Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 18 de abril de 2017

Chuva de Versos n. 473


Uma Trova de Curitiba/PR
Nei Garcez

Surreal poema, escrito,
no papel, muito eloquente,
num monólogo, erudito,
me abraçou... Literalmente!

Um Poema de Maceió/AL
Guimarães Passos
(1867 - 1909, Paris/França)

SONETO

À terra torna o que da terra veio;
A água que sai do vasto mar, um dia
Mais pura do que quando ao céu subia
Torna de novo ao primitivo seio.

Assim, todo o momento de alegria
Que feliz de ilusões eu via cheio;
As horas de ventura e de receio,
Tudo eu te entrego, como te pedia.

De ti, nem quero a pálida lembrança,
Viverei sem uma única esperança,
Sem o mínimo amor de uma mulher.

Mas no teu peito, que viveu mentindo,
Põe uma cruz – ao mundo prevenindo.
Que és o sepulcro do teu próprio ser.

Uma Trova Hispânica da Argentina
Libia Beatriz Carciofetti

Envuelta estoy en tus letras
trovador mío y querido
con tus coplas me penetras
el corazón abatido.

Um Poema de Maceió/AL
Lygia Menezes
(1913 - ????)

NÃO TE LEMBRES...

Ao surgir, amanhã, o sol nascente,
Não te lembres, nunca mais, que eu te quis...
E, embora eu fique em pranto tristemente,
Segue pensando que fiquei feliz...

Não recordes que vou viver sozinha...
E sozinho, também,  tu partirás...
A culpa não foi tua e nem foi minha...
Nunca mais te verei! Nem me verás!

E, embora eu fique em pranto, tristemente,
Não entendas que foi porque te quis...
Ao surgir, amanhã, o sol nascente,
Segue pensando que fiquei feliz...

Uma Trova de Taubaté/SP
Claudio de Morais

Quero cair em seus braços,
fazer o que me condiz.
Apertos... muitos abraços...
quero te fazer feliz.

Uma Glosa de Porto Alegre/RS
Gislaine Canales

Glosando Wilma Mello Cavalheiro
VENDAVAIS

MOTE:

Suporto os ventos medonhos,
não me curvo aos vendavais,
pois as vigas dos meus sonhos
suportam os temporais.

GLOSA:
Suporto os ventos medonhos,
sou forte como ninguém
e meus momentos tristonhos
os torno alegres, também!

Sendo assim, dona de mim,
não me curvo aos vendavais,
pois de tudo que é ruim
eu não suporto jamais!

Os meus dias são risonhos
com incontáveis matizes,
pois as vigas dos meus sonhos
possuem fortes raízes!

Meus sonhos são adubados
de esperanças imortais
e estando, assim, preparados
suportam os temporais.

Um Poema de São Luiz do Quitunde/AL
João Barafunda
(João Francisco Coelho Cavalcanti)
(1874 – Rio de Janeiro, 1938)

ROSA

Como um botão de rosa despontando
era assim Rosa — meu primeiro amor;
passava às rosas seu perfume dando
e dando às rosas sua rósea cor.

Quando Rosa morreu, todos, chorando,
rosas puseram no caixão (que dor!)
E as rosas foram pálidas ficando,
ficando triste como a extinta flor.

E foi-se a rosa de meu coração...
Porque fugiste, amor puro e perfeito?
Porque morreste, flor inda em botão?

Tu, que foste rainha das formosas
flores, hás de viver sempre em meu peito.
Tens em meu peito um túmulo de rosas.

Trovadores que deixaram Saudades
João Freire Filho

São quase uma eternidade
minhas noites de abandono,
porque em meu quarto a saudade
se deita, mas não tem sono!...

Um Poetrix do Rio de Janeiro/RJ
Lilian Maial

semeando

Para plantar,
Na terra a pá cava,
No livro a pa lavra.

Um Poema de Maceió/AL
Manoel Aristheo Goulart de Andrade
(1878 - 1905)

O SINO

Meu coração é como um velho sino
De uma Ermida de aldeia no abandono,
Dobra num som amargurado e fino,
Numa tristeza vesperal, de Outono.

Outr’ora era risonho e cristalino
De sua vez o harmonioso intono,
E hoje canta ao delíquio vespertino
A sinfonia do Supremo Sono!

