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domingo, 23 de agosto de 2026

Teatro de Ontem e de Hoje (Como fazer uma peça de teatro) 2

Imagem: Adobe Firefly
Modelo Completo de Peça de Teatro — Com Todos os Elementos
 
TÍTULO: O DIA EM QUE O GATO FUGIU
 
Elementos básicos (Espaço + Tempo)
 
Espaço: Sala de estar de uma casa simples. Sofá, mesa de centro com vaso de flores, porta da cozinha à direita, porta de saída à esquerda.

Tempo: Tarde de sábado, sol forte lá fora.

Personagens:
CARLOS — cerca de 35 anos, calmo, um pouco desajeitado
MARIA — cerca de 32 anos, falante, prática e impaciente
 
ATO ÚNICO · CENA 1
 
(As luzes se acendem. CARLOS está de pé, de costas para o público, olhando para o canto da sala. MARIA entra pela porta da cozinha com uma vassoura na mão, para e olha para ele.)
 
INDICAÇÃO CÊNICA — diz o que vemos, onde estão e o que fazem
 
MARIA
— Carlos? Você ainda está aí? Não encontrou ele?
 
CARLOS (vira-se devagar, as sobrancelhas juntas, voz baixa e preocupada)
— Procurei embaixo do sofá, dentro do armário, atrás das cortinas… Nada. Nem sinal do Felpudo.
 
MARIA (deixa a vassoura encostar na parede, aproxima-se, tom de voz sobe)
— Mas como?! Ele nunca sai da sala! Você deixou a porta aberta de novo, não foi? Sempre você!
 
CARLOS (levantando as mãos em defesa)
— Eu não deixei! Juro que fechei! Ele deve ter… deve ter encontrado algum buraco, ou… ou pulou pela janela!
 
MARIA (parada, olha firme para ele, depois olha para a janela aberta lá no fundo)
— A janela está no terceiro andar, Carlos. Gatos não são pássaros. Qual é o seu plano agora? Ficar aí discutindo ou ir procurar?
 
CARLOS (pega o chapéu sobre a mesa, anda depressa em direção à porta)
— Vou! Já vou! E quando eu achá-lo, aposto que ele estava escondido no lugar mais óbvio do mundo… e nós dois passamos o dia inteiro sem ver!
 
(Carlos sai depressa batendo levemente a porta. Maria fica sozinha, respira fundo, olha para o sofá, aproxima-se devagar, abaixa-se… e puxa debaixo do móvel um gato cinzento e gordo que mia suavemente. Ela olha para a porta por onde Carlos saiu, balança a cabeça sorrindo.)
 
MARIA (falando só para o gato, baixinho)
— Você viu? Ele já foi. Agora podemos ter sossego, meu pequeno trapaceiro.
 
(As luzes se apagam lentamente.)
 
DESENLACE — fim da cena
 
 VAMOS MARCAR CADA COMPONENTE:
 
NOME DO PERSONAGEM (instrução de comportamento) — fala aqui.
Sempre assim: nome em destaque + indicação entre parênteses + o que diz.

Conflito/Ação 
O gato desapareceu → Carlos e Maria procuram e discutem → no final, ele estava escondido o tempo todo 

Personagens 
Carlos e Maria — cada um com sua personalidade e objetivo: achar o gato! 

Diálogo 
Tudo que está em negrito — é a história avançando pelas falas deles 

Indicações cênicas 
As linhas entre parênteses — descrevem gestos, movimentos, cenário, luz 

Espaço + Tempo 
Definidos logo no início: sala de estar, tarde de sábado 

Estrutura 
Início (gato sumiu) → Meio (discussão e busca) → Fim (estava escondido!) 

Divisão 
Ato Único · Cena 1 — formato oficial de texto teatral 

sábado, 22 de agosto de 2026

Teatro de Ontem e de Hoje (Como fazer uma peça de teatro) 1


COMPONENTES IMPRESCINDÍVEIS DE UMA PEÇA DE TEATRO
 
Uma peça de teatro é uma obra escrita para ser representada, então tem elementos próprios — sem eles, não existe texto teatral. Vamos separar em estrutura interna e elementos do texto:
 
a. Ação e Conflito —  O CORAÇÃO
 
É o mais fundamental de todos. Sem conflito não há teatro!
 
- Ação: o conjunto de fatos, comportamentos e mudanças que acontecem na história (o que se passa).

- Conflito: o choque entre forças opostas — desejo × obstáculo, personagem × sociedade, ele × ele mesmo… 
É o que faz a história avançar.
 
“O teatro não é só pessoas falando. É pessoas querendo algo e lutando para conseguir.”
 
b. Personagens — QUEM VIVE A HISTÓRIA
 
São os seres que realizam a ação. Precisam ter:
 
- Objetivo: o que cada um quer alcançar (motivação clara!)

- Relações: como se conectam entre si

Mesmo que seja um monólogo, precisa haver pelo menos um personagem — sem isso, não há peça.
 
c. Diálogo — A LINGUAGEM PRINCIPAL
 
É o veículo principal do teatro: o que os personagens dizem uns aos outros. Revela personalidade, avança a trama, mostra conflitos.
 
Inclui também monólogo (quando um só fala) e apartes (fala direta ao público, os outros não ouvem).
 
d. Estrutura Dramática — COMO SE ORGANIZA
 
Quase sempre segue essa sequência clássica:
 
1. Apresentação/Exposição: mostra quem são, onde estão, situação inicial

2. Nó/Conflito: o problema surge, a tensão sobe

3. Clímax: o momento de maior pressão — decisão ou acontecimento decisivo

4. Desenlace/Resolução: consequências e encerramento
 
e. Indicações Cênicas — O QUE O LEITOR/ATOR PRECISA SABER
 
São as instruções do autor, escritas fora das falas. Imprescindíveis no texto:
 
-Cenário e Lugar: onde acontece
-Comportamento dos personagens: entram, saem, sentam, gestos, tom de voz
-Tempo: época, hora do dia
-Elementos técnicos: luz, som, figurino — quando definidos pelo autor
 
f. Divisão em Partes — Formato Próprio
 
Todo texto teatral se divide em:
 
- Atos: grandes blocos da história (geralmente 1, 2 ou 3 atos)
- Cenas: muda quando entra ou sai um personagem — cada mudança = cena nova
- Em textos mais completos: pode ter Cena, Quadro e Episódio, mas Atos e Cenas são sempre presentes
 
g. Espaço e Tempo — ONDE E QUANDO ACONTECE
 
A história precisa se situar: não existe “em lugar nenhum, em tempo nenhum”. Pode ser um só local ou vários, um dia ou décadas — mas sempre definidos.
 
Resumo: Lista Curta — O QUE NÃO PODE FALTAR DE JEITO NENHUM
 1. Conflito / Ação dramática ⭐ — o mais essencial
2. Personagens
3. Diálogo / Fala
4. Estrutura (início → meio → fim)
5. Indicações cênicas
6. Espaço + Tempo
 
Diferença-chave: num romance o autor conta; numa peça o autor mostra por meio de falas e ações. Se faltar qualquer um dos 6 acima, vira texto narrativo — deixa de ser peça de teatro.
= = = = = = = = = = = = = =  
continua…

(A. I. Dola)

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Teatro de Ontem e de Hoje (Cyrano de Bergerac)


Montagem Histórica com Antônio Fagundes (1985)
 
Ficha Técnica Completa
 
Autor original Edmond Rostand (França, 1897) 

Direção Flávio Rangel 

Protagonista: Antônio Fagundes — Cyrano de Bergerac 

Elenco destaque: Bruna Lombardi (Roxane), Lenine Tavares (Christian), Sérgio Ajzenberg (De Guiche), Marga Jacoby, Sérgio Mamberti (Ragueneau) 

Companhia CER — Companhia Estável de Repertório (criada por Antônio Fagundes) 

Ano de estreia 1985 

Prêmios Prêmio Molière 1985 — Melhor Ator (Antônio Fagundes); Prêmio APCA 
Direção de arte/cenário José Cláudio Serpa 

Duração em cartaz Mais de 300 apresentações, percorrendo capitais brasileiras 
 
Resumo do Texto — Enredo e Estrutura
 
A peça original de Edmond Rostand é uma tragédia romântica em cinco atos, em versos, ambientada na França de 1640. O protagonista é Cyrano, poeta, espadachim, músico e gascão de temperamento feroz — mas atormentado por um nariz imensamente grande, que ele acredita torná-lo indigno de amor.
 
Resumo Detalhado da Obra
 
ATO I — O Teatro do Hôtel de Bourgogne

Cyrano interrompe uma peça, expulsa o ator Montfleury (que ele proibiu de atuar), desafia todos os ofensores e, num dos momentos mais famosos, improvisa um duelo de espadas versificando ao mesmo tempo: "Que vos coupe a rima, e o estro e o braço!" Revela-se corajoso, brilhante e orgulhoso — mas também profundamente inseguro quanto à aparência .
 
ATO II — A Confissão

Cyrano confessa ao amigo Le Bret que ama Roxane, sua prima bela e culta. Mas não ousa declarar-se: "Eu amo… mas amo em silêncio… amo… mas sou feio!". Roxane o encontra e pede que ele proteja Christian de Neuvillette, um jovem cadete bonito por quem se apaixonou. Cyrano aceita — e descobre que Christian é belo, mas totalmente desprovido de palavras.
 
ATO III — A Noite do Balcão

A cena mais icônica. Christian deve falar com Roxane, mas trava. Cyrano, nas sombras, dita-lhe as falas, subindo numa caixa para ser ouvido. Debaixo do balcão, ele fala com a alma, e Roxane se rende àquela voz apaixonada. Christian recebe o beijo — mas é a poesia de Cyrano que a conquistou. Os dois se casam em segredo.
 
