Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Heitor Stockler de França (1888 - 1975)


TROVAS

A continuar isto assim,
eu penso, só Deus prevê...
Não sei que será de mim
nem que há de ser de você.

A estima quando floresce
e se transforma em amor,
tem a força de uma prece,
ouvida pelo Senhor!

À minha amada eu escrevo,
se faltar tinta e papel,
em uma folha de trevo
e a pena molhada em mel.

A razão da minha mágoa,
motivo do meu sofrer,
põe meus olhos rasos d’água
por ser tolo em te querer.

A saudade é sempre grata
ao meu, ao teu coração,
porque nos lembra e retrata
horas de satisfação.

Cartilha de sensações
na linguagem de quem ama...
Rejubila os corações
e põe as almas em chama!

Cativa-me o beijo quente
dos lábios da minha amada,
como a papoula atraente
fascina a abelha dourada.

Como a terra se contrai
sob a geada nos caminhos,
definha o amor e se esvai
quando há falta de carinhos.

Confesso, é no teu perfume
e no sabor do teu beijo,
que para mim se resume
a volúpia do desejo.

Contei o tempo que falta
para ter você ao meu lado,
tremi de conta tão alta,
descrente e desconsolado.

Coração sossega e canta,
não busque na dor guarida,
pois é no canto que encanta
que está o encanto da vida.

Cruzamo-nos no caminho
por mero acaso. Confesso
que orei, embora sozinho,
novo encontro no regresso.

Denotam tuas atitudes
e norma de vida calma
a nobreza e as virtudes
que ornamentam a tua alma.

Difícil é compreender
a extravagância do amor,
que quanto mais faz sofrer,
mais se lhe quer o sabor.

Disseste que eras só minha,
que outro olhar não se lhe dava,
mas outro olhar te entretinha
sempre que o meu se afastava.

Do coração, igualmente,
há mister sentir o ardor,
pois ele é quem faz a gente
cair nos braços do amor.

Espero-te, amor, contente,
cantarolando a vibrar,
porque faz tão bem à gente
cantando o amor esperar.

Esses cabelos cor de ouro
a moldurar tua beleza,
são o fúlgido tesouro
que te deu a natureza.

Eu juro por qualquer santo
que já não creio em você...
No fingimento, entretanto,
eu creio...Não sei porque.

Felicidade? Quem dera!...
Ela é rara e fugidia...
Quem a espera desespera
por esperar noite e dia.

Grande enigma é o saber
o que deseja a mulher...
Pensa que sabe querer
mas nunca sabe o que quer.

Meu amor e teu amor
são afins conforme os vejo,
tal qual o perfume e a flor,
a insinuação e o desejo.

Meu coração bate tanto
quando longe do meu bem,
que parece estar em pranto
por afagos que não tem.

Meu coração, leal amigo,
que faz loucuras por mim,
me acautela que é perigo,
querer e amar tanto assim

Não há um instante somente,
nem um minuto sequer,
que me não baile na mente
o teu perfil de mulher.

Não julgues que a simpatia
seja fugaz, passageira...
É imutável, contagia
se espontânea e verdadeira.

Naquele instante do adeus
do nosso encontro fortuito,
teus olhos e os olhos meus,
discretos, disseram muito.

Nesta vida o teu caminho
para onde quer que tu fores,
será um relvado de arminho
coberto inteiro de flores.

O céu de estrelas constela
o infinito azul de Deus
mas nenhum dos astros vela
o fulgor dos olhos teus.

O teu sorriso me estende
as malhas da sedução,
e delas não se defende
meu valente coração.

Pensar em ti como eu penso
e muito tenho pensado,
diz, a rir, o meu bom senso,
que é o meu divino pecado.

Procurei a cartomante
que previu lendo-me a sorte:
-Um amor assim constante,
só se acaba com a morte.

Proponho com devoção:
Permutemos os presentes...
Eu te dou meu coração,
tu me dás mil beijos quentes.