Muitas vezes das auras do Passado
Uma lufada rígida passando
Fá-lo vibrar de um modo apaixonado

Em largas notas pueris e quando
Se ecoa o turbilhão, pelo ar magoado
Ficam por tempos trêmulos vibrando!...

Uma Trova Humorística de Prata/MG
Francisco Assis Menezes

E o guri, com a mãe de lado,
pergunta, inocente, ao pai:
- Quem é o cara mascarado
que vem, quando o senhor sai?

Um Poetrix do Rio de Janeiro/RJ
Marcelo Marinho

troca

Daria os anos que me faltam
Por minutos em teus braços.
Não, daí eu hei de querer ser eterno...

Um Poema de Maceió/AL
Rosália Sandoval
(Rita de Abreu)
(1876 - 1956, Rio de Janeiro/RJ)

MINHA ESTRELA

Feliz quem tem o céu, por desfastio
uma estrelinha amiga confidente,
com quem conversa à noite, mentalmente,
alguma coisa de um matiz sombrio.

É como a fonte em dúlcido arrepio,
quando favônio sopra mansamente,
essa estrela sentinela docemente
e como que responde com amavio...

alguma coisa que nos enternece,
— uns laivos de lembrança ou de amizade —
alguma coisa terna como a prece...

Onde estás, minha estrela, oh! Flor do Estio? ...
Ah! Não ouve o gemer dessa saudade!!...
Debalde busco-a pelo céu vazio!

Recordando Velhas Canções
Gita 
(1974) 

Raul Seixas e Paulo Coelho 

  "Eu que já andei pelos quatro cantos do mundo procurando,
foi justamente num sonho que ele me falou"

Às vezes você me pergunta
Por que é que eu sou tão calado
Não falo de amor quase nada
Nem fico sorrindo ao teu lado

Você pensa em mim toda hora
Me come, me cospe, me deixa
Talvez você não entenda
Mas hoje eu vou lhe mostrar

Eu sou a luz das estrelas
Eu sou a cor do luar
Eu sou as coisas da vida
Eu sou o medo de amar

Eu sou o medo do fraco
A força da imaginação
O blefe do jogador
Eu sou, eu fui, eu vou

Gita gita gita gita gita

Eu sou o seu sacrifício
A placa de contra-mão
O sangue no olhar do vampiro
E as juras de maldição

Eu sou a vela que acende
Eu sou a luz que se apaga
Eu sou a beira do abismo
Eu sou o tudo e o nada

Por que você me pergunta
Perguntas não vão lhe mostrar
Que eu sou feito da terra
Do fogo, da água e do ar

Você me tem todo dia
Mas não sabe se é bom ou ruim
Mas saiba que eu estou em você
Mas você não está em mim 

Das telhas eu sou o telhado
A pesca do pescador
A letra A tem meu nome
Dos sonhos eu sou o amor

Eu sou a dona de casa
Nos pegue-pagues do mundo
Eu sou a mão do carrasco
Sou raso, largo, profundo

Gita gita gita gita gita

Eu sou a mosca da sopa
E o dente do tubarão
Eu sou os olhos do cego
E a cegueira da visão

Mas eu sou o amargo da língua
A mãe, o pai e o avô
O filho que ainda não veio
O início, o fim e o meio (2x)
Eu sou o início, o fim e o meio (2x)

Uma Trova de Santos/SP
Antonio Colavite Filho

De uma  folha  de  jornal,
entre palavras  e  traços,
nasce  em  mundo  virtual
o  mais  terno  dos  abraços!

Um Poema de Pão de Açucar/AL
Bem Gum
(José Mendes Guimarães )
(1899 -1968)

CIDADE

Cidade, colmeia humana, onde o luxo e o prazer
Têm lugar de desdém para a miséria e a fome.
Aonde, ao relento, dorme o pária sem pão, sem nome,
E o nababo indolente tem sereno adormecer.

Cidade, centro onde a honra caminha prá fenecer,
Dominada pelo vício, que aos poucos lhe carcome,
Cidade, onde o proletário, na fábrica, se consome,
Para mais o argentário subir e enriquecer.

Cidade, ruas festivas, igrejas e lupanares,
Pináculos de arranha-céus, dispersos, cruzando os ares,
E casebres, moradias do pequeno, do ninguém.

Cidade, luz, vaidade, encantamento, alegria,
Amor, desprezo, miséria, ingratidão, nostalgia,
Cidade, berço do riso e da lágrima também.

