sábado, 5 de junho de 2010

Trova 150 - Elbea Priscila Souza e Silva (Caçapava/SP)

Joaquim Moncks (Poemas Escolhidos)


ZELO DE AMAR O DOLOROSO

“O poeta é um fingidor...”
Fernando Pessoa.

Cantar o amor é decantar
o espelho das ausências...

Quando o poema tem
esse ar distraído de que
é possível superar
a falta do que amamos,
percebe-se o poeta
(e sua aura de espinhos)
na ótica rasa do terceiro
destrambelhado.
O outro só olha o feito
e não o teor do escrito.

E dentro de nós somente o fetiche
de sermos inteiros, imolados
no exemplar bíblico
das dores do Homem..
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HOMENAGEM AO POETA - O MAGO DOS AFETOS

para Nelson da Lenita Fachinelli, in memoriam.
Há pessoas que são fachos de luz
roçando o capinzal da ignorância.
Figuras luminares em sua época.
Há imagens de amor sem posse,
que se escondem nestas amorosas
lanternas de rumos e vertentes.

Espíritos benfazejos,
deixam uma lacuna de ausências,
quando a hora do trespasse chega.
E temos certeza: a mínima entrega
a ser feita ao mistério do outro
é repetir pra todo o sempre o seu legado.

Na comunidade construída, repousa
a esperança do reencontro, e se aponta
aos homens a acesa chama da Poesia.
A rosa-dos-ventos demonstra o norte,
aponta caminhos: novas trajetórias.
Estes remos do Belo falam de pátria,
de amor e zelo aos excluídos.
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PIPAS AO VENTO

Deixai que o tempo se mova
com seus cordéis de prata.
A vida, ampulheta da morte,
jamais dará resposta.

Olhai o mar encapelado
e vede como é forte
a ira dos elementos.

Cantai, ó bardo triste;
O canto é a torre das auroras.
Morre a noite e, presto,
levanta-se a pálpebra do dia.

Cantai, humanos.
É para isto que nascestes!
Viestes ao mundo para vencer!

Renova-se, a cada noite,
o reconstruir das lembranças.
É de sonhos o futuro,
e de Ciclope o olho em que me vejo.

Ainda assim, manejo
ventos e esperanças,
com o segredo das pipas,
os longos rabos ao vento.
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O BARQUEIRO DA VIDA

Morreu o poeta com sua carga de relatos.
Por certo a humanidade ficará menos fantasiosa,
menos sonhadora,
mais pobre de estímulos.

Corre vida sob pés cansados.
Vento e chuva retratam o espírito triste.
O que se perde em meio à água que corre debaixo
dos pés andarilhos?

É líquido o silêncio nos olhos,
e os passos se fazem permanentes nos trajetos.
Caminha-se em nome de quem e de quê?
De nosso próprio pré-traçado destino?

Margearão a estrada dos acontecimentos
aqueles que ficaram nas veredas do Rio Escuro.
No retorno da poeira ao pó, a luz solitária
vem na hora bíblica.

A amizade antiga produz o último recado:
o poema com o gosto de lágrima.
É preciso conter o choro,
coragem para o coração pulsar vivo.
A vereda ficou pequena, esvaiu-se aos poucos.

Fiandeiras do fio da vida,
é incerto e dúbio o destino traçado
entre o nascer e o morrer.

Haverá lutas, adiante?
Quais desafios nos restam
além da barcarola de Caronte?

É chegada a hora da transposição do Rio Profundo.
Desta para a outra margem, aquela da qual jamais voltou alguém.
A morte é a primeira parada na estrada longa do Eterno.

— É preciso guardar a moeda para pagar o barqueiro da vida!

Fontes:
AURORA DE POEMAS, 2009/10.
BULA DE REMÉDIO, 2004/2009.
O POÇO DAS ALMAS. 2000.

Joaquim Moncks (1946)


Oficial PM, na reserva. Advogado. Professor de Criminologia, Ciência e Direito Penitenciário, Direito Processual Penal Militar e Segurança Empresarial. Ativista Cultural. Agente Literário. Poeta. Declamador. Conferencista. Ensaísta. Analista literário. Jurado em certames literários, em festivais nativistas e eventos de poesia e música popular.

Nascido em Pelotas, em 29 de setembro de 1946. Tem a cidade de Canguçu, um município agro-pastoril como sua segunda terra, porque lá iniciou sua carreira como oficial de polícia militar, aos 23 anos, em 1969.

Deputado constituinte à Assembléia Legislativa do Estado, em 1989, presidiu a Comissão Temática de Educação, Desporto, Ciência, Tecnologia e Turismo, ajudando a forjar a carta constitucional do Rio Grande do Sul, pioneira em muitos aspectos, principalmente nas áreas da
Educação e da Cultura.

Como deputado, foi autor de três importantes projetos, todos transformados em lei: o das PILCHAS GAÚCHAS, que oficializou a indumentária tradicional do homem e da mulher gaúcha, em respeito à ancestralidade e à tradição agro-pastoril do RS, como traje preferencial e de honra no território do Estado (1989); o que institui o 20 de novembro, dia da morte de Zumbi, o líder negro dos Palmares, como o DIA ESTADUAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA, em homenagem à negritude rio-grandense (pela primeira vez um líder político, no Brasil, lograva pedir desculpas pela escravidão imposta aos negros). Por fim, aquele que institui o dia 04 de Dezembro como o DIA DO ARTISTA REGIONALISTA E DO POETA REPENTISTA GAÚCHO (1989).

De 1973 até 2005, entregou ao público sete livros individuais, no gênero Poesia: ENSAIO LIVRE (plaqueta), 1973; FORÇA CENTRÍFUGA,1979; ITINERÁRIO (?), 1983; O EU APRISIONADO, 1986; O SÓTÃO DO MISTÉRIO, 1992; O POÇO DAS ALMAS, 2000, e OVO DE COLOMBO, 2005.

Tudo o que publicou em prosa estava disperso em mais de uma centena de antologias e coletâneas, editadas no país e no estrangeiro. Em novembro de 2008, durante a 54ª Feira do Livro de Porto Alegre e 36ª Feira do Livro de Pelotas, publicou CONFESSIONÁRIO – Diálogos entre Prosa e Poesia.

Trabalha, desde novembro de 2004, nos textos inéditos de BULA DE REMÉDIO, poesia universalista. Previsão de publicação para 2009.

Também está recolhendo material para o livro de poemas regionalistas DE QUANDO O CORAÇÃO ABRE A CORDEONA, iniciado em 1978, quando tinha intensa participação nos movimentos tradicionalista e nativista do RS. Nessa época, 1982/87, integrou o Conselho de Cultura do Movimento Tradicionalista Gaúcho - MTG, órgão informal de política cultural com forte atuação durante os três mandatos do presidente Zeno Dias Chaves, que, nas novas administrações do MTG, perdeu força e desapareceu.

Em 1995, iniciara a coleta de textos para o livro OS MENESTRÉIS ESTÃO VIVOS,em que também predomina a prosa poética.

A sua abordagem crítica não é a da ótica do professor da área de Letras, e, sim, a do veterano escriba que deseja dar a sua contribuição aos mais novos. No entanto, exercita o magistério, em Poética, através de Oficinas Literárias, sendo chamado a atuar em várias regiões do Brasil, da Argentina e do Uruguai.

Atual vice-presidente da Academia Sul-Brasileira de Letras, em Pelotas. Da Academia Literária Gaúcha, do Partenon Literário, da Casa do Poeta Rio-Grandense e da Estância da Poesia Crioula, todas sediadas em Porto Alegre, onde reside.

Idealizador, fundador e primeiro presidente da Academia Brigadiana de História, Artes, Ciências e Letras – ABRHACEL, que congrega os intelectuais da Brigada Militar (PM) do Estado do RS.

Em outubro de 2003, assumiu a Coordenação das Casas de Poetas do Brasil – POEBRAS NACIONAL, entidade líder do associativismo literário no país, que contava com 26 sedes em 05 Estados da Federação à época da assunção de Joaquim Moncks na coordenação, e que está articulada, na atualidade, em 74 sedes municipais em 20 estados-membros da Federação.

Editou, até agosto de 2005, o Suplemento Literário OFFICINARIUM – AMOR & INCLUSÃO SOCIAL, no Jornal RS LETRAS, de Porto Alegre/RS. Por ora, a publicação está suspensa, por não ser auto-sustentável.

Integra o Grupo dos "15 Renascidos", que publica desde março de 2005, a REVISTA CAOSÓTICA, em Porto Alegre, com tiragem de 500 exemplares, de circulação nacional, com edição a cargo de António Filipe Neiva Soares, intelectual português, doutor em Psicologia Social, pela USP, e em Teoria Literária, pela PUCRS, jubilado pela Universidade Estadual de Campina Grande, na Paraíba.

De Outubro de 2003 a Abril de 2006 realizou quatro OFICINAÇÕES LITERÁRIAS em Campo Grande, MS, a convite da Fundação Municipal de Cultura, com a participação de cerca de noventa novos escritores locais.

No dia 17 de abril de 2006, ampliando a sua contribuição intelectual no Mato Grosso do Sul, proferiu palestra sob o tema POESIA: A TERAPIA DOS EXCLUÍDOS, para os acadêmicos de Letras e de História, da Universidade Federal de Corumbá, com a participação dos escritores da Associação dos Poetas e Escritores de Corumbá - APEC e de comitiva diretiva da União Brasileira de Escritores – UBE/MS, sediada em Campo Grande.

De 27 de junho a 02 de julho de 2006 esteve no II Encontro de Mestres do Mundo, em paralelo com o Fórum Cearense de Cultura Popular Tradicional, ocorridos em Russas e Limoeiro do Norte, no Ceará. Moncks foi declarado Mestre Nacional em Oralidade Poética Contemporânea, pela organização do evento, que reuniu a mestria do País nas modalidades de Mestres do Sagrado, dos Sons, do Corpo, das Mãos, da Oralidade e dos Sabores.

Tem trabalhado com muito afinco na ampliação da Casa do Poeta Brasileiro - POEBRAS, entidade que coordena em nível nacional. Esteve, de 02 a 16 de julho de 2006, em SP, capital, Valinhos, Jundiaí, Guarulhos e no Rio de Janeiro, articulando a afiliação de grupos à Casa do Poeta Brasileiro - POEBRAS NACIONAL.

De 13 a 16 de julho de 2006 participou ativamente do IV Congresso de Poetas Trovadores, promovido pelo Clube de Trovadores Capixabas, que tem na presidência o intelectual espírito-santense Clério Borges. O evento ocorreu na Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro.