Quando chegaste, a alegria
inundou meu coração;
quando partiste, partia
contigo a minha ilusão.

Quando longe de você
mais sinto quanto lhe quero...
A ausência, como se vê,
não me abate porque espero.

Quando te vi, que surpresa!
Bem rara é beleza assim.
Vieste ao mundo, com certeza
para encantares a mim...

Revelo, com embaraço,
a supor que ninguém crê,
que já outra coisa não faço
do que pensar em você.

Se a saudade que me empolga
teimar em me perseguir
sem me dar nenhuma folga,
acabo por sucumbir.

Se há excesso de fantasia
nos temas que aqui deponho,
perdoa, é o sol da alegria
glorificando o meu sonho!...

Se me houvesses revelado
não ter amor por ninguém,
não ficaria ao teu lado
a te chamar de meu bem.

Suponho serem só minhas
as mágoas do coração,
pelo que externam as linhas
da palma da minha mão.

Tenho ciúme até das rosas
abertas no teu jardim,
pois, sei que ao vê-las, formosas,
te esqueces logo de mim.

Teus olhos azuis de santa,
de blandícia na expressão,
a quem os fita acalanta
no ritual da sedução.
__________________________________

Heitor Stockler de França nasceu em Palmeira/PR, em 5 de novembro de 1888. Marcou sua passagem como cidadão pioneiro e empreendedor do Paraná. Foi um dos cinco homens fundadores da Confederação Nacional da Indústria – CNI; Fundador da Federação das Indústrias do Estado do Paraná – FIEP, seu primeiro presidente e por catorze anos consecutivos; Fundador e diretor do Serviço Social da Indústria –SESI/PR; fundador e presidente da União Brasileira de Trovadores – UBT Seção de Curitiba e Paraná; Fundador e presidente do Centro de Letras do Paraná e Presidente do Clube Atlético Paranaense.

Foi advogado, jornalista, industrial, comerciante, pecuarista, poeta, escritor, cronista, trovador, contista, historiador, teatrólogo, novelista e pesquisador devotado. 

Esteve sempre presente nos mais relevantes marcos da história contemporânea do Paraná. Autor de vários livros. Deixou entre centenas de poemas e trovas, quase duas mil crônicas publicadas em jornais.

Faleceu em Curitiba, em 11 de janeiro de 1975, aos 86 anos.

Fonte:
União Brasileira de Trovadores de Porto Alegre. Coleção Terra e Céu vol. XLI. Trovas de Apollo Taborda de França e Heitor Stockler França. Cachoeirinha/RS: Texto Certo, 2017.

Arthur de Azevedo (A Ama – Seca)


O Romualdo, marido de D. Eufêmia, era um rapaz sério, lá isso era, e tão incapaz de cometer a mais leve infidelidade conjugal como de roubar o sino de São Francisco de Paula; mas – vejam como o diabo as arma! Um dia D. Eufêmia foi chamada, a toda a pressa, a Juiz de Fora, para ver o pai que estava gravemente enfermo, e como o Romualdo não podia naquela ocasião deixar a casa comercial de que era guarda-livros (estavam a dar balanço), resignou-se a ver partir a senhora acompanhada pelos três meninos, o Zeca, o Cazuza, o Bibi, e a ama-seca deste último, que era ainda de colo. Foi a primeira vez que o Romualdo se separou da família.

Custou-lhe muito, coitado, e mais lhe custou quando, ao cabo de uma semana, D. Eufêmia lhe escreveu, dizendo que o velho estava livre de perigo, mas a convalescença seria longa, e o seu dever de filha era ficar junto dele um mês pelo menos. O Romualdo resignou-se. Que remédio!…

Durante os primeiros tempos saía do escritório e metia-se em casa, mas no fim de alguns dias entendeu que devia dar alguns passeios pelos arrabaldes, hoje este, amanhã aquele. Era um meio, como outro qualquer, de iludir a saudade. Uma noite coube a vez ao Andaraí Grande. O Romualdo tomou o bonde do Leopoldo, e teve a fortuna ou a desgraça de se sentar ao lado da mulatinha mais dengosa e bonita que ainda tentou um marido, cuja mulher estivesse em Juiz de Fora. Nessa noite fatal a virtude do Romualdo deu em pantanas: tencionando ele ir até o fim da linha, como fazia todas as noites, apeou-se na Rua Mariz e Barros, ali pelas alturas da Travessa de São Salvador. A mulata havia se apeado algumas braças antes.