Um Poetrix de São Paulo/SP
Marcelo Marques

abstração

Nada sei de concreto,
mas o abstrato
não me deixa calar.

Uma Trova de Bauru/SP
Ercy Maria M. Marques

Dos registros do passado
eu apago a insensatez,
buscando, desesperado,
o teu abraço outra vez...

Um Poema de Lagoa da Canoa/AL
Judas Isgorogota
(Agnelo Rodrigues de Melo)
(1901 - 1979, São Paulo/SP)

RECOMENDAÇÕES

E se acaso você for à minha choupana
E minha mãe disser: — Como vai o meu filho?
Será que ele vai bem ou será que me engana?
Você não vá falar que eu ando assim maltrapilho,
Mas lhe diga a sorrir: — Fique a senhora em paz,
Ele vence brincando o maior empecilho.

Está outro! Ninguém o reconhece mais!

Se minha irmã disser: — Como vai o meu mano?
Ele é muito falado? Ele é muito querido?
E será que ainda vem para casa este ano?
Você não vá tocar no que tenho sofrido,
Mas lhe diga a sorrir: — O seu mano é um rapaz
Que tem prêmios de amor e glória recebido.

Está outro! Ninguém o reconhece mais!

Entretanto, se você chegar até a casa
De onde um dia saí cambaleante e mudo
— Ave que cai do azul com uma ferida na asa —
E uma voz lhe disser, branda como um veludo:
— Como vai o meu noivo? (ouça bem, meu rapaz...)
Diga-lhe apenas isto, ela compreende tudo:

Está outro! Ninguém o reconhece mais!

Uma Trova de Salvador/BA
Raymundo de Salles Brasil

Se Castro Alves dizia:
"livros, livros à mancheia"
é que bem os conhecia.
Abrace essa ideia, leia.

Hinos de Cidades Brasileiras
Xique-Xique/BA

De uma ilha a mirar o teu ouro
Que das serras douravam horizontes
Tua História, qual outro tesouro,
Resplandece entre vales e montes,
A bravura do índio aguerrido,
E do branco a audácia sem par,
Com a ternura do negro sofrido
São as bases do teu triunfar.

Pelos campos, garimpos e rios,
Nos distritos e nos povoados,
Os teus filhos cultivam teus brios
Por seus feitos, no amor, sublimados.
Glória a ti entre cactos e flores
Sempre amando e servindo ao Brasil!
Glória a ti que a Deus canta louvores!
Glória a ti Xique-Xique gentil!

Em poética expressão só de amor
A beijar o teu Rio São Francisco,
Por ti o sol, ao nascer ao se pôr,
Agradece-lhe o peixe, o marisco...
No Evangelho de Cristo inspirado,
Só bondade teu povo pratique
Prá que tenhas viver pontilhado
De mil glórias, feliz Xique-Xique!

Um Poetrix de Andradina/SP
Marcos Bastos

flores do campo

De manhã fui vê-las.
Choveu a noite toda.
Chuva de estrelas.

Um Poema de Pão de Açucar/AL
Bráulio Cavalcante
(1887 - 1912)

TUFÃO

Sangrento, lasso, moribundo, rola
Nas escarpas do poente, o sol... Infinda
Mágoa amortece a cândida corola,
Que fora muito aprimorada e linda.

Tange um campônio umas canções à viola.
Canta, da noite, a pesarosa vinda...
E o sol, não mais com seu ardor, desola
E bruxuleia e tomba e desce e finda!...

E, de repente, o céu se obumbra... Então
As nuvens atrás, a ranger descerra
Com hercúleos braços, rígido tufão.

E, após, em roucas contorções noturnas,
Quer rebentar de meio a meio a terra,
Estortegando-se ao grilhão das furnas!

Uma Trova de Curitiba/PR
Vanda Alves da Silva

A minha saudade enlaço
nas rimas que foram ditas,
e hoje sinto o teu abraço,
vindo das folhas escritas...

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Trovadora Homenageada: Dalva Maria de Araújo Sales


Acorrentado e com medo
bem quietinho ao lado dela,
ele aprende desde cedo
que em casa quem manda é ela.

A família indiferente
vai diluindo o aconchego
que existia antigamente,
e que hoje tem novo apego.

A fumaça escura e fria
sufocando a humanidade.
Mas a esperança é que um dia
Um Sol trará liberdade.