ATO IV — O Cerco de Arras : Guerra, Fome e Cartas

O Conde de Guiche, rejeitado por Roxane, envia o regimento de Cyrano e Christian para a guerra — ao cerco de Arras, onde passam fome e frio. Todos os dias, Cyrano escreve uma carta de amor em nome de Christian, enviando-a a Roxane. Ela, comovida, vai até o front. Ao saber que Roxane o amaria mesmo feio, Christian quer revelar a verdade — mas cai, morto por um tiro, antes de poder fazê-lo. Cyrano cala-se e assume o segredo.
 
ATO V — A Última Carta — 15 Anos Depois

Roxane entra num convento. Cyrano a visita todas as semanas — sempre pobre, sempre orgulhoso, sempre fiel. Sofre um atentado: uma pedra cai em sua cabeça. Mortalmente ferido, vai pela última vez ao encontro dela. Lê em voz alta a última carta — aquela que ele mesmo escreveu. Roxane percebe que a voz, o espírito, a alma que amou sempre foram dele. "Foi você!" — ela grita. Ele morre nos braços dela, com uma frase que se tornou imortal:
 
"Mas há uma coisa que se leva sem mancha — e pura!… E é… o meu PANACHE!"
 
Concepção do Espetáculo
 
A ideia nasceu do próprio Antônio Fagundes, que fundou a CER — Companhia Estável de Repertório justamente para realizar este sonho. Convidou Flávio Rangel — um dos maiores diretores brasileiros — para dirigir e fazer a adaptação. O resultado foi considerado a obra-prima de Flávio Rangel no teatro e o auge da maturidade artística de Fagundes.
 
Fagundes não apenas interpretou Cyrano — ele foi Cyrano. Sua performance reuniu comédia, poesia, violência e ternura numa medida rara:
 
- A Fúria e a Espada: Fagundes criou um Cyrano físico, ágil, de voz potente e presença avassaladora. As cenas de duelo eram coreografadas com precisão, transmitindo perigo e elegância.

- A Vulnerabilidade: Por trás do nariz falso e da arrogância, Fagundes revelava um homem ferido, solitário e profundamente doce. Quando dizia "Eu amo… mas sou feio", a plateia sentia a dor como se fosse sua.

- A Poesia em Versos: A versão de Flávio Rangel manteve o verso alexandrino original em português — e Fagundes recitava com naturalidade, sem soar declamatório. A cena do balcão, nas sombras, era dita com uma intimidade que calava o teatro inteiro.

- O Panache: No final, ferido e morrendo, Fagundes transmitia não derrota, mas vitória espiritual. Sua última fala — "o meu panache!" — ficou gravada na memória de todos que assistiram.
 
"Em muitos aspectos, Cyrano foi a obra-prima de Flávio Rangel e também a de Antônio Fagundes. Ele atingiu sua maturidade artística." — Bernardo Schmidt, crítico
 
Direção e Linguagem Cênica
 
- Cenário: Minimalista e fluido, com painéis móveis que evocavam o Paris do século XVII e os campos de batalha. Luzes marcavam a passagem do tempo e da emoção.

- Versão: Flávio Rangel adaptou o texto com rigor poético, mantendo a métrica e a rima, mas tornando a linguagem viva e brasileira, sem arcaísmos.

- Tom: Alternava comédia escrachada (as cenas de briga, a multidão) com lirismo puro (o balcão, as cartas de amor) e tragédia comovente (a morte final).

- Elenco: Bruna Lombardi fez uma Roxane jovem, inteligente e não ingênua — que ama as palavras antes do rosto. Lenine Tavares criou um Christian não apenas belo, mas humano e generoso.
 

- Considerada a melhor montagem de Cyrano já feita no Brasil e uma das melhores do mundo em língua portuguesa.

- Tornou-se referência definitiva do personagem no teatro brasileiro — qualquer nova montagem passa, obrigatoriamente, pela comparação com Fagundes.

- Antônio Fagundes ganhou o Prêmio Molière — o mais importante do teatro brasileiro — por esta performance.
 
Temas Centrais — Por Que Toca Tanto?
 
Tema Significado 

Aparência vs. Essência 
Roxane ama a beleza de Christian, mas ama a alma de Cyrano — sem saber. A peça pergunta: o que amamos primeiro? 

Amor e Sacrifício 
Cyrano renuncia ao amor para dar felicidade à mulher que ama. Escreve, luta, sofre e morre — sem nunca dizer "eu". 

Honra e Independência 
Ele não bajula poderosos, não vende sua palavra, não se curva. "Faço o que me impõe o meu coração — e sou belo… porque sou belo por dentro!" 

O Panache 
Não é só a pena no chapéu — é estilo, dignidade, coragem de ser quem se é, até o último suspiro. 
 
 
Estreou em 1985 — ano da redemocratização do Brasil. Num país que saía da ditadura, um herói que não se curva, que fala a verdade, que luta contra todos os poderosos ressoou profundamente. Cyrano era, também, uma metáfora do artista livre — que recusa compromissos, que paga o preço de sua liberdade, mas que nunca perde o panache.
 
"Cyrano não é apenas um homem com um nariz grande. É cada um de nós — que tem algo de que se envergonha, que ama em silêncio, que fala melhor nas sombras. E que, no fim, quer deixar este mundo com a cabeça erguida e o coração intacto."

(A. I. Dola)
(Imagem: Adobe Firefly)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Machado de Assis (Hoje avental, amanhã luva)



Publicada originalmente A Marmota, Rio de Janeiro, março de 1860.
Transcrita em Páginas Esquecidas , de Machado de Assis, Rio de Janeiro: Ed Casa Mandarino, 1939.

Comédia em um ato imitada do francês por Machado de Assis

PERSONAGENS
DURVAL
ROSINHA
BENTO


Rio de Janeiro — Carnaval de 1859.
(Sala elegante. Piano, canapé, cadeiras, uma jarra de flores em uma mesa à direita alta. Portas laterais no fundo.)

Cena I

ROSINHA (Adormecida no canapé);
DURVAL (entrando pela porta do fundo)

DURVAL
Onde está a Sra. Sofia de Melo?... Não vejo ninguém. Depois de dois anos como venho encontrar estes sítios! Quem sabe se em vez da palavra dos cumprimentos deverei trazer a palavra dos epitáfios! Como tem crescido isto em opulência!... mas... (vendo Rosinha) Oh! Cá está a criadinha. Dorme!... excelente passatempo... Será adepta de Epicuro? Vejamos se a acordo... (dá-lhe um beijo)

ROSINHA
(acordando)
Ah! Que é isto? (levanta-se) O Sr. Durval? Há dois anos que tinha desaparecido... Não o esperava.

DURVAL
Sim, sou eu, minha menina. Tua ama?

ROSINHA
Está ainda no quarto. Vou dizer-lhe que V. S. está (vai para entrar) Mas, espere; diga-me uma coisa.

DURVAL
Duas, minha pequena. Estou à tua disposição. (à parte) Não é má coisinha!

ROSINHA
Diga-me. V. S. levou dois anos sem aqui pôr os pés: por que diabo volta agora sem mais nem menos?

DURVAL
(tirando o sobretudo que deita sobre o canapé)
És curiosa. Pois sabe que venho para... para mostrar a Sofia que estou ainda o mesmo.

ROSINHA
Está mesmo? moralmente, não?

DURVAL
É boa! Tenho então alguma ruga que indique decadência física?

ROSINHA
Do físico... não há nada que dizer.

DURVAL
Pois do moral estou também no mesmo. Cresce com os anos o meu amor; e o amor é como o vinho do Porto: quanto mais velho, melhor. Mas tu! Tens mudado muito, mas como mudam as flores em bo­tão: ficando mais bela.

ROSINHA
Sempre amável, Sr. Durval.

DURVAL
Costume da mocidade. (quer dar-lhe um beijo)

ROSINHA
(fugindo e com severidade)
Sr. Durval!...

DURVAL
E então! Foges agora! Em outro tempo não eras difícil nas tuas beijocas. Ora vamos! Não tens uma ama bilidade para este camarada que de tão longe volta!

ROSINHA
Não quero graças. Agora é outro cantar! Há dois anos eu era uma tola inexperiente... mas hoje!

DURVAL
Está bem. Mas...

ROSINHA
Tenciona ficar aqui no Rio?

DURVAL
(sentando-se)
Como o Corcovado, enraizado como ele. Já me doíam saudades desta boa cidade. A roça, não há coisa pior! Passei lá dois anos bem insípidos — em uma vida uniforme e matemática como um ponteiro de relógio: jogava gamão, colhia café e plantava ba tatas. Nem teatro lírico, nem rua do Ouvidor, nem Petalógica! Solidão e mais nada. Mas, viva o amor! Um dia concebi o projeto de me safar e aqui estou. Sou agora a borboleta, deixei a crisálida, e aqui me vou em busca de vergéis. (tenta um novo beijo)

ROSINHA
(fugindo)
Não teme queimar as asas?

DURVAL
Em que fogo? Ah! Nos olhos de Sofia! Está muda da também?

ROSINHA
Sou suspeita. Com seus próprios olhos o verá.

DURVAL
Era elegante e bela há bons dois anos. Sê-lo-á ainda? Não será? Dilema de Hamlet. E como gosta va de flores! Lembras-te? Aceitava-mas sempre não sei se por mim, se pelas flores; mas é de crer que fosse por mim.

ROSINHA
Ela gostava tanto de flores!

DURVAL
Obrigado. Dize-me cá. Por que diabo sendo uma criada, tiveste sempre tanto espírito e mesmo...

ROSINHA
Não sabe? Eu lhe digo. Em Lisboa, donde viemos para aqui, fomos condiscípulas: estudamos no mes­mo colégio, e comemos à mesma mesa. Mas, coisas do mundo!... Ela tornou-se ama e eu criada! É verda de que me trata com distinção, e conversamos às vezes em altas coisas.