E ele viu, à luz de um lampião, o vulto dela saltitante e esquivo, e apressou o passo para apanhá-la, o que conseguiu facilmente, porque, pelos modos, ela já contava com isso. – Boa noite!

– Boa noite.

– Como se chama?

– Antonieta.

– Pode dar-me uma palavra?

– Por que não falou no bonde?

– Era impossível… estava tanta gente… e estes elétricos são tão iluminados.

– Mas o sinhô bolinou que não foi graça! Vamos, diga: que deseja?

– Desejo saber onde mora.

– Não tenho casa minha; tou empregada numa famia ali mais adiente, por siná que não stou satisfeita, e ando procurando outra arrumação.

– Onde poderemos falar em particular?

– Não sei.

– Você sai amanhã à noite?

– Amanhã não, porque saí hoje, e não quero abusá.

– Então, depois de amanhã?

– Pois sim.

– Onde a espero?

– Onde o sinhô quisé.

– Na Praça Tiradentes, no ponto dos bondes. As oito horas.

– Na porta do armazém do Derby?

– Isso!

– Tá dito! Inté depois d’amanhã às oito hora.

– Não falte!

– Não farto não!

No dia seguinte, o Romualdo contou a sua aventura a um companheiro de escritório que era useiro e vezeiro nessas cavalarias… baixas, e o camarada levou a condescendência ao ponto de confiar-lhe a chave de um ninho que tinha preparado adrede para os contrabandos do amor.

Antonieta foi pontual. À hora marcada lá estava à porta do Derby, com ares de quem esperava o bonde.

O Romualdo aproximou-se, fez um sinal, afastou-se e ela seguiu-o…

Dez dias depois, estava ele arrependidíssimo da sua conquista fácil, e com remorsos de haver enganado D. Eufêmia, aquela santa! Procurava agora meios e modos de se ver livre da mulata, cuja prosódia era capaz de lançar água na fervura da mais violenta paixão.

Vendo que não podia evitá-la, tomou o Romualdo a deliberação de fugir-lhe, e uma noite deixou-a à porta do ninho, esperando debalde por ele. Lembrou-se, mas era tarde, que havia prometido dar-lhe um anel, justamente nessa noite.

– Diabo! pensou ele, Antonieta vai supor que lhe fugi por causa do anel!

Voltou, afinal, D. Eufêmia de Juiz de Fora. Veio no trem da manhã, inesperadamente, e já não encontrou o marido em casa.

Estava furiosa, porque a ama-seca de Bibi deixara-se ficar na estação da Barra. Podia ser que não fosse de propósito. O mais certo, porém, era o ter sido desencaminhada por um sujeito que vinha no trem a namorá-la desde Paraíbuna.

Quando D. Eufêmia contou isso ao marido, acrescentou indignada:

– Que homens sem-vergonha!… Não podem ver uma mulata!…

O Romualdo perturbou-se, mas disfarçou, perguntando:

– E agora? E preciso anunciar! Não podemos ficar sem ama-seca!

– Já mandei o Zeca pôr um anúncio no Jornal do Brasil.

No dia seguinte, o Romualdo saiu muito cedo; ao voltar para casa, a primeira coisa que perguntou à senhora foi:

– Então? Já temos ama-seca?. .

– Já! É uma mulatinha bem jeitosa, mas tem cara de sapeca. Chama-se Antonieta.

– Hem? Antonieta?

– Que tens, homem?