Água, tesouro da vida,
não nos falte por favor,
pois a terra ressequida
chora a falta deste amor.

A paisagem se desmembra
na visão hospitaleira.
Uma emoção que nos lembra
a bandeira brasileira.

Assim Deus à nossa frente
postou a felicidade,
ensinando a cada mente
que a seta indica bondade.

Deixando o torrão natal,
o coração apertado,
segue o migrante afinal
tecer o que foi sonhado.
Devoção de mãe parece
mesmo, um amor diferente.
Sempre que o filho adoece,
ela fica mais doente.

Em paz no final do dia,
só nós dois a contemplar
a beleza que irradia
o ouro do sol com o mar.

É Natal, e a multidão
enlouquece na gastança,
esquecendo que a intenção
é adorar Jesus criança.

Existe sempre beleza
nos versos do trovador
que disfarçando a tristeza
põe lirismo em sua dor.

Expondo-se o preconceito,
talvez seja a melhor forma
de mostrar não ser defeito
qual a cor que a pele informa.

Feliz o ser que carrega
para o final da existência,
o orgulho de quem entrega
em paz, a sua consciência.

Infância, quanta beleza
nesta imagem estampada,
a calma da natureza
reflete a paz desejada.
Lua de mel em Paris,
formação de um novo lar,
na recordação feliz
o abajur a iluminar.

Meu coração forte pulsa
lembrando o time da escola
que um dia fui quase expulsa
só porque pisei na bola.

Na corda bamba da vida
segue o filho distraído,
a lua dando guarida,
luz maternal é o sentido.

Na imensidão dos espaços
o nosso planeta azul
é amparado pelos braços
dos anjos de norte a sul.

Nesta visão tão solene,
quando a lua beija o mar,
vejo ali bênção perene
de Deus a nos confortar.

Neste lindo quadro eu vejo
num mar de letras imersos
os abraços que desejo
envolvida nos teus versos.

Num lodaçal despontou
um pé de rosa encarnada...
Nem por isso ela deixou
de ser rosa perfumada.

O céu e mar em harmonia
confundem-se em suas cores;
a aeronave em sintonia
como em suaves louvores.

O vento soprando leve,
perfume de flores no ar...
A primavera aparece
nos convidando a sonhar.

Se com armas presenteias
a criança, sem prudência,
estás pondo em suas veias
o vírus da violência

Se te espero e tu demoras,
o relógio no meu braço
vai crescendo com as horas,
tomando-me todo o espaço.

domingo, 16 de abril de 2017

Honoré DuCasse (Poemas Escolhidos)


SOL PARDACENTO...

Sol pardacento, que te espreitas incerto
Olhar funesto, sem se dizer
Escondido, encoberto
Por não se querer nascer

RETALHOS DA VIDA DE UM POETA....

Retalhos da vida de um poeta
Que das folhas se esvaíram letras
Que de amores se perdeu
Nos poemas que te leu

SUAVES BEIJOS INTENSOS...

Suaves beijos intensos
Da tua boca me saem
Leves como o vento
Que das nuvens se vão
De amor nas flores bordado
Na lágrima te sinto salgada
Que do mar te trouxeste
A sede me bebeste

NA TUA BOCA DE CETIM...

Deixa-me fazer-te um verso em alecrim
na tua boca de cetim,
deixa-me fazê-lo só para ti,
ainda que me esqueça de mim....

O SOL DEIXA-SE CAIR....

O sol deixa-se cair no horizonte 
espreita do seu beiral
enquanto se desenha longínquo nos telhados
pintando silhuetas no olhar 
com que se despede beijando a noite 
sem nunca a ter visto...

INSANO PENSAMENTO...

Este verde que me fala de alma sofrida
Do sal te bebo, insano pensamento
Me faz partir de mim
Oh!!.. mar, levai-me
Sem que as ondas me vejam
Longe das pegadas de tristeza
Que na areia se ficaram

...HORIZONTES DE SAL...

Vislumbro horizontes de sal
Esbatidos pelo mar
Silenciados de prata
Beijados pelo ar
Pintados de céu
Da cor do teu olhar
Bebo-te assim no meu corpo
Sabes a mar
No gosto que me fica
Depois de te amar

OS LOUCOS NAVEGAM INSANOS....

Os loucos navegam insanos,
partindo-se sem saber,
sem volta que os carregue,
sem estrela que os protege,
mas partem assim mesmo,
sem nada dizer,
talvez por se saber,
que jamais voltam a ser...

