lá de recuados, principalmente no interior o meio de transporte mais utilizado era o cavalo e as carroças puxadas pelas parelhas, estas, inclusive, incumbidas da venda do leite para o café da manhã até mesmo nas cidades de maior porte, antes da turma miúda se mandar para a escola. 

Desde tempos imemoriais, ainda na antiguidade Eurasiana (região que outrora abrangia a Ucrânia, parte da Rússia e o Cazaquistão), se tem notícia do uso do cavalo para a movimentação de charretes, carroças, arados, grades, e cultivadores, tanto no plantio como na colheita, afora pomposas carruagens imperiais, estas, inicialmente na região da Mesopotâmia, espalhando-se depois por todas as cintilantes monarquias europeias, consagrando o uso do cavalo para o transporte, para a arte da guerra (a arma de Cavalaria decorre dessa longínqua época) e de modo indispensável na agricultura não mecanizada, para o amanho (cultivo) da terra e mobilidade das pessoas e da produção.

No Brasil, sem qualquer vínculo com esta ou aquela região geográfica, as viagens a cavalo duravam dias e as paradas na casa de conhecidos ou amigos, para descanso e alimentação, eram vistas com absoluta naturalidade. Pedir ao dono da casa “um agasalho” para pernoitar não era extravagante ou inusitado, pleito escorado quase sempre na relação de confiança da gente simples do campo, conhecida pela sua tradicional hospitalidade, fazendo com que a família não só permitisse a pousada, como também lhe fosse oferecida água e alimento, para a recuperação do corpo e a mitigação do cansaço.

O modo de chegar cavalgando a determinado sítio para postular tais favores, tinha o condão de deixar evidente, de plano, a intenção do visitante. Se a montaria fosse amarrada à frente da residência, significava uma estada breve, apenas para mitigar a sede e seguir em frente. Entretanto, se o cavaleiro o fazia num dos barracões da parte posterior da morada, era óbvio que a intenção era o peão demorar mais, coisa de muitas horas ou até de dia inteiro.

Na primeira situação, um cumprimento cortês, um gole d’água, uma conversa rápida e boa viagem... Na segunda, além da água, uma prosa mais elaborada despertava o subjacente interesse do anfitrião pela narrativa do visitante, que acabava ficando. Mas a expressão surgiu justamente na hipótese mais improvável, quando o viajante demonstrando pressa, decidia se mandar, prosseguir na jornada, sendo surpreendido pelo dono da casa ao lhe dizer: “Pode tirar o cavalo da chuva, fique mais um pouco”. Estava assim o estranho autorizado a levar sua montaria para um local mais abrigado, pois a conversa seca e breve ia demorar bastante, por alguma empatia surgida entre eles.

Com o passar do tempo, o sentido da expressão foi mudando, ampliou-se e atualmente significa que alguém deve desistir de um propósito qualquer, que se mostra ou se tornou impossível para quem acalenta determinada pretensão, às vezes pronunciada de forma irônica, no diminutivo como fazem em Portugal, para melhor ironizar quem alimenta esperança de êxito em algo inalcançável: “Pode ir tirando o cavalinho da chuva”...

Certas expressões sintetizam situações que gastariam mais tempo para serem explicadas ou descritas, revelando o que se deseja exprimir numa única frase. Neste aspecto, “tirar o cavalo da chuva” chega a ser emblemático. Hoje, quando alguém a usa, sugere que o sujeito não deve esperar que determinado acontecimento se materialize, que alguém deve desistir de algo, perder as esperanças, pois o objetivo perseguido não se concretizará:
– Vai viajar para São Paulo, amigo? 
– Sim, amanhã!
– Pois pode tirar o cavalo da chuva, que o teu voo foi cancelado... 

Na nossa música popular, a conhecida expressão inspirou a dupla sertaneja Leôncio e Leonel a uma composição com o nome de “Pode Tirar seu Cavalo da Chuva”, estilo sofrência, cujo texto poético aqui parcialmente reproduzido, só confirma o sentido com que atualmente é empregada: 

Meu coração não é carro de praça
Que pega e deixa quando lhe convém
Você saiu a passear com outro
Eu não liguei para mais ninguém

Já fui seu bobo, já fui seu palhaço
Hoje de trouxa você não me faz
Pode tirar o seu cavalo da chuva
Que a seu lado eu não volto mais

O professor Dionísio Silva, da Universidade Federal de São Carlos (SP), entende que tal expressão nasceu no Brasil na região dos pampas, mercê do costume do gaúcho de recolher seu cavalo no galpão ao primeiro sinal de chuva, quando ia ao armazém fazer compras. Assertiva que no mínimo conflita com o costume português ("tirar o cavalinho da chuva") considerando que quase tudo o que herdamos, em termos linguísticos, veio de lá com Cabral...
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Célio Simões de Souza é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. Membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras, em Maringá (PR). Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados e recebeu três prêmios literários.

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