– Nada! Não tenho nada… É jeitosa?… Tem cara de sapeca?… Manda-a embora! Não serve! Nem quero vê-la!…

– Ora essa! Por quê? Olha, ela aí vem.

Antonieta chegou, efetivamente, com o Bibi ao colo, mas o Romualdo tinha fechado os olhos, dizendo consigo:

– Que escândalo!… rebenta a bomba!… este diabo vai reclamar o anel!.

Mas como nada ouvisse, o mísero abriu os olhos e – oh! milagre! – era outra Antonieta!.

Ele pensou, os leitores também pensaram que fosse a mesma, não era.

Decididamente, há um Deus para os maridos que enganam as suas mulheres.

Fonte:
Arthur de Azevedo. Contos.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Alberto Paco (Sabedoria)


Um velho Sábio estava
pelos campos passeando,
e seu ajudante andava
sempre o mestre acompanhando.

De uma curva do caminho
uma fazenda avistaram,
andando devagarinho
para lá se encaminharam.

Ao chegar logo sentiram
uma pobreza total,
algumas pessoas viram
sentadas lá no quintal.

O Sábio com seu ajudante
deles foi-se aproximando,
e logo no mesmo instante
a todos foi perguntando:

Que fazem aí sentados
ao invés de trabalhar?
Os campos abandonados
precisam-se cultivar.

Nós temos uma vaquinha
que dá leite em quantidade,
pra sustentar a família
o vendemos na cidade.

O dinheiro que ganhamos
dá para nos alimentar,
por isso aqui estamos
sem precisar trabalhar.

O Sábio ficou calado
sem saber o que dizer.
Depois de ter pernoitado,
foi embora ao amanhecer.

Já longe de casa estava,
e viu a vaca leiteira
que sossegada pastava
ao lado da ribanceira.

Disse para o ajudante
o porquê não pergunta-se,
mas que a vaquinha pujante
na ribanceira jogasse.

E sem nada perguntar
o rapaz obedeceu,
depois de no morro rolar
a vaquinha pereceu.

O rapaz anos passados,
tendo o Sábio morrido,
indo para aqueles lados
lembrou-se do sucedido.

Ao ver uma bela casa,
ao redor tudo plantado,
imaginou que estava
em algum lugar errado.

Até lá se dirigiu
para a dúvida tirar,
e quando um homem viu
tratou de lhe perguntar.

Há muitos anos passados
eu andava por aqui,
e em todos estes prados
nenhuma plantação vi,

creio ser este o lugar,
mas está tão diferente,
que alguém veio comprar
e pertence a outra gente.

Sempre aqui neste lugar
minha família viveu,
mas eu vou-lhe explicar
tudo que aconteceu.

Uma vaquinha leiteira
dava leite todo o dia,
mas caiu na ribanceira
e em pouco tempo morria.

Do leite que ela dava,
saía nosso sustento,
então ninguém trabalhava
até naquele momento.

Depois da vaquinha morta
e enxugados os prantos,
plantamos primeiro a horta
e depois todos os campos.

Foi tão grande a alegria
de ver os campos plantados,
que a partir desse dia
não ficamos mais parados.

Agora estamos contentes
porque a vaquinha morreu,
já não somos dependentes
do leite que ela nos deu.

Felizes agora estamos
trabalhando com ardor,
e tudo que nós ganhamos
é ganho com muito amor.

A lição que o Sábio deu
para o ajudante entender!!!
Uma vaquinha morreu
para uma família viver.

Fonte:
Agostinho Alberto Paco. Caminhos…poesias. 
Maringá: Sthampa Gráfica, 2002.

Contos e Lendas do Mundo (A Menina dos Brincos de Ouro)


Conto popular na Bahia e Maranhão, trazido pelos escravos africanos. No original africano os personagens eram animais.
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Uma Mãe, que era muito má (severa e rude) para os filhos, deu de presente a sua filhinha um par de brincos de ouro. Quando a menina ia à fonte buscar água e tomar banho, costumava tirar os brincos e botá-los em cima de uma pedra. Um dia ela foi à fonte, tomou banho, encheu o pote e voltou para casa, esquecendo-se dos brincos. 