DURVAL
Ah! é isso? Foram condiscípulas. (levanta-se) E conversam agora em altas coisas!... Pois eis-me aqui para conversar também; faremos um trio admirável.

ROSINHA
Vou participar-lhe a sua chegada.

DURVAL
Sim, vai, vai. Mas olha cá, uma palavra.

ROSINHA
Uma só, entende?

DURVAL
Dás-me um beijo?

ROSINHA
Bem vê que são três palavras. (entra à direita)

Cena II

DURVAL e BENTO

DURVAL
Bravo! A pequena não é tola... tem mesmo muito espírito! Eu gosto dela, gosto! Mas é preciso dar-me ao respeito. (vai ao fundo e chama) Bento! (descendo) Ora depois de dois anos como virei en­contrar isto? Sofia terá por mim a mesma queda? É isso o que vou sondar. É provável que nada perdes se dos antigos sentimentos. Oh! decerto! Vou começar por levá-la ao baile mascarado; há de aceitar, não pode deixar de aceitar! Então, Bento! mariola?

BENTO
(entrando com um jornal) Pronto.

DURVAL
Ainda agora! Tens um péssimo defeito para bo leeiro, é não ouvir.

BENTO
Eu estava embebido com a interessante leitura do Jornal do Comércio: ei-lo. Muito mudadas estão estas coisas por aqui! Não faz uma idéia! E a política? Esperam-se coisas terríveis do parlamento.

DURVAL
Não me maçes, mariola! Vai abaixo ao carro e traz uma caixa de papelão que lá está... Anda!

BENTO
Sim, senhor; mas admira-me que V. S. não preste atenção ao estado das coisas.

DURVAL
Mas que tens tu com isso, tratante?

BENTO
Eu nada; mas creio que...

DURVAL
Salta lá para o carro, e traz a caixa depressa!

Cena III

DURVAL e ROSINHA

DURVAL
Pedaço d'asno! Sempre a ler jornais; sempre a ta garelar sobre aquilo que menos lhe deve importar! (vendo Rosinha) Ah!... és tu? Então ela... (levanta-se)

ROSINHA
Está na outra sala à sua espera.

DURVAL
Bem, aí vou. (vai entrar e volta) Ah! recebe a caixa de papelão que trouxer meu boleeiro.

ROSINHA
Sim, senhor.

DURVAL
Com cuidado, meu colibri!

ROSINHA
Galante nome! Não será em seu coração que farei o meu ninho.

DURVAL
(à parte)
Ah! É bem engraçada a rapariga! (vai-se)

Cena IV

ROSINHA, DEPOIS BENTO

ROSINHA
Muito bem, Sr. Durval. Então voltou ainda? É a hora de minha vingança. Há dois anos, tola como eu era, quiseste seduzir-me, perder-me, como a muitas outras! E como? mandando-me dinheiro... dinheiro! — Media as infâmias pela posição. Assentava de... Oh! mas deixa estar! vais pagar tudo... Gosto de ver essa gente que não enxerga sentimento nas pessoas de condição baixa... como se quem traz um avental, não pode também calçar uma luva!

BENTO
(traz uma caixa de papelão)

Aqui está a caixa em questão... (põe a caixa so bre uma cadeira) Ora, viva! Esta
caixa é de meu amo.

ROSINHA
Deixe-a ficar.

BENTO
(tirando o jornal do bolso)
Fica entregue, não? Ora bem! Vou continuar a minha interessante leitura... Estou na gazetilha — Estou pasmado de ver como vão as coisas por aqui! — Vão a pior. Esta folha põe-me ao fato de grandes novidades.

ROSINHA
(sentando-se de costas para ele)
Muito velhas para mim.

BENTO
(com desdém)
Muito velhas? Concedo. Cá para mim têm toda a frescura da véspera.

ROSINHA
(consigo)
Quererá ficar?

BENTO
(sentando-se do outro lado)
Ainda uma vista d'olhos! (abre o jornal)

ROSINHA
E então não se assentou?

BENTO
(lendo)
Ainda um caso: "Ontem à noite desapareceu uma nédia e numerosa criação de aves domésticas. Não se pôde descobrir os ladrões, porque, desgraçadamente havia uma patrulha a dois passos dali."

ROSINHA
(levantando-se)
Ora, que aborrecimento!

BENTO
(continuando)
“Não é o primeiro caso que dá nesta casa da rua dos Inválidos." (consigo) Como vai isto, meu Deus!

ROSINHA
(Abrindo a caixa)
Que belo dominó!

BENTO
(indo a ela)
Não mexa! Creio que é para ir ao baile mascarado hoje...

ROSINHA
Ah!... (silêncio) Um baile... hei de ir também!

BENTO
Aonde? Ao baile? Ora esta!

ROSINHA
E por que não?

BENTO
Pode ser; contudo, quer vás, quer não vás, deixa-me ir acabar a minha leitura naquela sala de espera.

ROSINHA
Não... tenho uma coisa a tratar contigo.

BENTO
(lisonjeado)
Comigo, minha bela!

ROSINHA
Queres servir-me em uma coisa?

BENTO
(severo)
Eu cá só sirvo ao Sr. Durval, e é na boléia!

ROSINHA
Pois hás de me servir. Não és então um rapaz como os outros boleeiros, amável e serviçal...

BENTO
Vá feito... não deixo de ser amável; é mesmo o meu capítulo de predileção.

ROSINHA
Pois escuta. Vais fazer um papel, um bonito papel.

BENTO
Não entendo desse fabrico. Se quiser algumas lições sobre a maneira de dar uma volta, sobre o governo das rédeas em um trote largo, ou coisa cá do meu ofício, pronto me encontra.

ROSINHA
(que tem ido buscar o ramalhete no jarro)
Olha cá: sabes o que é isso?

BENTO
São flores.

ROSINHA
É o ramalhete diário de um fidalgo espanhol que viaja incógnito.

BENTO
Ah! (toma o ramalhete)

ROSINHA
(indo a uma gaveta buscar um papel)
O Sr. Durval conhece a tua letra?

BENTO
Conhece apenas uma. Eu tenho diversos modos de escrever.

ROSINHA
Pois bem; copia isto. (dá-lhe o papel) Com letra que ele não conheça.

BENTO
Mas o que é isto?

ROSINHA
Ora, que te importa? És uma simples máquina. Sabes tu o que vai fazer quando o teu amo te indica uma direção ao carro? Estamos aqui no mesmo caso.

BENTO
Fala como um livro! Aqui vai. (escreve)

ROSINHA
Que amontoado de garatujas!...

BENTO
Cheira a diplomata. Devo assinar?

ROSINHA
Que se não entenda.

BENTO
Como um perfeito fidalgo. (escreve)

ROSINHA
Subscritada para mim. À Sra. Rosinha. (Bento escreve) Põe agora este bilhete nesse e leva. Voltarás a propósito. Tens também muitas vozes?

BENTO
Vario de fala, como de letra.

ROSINHA
Imitarás o sotaque espanhol?

BENTO
Como quem bebe um copo d’água!

ROSINHA
Silêncio! Ali está o Sr. Durval.

Cena V

ROSINHA, BENTO, DURVAL

DURVAL
(a Bento)
Trouxeste a caixa, palerma?

BENTO
(escondendo atrás das costas o ramalhete)
Sim, senhor.

DURVAL
Traz a carruagem para o portão

BENTO
Sim senhor. (Durval vai vestir o sobretudo, mirando-se ao espelho) O jornal? Onde pus eu o jornal? (sentindo-o no bolso) Ah!...

ROSINHA
(baixo a Bento)
Não passes na sala de espera. (Bento sai)

Cena VI

DURVAL, ROSINHA

DURVAL
Adeus, Rosinha, é preciso que eu me retire.

ROSINHA
(à parte)
Pois não!

DURVAL
Dá essa caixa a tua ama.

ROSINHA
Vai sempre ao baile com ela?

DURVAL
Ao baile? Então abriste caixa?

ROSINHA
Não vale a pena falar nisso. Já sei, já sei que foi recebido de braços abertos.

DURVAL
Exatamente. Era a ovelha que voltava ao aprisco depois de dois anos de apartamento.

ROSINHA
Já vê que andar longe não é mau. A volta é sempre um triunfo. Use, abuse mesmo da receita. Mas então sempre vai ao baile?

DURVAL
Nada sei de positivo. As mulheres são como os logogrifos. O espírito se perde no meio daquelas combinações...

ROSINHA
Fastidiosas, seja franco.

DURVAL
É um aleive: não é esse o meu pensamento. Contudo devo, parece-me dever crer, que ela irá. Como me alegra, e me entusiasma esta preferência que me dá a bela Sofia!

ROSINHA
Preferência? Há engano: preferir supõe escolha, supõe concorrência...

DURVAL
E então?

ROSINHA
E então, se ela vai ao baile é unicamente pelos seus bonitos olhos, se não fora V. S., ela não ia.

DURVAL
Como é isso?

ROSINHA
(indo ao espelho)
Mire-se neste espelho.

DURVAL
Aqui me tens

ROSINHA
O que vê nele?

DURVAL
Boa pergunta! Vejo-me a mim próprio.

ROSINHA
Pois bem. Está vendo toda a corte da Sra. Sofia, todos os seus adoradores.

DURVAL
Todos! Não é possível. Há dois anos a bela senhora era a flor bafejada por uma legião de zéfiros... Não é possível.

ROSINHA
Parece-me criança! Algum dia os zéfiros foram estacionários? Os zéfiros passam e mais nada. É. o símbolo do amor moderno.

DURVAL
E a flor fica no hastil. Mas as flores duram uma manhã apenas. (severo) Quererás tu dizer que Sofia passou a manhã das flores?