SOMBRAS SEM VIDA

Choro-te,
sem que percebas
que definhei naquela sombra lânguida
que morreu para lá dos ciprestes,
oca,
sem o teu sussurro ter

MEIA LUA

Meia lua incompleta
A noite ergue-se, profusa
Deambulo uma candeia
O corpo suporta-me 
na tua ausência, meia maré
Sonho-te sem rosto
desde que és, 
Arrasto o passo, beijo-te a sombra
Abandono-me ao ermitério
E aos dias gastos

GRITO PROFUSO

À força do nome
Ergue-se o grito profuso
Da dor já morta
Um corpo em chamas
Clama pela chuva que não chega
Enquanto a talha corrói os dias lentos
E na carne se soltam os opróbrios
De uma vida que já não ouve

AGUACEIRO

Não fosse o tempo
Abrigar-se
Em aguaceiro destemido
Nunca a prosa
Me choveria nos tristes
Dedos,
Nem o céu teria
A cor
Do que sinto

A NOITE

Tudo passa,
O amor,
O poema
O futuro,
A noite,
E a paixão de uma vida escassa
Tudo passa em sombras
Quando o tempo se esquece
Até o céu
E a lua
E as minhas lágrimas no teu rosto
O beijo à meia luz
Sem ti,
Tantas vezes morri
No meu desgosto

POENTE

Adoro a música em ti
que as nuvens fazem ao entardecer
Escrevem paisagens de lume
Nos teus cabelos a poente

Enquanto o olhar anoitece
Deixas-me um sorriso por promessa
E o sentir que os dias gastos
escrevem a tua idade
quando já nem no tempo
te pertenço

NA INTIMIDADE DE UM POEMA

Na intimidade de um poema
Desnudo-te a voz e os
Abraços inconfessáveis

Na intimidade de um poema
Cabem todas as palavras mudas,
Os olhares cegos
E as madrugadas de uma vida

Na intimidade de um poema
Escreve-se a noite
E o beijo demorado,
O olhar nu
E o verso involuntário
Dos amantes que rimam

MEMÓRIA DISTANTE

Quando a minha existência
for apenas uma memória distante
verás que, para além do poema,
nada mais subsiste
que a dor imensa de o ter escrito

RUAS AUSENTES

O teu amor tem a finitude
De um beijo
E das ruas sem nome
A tua ausência é um cais que parte
Nas primeiras chuvas de outono
O que me consome não é a saudade
Mas, sim,
os poemas que te procuram

EPÍLOGO

Sou uma manhã que se arrepende
Sempre que a aurora toma a forma do medo
E da janela do meu tempo se escondem
dois olhos em súplica
Como se fossem o epílogo anunciado
De uma alma que não lhes pertence

AMARRAS

Não me falta o anoitecer
Porque o amanhecer já não me espera
Deixei de acontecer
Porque as manhãs me pesam
Restam-me as escarpas por promessa
E a covardia das amarras
Que não desatam

Já não sei quem sou
Nem de que poema me faço
Morri no tempo
Porque o tempo também me morreu
Estou cansado de estar cansado

Nem sei se gritei ou se rasguei a página
Se declamo ou se parto
Porque este poema
Se um dia for lido
É porque estarei fora do tempo,
Esquecido
Deixado aos livros

OUTONO

Que sabes tu, Outono
Dos rios que choram
E da chuva que dói?

Que sabes tu, Outono
Do choupo desnudo
Quando o vento acontece?

Que sabes tu, Outono
Da folha que tomba
E da morte que nos enternece?

CRAVOS FLAMEJANTES

Gostava de poder imprimir
Os sonhos que se evadem
Ao ritmo da chuva
E das pedras seculares

Cultivo a dissidência da vida
Com a força de um poema
Na boca trago os cravos flamejantes
De uma aventura com o teu nome,
Por mote

POEMA QUE SENTE

Prefiro o voo das aves
À indiferença da palavra
Prefiro a insanidade
À distância que dói
Prefiro a cicatriz que lembra
À memória que fere
Prefiro o abraço que demora
Ao beijo que foge
Prefiro o poema que sente
Ao verso sem voz
Prefiro o suicídio no poema
Ao sonho que acorda

DEDOS TRÊMULOS

Por entre dedos trêmulos
Que te olham
Só um poema te deixa na boca,
o que sinto

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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