Com iniciação maçônica em setembro de 1981, na Loja Philantropia e Liberdade, unidade filiada ao Grande Oriente do Rio Grande do Sul - GORGS, em Porto Alegre, aos 30 de setembro de 2006, tomou posse como titular acadêmico na Academia Internacional Maçônica de Letras – AMIL, cerimônia ocorrida na Casa de Portugal, em São Paulo, capital. A AMIL congrega maçons escritores de todo o Brasil e os integra harmonicamente aos dos países de
língua portuguesa, visando a Universalidade.

A partir de 24 de abril até 11 de junho de 2007 cumpriu um extenso roteiro de palestras e de oficinas de poesia para grupos de universitários e escribas de associações literárias, em Salvador. Realizou visitas a associações de escritores, de cortesia e de instalação de novas sedes municipais da Casa do Poeta Brasileiro – POEBRAS NACIONAL. Esteve em Manaus/AM, Belém, Marituba, Benevides e Santarém, no Pará, Aracaju/SE, Maceió/AL e
Salvador da Bahia.

Em 16 de junho de 2007 participou do I Varal de Poesia, organizado por Aline Romariz no Centro Cultural Anti–Matéria, em Campinas/SP.

De 18 a 20 de junho esteve na cidade do Rio de Janeiro, juntamente com o ativista e editor Rossyr Berny, para promover o projeto 24 Horas de Poesia, na 53ª Feira do Livro de Porto Alegre, de 09 para 10 de novembro, e na Bienal do Livro do Rio, de 18 para 19 de setembro, e que pretendia reunir 200 poetas declamando versos pela Paz e pela Justiça Social.

No dia 19 de junho, na Livraria Letras & Expressões, no Leblon, Rio, apresentou uma performance poética de arena, integrativa do Projeto Corujão da Poesia - Universo da Leitura, coordenada pelo Professor João Luiz de Souza. Naquela noite o Corujão, das 00h às 05h da madrugada, reuniu mais de 200 pessoas. Estava consolidada, no Rio de Janeiro, a parceria com o Projeto 24 horas de Poesia, originário do RS. A Poesia foi o móvel do encontro entre os organizadores, declamadores e intérpretes, no palco.

Foi nomeado Diretor Nacional de Cultura da Academia Maçônica Internacional de Letras – AMIL, em 07 de agosto de 2007.

Integrou a caravana de autores gaúchos (vinculados à Ed. Alcance, de POA-RS) que participou das atividades lítero– culturais pertinentes à 13ª Feira do Livro do Rio de Janeiro, de 17 a 19 de setembro de 2007. Durante o evento autografou o seu livro OVO DE COLOMBO, poemas.

Na execução do Projeto 24 HORAS DE POESIA PELA PAZ & JUSTIÇA SOCIAL, fez o aporte de 39 autores vinculados à Casa do Poeta Brasileiro – POEBRAS, na qualidade de Coordenador Nacional, em iniciativa do poeta e editor Rossyr Berny, pela Ed. Alcance, que, além de obra editada (400 páginas) reuniu 200 poetas durante a 53ª Feira do Livro de Porto Alegre, nos dias 09 e 10 de novembro de 2007.

Em 2008 foi premiado com o primeiro lugar em Arte Literária, na EXPOESIA da Casa do Poeta Rio-Grandense, com o poema Soluços e Trastes. O quadro, que congemina Arte Plástica e Poesia, foi ilustrado por James Nelsis, que também recebeu a láurea de 1º lugar em Arte Plástica. Ambos receberam troféu e diploma.

Eleito, à unanimidade, para atuar como Orador Oficial na abertura da 36ª Feira do Livro de Pelotas, a ocorrer do dia 31Out a 16Nov2008.

Em 11 Out 2008 realizou performance poética sobre os poemas “Autopsicografia” e “Tabacaria”, de Fernando Pessoa, e “Pátria Minha”, de Vinicius de Moraes, durante o 14º Jantar Poético-Musical da Casa do Poeta Brasileiro de São Luiz Gonzaga – POEBRAS, ocorrido no Salão do Sindicato dos Bancários, em SLG, região das Missões Rio-Grandenses.

No dia 13/Dez/2008 instalou a 72ª sede municipal da Casa do Poeta Brasileiro – POEBRAS Santiago, em assembléia geral presidida pelo Capitão do EB e poeta Carlos Giovani Pasini, na oportunidade eleito presidente da 1ª diretoria executiva.

Em 22Mar2009 esteve em São Gabriel, com o objetivo de formar a Casa do Poeta local, sendo designado o poeta e artista plástico Ítalo Zailu Gatto, para indicar os membros para a Comissão de Instalação. A POEBRAS São Gabriel tomará o nº 74 na organização da POEBRAS Nacional.

Em 25Abr2009 se oficializou a criação da Academia Maçônica Internacional de Letras do Extremo Sul.

De 22 a 24 de janeiro de 2010 esteve em Santiago/RS, para participar do 1º Fórum de Literatura Contemporânea da América Latina e do II Encontro de Escritores do MERCOSUL e palestrar sobre as atividades da Casa do Poeta Brasileiro, em nível nacional. Dos dois eventos, promovidos pela POEBRAS Santiago, participaram escritores, poetas, artistas e bibliotecários do Paraguai, Argentina, Uruguai e Brasil.

Fonte:
Recanto das Letras

Nilto Maciel (A Arte de Escrever Contos)

Modelo de Aeroplano, de Leonardo da Vinci

O título do livro (que é de uma peça) convida o leitor a um passeio pelos espaços da ficção. Um bom título agarra o leitor muito mais do que um bom prefácio. E certamente o título Da Arte de Fazer Aeroplanos atrairá o leitor.

Composto de narrativas (contos, histórias, devaneios, peripécias verbais, parábolas...) curtas e algumas curtíssimas, o novo livro de Carlos Gildemar Pontes é pródigo em títulos atraentes. Entretanto, o leitor conseguirá ir além dos títulos e alcançar os finais? O primeiro – “De como Ibañez Santoro fez este conto-prefácio” – é agradável, sim. Passadas as primeiras linhas, no entanto, o leitor deparará com um “prefácio” sofrível, capaz de levá-lo a desistir da leitura.

Em “Minha gente”, originado da obra homônima de Guimarães Rosa, narrado na primeira pessoa, o contista prega uma peça no leitor, com muita sabedoria e sutileza. Sem diálogo, o narrador rememora o cotidiano em uma fazenda: animais, jagunços, trabalhadores, crianças, patrões. Durante toda a narrativa ele mantém o segredo sobre a própria identidade, embora dê vagas indicações, só percebidas no final, de que se trata de um cavalo. No terceiro parágrafo ele diz: “Meus pais eram teimosos, sofreram e apanharam que nem burro”. Ora, a teimosia é própria tanto de homens como de animais. Homens também sofrem e apanham “que nem burro”. E assim vai a narração até quase o final. Somente no último parágrafo vem a decifração do enigma: “Uma vez, tive que brigar até ficar exausto, machucado dos coices e das mordidas”. Ora, homens não dão coices. E vem o esclarecimento final: “algum tempo depois nasceu meu primeiro rebento, um cavalinho faceiro e corredor”.

As demais composições do volume se apresentam em uma ou duas páginas. Algumas são tão minúsculas que mal parecem contos: “O rio dos ventos”, bem nordestino, porém sem o ranço do velho regionalismo; “Praça sem pombos” lembra desenho a lápis (Os pombos “fugiram para outras plagas ou foram comidos por aquele gato amarelo, que vivia em posição de ataque, brincando de estátua?”); “O caçador de arco-íris”, quase poema em prosa; “O rio dos ventos”, também cheirando a sertão (“Arrumei tudo como de costume e esperei o vento trazer o rio que se foi na última seca”); “Da arte de cada um” e “O canto do velho” são parábolas. O mesmo se pode dizer de “Da arte de amadurecer”, breve esboço de conto no caderno ou rascunho de desenho na prancheta.

Em obras menos curtas, como “Por pouco eu não fui feliz”, Gildemar se vale de outros expedientes narrativos: os diálogos sem indicação dos nomes dos falantes e sem sinais (travessão ou aspas), no decorrer da narração. Como em diversas narrativas do livro, neste também o protagonista não tem nome explícito. O desenlace é ao mesmo tempo poético e fantástico: “Oito dias depois, minha sobrinha trouxe um hipopótamo para o jardim e ele, deitado sobre as roseiras, tirou a única possibilidade de eu poder ofertar a Helena um pouco do que restou de mim”. Remate inesperado, insólito, embora no início da história Helena se dirija ao homem assim: “Oi! Vim aqui visitar sua mãe, mas parece que ela viajou...”, e ele responda: “Nem notei, parece que está em Zanzibar!”

Às vezes, o contista resvala para o fosso perigoso da anedota, como em “Goipada na testa”, com o uso do linguajar matuto (... “dei uma goipada pra fora e taquei a cabeça no vrido”), e “Por falta de um adeus”. Mas consegue se recuperar em outras histórias, com certo humor que nada tem de anedótico, como em “A Lua e Natasha”.

Gildemar cultiva os mais variados temas, além de se mover com desembaraço pelo fantástico, pelo humorístico, pelo poético e pelo realismo mais brutal. No breve “O homem que botava ovo” o fantástico se desencadeia desde o título e vai até o final nesse ritmo. O protagonista todo dia botava um ovo. (“Pensou em criar galinhas no quintal e aproveitar alguma para chocar seus ovos”). A metáfora aparece em “Da arte de (des)fazer 500 anos”. Em “Meus dias de ostra” se vê o amor, a vida, a doença, a decadência física do narrador. Um dos mais soberbos momentos do livro é, sem dúvida, “Diário de um cego”. Narração sem sobressaltos, sem grandes arrufos, porém afastado da linearidade comum a muitos escritores. Seu Manuel, o cego, “sonhava com o transplante de córnea” enquanto imaginava o corpo de Dona Carmina e sentia o seu perfume. O final inesperado e poético é digno dos melhores cultores de composições ficcionais. Também o desfecho de “Da arte de fazer aeroplanos” faz balançar os corações mais sadios.