ROSINHA
Ora, isso é loucura. Eu disse isto?

DURVAL
(pondo a bengala junto ao piano)
Parece-me entretanto...

ROSINHA
V. S. tem uma natureza de sensitiva; por outra, toma os recados na escada. Acredite ou não, o que lhe digo é a pura verdade. Não vá pensar que o afirmo assim para conservá-lo junto de mim: estimara mais o contrário.

DURVAL
(sentando-se)
Talvez queiras fazer crer que Sofia é alguma fruta passada, ou jóia esquecida no fundo da gaveta por não estar em moda. Estais enganada. Acabo de vê-la; acho-lhe ainda o mesmo rosto: vinte e oito anos, apenas.

ROSINHA
Acredito.

DURVAL
É ainda a mesma: deliciosa.

ROSINHA
Não sei se ela lhe esconde algum segredo.

DURVAL
Nenhum.

ROSINHA
Pois esconde. Ainda lhe não mostrou a certidão de batismo. (vai sentar-se ao lado oposto)

DURVAL
Rosinha! E depois, que me importa? Ela é ainda aquele querubim do passado. Tem uma cintura... que cintura!

ROSINHA
É verdade. Os meus dedos que o digam!

DURVAL
Hein? E o corado daquelas faces, o alvo daquele colo, o preto daquelas sobrancelhas?

ROSINHA
(levantando-se)
Ilusão! Tudo isso é tabuleta do Desmarais; aquela cabeça passa pelas minhas mãos. É uma beleza de pó de arroz: mais nada.

DURVAL
(levantando-se bruscamente)
Oh! Essa agora!

ROSINHA
(à parte)
A pobre senhora está morta!

DURVAL
Mas, que diabo! Não é um caso de me lastimar; não tenho razão disso. O tempo corre para todos, e portanto a mesma onda nos levou a ambos folhagens da mocidade. E depois eu amo aquela engraçada mulher!

ROSINHA
Reciprocidade; ela também o ama.

DURVAL
(com um grande prazer)
Ah!

ROSINHA
Duas vezes chegou à estação do campo para tomar o wagon, mas duas vezes voltou para casa. Temia algum desastre da maldita estrada de ferro!

DURVAL
Que amor! Só recuou diante da estrada de ferro!

ROSINHA
Eu tenho um livro de notas, donde talvez lhe possa tirar provas do amor da Sra. Sofia. É uma lista cronológica e alfabética dos colibris que por aqui têm esvoaçado.

DURVAL
Abre lá isso então!

ROSINHA
(folheando um livro)
Vou procurar.

DURVAL
Tem aí todas as letras?

ROSINHA
Todas. É pouco agradável para V. S.; mas tem todas desde A até o Z.

DURVAL
Desejara saber quem foi a letra K.

ROSINHA
É fácil; algum alemão.

DURVAL
Ah! Ela também cultiva os alemães?

ROSINHA
Durval é a letra D. — Ah! Ei-lo: (lendo) “Durval, quarenta e oito anos de idade...”

DURVAL
Engano! Não tenho mais de quarenta e seis.

ROSINHA
Mas esta nota foi escrita há dois anos.

DURVAL
Razão demais. Se tenho hoje quarenta e seis, há dois tinha quarenta e quatro... e claro!

ROSINHA
Nada. Há dois anos devia ter cinqüenta.

DURVAL
Esta mulher é um logogrifo!

ROSINHA
V. S. chegou a um período em sua vida em que a mocidade começa a voltar; em cada ano, são doze meses de verdura que voltam como andorinhas na primavera.

DURVAL
Já me cheirava a epigrama. Mas vamos adiante com isso.

ROSINHA
(fechando o livro)
Bom! Já sei onde estão as provas. (vai a uma gaveta e tira dela uma carta) Ouça: — "Querida Amélia...

DURVAL
Que é isso?

ROSINHA
Uma carta da ama a uma sua amiga. "Querida Amélia: o Sr. Durval é um homem interessante, rico, amável, manso como um cordeiro, e submisso como o meu Cupido..." (a Durval) Cupido é um cão d'água que ela tem.

DURVAL
A comparação é grotesca na forma, mas exata no fundo. Continua, rapariga.

ROSINHA
(lendo)
“Acho-lhe contudo alguns defeitos...

DURVAL
Defeitos?

ROSINHA
“Certas maneiras, certos ridículos, pouco espírito, muito falatório, mas afinal um marido com todas as virtudes necessárias...

DURVAL
É demais

ROSINHA
“Quando eu conseguir isso, peço-te que venhas vê-lo como um urso na chácara do Souto.

DURVAL
Um urso!

ROSINHA
(lendo)
"Esquecia-me de dizer-te que o Sr. Durval usa de cabeleira." (fecha a carta)

DURVAL
Cabeleira! É uma calúnia! Uma calúnia atroz! (levando a mão ao meio da cabeça, que está calva) Se eu usasse de cabeleira...

ROSINHA
Tinha cabelos, é claro.

DURVAL
(passeando com agitação)
Cabeleira! E depois fazer-me seu urso como um marido na chácara do Souto.

ROSINHA
(às gargalhadas)
Ah! ah! ah! (vai-se pelo fundo)

Cena VII

DURVAL
(passeando)
É demais! E então quem fala! uma mulher que tem umas faces... Oh! é o cúmulo da impudência! É aquela mulher furta-cor, aquele arco-íris que tem a liberdade de zombar de mim!... (procurando) Rosinha! Ah! foi-se embora... (sentando-se) Oh! Se eu me tivesse conservado na roça, ao menos lá não teria dessas apoquentações!...Aqui na cidade, o prazer é misturado com zangas de acabrunhar o espírito mais superior! Nada! (levanta-se) Decididamente volto para lá... Entretanto, cheguei há pouco... Não sei se deva ir; seria dar cavaco com aquela mulher; e eu... Que fazer? Não sei, deveras!

Cena VIII

DURVAL e BENTO (de paletó, chapéu de palha, sem botas)

BENTO
(mudando a voz)
Para a Sra. Rosinha. (põe o ramalhete sobre a mesa)

DURVAL
Está entregue.

BENTO
(à parte)
Não me conhece! Ainda bem.

DURVAL
Está entregue.

BENTO
Sim, senhor! (sai pelo fundo)

Cena IX

DURVAL
(só, indo buscar o ramalhete)
Ah!ah!flores! A Sra. Rosinha tem quem lhe mande flores! Algum boleeiro estúpido. Estas mulhe res são de um gosto esquisito às vezes! — Mas como isto cheira! Dir-se-ia um presente de fidalgo! (vendo a cartinha) Oh! que é isto? Um bilhete de amores! E como cheira! Não conheço esta letra; o talho é rasga do e firme, como de quem desdenha. (levando a cartinha ao nariz) Essência de violeta, creio eu. É uma planta obscura, que também tem os seus satélites. Todos os têm. Esta cartinha é um belo assunto para uma dissertação filosófica e social. Com efeito: quem diria que esta moça, colocada tão baixo, teria bilhetes perfumados!... (leva ao nariz) Decidida mente é essência de magnólias!

Cena X

ROSINHA (no fundo) DURVAL (no proscênio)

ROSINHA
(consigo)
Muito bem! Lá foi ela visitar a sua amiga no Botafogo. Estou completamente livre. (desce)

DURVAL
(escondendo a carta)
Ah! és tu? Quem te manda destes presentes?

ROSINHA
Mais um. Dê-me a carta.

DURVAL
A carta? É boa! é coisa que não vi.

ROSINHA
Ora não brinque! Devia trazer uma carta. Não vê que um ramalhete de flores é um estafeta mais segu ro do que o correio da corte!

DURVAL
(dando-lhe a carta)
Aqui a tens; não é possível mentir.

ROSINHA
Então! (lê o bilhete)

DURVAL
Quem é o feliz mortal?

ROSINHA
Curioso!

DURVAL
É moço ainda?

ROSINHA
Diga-me: é muito longe daqui a sua roça?

DURVAL
É rico, é bonito?

ROSINHA
Dista muito da última estação?

DURVAL
Não me ouves, Rosinha?

ROSINHA
Se o ouço! É curioso, e vou satisfazer-lhe a curio sidade. É rico, é moço e é bonito. Está satisfeito?

DURVAL
Deveras! E chama-se?...

ROSINHA
Chama-se... Ora eu não me estou confessando!

DURVAL
És encantadora!

ROSINHA
Isso é velho. E o que me dizem os homens e os espelhos. Nem uns nem outros mentem.

DURVAL
Sempre graciosa!

ROSINHA
Se eu o acreditar, arrisca-se a perder a liberda de... tomando uma capa...

DURVAL
De marido, queres dizer (à parte) ou de um urso! (alto) Não tenho medo disso. Bem vês a alta posição... e depois eu prefiro apreciar-te as qualidades de fora. Talvez leve a minha amabilidade a fazer-te um madrigal.

ROSINHA
Ora essa!

DURVAL
Mas, fora com tanto tagarelar! Olha cá! Eu estou disposto a perdoar aquela carta; Sofia vem sempre ao baile?

ROSINHA
Tanto como o imperador dos turcos... Recusa.

DURVAL
Recusa! É o cúmulo da... E por que recusa?

ROSINHA
Eu sei lá! Talvez um nervoso; não sei!

DURVAL
Recusa! Não faz mal... Não quer vir, tanto melhor! Tudo está acabado, Sra. Sofia de Melo! Nem uma atenção ao menos comigo, que vim da roça por sua causa unicamente! Recebe-me com agrado, e depois faz-me destas!

ROSINHA
Boa noite, Sr. Durval.

DURVAL
Não te vás assim; conversemos ainda um pedaço.

ROSINHA
Às onze horas e meia... interessante conversa!