Chegando em casa, deu por falta deles e com medo da mãe brigar com ela e castigá-la correu à fonte para buscar os brincos. Chegando lá, encontrou um velho muito feio que a agarrou, botou-a nas costas e levou consigo. O velho meteu ela dentro de um surrão (um saco de couro), coseu o surrão e disse à menina que ia sair com ela de porta em porta para ganhar a vida e que, quando ele ordenasse, ela cantasse dentro do surrão senão ele bateria com o bordão (vara). 

Em todo lugar que chegava, botava o surrão no chão e dizia: 

Canta, canta meu surrão, 
Senão te meto este bordão. 

E o surrão cantava: 

Neste surrão me meteram, 
Neste surrão hei de morrer, 
Por causa de uns brincos de ouro 
Que na fonte eu deixei. 

Todo mundo ficava admirado e dava dinheiro ao velho. Quando um dia, ele chegou à casa da mãe da menina que reconheceu logo a voz da filha. 

Então convidaram ele para comer e beber e, como já era tarde, insistiram muito com ele para dormir. De noite, já bêbado, ele ferrou num sono muito pesado. As moças foram, abriram o surrão e tiraram a menina que já estava muito fraca, quase para morrer. Em lugar da menina, encheram o surrão de excrementos. No dia seguinte, o velho acordou, pegou no surrão, botou às costas e foi-se embora. 

Adiante em uma casa, perguntou se queriam ouvir um surrão cantar. Botou o surrão no chão e disse: 

Canta, canta meu surrão, 
Senão te meto este bordão. 

Nada. O surrão calado. Repetiu ainda. Nada. Então o velho meteu o bordão no surrão que se arrebentou todo e lhe mostrou a peça que as moças tinham pregado. 

Fonte:

31º Jogos Florais de Ribeirão Preto (Premiados Nacional)



Tema: Âncora 

VENCEDORES:

1º lugar
Deslizando em mar suave
ou revolto, em desatino,
não tem âncora que trave
a jangada do destino.
Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho
Juiz de Fora - MG

2º lugar
Deus sempre se põe à escuta
e nos dá perseverança;
ele é âncora absoluta
da nossa fé e esperança!
Glória Tabet Marson
São José dos Campos - SP

3º lugar
No mar revolto da vida,
onde,às vezes, perco o pé,
um farol, que me elucida,
dá-me a âncora da Fé!
Carolina Ramos
Santos - SP

4º lugar
Tanta embarcação perdida
em água profunda e escura,
por faltar, no mar da Vida,
uma  âncora segura...
Vanda Fagundes Queiroz
Curitiba - PR

5º lugar
Comparo a vida aos navios
á deriva, ante a maré...
pois, ante os meus desafios,
lanço a âncora... da fé!
Therezinha Dieguez Brisolla
São Paulo - SP

MENÇÕES HONROSAS

1º lugar
Porto seguro... não basta.
Nem o ancoradouro certo.
Até a âncora se arrasta,
Se de Deus não se anda perto.
Jaime Pina da Silveira
São Paulo - SP

2º lugar
O mar  revolto, o perigo,
com  ousadia, transponho,
pois és âncora, és abrigo,
e o porto azul de meu sonho.
Relva do Egypto Rezende Silveira
Belo Horizonte - MG

3º lugar
Tremo ao ver a natureza
pouco a pouco naufragar.
Minha âncora é a certeza
de que o amor vai nos salvar!
A. A. de Assis
Maringá - PR

4º lugar
Tua âncora do amor,
que se ancore no meu peito...
venha  comigo compor
um porto de amor perfeito!...
Roberto Tchepelentyky
São Paulo - SP

5º lugar
Vejo meu sonho menino,
no cais do tempo parado,
preso à âncora do destino,
dos erros do meu passado
Francisco Gabriel
Natal - RN