A leitura de “O sorriso do brinquedo” deixa no leitor uma sensação amarga na boca, ante a violência de mendigos no lixão, ao brigarem por uma boneca. Em apenas duas breves falas inseridas na narração, o narrador onisciente estabelece o conflito: “Quero a boneca pra minha neta. / Que nada, ela é minha”. O primeiro homem agride o outro: “dividiu sua cara ao meio com uma giletada”. A menina corre abraçada à boneca. “Sãs e salvas, as duas moram no sinal”. Como em outros finais, aqui o contista surpreende o leitor: a menina pede moedas na esquina e um “sujeito do outro lado da rua tem planos para a menina”. Mais um epílogo enigmático. Violência também se vê em “Gemidos sinceros”, cuja ação se dá num hospital. E haja cenas de brutalidade: “Chuta-lhe violentamente o saco; a cara e o peito lavados de sangue”.

Gildemar, também escritor engajado (palavra muito falada e escrita nos tempos das ditaduras), elabora algumas histórias de dor, fome, desabrigo, como “Condenado pelo tempo”, sem, no entanto, cair na arapuca de fazer discurso político. A não ser quando faz uma brincadeira com o coronel Garcia, o protagonista de “A greve”.

O múltiplo Gildemar é, pois, não só um bom criador de títulos, mas, sobretudo, um narrador de muita imaginação, capaz de fazer homens botarem ovos, como se isso fosse normal. Se algumas peças deste livro têm os títulos iniciados pela “expressão” “da arte de”, nada mais natural do que darmos a este prefácio o título “Da arte de escrever contos”.

Fortaleza, 17 de janeiro de 2008.

Fonte:
Nilto Maciel

Silviah Carvalho ("Habeas Cor" Liberte Coração)


poema em homenagem ao primeiro "Habeas Pinho"

Senhor Juiz

Venho diante de vossa excelência expor um fato
Pedir assim se de teu agrado for sua excelsa intervenção
Pois tendo já perdido o controle, não vejo em mim condições
De resolver de imediato, mesmo sendo responsável por minhas ações

Conhecendo seu Domínio e Sua capacidade, eu me rendo
E por não mais enxergar, dou por minha parte perdido assim a visão
Trago a Ti tamanho enigma e peço desfragmenta-o e devolva-me a razão.
E dai a liberdade, Senhor Juiz, ao instrumento de carne em questão.

Da parte que a mim cabe, digo estava ele a poetizar, só e sem nada sentir
Quando foi tomada de mim a ciência e percebi nada mais poder fazer
Procurei-o porem não dei queixa, pois me parecia bem a tal situação
E o tempo teve pressa em afastá-lo de mim tirando-me o poder de ação.

Lembrai Senhor Juiz, do poeta Ronaldo Cunha
Do fato inusitado de um “tal” violão
Que tendo levado alegria nas noites de serestas
E sem nada dever foi parar numa prisão?

Lembrai Senhor! da atitude do Juiz Roberto Pessoa
Comovido em seu peito da responsabilidade em suas mãos
Vendo a tristeza da cidade e o silencio em suas ruas
Mandou soltar de imediato, dando liberdade ao violão

Peço com a mesma reverência que me dê preferência
Pois tenho certa urgência em voltar meu afazer
Preciso dele, do instrumento a ser mencionado, deixe preso
Os motivos que agora são banais como já se pode ver

Senhor Juiz devolva a liberdade tira-o desta agonia
Pois o “crime” ocorrido foi amar outro coração
“crime” comum eu penso, considerando a tristeza deste dia
Vejo em minha mente a morte silenciosa da poesia

Ele nada mais é que um cansado coração em sofrimento
Atrás das frias grades dos laços da ilusão
Certa de seu acolhimento, juntada destas provas,
Tristes provas. Eu peço, enfim, deferimento.
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Habeas Pinho pode ser encontrado em http://singrandohorizontes.blogspot.com/2009/02/eliana-palma-habeas-pinho.html
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Silvia Helena de Carvalho, é nascida em Bom Jardim de Goiás. Aos sete anos de idade mudou-se com sua família para o Mato Grosso, depois passou a residir em Porto Velho onde começou a escrever suas lindas poesias aos 16 anos, as quais eram publicadas no jornal de maior circulação de Rondônia pelo escritor José Calixto de Medeiros, de quem ganhou seu primeiro livro de poesias “Sentinelas da Estrada” . Daí em diante sua inspiração ganhou impulso.

Silvia é missionária consagrada pela Conamad, finalista em Teologia pela Ibad, Professora de Religião na área de Escatologia, ministra em palestras para jovens e adultos

Atualmente mora em Curitiba/PR

Fontes:
Colaboração da Poetisa.
http://www.silviah.net/

A. A. de Assis (A Língua da Gente) Parte 17


16. Sinônimos (II)

A gíria é outra fonte inesgotável de sinônimos, alguns engraçados, outros um tanto grosseiros, mas sempre fruto de admirável criatividade. Veja, por exemplo, quantos sinônimos o povo criou para aguardente: bagaceira, birita, bafo-de-onça, branca, branquinha, cachaça, caiana, cana, caninha, esquenta-goela, mata-bicho, parati, pinga, purinha, suor de alambique; para bêbado: bebum, esponja, gambá, pau-d’água, pinguço; para embriaguez: carraspana, ferro, fogo, pileque, pifão; para casamento: amarração, degola, forca, entrega dos pontos; para prostituta: cortesã, loba, loureira, horizontal, marafona, mariposa, messalina, mulher à-toa, mulher-dama, mulher da rua, mulher da vida, mulher da zona, mulher de vida fácil, odalisca, piranha, rameira, traviata; para dinheiro: carvão, gaita, grana, tutu; para caipira: bobó, bocó, brega, cafona, capiau, casca-grossa, coió, jacu, jeca, matuto, mocorongo, otário, tabaréu...

A metonímia e a sinédoque (que alguns consideram uma coisa só) prestam bons serviços na criação de sinônimos, tanto poéticos quanto populares.

Exemplos de metonímia:
Comeu dois pratos (= a comida contida em dois pratos);
á bebeu duas garrafas (= o conteúdo de duas garrafas);
Ele é um bom garfo (= uma pessoa que come muito);
É sempre útil ler Machado (= os livros de Machado de Assis);
“Respeite ao menos meus cabelos brancos” (= idade avançada) [Herivelto Martins]; “
O retumbar dos bronzes” (= sinos) [Fagundes Varela].

Exemplos de sinédoque:
O pão de cada dia (= o alimento);
Os sem-teto (= sem casa);
Completou 60 janeiros (= 60 anos).


O símbolo é outra forma interessante de sinonímia. Dentro do contexto próprio, são sinônimos, por exemplo: arado = agricultura; balança = justiça; altar, cruz = igreja; lira = música, poesia; trono = realeza. Algumas cores ou conjuntos de cores constituem também símbolos com força de sinônimos: Alvinegro = Botafogo, Corinthians; Rubronegro = Flamengo; Tricolor = Fluminense, São Paulo F.C.; Verdão = Palmeiras. E não nos esqueçamos dos animais-símbolos, que igualmente ganharam status de sinônimos: águia = perspicaz; burro = ignorante; camaleão = falso, traiçoeiro; carneiro = ingênuo, pacífico; coruja = mãe que gaba os filhos; galinha = namorador, namoradeira; gata = moça bonita; gavião = conquistador; jararaca = mulher brava; porco = avesso à higiene; raposa = esperto. Entram ainda nessa categoria de sinônimos alguns famosos personagens da história e da literatura: don juan = conquistador; dom quixote = idealista, sonhador; hércules = forte, másculo; judas, silvério dos reis = traidor; mecenas = protetor das artes.
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Fonte:
A. A. de Assis. A Língua da Gente. Maringá: Edição do Autor, 2010

Vicência Jaguarive (Nos Momentos de Lucidez)

Jana = Noel del Rosal Ortiz

Mas os momentos de lucidez são mais frequentes. Ela ainda conserva a consciência de seu papel na família. De vez em quando dá ordens e toma decisões, para depois alienar-se do mundo e de si mesma. A cabeça luta para se manter intacta, embora o corpo esteja fraquejando.

Parece ter a intuição de que continua a ser a mola mestra da família. Por enquanto não pode empreender sua viagem, ainda precisam dela. Chora quando chega um sobrinho ou um amigo que não vê há tempos. Entende que aquela pode ser a última vez. As lágrimas são uma demonstração de que ela ainda tem ciência do que acontece à sua volta. Sabe que se aproxima seu aniversário. Noventa e três anos. Quase um século, mas nem parece. O tempo passou rápido demais.

A avó aproxima-se e leva-a para a lição de bordado. Está de férias do colégio onde estuda, na cidade vizinha. Depois da sessão de bordado, a avó lhe dá dinheiro para uma cocada, seu doce preferido. A avó é autoritária, não admite desobediência, mas é boa... para os netos... para todo mundo. Passa pelo quarto da mãe, que amamenta o bebê chegado há algumas semanas. Entra e a mãe lhe dá um beijo na cabeça. A mãe é doce, carinhosa, paciente. Ela a ama muito. O bebê recebeu o nome de José, e é assim que o chama. Algumas pessoas já começaram a chamá-lo Dedé, mas ela não. Não gosta de apelido.

Alguém aciona a campainha, e ela pergunta à cuidadora quem é. Põe a cabeça para fora da rede. É uma das sobrinhas. Ela casara, não tivera filhos, mas criara quatro sobrinhas que ficaram sem mãe. Na realidade, foi mãe para quase todos os sobrinhos, e eles a amam e preocupam-se com ela. Fica feliz quando sabe que eles vivem bem. Recentemente, soube que vai ganhar um sobrinho-bisneto. Ficou feliz pelo sobrinho que vai ser avô, mas ficou mais feliz por saber que a família continua a crescer.

O pai reconhece seus passos no corredor e a chama. Ele se sente pior do reumatismo, anda com muita dificuldade, e a ferida da perna está mais profunda. Ele quer sempre um filho por perto. Gosta de conversar com ela, porque a acha ajuizada e responsável. Pergunta-lhe se ela vai bem no colégio, se comporta-se bem, se sente saudades de casa. Ele conserva-a perto de si por uma boa meia hora. Ela já está impaciente. Sente o gosto da cocada, que continua na bodega. Quando finalmente ele a libera e ela chega à mercearia, alguém havia comprado o último doce do dia. O semblante de tristeza sensibiliza o bodegueiro, que vai mandar a mulher fazer um outro prato de cocada. Dentro de uma hora ela volte que o doce vai estar pronto.

A cuidadora anuncia a hora do banho. Ela não gosta mais de tomar banho, sente muito frio, apesar da temperatura alta da água. O cheiro do sabonete líquido e do shampoo. Depois, a fragrância da colônia suave, que ganhou no Natal. Como ganha presentes! Os sobrinhos mandam presentes no aniversário, no Dia das Mães e no Natal. E quando vêm passar o fim de semana com ela trazem sempre uma lembrança. Veste um vestido limpo e cheiroso e pede para ouvir música. Levam-na à área coberta, onde se conserva sempre uma rede armada, e ela ouve a voz modulada do Orlando Silva: Lábios que eu beijei / Mãos que eu afaguei / Numa noite de luar assim...