DURVAL
(sentando-se)
Ora que tem isso? Não são horas que fazem a conversa interessante, mas os interlocutores.

ROSINHA
Ora tenha a bondade de não dirigir cumprimentos.

DURVAL
Mal sabes que tens as mãos, como as de uma patrícia romana; parecem calçadas de luva, se é que uma luva pode ter estas veias azuis como rajadas de mármore.

ROSINHA
(à parte)
Ah! Hein!

DURVAL
E esses olhos de Helena!

ROSINHA
Ora!

DURVAL
E estes bravos de Cleópatra!

ROSINHA
(à parte)
Bonito!

DURVAL
Apre! Queres que esgote a história?

ROSINHA
Oh! não!

DURVAL
Então por que se recolhe tão cedo a estrela d'alva?

ROSINHA
Não tenho outra coisa a fazer diante do sol.

DURVAL
Ainda um cumprimento! (vai à caixa de papelão) Olha cá. Sabes o que há aqui? um dominó.

ROSINHA
(aproximando-se)
Cor-de-rosa! Ora vista, há de ficar-lhe bem.

DURVAL
Dizia um célebre grego: dê-me pancadas, mas ouça-me! — Parodio aquele dito: — Ri, graceja, como quiseres, mas hás de escutar-me: (desdobrando o do minó) não achas bonito?

ROSINHA
(aproximando-se)
Oh! decerto!

DURVAL
Parece que foi feito para ti!... É da mesma altura. E como te há de ficar! Ora, experimenta!

ROSINHA
Obrigado.

DURVAL
Ora vamos! experimenta; não custa.

ROSINHA
Vá feito se é só para experimentar.

DURVAL
(vestindo-lhe o dominó)
Primeira manga.

ROSINHA
E segunda! (veste-o de todo)

DURVAL
Delicioso. Mira-te naquele espelho. (Rosinha obedece) Então!

ROSINHA
(passeando)
Fica-me bem?

DURVAL
(seguindo-a)
A matar! a matar! (à parte) A minha vingança começa, Sra. Sofia de melo! (a Rosinha) Estás esplêndida! Deixa dar-te um beijo?

ROSINHA
Tenha mão.

DURVAL
Isso agora é que não tem grata!

ROSINHA
Em que oceano de fitas e de sedas estou mergulhada! (dá meia-noite) Meia-noite!

DURVAL
Meia-noite!

ROSINHA
Vou tirar o dominó... é pena!

DURVAL
Qual tirá-lo! Fica com ele. (pega no chapéu e nas luvas)

ROSINHA
Não é possível.

DURVAL
Vamos ao baile mascarado.

ROSINHA
(à parte)
Enfim. (alto) Infelizmente não posso.

DURVAL
Não pode? e então por quê?

ROSINHA
É segredo.

DURVAL
Recusas? Não sabes o que é um baile. Vais ficar extasiada. E um mundo fantástico, ébrio, movediço, que corre, que salta, que ri, em um turbilhão de harmonias extravagantes!

ROSINHA
Não posso ir. (batem à porta) [à parte] É Bento.

DURVAL
Quem será?

ROSINHA
Não sei. (indo ao fundo) Quem bate?

BENTO
(fora com a voz contrafeita)
O hidalgo Don Alonso da Sylveira y Zorrilla y Guclines y Guatinara y Marouflas de la Vega !

DURVAL
(Assustado)
É um batalhão que temos à porta! A Espanha muda-se para cá?

ROSINHA
Caluda! Não sabe quem está ali? É um fidalgo da primeira nobreza de Espanha. Fala à rainha de chapéu na cabeça.

DURVAL
E que quer ele?

ROSINHA
A resposta daquele ramalhete.

DURVAL
(dando um pulo)
Ah! Foi ele...

ROSINHA
Silêncio!

BENTO
(fora)
É meia-noite. O baile vai começar.

ROSINHA
Espere um momento.

DURVAL
Que espere! Mando-o embora. (à parte) É um fidalgo!

ROSINHA
Mandá-lo embora? Pelo contrário; vou mudar de dominó e partir com ele.

DURVAL
Não, não; não faças isso!

BENTO
(fora)
É meio-noite e cinco minutos. Abre a porta a quem deve ser teu marido.

DURVAL
Teu marido!

ROSINHA
E então!

BENTO
Abre! abre!

DURVAL
É demais! Estás com o meu dominó... hás de ir comigo ao baile!

ROSINHA
Não é possível; não se trata a um fidalgo espanhol como a um cão. Devo ir com ele.

DURVAL
Não quero que vás.

ROSINHA
Hei de ir.(dispõe-se a tirar o dominó) Tome lá...

DURVAL
(impedindo-a)
Rosinha, ele é um espanhol, e além de espanhol, fidalgo. Repara que é uma dupla cruz com que tens de carregar.

ROSINHA
Qual cruz! E não se casa ele comigo?

DURVAL
Não caias nessa!

BENTO
(fora)
Meia-noite e dez minutos! então vem ou não vem?

ROSINHA
Lá vou. (a Durval) Vê como se impacienta! Tudo aquilo é amor!

DURVAL
(com explosão)
Amor! E se eu te desse em troca daquele amor castelhano, um amor brasileiro ardente e apaixona do? Sim, eu te amo, Rosinha; deixa esse espanhol tresloucado!

ROSINHA
Sr. Durval!

DURVAL
Então, decide!

ROSINHA
Não grite! Aquilo é mais forte do que um tigre de Bengala.

DURVAL
Deixa-o; eu matei as onças do Maranhão e já estou acostumado com esses animais. Então? Vamos! Eis-me a teus pés, ofereço-te a minha mão e a minha fortuna!

ROSINHA
(à parte)
Ah... (alto) Mas o fidalgo?

BENTO
(fora)
É meia-noite e doze minutos!

DURVAL
Manda-o embora, ou senão, espera. (levanta-se) Vou matá-lo; é o meio mais pronto.

ROSINHA
Não, não; evitemos a morte. Para não ver correr sangue, aceito a sua proposta.

DURVAL
(com regozijo)
Venci o castelhano! É um magnífico triunfo! Vem, minha bela; o baile nos espera!

ROSINHA
Vamos. Mas repare na enormidade do sacrifício.

DURVAL
Serás compensada, Rosinha. Que linda peça de entrada! (à parte) São dois os enganados — o fidalgo e Sofia (alto) Ah! ah! ah!

ROSINHA
(rindo também)
Ah! Ah! Ah! (à parte) Eis-me vingada!

DURVAL
Silêncio! (vão pé ante pela porta da esquerda. Sai Rosinha primeiro, e Durval, da soleira da porta para a porta do fundo, a rir às gargalhadas)

Cena última

BENTO
(abrindo a porta do fundo)
Ninguém mais! Desempenhei o meu papel: estou contente! Aquela subiu um degrau na sociedade. Deverei ficar assim? Alguma baronesa não me desdenharia decerto. Virei mais tarde. Por enquanto, vou abrir a portinhola. (vai a sair e cai o pano)

FIM

Fonte:
Teatro de Machado de Assis, org. de João Roberto Faria, São Paulo: Martins Fontes, 2003.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

August Strindberg (O Sonho)



Drama

Em abril de 1907, O Sonho foi encenado pela primeira vez.

A peça começou a ser escrita no outono de 1901, quando Strindberg casou-se com Harried Bosse. Pouco tempo depois Harried o abandonou, levando consigo o sonho da felicidade matrimonial. Sofrendo sozinho por quarenta dias, Strindberg concluiu que a vida é uma ilusão na qual se é incapaz de realizar os sonhos. A peça foi concluída no final desse mesmo ano.

O título, A Dream Play, traduzido como O Sonho também pode ser entendido como “Uma Peça de Sonho” ou “Uma peça que sonhei”, isto é, o drama que o autor idealizou. Strindberg, inclusive, refere-se à obra como “minha peça mais querida, filha de minha melhor dor”.

O tema inicial da peça girava em torno da história de um homem que esperava por sua noiva num teatro. A espera era em vão, pois ela nunca chegaria. O foco, porém, passou para o que antes era apenas um “sub-enredo”: a personagem principal agora era a filha de Indra, que veio à terra para compartilhar as agonias da existência humana.

O Sonho é talvez o primeiro drama a conter o universo onírico como realidade, como gênero em si. Peças tradicionais já haviam incorporado cenas ilustrando sonhos ou pesadelos, mas nenhuma se baseou inteiramente nisso. Deste modo, Strindberg abandonou a percepção convencional de tempo e espaço. Segundo suas próprias palavras, “o autor atentou para a figura inconseqüente do sonho. Tudo pode acontecer, tudo é possível e provável. Tempo e lugar não existem; numa base insignificante de realidade, a imaginação gira, modelando novos padrões; há a mistura de memórias, experiências, livres fantasias, incongrutitudes e improvisações. As personagens se duplicam, se multiplicam, se separam, evaporam, condensam, dispersam, reúnem. Mas uma percepção governa sobre todas elas : para o sonhador não há segredos, escrúpulos, leis. O sonho não absolve ou justifica condenações, somente as relata. Tal como no sonho é mais freqüente o sofrimento que a felicidade, esse conto bruxuleante é acompanhado de uma dose de melancolia e compaixão por todos os seres humanos.” À frente de seu tempo, Strindberg baseava-se em filosofias orientais para justificar sua crença de que o mundo é apenas ilusão.