NOVOS TROVADORES

1º Lugar
Por este mar de olhar torto
meu país em vendavais,
Sem âncora e sem o porto
Lutando por novo cais.
Iria Sueli Belchior
Santos - SP

2º lugar
No oceano da vivência
sentimentos e emoções
vêem na âncora a prudência
com marolas,turbilhões.
Nadja Cristina Lenzi Gadotti
Balneário Camboriu - SC

3º lugar
Nunca temas, marinheiro
as tempestades do mar...
da âncora és companheiro
sabes bem ele domar!
Eduardo Lázaro de Barros
Bauru - SP

A âncora desse amor
vai sempre presa ficar,
sem que alguma força ou dor
faça essa amarra quebrar.
Luiz Parellada Ruiz
Londrina - PR

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Gislaine Canales (Glosas Diversas) 9



DEMOCRACIA PRAIANA...

MOTE:
Na praia afinal achei-a:
a total democracia,
tudo é de todos: a areia,
o sol, a onda, a alegria!
A. de Assis 
(Maringá/PR)

GLOSA:

Na praia afinal achei-a:
tão parelha, tão igual,
de muita alegria cheia
numa paz fenomenal!

A total felicidade!
A total democracia,
eu encontrei, é verdade,
enfeitando cada dia!

Desde o canto da sereia
até o rendado de espuma...
Tudo é de todos: a areia
e a beleza até das dunas!

Liberdade para amar,
num azul quase magia,
de mãos dadas faz ficar
o sol, a onda, a alegria!
_______________________

DESTROÇOS...

MOTE:

A naufrágios não atraias
meu coração sofredor,
pois vão dar em tuas praias
os meus destroços de amor...
Edmar Japiassú Maia 
(Nova Friburgo/RJ)

GLOSA:

A naufrágios não atraias
assim, os meus sentimentos,
eles não serão cobaias,
pois são fortes como os ventos!

Um mar de pranto inundando
meu coração sofredor,
vai a tudo transformando
de modo devastador!

Pressinto eternas tocaias,
que nada valem, enfim,
pois vão dar em tuas praias
restos que sobram de mim!

As ondas do mar, confortam
no seu modo encantador,
pois sabem que, em ti, aportam
os meus destroços de amor…
_______________________

ESTRELAS DO MAR…

MOTE:

Eu comparo o meu sonhar
com quem na praia, anda ao léu,
colhendo estrelas do mar
querendo as que estão no céu...
Gerson Cesar Souza 
(São Mateus do Sul/PR)

GLOSA:

Eu comparo o meu sonhar
que é tão lindo, tão bonito,
com uma luz a brilhar,
lá no espaço do infinito!

Eu quero andar de mãos dadas
com quem na praia, anda ao léu,
que, crendo em contos de fadas,
jamais será um incréu!

Eu sigo em meu caminhar
pelas areias bem finas,
colhendo estrelas do mar,
vendo as ondas dançarinas!

Abro meus olhos e vejo,
tirando deles , o véu,
meu verdadeiro desejo
querendo as que estão no céu…
_______________________

CASTELOS...

MOTE:
Castelos de areia erguidos
na praia do sentimento,
duram mais que os construídos
com tijolos e cimento!!!
Izo Goldman
(Porto Alegre/RS, 1932 – 2013, São Paulo/SP)

GLOSA:

Castelos de areia erguidos
com alicerces de amor,
jamais serão destruídos
pelas vazantes da dor!

Quando feitos com ternura
na praia do sentimento,
trarão somente ventura
e jamais o sofrimento!

Com algas verdes, vestidos,
os castelos da emoção
duram mais que os construídos
sem alma e sem coração!

Nesses castelos da sorte,
vivamos nosso momento,
pois nenhum será mais forte
com tijolos e cimento!!!

Fonte:
Gislaine Canales. Glosas. Glosas Virtuais de Trovas XXII. 
In Carlos Leite Ribeiro (produtor) Biblioteca Virtual Cá Estamos Nós. 
http://www.portalcen.org. novembro de 2004.

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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