O médico dissera que o pai precisava cortar a perna, para evitar a gangrena. Mas ele não resistiu e morreu horas depois da cirurgia. Ela deixara o colégio para ajudar a tocar os negócios da família. Era a mais velha e tinha jeito para comandar. O irmão mais novo do que ela um ano iria substituir o pai na política. Talvez se candidatasse. Havia também o namorado, que fez pressão para ela deixar os estudos e voltar para casa. Aquele namoro era outro problema que parecia não ter solução. Gostava dele, mas ele era um boêmio. Já havia dito: só se casaria quando ele se cansasse daquela vida. A mãe estava sofrendo com a morte do marido, principalmente porque se sentia desamparada. Era uma mulher fraca, que se apoiava na fortaleza dele. Agora não sabia o que ia ser de sua vida.

Vestida de azul e branco / Trazendo um sorriso franco / No rostinho encantador / Minha linda normalista / Rapidamente conquista / Meu coração se amor. Nélson Gonçalves havia substituído Orlando Silva. Gostava daquela música, que a fazia lembrar-se da sobrinha mais velha, a menina do seu coração. Sempre achara que ela seria professora primária, mas a sobrinha fora além. Fez faculdade e até ensinava na universidade.

Nasceu! É uma menina! E o nome vai ser Vicência Maria, em homenagem à Tatença. O irmão entrara correndo e dera a notícia. Era a primeira filha, a primeira neta, a primeira sobrinha. Ela gostou de ouvir que o nome da menina seria o mesmo da avó deles – Vicência, que os netos chamavam Tatença. Aquela menina seria o xodó da família, ela tinha certeza. Levantou-se da máquina, onde bordava uma colcha para o berço do bebê e apressou-se a ir à casa do irmão. A cunhada já estava pronta na cama, com os belos olhos azuis brilhando de felicidade. A menina tem os olhos azuis? Ela era herdeira do gene dos olhos azuis, havia muito a quem puxar: a mãe tinha os olhos azuis e mais duas irmãs dela também. Ela própria, a tia, e um de seus irmãos ostentavam um par de olhos da cor do céu. Não, ela tem os olhos castanhos, disse a mãe da cunhada.

O irmão fizera um bom casamento. A cunhada era uma esposa perfeita. Ele casara-se antes das eleições. Quando tomou posse, a mulher já estava grávida. Aproximou-se do berço. Quando viu o pacotinho branco, somente com os negros cabelos do lado de fora, sentiu que amaria aquela menina como se fosse sua filha.

O almoço está na mesa. Vamos!? Era a voz da cuidadora. Levou-a para a sala de jantar e aproximou a cadeira de rodas da mesa, onde uma das sobrinhas a esperava. Vovó – era assim que os sobrinhos mais novos a chamavam –, está chegando o seu aniversário. O que a senhora vai querer? Ela sorriu um sorriso maroto: Eu quero uma festa, com bolo confeitado, convite, missa e tudo mais. A sobrinha surpreendeu-se: Outra festa, vovó? A resposta veio em tom de ordem: Sim! Eu não tenho dinheiro? Até morrer vou festejar o aniversário.

O sorriso passou de brincalhão a irônico. O que ela ironizava? A vida, talvez. Será que está lúcida? Perguntou-se a sobrinha. Ela tem momentos de ausência, momentos em que se refugia no passado.

Fonte:
Colaboração da escritora.

26ª Feira do Livro Canoas (Programação)


Histórias chegam, ficam e partem daqui.
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05 a 20 de junho de 2010

Horário:
Segunda a sexta:- visitação 9h às 21h

-Livreiros: Das 9 às 20h.
Sábado: Das 9h às 18h30
Domingo: Das 10h30 às 17h

Calçadão e Praça da Bandeira

Patrona: Nelsi Inês Urnau

Xerife:Inácio Ritter Longui

Escritora Homenageada: Cíntia Moscovich

Cidade Homenageada: São Leopoldo

Tema: 25 anos da Trensurb


Informações e agendamento para escolas:
Secretaria Municipal de Cultura
Rua Ipiranga,105-Centro
Fone(Fax): (51) 34784449

Agendamento para Hora do Conto: 34621622

E-mail: feiradolivrocanoas@gmail.com
Blog: http//www.feiradolivrocanoas.blogspot.com/

Fornecem certificados para os participantes (professores e mediadores)

A Programação Geral está em http://sites.google.com/site/pavilhaoliterario/26a-feira-do-livro-canoas-programacao

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Trova 149 - Izo Goldman (SP)

David Martins (O Bandido da Serra de Arga)


A Serra de Arga ergue-se rodeada de muitas outras serranias. A Natureza encontra-se aí em estado quase selvagem, tendo sofrido pouco com a acção destruidora dos homens que tudo querem rapidamente Dominar e transformar em seu próprio proveito. Esta zona era, na época a que nos reportamos, já lá vão alguns séculos, escassamente habitada de gentes. As aldeias distavam uma lonjura umas das outras e eram precisas muitas horas a pé ou a cavalo para que alguém se deslocasse à localidade mais próxima.
Naqueles ermos vivia, solitário, talvez abrigando-se nalguma caverna, um homem enorme e possante, um homenzarrão, que se dedicava à única atividade de matar e roubar todos quantos se aventurassem a atravessar aquela região e tivessem o azar de se encontrar frente a frente com ele. O salteador atacava as suas vítimas com um facão de que nunca se separava. As populações temiam-no e evitavam-no, tal como o faziam com os lobos e os ursos.

Certo dia, um fradinho ingênuo e com o coração cheio de bondade, aventurou-se por aqueles íngremes caminhos de montanha, extasiado com a magnífica paisagem a perder de vista. Ele tinha Deus no seu coração e, quando se via confrontado com a maldade humana, sempre arranjava maneira de descobrir o lado bom dos prevaricadores. Ele não acreditava que pudesse existir a maldade pura e simples.
Seguia este homem de Deus por uma vereda, enchendo os pulmões com aquele ar tão leve e ligeiramente embriagador, e sentindo o coração livre como um passarinho, tudo isto por lhe dada a ver toda aquela beleza simples e harmoniosa. Enquanto caminhava ia agradecendo ao Criador por lhe proporcionar tanta felicidade. Ia tão absorto nos seus pensamentos que nem se assustou quando, alguns passos à sua frente surgiu, vindo não se sabe de onde, uma espécie de gigante, um maltrapilho hirsuto, empunhando um facão e que avançava na sua direção:

- Quem és tu meu irmão...? - começou o frade a perguntar mas, antes de ter podido acabar a frase agonizava, caído por terra, profundamente atingido pela lâmina da enorme faca do bandido.

Antes de exalar o seu último suspiro, o frade ainda conseguiu dizer ao seu algoz, sem qualquer vestígio de rancor ou ódio no seu coração:

- Tenho muito pena de ti meu irmão... vejo que és um homem muito infeliz e solitário e que sofres com isso. É esse sofrimento que te leva a cometeres crimes de sangue... matas o teu semelhante porque não sabes amá-lo. Mas eu agradeço-te pelo mal que me fizeste porque, assim, daqui a pouco vou estar perto de Deus e pedir-lhe-ei que Ele te ajude a encontrar o bom caminho que, um dia, te conduzirá, também a ti, até ao Céu. Acredita que vou ajudar-te ...

O santo homem não teve tempo para acabar a frase. A alma abandonou o seu corpo e regressou para junto do Criador.


Estupefato com a atitude do frade, o ladrão sentiu-se como se tivesse sido atingido por um raio e compreendeu, naquele instante, que se tornara num monstro. A partir daquele dia operou-se uma modificação total na sua maneira de agir e, em vez de assaltar e matar os viajantes, passou a ajudar todos quantos por ali passavam e precisavam da sua ajuda: Salvava crianças que se atolavam na neve, ajudava os pastores a encontrarem as ovelhas tresmalhadas, carregava às costas os velhos que queriam atravessar o ribeiro pouco profundo mas que tinha uma corrente rápida e agitada. Enfim, transformara-se num modelo de caridade cristã para com os seus semelhantes.

Mas, muito antes do assassínio do frade e da consequente modificação no seu comportamento, já a sua fama de assassino e ladrão tinha chegado a Lisboa. Os governantes ofereceram, então, uma recompensa de cem moedas de ouro a quem capturasse o homem e o entregasse às autoridades, vivo ou morto.

Um dia, um camponês que se fez àquela estrada de montanha com uma carroça carregada de cereal para vender na feira ficou, de repente, muito aflito ao verificar que uma das rodas se atolara na lama e ele sozinho não era capaz de resolver o problema. A carroça ia-se inclinando para aquele lado e o homem temia que o cereal se derramasse pela encosta abaixo.
No meio da sua aflição, o camponês não viu aproximar-se o gigante que, entretanto, passara a ser um homem de bem. Pondo um joelho em terra e curvando as suas possantes costas, o homem conseguiu equilibrar, sobre os ombros, o peso da carroça antes que o seu conteúdo se perdesse.

Sabedor da recompensa para quem capturasse o antigo salteador e vendo-o ali, desprevenido, numa postura em que não podia defender-se, o camponês agarrou com as duas mãos num machado que levava escondido debaixo do capote e, com dois ou três golpes, esmagou a cabeça de quem lhe prestara ajuda desinteressada, matando-o de imediato. Cobriu o corpo com alguma terra, ramos e folhas secas e foi a correr avisar as autoridades que tinha capturado o bandido, pedindo-lhes que o acompanhassem depressa ao local, pois temia que os lobos entretanto comessem o cadáver.

Quando chegaram ao sítio onde o homem tinha sido abandonado, com a cabeça despedaçada, verificaram que o seu corpo se encontrava deitado sobre um tapete de flores que inexplicavelmente tinham crescido em seu redor. A cabeça não tinha sinais de ferimentos e o corpo estava intacto, parecia alguém que tivesse simplesmente adormecido tranquilamente. Junto dele tinha crescido uma árvore com densa folhagem que projetava uma sombra fresca sobre o corpo que ali jazia. Passarinhos esvoaçavam em todas as direções enchendo o ar de música com o seu chilrear.