Estreando “O sonho” no teatro, o autor fez algumas anotações em seu diário. De acordo com elas, “o amor é um pecado e sua dor é o melhor inferno que existe. Se o mundo existe, existe através do pecado (do amor, das relações carnais, de Maya), e por isso é apenas um sonho, uma ilusão. Assim se justifica a minha peça do sonho (“my dream play”) ser uma fotografia da vida. Esse mundo, o sonho, é um fantasma cuja destruição é a missão dos ascetas (aqueles que negaram a carne e vivem do espírito). Mas tal missão entra em conflito com o instinto do amor, que oscila entre a sensualidade e o sofrimento trazido pelo remorso (a culpa cristã que também se instalou nos ascetas). Isso me parece a resposta para o enigma da vida... Todo dia eu leio o Budismo.”.

Fonte:
http://www.opalco.com.br

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Teatro de Ontem e de Sempre

Da esquerda para a direita: Eugênio Kusnet (Capitão MacLean),
Milton Moraes (Capitão Fisby) e Fregoilente (Cel. Purdy III)

A Casa de Chá do Luar de Agosto

20/ 2/ 1956 - São Paulo/SP
Teatro Brasileiro de Comédia

Primeira encenação de Maurice Vaneau para o Teatro Brasileiro de Comédia, grande sucesso de crítica e público.

A peça de John Patrick é simples, bem construída e gira em torno de um tema exótico e momentoso: a ocupação militar do Japão, logo após a Guerra. Transformada em filme hollywoodiano de sucesso, presta-se a tratar com graça um tema que poderia ser espinhoso.

Dois militares norte-americanos são destacados pelo Pentágono para instalar uma escola na ilha de Tobiki mas, diante da resistência passiva dos nativos, acabam sendo levados a abrir uma casa de chá e a explorar a aguardente local. Furioso, o coronel Purdy manda destruir tudo. Mas, através de uma contra-ordem do Pentágono, a iniciativa é louvada como incentivo ao livre comércio e tanto a casa de chá quanto a destilaria são imediatamente recuperadas pelos tobikineses, terminando tudo em clima festivo.

O encenador Maurice Vaneau conduz sua numerosa equipe com garra e sensibilidade para a comédia, num rumo acertado, valorizando as interpretações e os momentos de humor do texto. Os cenários de Mauro Francini aliam-se à beleza dos figurinos de Clara Heteny, envolvendo um elenco em que ganham destaque: Ítalo Rossi, no papel de Sakini, o mestre-de-cerimônias; Mauro Mendonça, Ambrósio Fregolente, Milton Moraes, Eugênio Kusnet, Nathália Timberg, Erika Falken, Célia Biar, Oscar Felipe, além de numerosos figurantes.

Miroel Silveira, crítico nem sempre favorável ao TBC, comenta: "A Casa de Chá do Luar de Agosto se inscreve entre as melhores encenações do TBC, em todos os tempos, ao nível de suas mais perfeitas realizações. (...) A força do espetáculo, aclamado diariamente desde sua primeira apresentação, reside apenas no texto e na maneira rigorosa pela qual é executada a vontade da direção. Uma peça de conjunto, um espetáculo inteiramente de equipe, como deve ser e é o teatro realmente bom".1

Notas
1. SILVEIRA, Miroel. "A revelação de Vaneau", In A outra crítica. São Paulo. Editora Simbolo: 1976, p. 188.
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Carlos Cotrin (Charley), Paulo Monte (Happy), Roberto Duval (Biff),
Silvio Soldi (Bernard) e Norma de Andrade (Linda)
A Morte do Caixeiro Viajante
1951 - Rio de Janeiro/RJ
Teatro Glória

Uma obra-prima do realismo psicológico de Arthur Miller, A Morte do Caixeiro Viajante, de Arthur Miller, é encenada pela companhia de Jaime Costa, expoente de atores-empresários que constroem o espetáculo em torno do próprio carisma, apostando na espontaneidade de seu trabalho e em seu talento nato, desenvolvido no embate com as platéias.
A peça enfoca o personagem Willy Loman, esmagado por um drama de ordem social e outro de origem familiar, que o levam a uma trajetória descendente até o suicídio. O velho caixeiro viajante, criado num mundo em que a amizade se sobrepunha às regras econômicas, vê seus valores perderem lugar justamente no momento em que, desempregado, procura ajuda. No âmbito pessoal, a trama se adensa quando o filho o flagra com uma amante, gerando o bloqueio das relações entre ambos. Arthur Miller propõe uma crítica social ao mesmo tempo que constrói sua história sobre um conflito psicológico e moral. Trata-se, no fundo, de um conflito de Willy consigo mesmo, entre o que ele é e o que imagina ser.
O texto propõe dois planos de ação: aquele que mostra na vida presente de Willy Loman e aquele que dá conta de sua imaginação. O programa da peça esclarece que, por esse motivo, o autor sintetiza sua obra como "conversações íntimas em três atos". A interpretação de Jaime Costa merece entusiasmados elogios da crítica. Jota Efegê escreve:
"Várias vezes criticamos nesta coluna a displicência com que Jaime Costa nos apresentava muitos dos seus papéis, arrancando da primeira à última cena todas as falas no 'ponto'. E, agora, aqui estamos para louvar a correção com que ele fez a figura de Willy Loman pondo nela todo o seu vigor de intérprete, tornando-se, verdadeiramente, magistral".1
O sopro da modernidade que se vinha fazendo sentir em diversas montagens desde os primeiros anos da década de 1940 chegava até a platéia do velho teatro brasileiro, como prova uma advertência da companhia no programa do espetáculo. Sob o título de "Este Teatro Não Tem Claque" lê-se em texto assinado por Jaime Costa:
"Abolir a claque é moralizar o teatro. Só o aplauso espontâneo tem valor e conforta o artista. Se gostar do espetáculo, aplauda. Se não gostar, vaie ou silencie. Qualquer manifestação será por nós respeitosamente acatada".2
No programa, o crédito ao trabalho de Esther Leão está dividido entre direção e mise en scène, termo emprestado do francês e usado na época para definir as opções de encenação, ainda encaradas como novidade, contra o uso antigo da função do diretor, mais ligado ao ensaiador e ao coordenador do elenco. No entanto, Décio de Almeida Prado observa que: "Ester Leão praticamente não dirigiu a peça, no sentido de orientação psicológica dos atores: cada um está como sempre esteve, com as qualidades e vícios já conhecidos, com as inflexões e gestos de costume, Jaime Costa representando para o papel, para a peça, comovendo pela evidente sinceridade, os outros representando para o público".3
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Notas
1. EFEGÊ, Jota. 'A Morte do Caixeiro Viajante'. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 8 ago. 1951.
2. COSTA, JAIME. Este Teatro Não Tem Claque. In: A MORTE DO CAIXEIRO VIAJANTE. Direção Esther Leão; texto Jaime Costa. Rio de Janeiro, 1948. 1 folder. Programa do espetáculo, apresentado no Teatro Glória em 1948.
3. PRADO, Décio de Almeida. Apresentação do teatro brasileiro moderno. São Paulo: Perspectiva, 2001, p. 170.
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Fonte:
http://www.itaucultural.org.br/

Teatro Épico



O teatro épico é produto do forte desenvolvimento teatral na Rússia, após a Revolução Russa de 1917, e na Alemanha, durante o período da República de Weimar, tendo como seus principais iniciadores o diretor russo Meyerhold e o diretor teatral alemão Erwin Piscator. Nesse tempo, as cenas épicas alemãs recebiam o nome de cena Piscator, dado o extensivo uso de cartazes e projeções de filmes nas peças dirigidas por Piscator. No entanto, o grande propagandista do teatro épico foi Bertolt Brecht.

Embora elementos da linguagem épica existam no teatro desde os seus primórdios, o Teatro Épico surge com o trabalho prático e teórico de Bertolt Brecht. Trata-se do resgate de um termo antigo para conceituar uma nova linguagem cênica. Essa é substancialmente organizada a partir de textos que abordam os conflitos sociais sob uma leitura marxista, encenados pelo método do Distanciamento.

Bertolt Brecht aprofunda seus primeiros escritos sobre o teatro épico no prefácio à montagem de Ascenção e Queda da Cidade de Mahagonny (Aufstieg und Fall der Stadt Mahagonny, em alemão). Mahagonny é uma sátira política em forma de ópera, com músicas de Kurt Weill e texto de Bertolt Brecht, cuja estréia ocorreu em Leipzig, em 9 de março de 1930, e depois em Berlim, em dezembro de 1931.

No prefácio a esta ópera, Brecht monta um quadro comparativo sobre as diferenças entre o teatro dramático e o teatro épico, destacando que eles não são antagônicos. Isso pode ser comprovado em algumas de suas peças posteriores, nas quais o dramático predomina, como em Os Fuzis da Senhora Carrar.

Ao longo do seu exílio, no período nazi-fascista da Alemanha e na II Guerra Mundial, ele aprofunda suas teses sobre o teatro épico, que, segundo Brecht, teria em Charles Chaplin um modelo de interpretação épica, com sua personagem Carlitos.

O próprio Brecht afirma que sempre existiu teatro épico, seja na intervenção do coro no teatro da Grécia Clássica, seja na Ópera Chinesa, e até mesmo no Dadaísmo, conforme tese bastante desenvolvida por Anatol Rosenfeld em seu Teatro Épico.

O teatro épico consiste em uma forma de composição teatral que polemiza com as unidades de ação, espaço e tempo e com as teorias de linearidade e uniformidade do drama, fundamentadas em determinada compreensão da Poética de Aristóteles elaborada na França renascentista. A catarse perde seu espaço na concepção teatral épica. Não cabe envolver o espectador em uma manta emocional de identidade com o personagem e fazê-lo sentir o drama como algo real, mas sim despertá-lo como um ser social. Segundo Brecht, a catarse torna o homem passivo em relação ao mundo e o ideal é transformá-lo em alguém capaz de enxergar que os valores que regem o mundo podem e devem ser modificados.

Efeito V

Um dos pressupostos do teatro épico é o efeito de distanciamento ou de estranhamento (Verfremdungseffekt ou V-Effekt, em alemão) por parte do espectador. O ator não busca identificação plena com a personagem. O cenário expõe toda sua estrutura técnica, deixando claro que aquilo é teatro, e não a realidade. O enredo se desenvolve sem um encadeamento linear cronológico entre as cenas, de modo a poder misturar presente e passado, procurando evitar o envolvimento do ator e do espectador na trama, sempre com o intuito de provocar a reflexão e de despertar uma visão crítica do que se passa, sem levar ao desfecho dramático e natural. "Estranhar tudo que é visto como natural", segundo Brecht.

Teatro épico e teatro dramático

Em 1930, no prefácio de Ascenção e Queda da Cidade de Mahagonny, Brecht desenvolve seu entendimento sobre o teatro épico, descrevendo 18 distinções entre a forma épica e a forma dramática. Ressalta, porém, que esse esquema não pretende impor contraposições absolutas, mas somente "deslocamentos de acentuações". Assim, Brecht destaca que, dentro de um processo de comunicação, pode-se dar preferência ao que se sugere por via do sentimento (dramático) ou ao que se persuade através da razão (épico).

Definindo o fundamental de sua poética, Brecht afirma que, no teatro, há que se renunciar a tudo que pretenda provocar uma tentativa de hipnose e que pretenda provocar êxtase e obnubilação.

Brecht defende que se deve conceder à música, como parte da cena, maior independência, propondo que ela comente o texto e tome posição dentro da obra, não apenas como forma de realce do texto, ilustração ou formadora de uma situação psicológica da cena.

O Teatro Épico no Brasil

A primeira montagem de um texto de Brecht no Brasil ocorre na Escola de Arte Dramática - EAD, com A Exceção e A Regra, em 1956. A primeira encenação profissional dá-se com A Alma Boa de Set-Suan, 1958, pelo Teatro Maria Della Costa - TMDC. Seguem-se Os Fuzis da Senhora Carrar, 1962, pelo Teatro de Arena, O Círculo de Giz Caucasiano, 1963, pelo Teatro Nacional de Comédia - TNC, e A Ópera dos Três Vinténs, 1964, pelo Teatro Ruth Escobar.

O Teatro Épico utiliza uma série de instrumentais diretamente ligados à técnica narrativa do espetáculo, onde os mais significativos são: a comunicação direta entre ator e público, a música como comentário da ação, a ruptura de tempo-espaço entre as cenas, a exposição do urdimento, das coxias e do aparato cenotécnico, o posicionamento do ator como um crítico das ações da personagem que interpreta, e como um agente da história. Tais ingredientes estão em algumas importantes montagens dos anos 60. Os espetáculos Arena Conta Zumbi e Arena Conta Tiradentes, por exemplo, inauguram o sistema coringa, desenvolvido por Augusto Boal no Teatro de Arena, onde as soluções brechtianas são aclimatadas e empregadas em indisfarçável chave brasileira. A existência de um narrador distanciado (o coringa) opõe-se à existência do protagonista (criado à maneira realista) e o coro (que pode ora pender para um lado, ora para outro). O emprego da música como comentário, a constante troca de papéis entre os atores e os saltos no desenvolvimento da trama são alguns dos recursos mais utilizados.

O Teatro Oficina realiza encenações históricas de textos de Brecht: Galileu Galilei, em 1968, alterna cenas efetivadas ao estilo brechtiano mais ortodoxo com a cena do carnaval em Veneza, onde recursos tropicalistas surgem com desenvoltura. Na Selva das Cidades, em 1969, texto do autor prévio à teorização épica é, entretanto, encenado como uma arqueologia da cultura contemporânea, perpassado na violência dos conflitos urbanos, criando inúmeras conexões com a contracultura e o pós-tropicalismo. José Celso Martinez Corrêa, diretor das duas encenações, declara ao jornal O Estado de S. Paulo, anos antes: "O teatro épico, tendo um caráter demonstrativo, usa muitos elementos visuais e não só literários, o que o torna mais comunicativo para o público moderno, acostumado ao cinema e à tevê. O teatro épico é gostoso como um filme" (CORREA, José Celso Martinez, 22 jan. 1966). Em visita ao Berliner Ensemble, companhia fundada por Brecht na Alemanha, José Celso descobre o humor da atriz Helena Weigel e da linguagem do grupo.

Nos anos 70, o conjunto das propostas brechtianas passa por um redimensionamento entre os grupos brasileiros. O Pessoal do Cabaré, que desenvolve uma linguagem própria, promove uma reimpostação do teatro épico e também do sistema coringa. Valoriza-se o conjunto do grupo como autor e a especificidade de cada integrante: os atores cantam, tocam e falam de si. Não é mais o teatro épico brechtiano - mas guarda, dessa descendência, a teatralidade como o prazer de ser e se mostrar como teatro. Essa consciência de si não pode mais ser ignorada: o teatro puramente dramático está, ao que parece, enterrado.

O Teatro do Ornitorrinco, nos anos 70 e 80 em São Paulo, sob a liderança de Cacá Rosset e Luiz Roberto Galízia, realiza um amplo trabalho sobre Brecht. Desde um recital de poemas e canções como Ornitorrinco Canta Brecht até a encenação de Mahagonny Songspiel, uma versão curta e bastante livre da ópera originalmente criada pelo dramaturgo e Kurt Weill. Ubu, Folias Physicas, Pataphysicas e Musicaes é um espetáculo inteiramente brechtiano, lido pelo ângulo cáustico do deboche, da irreverência e do humor negro.

Na década de 90, o dramaturgo Luís Alberto de Abreu desenvolve uma sólida atualização dos conceitos e técnicas brechtianas a partir de um projeto de investigação de uma nova Comédia Popular Brasileira. Junto ao diretor Ednaldo Freire e a Fraternal Companhia de Arte e Malas-Artes, encenam uma série de comédias escritas por Abreu, destinadas, originalmente, a um circuito de trabalhadores e sindicatos.

Também nos anos 90, a crise de dramaturgia, que na década anterior levara os encenadores a mergulhar nos clássicos, dá origem a uma proliferação de montagens realizadas a partir de contos e romances. Em A Mulher Carioca aos 22 Anos, realização exemplar nesse sentido, Aderbal Freire Filho encena na íntegra uma obra de João de Minas, fazendo as personagens assumirem as falas do narrador. A quebra da identificação entre o intérprete e seu papel e a assimilação, explícita ou não, da figura do narrador, permite um outro desdobramento do teatro épico que deixa de ser um mero recurso para se tornar opção de linguagem: a montagem de uma peça com muitos personagens por um elenco reduzido, o que obriga o diretor a lançar mão de signos-chaves para identificar os personagens. Não é mais o gestus brechtiano - mas recria a desvinculação ator/personagem.

Fontes:
http://www.itaucultural.org.br/
http://pt.wikipedia.org

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Carlos Leite Ribeiro (A Lei da Vida)

A Lei da Vida, é um conto que teve adaptação radiofónica, e com assinalado êxito em Marinha Grande, Portugal.

(A cena passasse numa rua e numa casa modesta da Marinha Grande)

Padre – Bom dia Doutor!

Doutor – Bom dia, padre Henrique. Por cá tão cedo?

Padre – Passei por aqui perto e quis saber qual a situação clínica do nosso querido amigo José Mateus, a que muito chamam “o Inventor”.

Doutor – O que é que quer que lhe diga, padre Henrique ?

Padre – A verdade, pois esta, apesar de ser muitas vezes cruel aos nossos olhos, deve ser sempre dita.

Doutor – Será vontade de Deus ?

Padre – Como lhe queira chamar, doutor ...

2ª Pers. – A situação clínica do sr. José Mateus, tem muito a ver com a sua idade, com o seu desgaste natural ...

Padre – Só?...

Doutor – E mais um problema cardiovascular, que se está a agravar.

Padre – Quer então o doutor dizer que o caso apresenta-se muito complicado, não é ?

Doutor – Dir-lhe-ei mesmo mais do que isso – apresenta-se muito crítico.

Padre – Pobre amigo, José Mateus ! Bem, é a LEI DA VIDA – quem nasce tem de morrer.

Doutor – Nós, os cá da terra, nestes casos, pouco ou nada podemos fazer ...

Padre – O filho, o sr. Engº. Hugo Mateus, já foi avisado?

Doutor – Ontem, tentei entrar em contacto com ele. Mas não se encontrava em casa, pois, tinha ido a Espanha tratar de uns assuntos da empresa que dirige, no norte. Mandei há pouco a criada telefonar para a fábrica – o que já deve ter feito.

Padre – Vamos então aguardar a chegada do eng. Hugo Mateus ...

( toque de campainha de telefone )

Olívia - ... Bom dia, Empresa Industrial da Marinha Grande ... neste momento, o sr. Engº. Hugo Mateus, não se encontra na Empresa ... não sei, mas estou a contar que ele não se demore muito. Quem fala ?... Hááá , é da Marinha Grande. Diga-me por favor se o pai do sr. Engº. , está melhor ? ... Hóó, lamento muito a sua situação e desejo-lhe as melhoras ... pois é, é a Lei da Vida ... nestes casos é muito mais fácil dizer aos outros que tenham coragem ... pode estar descansada, sim, que eu darei o seu recado ao sr. Engº. Quando ele chegar ... pode ficar descansada ... Bom dia!

...

Olívia – Senhor engenheiro Hugo Mateus. Bom dia!

Engenheiro – Bom dia, Olívia. Há algum recado?

Olívia – Há vários, mas o mais importante, é um da Marinha Grande, que veio de casa de seu pai ...

Engenheiro – O que quer dizer que o velhote está em apuros – não é, Olívia?

Olívia – Pedem o favor para o sr. Engº. telefonar urgentemente para lá.

Engenheiro – Olívia, faça a ligação para o meu gabinete. Atenderei de lá ...