A notícia de tão insólito acontecimento correu célere pelas aldeias vizinhas e não tardou que houvesse quem considerasse que Deus, na sua infinita bondade, concedera a sua misericórdia àquele antigo pecador e que, por isso, ele devia ser considerado santo e digno de veneração.
O povo construiu-lhe uma pequena igreja num lugar ermo da Serra de Arga e, passados alguns séculos, ainda hoje ela lá se encontra e é muito visitada pelos devotos.

Fontes:

David Martins. Estórias e Lendas de Encantar. Lisboa: Lyon Multimédia 1998
Imagem = http://azulporcelana.blogspot.com

A. A. de Assis (A Língua da Gente) Parte 16


15. Sinônimos (I)

Tomemos, por exemplo, a frase “Quem com ferro fere com ferro será ferido”. A esse tipo de frase dá-se o nome de provérbio – palavra cujo significado é “breve sentença que expressa a sabedoria popular”. Poderíamos dizer a mesma coisa, isto é, indicar o mesmo significado, escolhendo, entre outras, uma das seguintes palavras: adágio, aforismo, anexim, apotegma, brocardo, ditado, dito, máxima, preceito, prolóquio, rifão... A isso chamamos sinonímia – vários significantes para o mesmo significado.

Nem sempre, entretanto, a coincidência de significado é perfeita; por isso é importante, em benefício da clareza e da expressividade, escolher o sinônimo que melhor se encaixe no contexto. Em vez de aeroplano, você dirá avião, por ser palavra mais moderna; ou aeronave, para indicar maior intimidade com esse meio de transporte. Alencar não descreveu Iracema como a que tinha beiços açucarados; deu-lhe lábios de mel. Um beijo fica muito melhor no rosto ou na face do que na cara. Seca e enxuta podem ser sinônimos, no entanto é mais prudente chamar uma garota de enxuta do que de seca...

A linguagem, em sua função expressiva, estabelece para os sinônimos uma espécie de hierarquia social, que parte do cerimonioso ou científico, passa pelo afetivo ou familiar e chega até o rústico ou vulgar. Nessa ordem temos, por exemplo, abdome-barriga-pança; urina-xixi-mijo; fezes-cocô-merda; indelicado-grosseiro-cavalo; nádegas-bumbum-bunda; tedioso-enfadonho-chato...

Geram-se os sinônimos mediante processos vários. Veremos alguns dos mais frequentes:

Eufemismo ou disfemismo, que consistem em amenizar ou embrutecer a manifestação de uma ideia. Por exemplo: para substituir morrer, temos, entre outros, os eufemismos descansar, falecer, faltar, partir, dormir nos braços do Senhor; entregar a alma a Deus; ir desta para melhor, ir para a eternidade, mudar-se para o andar de cima... ou disfemismos tais como bater as botas, esticar as canelas, ir para a cidade dos pés juntos... Em vez de velhice, muitos preferem dizer idade avançada, idade da sabedoria, idade madura, idade provecta, outono da vida, terceira idade... E o velho, embora comumente chamado ancião, idoso, vetusto, é dito por outros coroa, gagá... O povo é fértil também na criação de eufemismos “folclóricos”: cachaça = água que passarinho não bebe; defecar = exonerar o ventre; gravidez = estado interessante; menstruação = lua; penico = vaso da noite; urinar = verter água...
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Fonte:
A. A. de Assis. A Língua da Gente. Maringá: Edição do Autor, 2010

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Majela Colares (Poemas Escolhidos)


O SOLDADOR DE PALAVRAS

Fazer poemas é soldar palavras,
fundir o signo - literal sentido -
do verbo frio, transformado em chama,
aceso verso, pensado e medido

sob a moldura da expressão intensa
fingem palavras um som mais fingido
além, no ocaso, da sintaxe extrema,
fuga do verbo não mais definido.

Criado o texto, com idéia e tinta,
forma e figura na linguagem extinta,
quebrando regras de comuns fonemas.

A idéia é fogo. Fogo... o verbo aquece.
A tinta é solda que remenda e tece
versos, metáforas e, por fim, poemas.

O SILÊNCIO NO AQUÁRIO

em meu silêncio, meu exílio canto
e nele morro e quase sempre habito

se no meu sonho, meu silêncio encanto

é porque nele minha morte evito
guardo a memória desse deuses surdos

transformo em cinzas a feição do mito

e na distância de caminhos tardos
durmo ao relento sobre a terra fria

e nas pupilas desses gatos pardos
vivo mil noites pra sonhar um dia

OS LIMITES DO TEMPO

Meia face de sol - a tarde finda
nos limites do céu e da calçada.
Uma tarde partida, quando ainda
refletida entre cores, desbotada.

Aquarela dispersa - morte linda.
(Colorido de tez avermelhada)
mas o tempo ilusório fez infinda
meia face de sol desfigurada.

Murchas pétalas de horas finge o monte
rente a linha deserta do horizonte
feito rosa pendida... rosa-flores.

Nos limites da sombra projetada
nos contornos da noite aproximada
percebo o tempo farejando as cores.

AS MARCAS DO TEMPO

O último impulso do segundo antes
ao projetar-se no após segundo

risca no tempo cicatrizes, fendas...
(o largo corte invariável, sempre)
que esculpe a forma virtual do instante

no confundível e abstrato mármore,
imagem sólida do momento único.

O PASTOR E SUA ALDEIA
a Altino Caixeta de Castro

Eu creio que a eternidade nasceu na aldeia
Lucian Blaga

O ladrido infinito de um cão morto
nas vozes de outros cães é repetido

muito além, incessante ao nosso ouvido
mais além, muito além da voz de um cão

trago a lua no bolso e o sol na mão
e um rebanho de cabras e de estrelas

no desejo incomum de sempre tê-las
na distante lembrança de uma aldeia

pervagando a memória das areias
onde estrelas e cabras pastam sonhos

trago à sombra de alpendres breve sono
pressentindo o rangido da tramela

despertado ao contorno da janela
no silêncio imortal da noite fria

canta o galo, outra vez, e denuncia
(seu cantar tem a cor da lua cheia)

o prenúncio de um dia em outro dia
da eterna solidão - eterna aldeia.

BANQUETE PARA UM FANTASMA

numa bandeja foi servida a hora
em um castiçal, meio tempo aceso

um sopro magro vinha porta fora

e porta adentro vinha um sopro obeso
na sala, ao canto, tinha um riso torto

em pé junto à porta um vulto ao revesso

todos falavam, ninguém se entendia
nas mãos um aceno em forma de enfeite

na mesa, à testa, um fantasma comia
cantava e sorria atento ao banquete

TINTA SOBRE TELA

pintaria de azul a cor do vento
de vento pintaria a lua cheia

se pudesse pintar esse momento

pintaria de céu e luz que ondeia
colorido eu faria o tempo, sempre

chocolate, vermelho, creme-areia

na mistura de tempos, fim errante
a cor do pensamento se desfaz

com um resto de tinta e meio instante
vou pintar seu nariz de cor lilás

TRATADO SOBRE UM POEMA

quis um poema sem razão nem fim
um canto surdo de areia e noites
bem mais veloz que ilusão do tempo
que fosse a vida muito além da morte

quis um poema que tivesse o fim
de ser apenas um rascunho torto
entre as lembranças de qualquer rascunho
entre os rascunhos de alguém já morto

quis um poema de tempo e de tempos
regado a vinho – se possível tinto –
do instante imune, que não foi instante
do tempo impuro, do mais puro cisco

quis um poema que fosse um poema
de pele clara, de cabelo ruivo
que fosse a pedra fecundando o húmus
e a luz gestante fecundando a luz

quis um poema... se quis um poema
foi assim quase... meio, fim e meio
sangrei a noite, mas fisguei o verbo
quis um poema lacerado ao meio

VERDE PELÚCIA

A semente vislumbra em breve tempo
irromper contra a terra umedecida
no húmus da manhã adormecida...
germinar e crescer e dar-se ao vento.

Fecundar neste chão rijo e sedento,
(ledo aroma de chuva acontecida)
no mormaço da véspera, confluída...
germinar e crescer e dar-se ao vento.

Mas a nômade nuvem rara e única
é que traz embuçada em frágil túnica,
o sagrado segredo derradeiro,

que ao certo, lançará feito neblina
a viçosa semente então germina,
na manhã, a saber, de algum janeiro.

Fontes:
– Jornal de Poesia. http://www.revista.agulha.nom.br/
– Revista Para Mamíferos. n.2. Ano 2. Fortaleza,CE: Expressão Gráfica Editora, 2010.
http://www.astormentas.com/

Dimas Macedo (A Poesia de Majela Colares)

Collage à base de Michelangelo e Dali por Marco Aqueiva
Faço uma advertência para lhes dizer do que pretendo falar: das confissões e do outono de Majela Colares, um escritor cearense em ascensão, habitante do imenso País do Jaguaribe e que veio ter em Fortaleza para aqui semear os reclamos e denunciar as muitas incertezas e misérias do ambiente sofrido do sertão.

Majela Colares, em Confissão de Dívida, Fortaleza, Biblioteca “O Curumim Sem Nome”, 1993, é bem o testemunho de um autor que traz e sabe exibir no livro de estréia a força de uma construção poemática já em estágio de maturação, de um escritor que sabe cantar o seu drama e, através do canto, sabe dizer a razão e as contradições do ser da poesia no mundo, questionando assim o poeta o ato de viver e de produzir o milagre que se dissemina nas cordas da canção.

A seara poética de Majela Colares, em “Confissão de Dívida”, reflete a emoção profunda e consciente de uma atividade mental, existencial proveitosa, remarcada nos seus motivos e nos seus apelos pela saga da nordestinidade e do protesto, revelando-nos um universo de “reverberações nordestinas”, segundo a expressão de Luciano Maia, espaço-limite no qual dialoga com as muitas necessidades do humano, buscando atingir o universal com os valores e o modo de pensar e de sofrer de sua região.

Mas não se pense a sua poesia unicamente pela perspectiva da denúncia social e do conflito contigencial e emotivo. Claro que na sua poesia estão também presentes sinais da inquietação metafísica e fragmentos de interrogações, obsessões e perplexidades.

Já em Outono de Pedra, São Paulo, Editora Giordano/Fortaleza, Biblioteca “O Curumim Sem Nome”, 1994, Majela Colares projeta as suas reelaborações e as suas descobertas em busca de uma forma de expressão definitiva, forjando a construção de um estilo que tem muito em comum com as asperezas e os ícones do seu aprendizado e da sua formação.