...

5ª Pers. – Já repararam que está muita gente a entrar para a casa do sr. José Mateus ? possivelmente, o velhote morreu ...

6ª Pers. – Não, ainda não deve ter morrido, pois, a sobrinha da criada, a Pureza, ainda esteve aqui há pouco e disse-me que o velhote ainda vivia.

5ª Pers. – Nestes casos, os amigos vão juntando à espera que o amigo dê o último suspiro.

6ª Pers. – Pois é. Estão à espera que o homem morra, mas como ele dizia: “Sou muito teimoso !”.

5ª Pers. – Ao fundo da rua, vem o padre Henrique ...

6ª Pers. – O que quer dizer que a situação clínica do sr. José Mateus, deve estar a complicar-se ...

5ª Pers. – Sim, para o padre ir lá a casa a esta hora ...

6ª Pers. – O padre Henrique, é amigo daquela família, já há muitos anos. Foi ele quem ensinou as primeiras letras ao sr. Engº. Hugo Mateus.

5ª - Pers. – Por falar no filho – ainda não o vi por cá ...

6ª Pers. – Eu também não. Mas não admira, pois, o sr. Eng. é administrador de uma empresa da Marinha Grande. Mas, se a situação estiver a complicar-se, não deve tardar aí.

5ª Pers. – Reparem, quem vem de lá a sair é a D. Albertina. Também uma velha amiga daquela família, já do tempo da mulher do sr. José Mateus.

6ª Pers. – Da D. Áurea, santa senhora, recordo-me bem. A D. Albertina, está a falar com aquelas vizinhas e a chorar muito. O que terá acontecido?

5ª Pers. – Ela vem agora para este lado… D. Albertina, D. Albertina ...

Albertina – Bom dia, vizinhas. Querem saber como está o sr. José Mateus, não é assim ?

5ª Pers. – É verdade. Como é que ele está, D. Albertina?

Albertina – Ora, como é que o pobrezinho está! ... está na última, mas ainda bastante lúcido.

6ª Pers. – Ainda não vi o filho, o sr. Engº. Hugo Mateus...

Albertina – Ele ainda não chegou, mas, como já está avisado da situação do pai, não deve tardar a chegar. Bem, tenho que me ir embora, pois tenho que ir fazer o almoço ao meu marido e também mudar de roupa. Até logo, vizinhas ...

5ª Pers. – Até logo, D. Albertina e muito obrigada pela sua atenção. Coitado do velhote !

6ª Pers. – Ainda me lembro quando o sr. José Mateus provocou aquela grande explosão de gás, quando pretendia que um foguetão que ele tinha inventado, subisse ao espaço !

5ª Pers. – Eu também me lembro pois fiquei com a roupa que tinha a secar, toda chamuscada. Aquele homem nunca parou com os seus inventos, e com alguns deles, teve êxito.

6ª Pers. – Como aquele saca-rolhas que com um sopro tirava as rolhas.

5ª Pers. – Reparem, ou eu me engano muito, ou é o carro do filho que vem aí ... é ele é !

6ª Pers. – Olha lá, o sr. Engº. Hugo Mateus, não é casado?

5ª Pers. – Ainda não é.

6ª Pers. – Mas ele é bastante jeitoso. Admiro-me não ter casado ainda ...

5ª Pers. – Ele é muito fino e diz que ainda tem muito tempo para se casar.

6ª Pers. – Olha, o médico também está a chegar. É aquele que está a falar com o engº. Hugo.

5ª Pers. – E neste momento, vão entrar para a casa do velhote ...

...

Engenheiro – Então, pelo que me diz, a situação clínica de meu pai, é muito crítica ?

Doutor – Direi mesmo que é muito crítica. Está medicamentado e, só por isso encontra-se, neste momento, calmo. Deve acordar daqui a pouco.

Engenheiro – Obrigado por tudo o que tem feito a meu pai. Mas, agora reparo: o padre Henrique está cá. Com licença, doutor ...

Doutor – Vá, vá engenheiro, enquanto eu vou ver o doente.

Engenheiro – Por cá, padre Henrique?!

Padre – Então eu não devia de estar cá, nesta hora tão difícil para todos nós ?! não te esqueças de que teu pai é um grande amigo que tenho !

Engenheiro – Não o quis ofender, padre Henrique – até lhe agradeço o seu cuidado e interesse!

Padre – E tu, meu rapaz, como estás? ... não queres que eu te trate pelo teu título académico – pois não?...

Engenheiro – Claro que não, padre Henrique! eu estou bem, mas como é lógico, muito preocupado com o meu pai.

Padre – Tens de ter resignação, meu filho ... como tu sabes, a idade não perdoa. Teu pai nunca parou de trabalhar, de inventar coisas.

Engenheiro – O meu pai e os seus inventos ! ele ainda deve estar a descansar – não é padre?

Padre – Está sob o efeito dos medicamentos, mas segundo o médico me disse, o seu efeito deve estar quase a acabar.

Engenheiro – E o meu pai já perguntou por mim?

Padre – Pois claro que sim, meu filho. O teu pai está lúcido. Ainda ontem me disse que queria falar contigo sobre outro seu invento. Mas não me disse do que se tratava.

Engenheiro – Nem às portas da morte, o meu pai descansa ! o que será desta vez ? – o pai e os seus inventos!

Padre – Olha lá, aquele invento contra os assaltantes de aviões, deu resultado ?...

Engenheiro – Entreguei o projecto às companhias de aviação. Ainda não me disseram nada.

Padre – E na tua opinião, como técnico, esse projecto é viável?

Engenheiro – Sim, talvez. O problema é encontrar um gás adequado para adormecer, momentaneamente, os assaltantes e os passageiros. Além do antídoto para a tripulação ...

Padre – Então, digamos, que a ideia é válida e, no futuro, até poderá ser útil ...

Engenheiro – Pois é. Até poderá ser útil, como o padre Henrique diz: se os técnicos desenvolverem a ideia.

Albertina – Desculpem interromper. Sr. Engº., o seu pai acordou agora e perguntou logo por si. Diz que lhe quer falar ...

Padre – Então vamos lá, meu filho, pois, infelizmente, teu pai não deverá ter muito tempo de vida.

Engenheiro – Passe, passe padre Henrique. Vá à frente, pois também conhece bem o caminho ...

Padre – Vamos então entrar ... olá, velho amigo! como é que tu estás, meu velho?...

Mateus– Eu ... estou bem ... vivo … e ainda ... não preciso ... de um padre ...

Padre – Olha José, eu estou aqui como um amigo que vem visitar outro, e não como padre. Mas, se tu não me quiseres aqui dentro, vou-me já embora ...

Engenheiro – Desculpe, padre Henrique, mas meu pai quer falar comigo em particular. Por favor, não leve a mal e desculpe-me ...

Padre – Eu compreendo, eu compreendo, meu rapaz. Vou já sair. Até já ...

Mateus – O padre ... Henrique ... ele ... já saiu ... ?!

Engenheiro – Já sim, pai. Mas não te canses, tem calma.

Mateus – Eu ... nunca ... nunca ... me canso ... quero ... falar contigo ... pois ... inventei ...

Engenheiro – Pai, não te canses, por favor. Podemos falar depois, quando tu estiveres menos cansado.

Mateus – Falar ... comigo ... depois ?! ... olha que será difícil ... naquela ... naquela ... escrivaninha ... está ... está ... uma projecto ... de transístor ... para evitar ... evitar o roubo ... de ... automóveis ...

Engenheiro – Pai, pai não te canses mais. Eu vou já buscar esses planos ...

Mateus – Ai ... aiiii.... iii...

Engenheiro – Pai, já vou chamar o médico ...

Mateus – Vai ... vai ... meu ... filho ... lho …



Engenheiro – Doutor, doutor ... o meu pai está a sentir-se muito mal ...

Doutor – Vou já, vou já. Saia então por favor. Deixe-se sozinho com o seu pai ...

Padre– Então, meu filho ? ...

Engenheiro – O meu pai, está mesmo muito mal !...

Padre – Tens de te conformar, é a Lei da Vida ... Olha, o doutor vem aí ...

Engenheiro – Então, doutor ?!...

Doutor – Aquilo que nós esperávamos, aconteceu agora mesmo – seu pai, morreu ...

...

Padre – Sei que estás a passar um momento, digamos, dramático. Mas tens de ir descansar, meu filho, Aqui na Terra, já está tudo terminado para teu pai.

Engenheiro – Ainda me parece um sonho ... Meu pai morreu. Meu pai morreu …

Padre – Queres passar agora lá por casa de teu pai ?

Engenheir – Sim, tenho que passar por lá para dar as minhas ordens à criada e, trazer o dossier do último invento de meu pai.

Padre – Eu acompanho-te, meu filho.

Engenheiro – Obrigado, padre Henrique ...

... … …

Engenheiro – Olívia, faz hoje um ano que meu pai morreu. Telefona para a Marinha Grande e diga à criada que não se esqueça de comprar flores, muitas flores ... para ele.

Olívia – Não me esquecerei, sr. Engº.

Engenheiro – Há algum recado para mim?

Olívia – Telefonaram da Associação das Companhias de Aviação a comunicarem que o invento de seu pai, foi aprovado e, que dentro de pouco tempo, começará a ser utilizado. Dizem que querem comunicar com o sr. Eng., para tratarem dos direitos de patente ...

...

Engenheiro – “Já dizia o grande mestre Almada Negreiros: “Podem não considerar ou até mesmo destruir a vida de um homem – mas nunca conseguem destruir a sua obra !”. Pai, se me estás a ouvir, deves de estar contente, pois, conseguiste VENCER – embora depois de morto !”.

Fonte:
E-mail enviado por Carlos Leite Ribeiro. Portal CEN.