Utilizando os metros e as muitas facetas da poesia popular nordestina, Majela realiza no seu novo livro, ao lado do conteúdo e da mensagem do texto, muitos experimentos e reinvenções, inclusive na área da décima e do quase-romance de cordel, mas o que vaza da leitura de “Outono de Pedra”, no entanto, é a remarcação das misérias e diásporas do mundo do sertão. É a miséria do sertão e a dor de se descobrir pregoeiro das suas necessidades e dos seus conflitos é aquilo que serve de motivo ao poetar cortante e ao discurso afiado da peixeira poética do autor.

Com ilustrações de Audifax Rios e Socorro Torquato, “Outono de Pedra” tem posfácio de Janilto Andrade, crítico literário e professor da Universidade Católica do Recife. Com ele, Majela Colares obteve menção Honrosa do “Prêmio Ladjane Bandeira de Poesia” – 1994, sendo que do seu texto entre outros elementos, exsurge uma linguagem crua e ao mesmo tempo rica de imagens e simbolizações, principalmente aquelas que têm no universo do homem nordestino o seu casulo e as suas formas de disseminação.

O poema, pois, como construção da linguagem. A palavra como argamassa e cascalho. O fazer a poesia como necessidade de compreender o mundo e de sentir. O sentimento como forma de expressão do pensar coletivo. O arremate do poema como formulação do estilo. O estilo como possibilidade de um modo concreto de dizer e de participar.

Daí, a necessidade do verso, a escritura e a filosofia da composição como justificação e referência de uma maneira muito consciente de pensar e de viver o drama do sertão. Ou não seria o sertão uma invenção e o Jaguaribe um rio que corre sem sair do lugar? Aqui é o lugar, Majela. O texto poético é o lugar da sua bem-sucedida e proveitosa realização.

Fonte:
– Jornal de Poesia.

A. A. de Assis (A Língua da Gente) Parte 15



14. Polissemia (II)

São, porém, os humoristas os que mais frequentemente se servem dos jogos polissêmicos (trocadilhos etc.) para fazer as suas graças. Algumas amostras, que por certo você já ouviu ou leu em algum lugar:

* Sabe como ele conseguiu colar grau?... Colando...
* Muitas vezes a colação de grau depende do grau de colação.
* Na roça, cana dá pinga. Na cidade, pinga dá cana.
* Ela e ele saíram para fazer um programa. Trabalham juntos na TV.
* A palestra dele me lembrou uma espada: comprida e chata.
* Tem gente que faz na vida pública o mesmo que na privada.
* Já deu muitas voltas no globo. É motociclista de circo.
* O Brasil foi feito por nós. Falta apenas desatá-los.
* Gripe topless: você tosse, tosse, tosse... até botar os peitos pra fora.
* Sabe o que faz o nadador?... Nada!
* A duplicata, ela sim pode afirmar: – Hei de vencer!
* Disse o estudante: – Feliz é o rio, que faz o seu curso sem sair do leito.
* Motorista paciente: se o sinal está verde, ele espera amadurecer.

Por falar em motorista, uma das mais interessantes coleções de jogos polissêmicos é a que circula Brasil afora nos parachoques de caminhões. São frases realmente muito boas. Vale recordar algumas:

* A vida de solteiro é vazia; a de casado enche.
* O mundo é redondo, mas está ficando chato.
* A mata é virgem porque o vento é fresco.
* Melhor um cachorro amigo do que um amigo cachorro.
* Relógio que atrasa não adianta.
* Para não ficar a pé, siga sempre na mão.
* Já estou cheio de me sentir vazio.
* A preguiça é um ócio duro de roer.
* Curta a vida, porque a vida é curta.
* Quem gosta de coroa é rei.
* Não sou sanfoneiro, mas toco a noite inteira.
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Fonte:
A. A. de Assis. A Língua da Gente. Maringá: Edição do Autor, 2010

Carlos Gildemar Pontes (Por Falta de um Adeus)



Aos domingos ele ia à praia. Lambuzava-se com um óleo vermelho e estirava-se de cara para o sol. Rapaz metido a fino esse Alfredo. Anda polido mesmo fora do expediente do banco onde trabalha. Sua paixão pela loirinha começa toda segunda-feira.

Pelas manhãs, depois do café, olha-se demoradamente no espelho, revira o cabelo, tenta novo penteado, mas a imagem da loirinha lhe apressa, dando um friozinho na barriga.

- Tchau Rex!

- Au, au, auauau... au, au!

Às 7:30 ela chega ao ponto do ônibus. No último encontro ele alargou-lhe um sorriso. Tomaram o ônibus juntos.

- Oi – dizia ele costumeiramente.

- Oi – respondia ela saturadamente.

- Hoje você atrasou cinco minutos, eu marquei.

- É, o meu cachorrinho machucou a pata dianteira esquerda, aí eu fiz um curativo nele...

- Ah, mas eu também tenho um cachorro! É o Rex. Ele é de raça, sabe? Tem um bom pedigree. E o seu?

- Também.

Hoje o diálogo cresceu, falaram até em cães. Quem sabe seria o primeiro passo para um encontro!

A loirinha secretariava um advogado amigo da família. Alfredo nada sabia a seu respeito, entanto tencionava namora-la.

Ao chegar em casa, gravata bem posta, pano ainda passado, o jovem desviava-se de Rex para não se sujar. Só depois, de calção, passava-lhe a mão meio enjoado na cabeça e logo corria para lavar as mãos. O cão, pobre amigo coitado, auauava incompreendido.

Sabia Alfredo agora que, pelo fato de ter igualmente um cão, poderia iniciar uma conversa menos monótona. Inventaria um machucado para o seu Rex. Uma cadeira que caiu em sua cabeça, talvez.

Na manhã seguinte, planejou bem a mentira e levitou diante do espelho: vou impressiona-la com meus conhecimentos veterinários. Irei até a sua casa cuidar da pata do seu cachorro.

Na saída para o trabalho, Alfredo esquece porém de acenar para o Rex e de fechar o portão. Já sabia agora que podia iniciar uma conversa sobre a cura pela medicina popular aplicada ao tratamento de animais ou como curar a machucadura de seu cão sem chamar o veterinário ou coisa que o valha.

A loirinha ia entrar de férias e levava uma prima para o seu lugar. Iria explicar o serviço enfadonho que fazia.

- Oi – chega Alfredo o mais polido possível.

- Oi.

- Sua irmã?

- Não... prima.

- Sabe o que aconteceu ontem?

- Ahn!?...

- A cadeira caiu na cabeça do rex e o pobre está meio machucado. Mas está tudo sob controle, ele está sob os meus cuidados.

- Que pena!

De súbito, um freio brusco, seguido de um latido, ecoa na avenida. Eis que surge esbaforido e com um palmo de língua de fora, um temendo vira-latas, empinhado de carrapatos, abanando o rabo e atracando-se quase ereto às pernas do Alfredo. ...Meu Deus, deixei o portão aberto e esse nojento saiu atrás de mim...

- Ah, ah, ah, ah Esse aí é que é o Rex?

- Não é o cachorro do vizinho.

De imediato, Alfredo subiu no primeiro ônibus, no que Rex o acompanhou.

- Espera motorista tem um cachorro aqui dentro. Sai Rex, sai Rex, sai desgraçado.

Fontes:
Jornal do Conto
Imagem = http://afarias.blog.com

David Martins (A Sopa de Pedra)


Descia o Sol no horizonte. Pela estrada, coberto de poeira, seguia Frei Bernardo, o rosário a tilintar, a barriga a dar horas.

Longa tinha sido a caminhada, isto para não mencionar a lonjura que ainda tinha de palmilhar até chegar ao mosteiro.

Se era vivo de espírito, não era menos robusto de corpo, o nosso frade. Cem léguas caminharia, tivesse ele a barriga cheia... mas, não se via nem galinha transviada, nem macieira a convidá-lo sem o dono por perto.

Nada, coisa alguma que se pudesse comer.

Pouco faltava para ele maldizer a sua vida, quando avistou uma quinta no horizonte: o seu santo protetor nunca se esquecia de velar por ele!

Sorriu, satisfeito.

Afinal, não há mal que sempre dure. Com um pouco de sorte, alguma coisa lhe dariam para comer.

Mas os tempos não iam de feição para se fazer caridade. A vida estava muito difícil, os anos de seca não deixavam os cereais germinar, os legumes definhavam nas hortas, os animais morriam de fome e de sede. Acrescentem-se os impostos que os senhores da terra nunca se esqueciam de mandar cobrar a tempo e horas, os homens que tinham partido para longe, guerrear sabe-se lá que inimigos numa terra distante.

O pouco que cada um conseguia extrair da terra ressequida, em sua casa o aferrolhava, que ninguém sabia o que ainda podia estar para vir. Tudo isto o nosso bom frade bem o sabia. Mas não lhe faltava nem bonomia, nem engenho e arte para resolver qualquer problema que lhe surgisse, por mais complicado que ele fosse. Se não se podia ir pela estrada real, dava-se a volta por atalhos, e não era por isso que um homem deixava de chegar ao seu destino.

À medida que encurtava a distância que o separava da casa de paredes de pedra escura da região e telhado de colmo, uma ideia foi ganhando forma na sua mente. Apanhou uma pedra do chão e sorriu. Era uma pedra redondinha. Limpou o pó que a cobria e bateu à porta.

- Quem é? - Gritou uma voz de mulher.

- Deus te salve, boa mulher! Não terás por aí uma panela que me emprestes e um pouquinho de água que me dês? É que aqui mesmo acendo umas brasinhas e faço uma sopa de pedra.

- Essa agora! Não querem lá ver? Havia de ter graça! - exclamou a mulher, rindo, os dedos cruzados sobre o ventre empinado pelo pimpolho que em breve daria à luz. - Sopa de pedra? Nunca de tal coisa ouvi falar!

- Pois olha que é um manjar que se faz muito lá na minha aldeia, e é de muito alimento. Queres ver?

É claro que a curiosidade da mulher era mais do que muita, e ela não a escondia, observando o frade com o mesmo espanto com que olharia para uma galinha com cinco cabeças.

- Sempre estou para ver como é que vosmecê faz esse petisco - disse ela, abanando a cabeça, meio incrédula, meio divertida.

- É simples, já vais ver. Ponho esta pedra dentro da panela com água e deixo ferver - explicou ele, mostrando o seixo reluzente.

A mulher não queria acreditar, mas como a curiosidade era mais forte, lá foi buscar uma panela com água.

Frei Bernardo juntou meia dúzia de cavacas, acendeu um lume bem espevitado, meteu-lhe o tacho em cima com a pedra lá dentro, cruzando em seguida os braços como quem está à espera que qualquer coisa aconteça, e depois sentou-se tranquilamente, desfiando o seu rosário. Passados momentos, já a água fervia... com a pedra lá dentro.
A mulher, sempre desconfiada, não tirava os olhos do frade.

- Sabes que mais - disse ele - vou prová-la. - Hmm... parece que precisa de um bocadinho de sal.

E a mulher foi buscar o sal. Frei Bernardo agradeceu, e voltou às contas do seu rosário.

A mulher, como se nada daquilo lhe dissesse respeito, ia no entanto arranjando afazeres que a obrigassem a rondar por ali. Sempre queria ver. O frade fingia não dar pela presença dela que, a certa altura, não resistiu mais e perguntou:

- Então, e é boa... essa sopa?

- Boa? Fica sabendo que é das coisas mais saborosas que eu já comi. E então se me trouxesses uma batatinha, ou uma folhinha de couve, ainda ficava melhor.

A mulher lá foi à horta e regressou com duas batatas, uma cebola, três folhas de couve. Frei Bernardo não se fez rogado. Uma boa sopa de hortaliças já ele tinha a ferver, diante dele. No entanto, passado algum tempo, virou-se para a mulher e disse:

- Esta sopinha não está nada má, mas se lhe juntasse um dentinho de alho, um fio de azeite, duas rodelas de chouriço... ah! Então até os anjos do Céu seriam capazes de a comer.

A sopa cheirava que era um regalo, disso ninguém poderia duvidar. A mulher entrou em casa e de lá saiu trazendo o que faltava.

- Sabes o que te digo? És uma boa alma. Vai buscar duas gamelas e senta-te aqui comigo, que a sopa chega bem para os dois.

Eis como Frei Bernando se deliciou com uma bela sopa, num local onde, de outro modo, bem sabia que nada lhe teriam dado para comer.

- E a pedra? - perguntou a mulher, quando chegaram ao fundo da panela.

- A pedra? Olha, essa, levo-a comigo, que me há-de servir outras vezes.

Fontes:
David Martins. Estórias e Lendas de Encantar. Lisboa: Lyon Multimédia 1998
Imagem = http://escolas.madeira-edu.pt/

Lançamento do Livro de Belvedere Bruno, "Vinho Branco, safra especial de contos e crônicas"

Wilson Bueno (Silêncios)


Para Fernando Paixão

1
há um Deus de luto
no demasiado rútilo
que se liquida ao norte
por uma estrela-de-gelo
e a lua simples nos olmos
carrega em impuro siena
pelas mãos do Deus abrupto
acre oficina de sustos

2
há um Deus bem gaio
na sarabanda do outono
que daqui se vê todo ano
o mesmíssimo outono
de há quatro mil anos
com Deus pelos cantos
pondo branco no agapanto
e amanhecendo paineiras

3
há um Deus silente
na tinta incendiada
de sonetos e poentes
manhã de ouro encardida
cincerros da madrugada
sussuro de Deus com pluma
no andado quase ar voante
de chá e voal o vento

4
diante de tanto quanto Deus
dá-me que entenda
pelo juízo da veia
a via tácita ou láctea
de víscera expectante
pelo que Deus põe de tarde
numa abelha azul-da-prússia
e vos faz de céu e senha

Fontes:
– Antonio Miranda. http://www.antoniomiranda.com.br/
– Imagem = http://noturnamaturidade.wordpress.com/

Wilson Bueno (Meu Tio Roseno, a Cavalo)


Vencedor do Prêmio Jabuti de 2000, a novela de Wilson Bueno, assassinado recentemente em Curitiba (de primeiro já consegue chamar a atenção pelo artesanato inusitado de sua linguagem. Num andamento próximo do coloquial regionalista, contando com a fusão do português, espanhol e guarani (recriando a realidade do local em que se passa a narrativa, entre Paraná, Mato Grosso do Sul e Paraguai), o autor abusa do emprego dos neologismos que atingem até o próprio nome do protagonista, Roseno, que é chamado Rosevago, Rosevéu, Rosenente, Rosalvo, entre outros.

Tal variação sobre o mesmo nome faz lembrar as repetições constantes de expressões por todo o corpo da obra. Confira quantas vezes aparece “meu tio” após o nome do protagonista, ou mesmo “antes da Guerra de Paranavaí”, “Doroí ia lhe dar um filho, uma filha, por ser mais certo”, “bugra esquiza e de olhos azuis” e por aí vai.

Todos esses elementos contribuem para que se construa uma prosa poética que lembra Simão Lopes Neto, pelo tom sulista, mas principalmente Guimarães Rosa, não só pela invenção de palavras e fusão de línguas, mas pelo caráter simbólico, quem sabe até mítico, que o texto acaba assumindo. Reforçando tal aproximação, parece não ser à toa que o narrador, sobrinho da personagem principal, dá um ar de fábula à história ao dizer que se passa no desvão dos tempos, por exemplo. Outro argumento seria a própria melopéia, ou seja, musicalidade da frase, como em “e os ouvidos treinados para diferençar da azáfama de inquietos sons a nota surpresa da mais arisca aproximação”. Recende plenamente o fazer literário roseano.

Em suma, se se aceita a semelhança entre Wilson Bueno e Guimarães Rosa, não se torna absurda a idéia que em Meu Tio Roseno, a Cavalo a narrativa acaba criando um mundo mágico e simbólico, o que se nota já em seu começo, quando se comunica que Roseno montou o cavalo Brioso para realizar uma viagem em menos de sete dias para Ribeirão do Pinhal. A intenção do herói era, obedecendo à profecia de uma cigana, encontrar sua amada Doroí, índia com quem vai ter uma filha, que deve chamar-se, ainda de acordo com a cigana, Andradazil (Outra semelhança com Guimarães Rosa é que “Andradazil” chega a ser onomatopaico, imitando o som da cavalgada, assim como o nome “Tarantão”, do conto de Guimarães Rosa “Tarantão, Meu Patrão”, presente em Primeiras Estórias), para que tivesse um bom destino no meio da tão citada Guerra do Paranavaí (região do interior do Paraná), conflito causado por questão de terra entre índios e civilizados.

Realiza, pois, uma viagem de travessia, que pode ser entendida como metaforização da vida. Faz lembrar o conto de Guimarães Rosa, “Seqüência”, de Primeiras Estórias, pois é uma jornada em busca do amor, ou então “Tarantão, Meu Patrão”, do mesmo livro, já que, além do tom de gesta, há a motivação pelo nascimento de uma criança. Há semelhança também com Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, pois o início de uma vida pode ser visto como um contraste às desgraças mostradas no bojo da obra.

Como já se disse, o livro é marcado por repetições na linguagem, o que o torna poético. Mas no eixo narrativo essa característica se processa pelo aspecto cíclico que é assumido. Sete dias. Seis entrecéus. O ciclo de sol e lua, assim como a própria viagem, são velhos símbolos da vida. E tudo se encaixa em três grandes fases – sexo, luta, assombração – que, no fundo, são manifestações de dois grandes campos: vida e morte. Mais uma vez, o tom mítico do livro.

No início da caminhada a cavalo, Roseno depara-se com um índio desafiador que não acredita no poder das armas de fogo, alienação – principalmente em época tão próxima aos conflitos de Paranavaí – que espanta o herói. Mas basta mostrar o poderio bélico para que o oponente se desmanche em cortesias, levando o protagonista até sua tribo. Lá, conhece uma índia muito jovem, criança ainda, com quem passa noite, tirando-lhe a virgindade.

No dia seguinte encontra problemas ao abandonar a tribo. O chefe quer que se case com a pequena índia. Mais uma vez, tem de usar seu revólver. O engraçado é que não bastaram tiros no chão – teve de, estranhamente, pôr na mão do selvagem a arma para convencê-lo de deixar sair (Pode ser visto como significativo o fato de Roseno deixar vários espelhos e miçangas em troca da hospedagem e da companhia afetiva. O herói, mesmo neto de índia, parece ter em seu sangue o costume branco – seu avô era alemão – já vindo do século XVI de trocar coisas tão preciosas por ninharias). Parte, pois.

Nesse primeiro embate, o prazer sexual, princípio da vida, está ligado a combate, que se restringiu, na verdade, apenas à possibilidade. Vitória da existência. Mas conquista efêmera. Pouco depois encontra, em seu segundo dia de viagem, em meio ao clima fantasmagórico da noite, um local em que havia os restos mortais de combatentes, ossadas e mais ossadas dispostas num quadro dantesco. Era a Guerra do Paranavaí se apresentando. Era o princípio da morte começando a se instalar.

Passa a noite com um sono entrecortado pela impressão que aquela paisagem macabra lhe deixou. Prossegue sua viagem até no final do terceiro dia, quando pára e resolve ver as atrações de um circo. Decepciona-se com a farsa sobre uma mulher que se dizia barbada. Além disso, foi obrigado, num bar, a brigar com dois soldados, que queriam mostrar-se atrevidos. Vence-os. Por fim, enquanto assistia a um espetáculo, presenciou um velho baixinho pegar um homem bojudo e atirar várias vezes sobre a cabeça deste, num ato de covardia que revoltou os demais da platéia. O surpreendente é que a vítima ainda consegue se levantar e cambalear na direção do assassino, no entanto, termina por cair. Alguns entre o público tomam as dores do derrotado e partem para cima do covarde, mas são segurados pela própria orquestra do circo. Estava consagrado que tudo não passava de farsa, o que deixou o herói irritado. Assim, parte.

Chega-se ao seu quarto dia de viagem, mergulhado nas memórias da infância, com a presença marcante da avó, feiticeira. Lembra-se também da amada, que lhe proporcionou inúmeros momentos de gozo. Recorda-se ainda dos irmãos. Além disso, vem em sua mente uma enxurrada de acontecimentos ligados a guerra, violência, assassinatos, seus primeiros empregos, seu ofício como capador de galos e daí a sua paixão: as brigas realizadas entre esses galináceos. Tudo isso se passa com maestria, revelando o domínio de Wilson Bueno, já detectado em outros momentos da obra, sobre o emprego do tempo psicológico e do fluxo de consciência.

Estamos, definitivamente, no campo da guerra, que nada mais é do que luta por sobrevivência. Porém, é um momento da narrativa com uma enorme proximidade da morte. Disseminam-se aqui elementos que podem ser vistos como preparação pelo menos do clima do final da novela. Em nome da guerra – que é uma luta por domínio de vida – atrocidades são cometidas.

Mergulhados nessa atmosfera, estamos no quinto dia, o mais assustador. Tudo começa com um encontro fortuito com um sujeito extremamente magro. Fugia de Aruanã porque o povo estava perseguindo um lobisomem que havia feito muita desgraça na cidade. Todos acreditavam que o desgraçado era desdentado, o que faziam pessoas com tal qualidade serem alvos perfeitos para a fúria dos cidadãos. Roseno fica desconfiado, ainda mais quando descobre que o fugitivo, Luís Arnaldo, era maneta.

Chega à cidade, que lhe é frustrante, pois, em vista do clima de terror, não se estavam realizando as famosas brigas de galo. E, como de esperar, o assunto de todos era nada mais do que o tal lobisomem. O herói diz que o viu, mas, feita a descrição, todos na hospedagem em que está dizem tratar-se apenas de Luis Arnaldo. E dedicam-se a contar mais histórias fantásticas. Roseno não repara, no entanto, que um dos forasteiros ri sempre escondendo os dentes.

No fim, recolhe-se ao seu quarto, o que possui o aziago número 13. No meio da noite acorda e, guiado apenas por um toco de vela, vai ao banheiro coletivo da hospedaria. Enquanto se desafoga, ouve o resfolegar de um cavalo e por uma fresta consegue ver que era justo o animal de Luís Arnaldo. Chega até a enxergar-lhe inúmeras asas. Corre assustado para o seu quarto, não sem antes ver o eqüino voar.

Volta para seu sono perturbado, interrompido pela gritaria dos vizinhos: estavam perseguindo um lobo, ou melhor, o lobisomem. O animal acaba – numa cena bastante pungente – massacrado pelos moradores. Roseno, que já estava decepcionado pela ausência das rinhas de galo, decide, diante de tudo o que havia presenciado, partir de Aruanã. No caminho, admira-se ao encontrar com o desdentado Luís, que estava voltando à cidade. É este quem lhe diz que o lobisomem era o forasteiro que tanto escondia a falta de dentes.

Está terminando o seu prazo de deslocamento e o Brioso parece que sente, pois cavalga mais rápido, até nervoso. Está-se aproximando do clímax da novela, depois de toda uma narrativa que somava amor, guerra e assombração, este último elemento nada mais era do que o medo da morte. E é o que vai tomando mais forma no final, o que parece ser pressentido pelo herói, principalmente quando vê urubus sobrevoando a região que era o rancho onde devia estar Doroí. Corre desesperadamente para lá.

Chegando, só encontra a casa abandonada e crivada de balas. Sua fúria e desespero se descarregam soltando tiros para todas as direções, o que acaba por derrubar de uma árvore a negra Nhô, que ali se havia escondido. Em meio à tensão, consegue arrancar da empregada informações por demais dolorosas: Doroí ainda não havia dado a luz, mas tinha sido levada dali para a Guerra do Paranavaí.

E assim encerra-se o conto, com o amanhecer do sétimo dia. Com esse anticlímax, pois que frustra as expectativas do leitor, bem no esquema de contos como “Os Irmãos Dagobé” e “Tarantão, Meu Patrão”, de Primeiras Estórias ou mais ainda como “A Cartomante”, de Machado de Assis, pois o que acontece no final já havia sido anunciado em elementos disseminados pelo texto, mas que o leitor acaba ignorando por criar uma expectativa em outra direção.

Fonte:
http://www.lol.pro.br/

Wilson Bueno (O Escritor em Xeque)


Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão

Como construiu o escritor que é hoje?

Posso dizer que foi uma lenta e meticulosa procura de um "sentido" para viver, pra existir cá neste mundo insensato. Não que tenha havido um propósito deliberado, digamos assim, de "construir" o escritor, como você coloca na sua pergunta. O escritor foi surgindo na exata medida em que a vida foi solicitando de mim um "sentido". E junto com esta busca, a cada vez, o gosto, o prazer do texto, a epifania da escrita. Difícil escavar a pedra bruta, muita vez só com as unhas das mãos, para dali extrair quem sabe uma esmeralda viva. Há textos que são esmeraldas vivas e não que eu tenha chegado a alguma, mas sei que isto é possível. É da natureza da velha ars literaria esta e outras amplas possibilidades. É preciso amor ao texto como se ama a um homem ou a uma mulher...

Há muita diferença entre escrever para o público infantil e para o adulto?

Olha, eu só tenho um livro destinado exclusivamente para as crianças, embora muitos de meus textos, sobretudo a parte zoofílica, as fábulas principalmente, possam ser lidos por pessoas de 0 a 100. Mas o meu único livro digamos "infantil", estrito senso, se chama "Os Chuvosos" e acaba de ser publicado, em edição artesanal-luxo, pela Tigre do Espelho, da poeta e designer gráfica Jussara Salazar. Mas, acredite, não escrevi "Os Chuvosos" pensando especificamente nas crianças, pelo contrário - era até, em princípio, para integrar o meu livro mais recente, "Jardim Zoológico" ( Iluminuras, 1999) que não é propriamente um livro infantil, não é? Mas aí deliberamos, eu e Jussara, que o livro seria destinado às crianças e como eu o tinha escrito para uma menina, Kaira, então com 5 anos, e tinha a ela dedicado o texto, "Os Chuvosos" ficou sendo mesmo um título de literatura infantil... Não sei se respondi sua pergunta, mas, em síntese, tudo para mim é o prazer do texto. Divirto- me tanto com "Finnegans Wake" quanto com as estórias dos Irmãos Grimm, e decididamente não penso, quando de minha fatura literária, pessoal, para quem eles, os textos, se destinam...

Seu mais recente livro é "Jardim Zoológico", que acaba de ser publicado pela Iluminuras. O que há de novo em seu trabalho?

Dentro de uma linha evolutiva, se assim podemos dizer, de minhas zoolatrias, que começa lá atrás, em 1991, com "Manual de Zoofilia" ( Noa Noa) onde discuto a mito-poética do amor erótico humano a partir de bichos como cadelas ou corvos, elefantes ou polvos, moscas ou colibris, "Jardim Zoológico" é um momento agudizado daquela vertente. Não fiz por menos - decidi inventar e/ou inventariar novos bichos para, a partir de sua forma e conteúdo, refletir sobre a pobre condição humana. Ali onde havia um pardal, digamos, instaure-se, por exemplo, os giromas; ali onde, arisca, cheia de nosso presto amor com raiva, se atocaiava uma raposa, coloque-se em seu lugar, os guapés, micro-cães menores que um dedo humano e seus filhotes inverossímeis. Penso que o Jardim é mais filosófico que o Manual, mais maduro também, embora, alguns exagerados, considerem o livrinho editado pela Noa Noa e que mereceu recente uma segunda edição pela editora da UFPG, a melhor coisa que fiz até hoje, chegando ao cúmulo de classificá-lo como obra-prima, - esta palavra perigosa - , o que é, evidente, uma inverdade...

Quem assina o prefácio de "Jardim Zoológico" é Arnaldo Antunes. A letra de música é poesia?

No meu entender, a poesia está em tudo o que se queira como poesia. Nos filmes publicitários, nas bulas de remédio, nos out-doors, nos muros da cidade aflita, na prosa de Goethe ou nos sonetos de Machado de Assis. Como não estaria nas letras de música, com nossos poetas-compositores, nós que somos um país musical e que acrescentamos ao mundo insuspeitadas essências nesta área - do samba à bossa-nova, do tropicalismo ao frevo? Agora, há letras de música e letras de música; como há sonetos de Machado de Assis e sonetos de J.G. de Araújo Jorge...

Com quantas metáfora se faz um poema?

Responderia a esta pergunta com uma utopia e novas perguntas - haverá a vez de um poema sem metáfora? Como seria um poema destituído de toda metaforização? Será possível um poema assim esquizofrenicamente colado ao real feito uma segunda pele? E que poesia é esta que não trans-figura? Tal poema seria, para não fugir da metáfora, só a sina de ser, rude como um coice...

Borges dizia que se há um telefone sobre a mesa e ele não tem função, a sua presença num romance é dispensável. Concorda?

Em gênero, número e grau. Este telefone exemplificado por Borges pode até não tocar, ninguém usá-lo para fazer uma ligação, mas a sua função visceral tem que ser dada. Este telefone recortado na ambiência do texto terá que dizer algo e desde já deduzimos que não será qualquer coisa, e que mesmo que seja qualquer coisa isto tem que estar conectado ao corpus do texto feito uma fatalidade.

Como você vê 18 páginas de "Mar Paraguayo" ( Iluminuras, 1992) ter sido incluídas numa das mais importantes antologias latino-americanas dos últimos tempos que é "Medusario" ( México, Fondo de Cultura Económica), organizada por Roberto Echavarren e José Kozer?

É preciso lembrar que lá também estão fragmentos de "Galáxias", de Haroldo de Campos, e também fragmentos do "Catatau", de Paulo Leminski - igualmente como representantes do Brasil na antologia. Acho que está mais do que na hora de a literatura brasileira, uma das literaturas mais ricas do mundo, ser ao menos conhecida pelos nossos vizinhos de língua hispânica. É incompreensível que não nos conheçam ou nos conheçam muito pouco. E quando travam contato com as nossas coisas, veja-se o exagero e o deslumbre - vão logo nos antologizando de um modo generoso e inteiro, como agora, com Medusario. A se destacar, o grande pequeno ensaio que introduz "Mar Paraguayo" na antologia, uma visada aguda e inteligente sobre o texto, realizada pelo crítico Roberto Echavarren. Estar ali, ao lado das mais importantes expressões da nova literatura latino-americana, além da honra, tem me dado grandes alegrias.

Como encara a Internet? Como utiliza a web? O livro corre perigo?

O livro só tem ganhado com a Internet. Nunca a literatura encontrou um meio tão pródigo em propagandeá-la, em multiplicá-la. Não é difícil hoje você ter acesso à poesia, digamos, servo-croata, bastando para tanto um endereço eletrônico e um movimento de "enter" em seu teclado. E, depois, tem o inglês, este esperanto vitorioso, que nos leva aos quatro cantos da Terra, pelas teias da web. Não viveria hoje sem a Internet - ela passou a se construir numa coisa essencial em minha vida. É nela que pesquiso, converso, bordo e danço... E, sobretudo, é companhia, quando, tarde da noite, a prática de urrar, cá no meu estúdio do arrabalde curitibano, leva-me a muitas modulações de uivos - longos, stacattos, curtos e agudos, ou graves e solenes feito o balir de um cervo em agonia...

Tem alguma epígrafe?

Tenho muitas, mas gosto particularmente da que inscrevi ao pórtico de "Manual de Zoofilia" e que é atribuída a Shakespeare - "A planta chamada mandrágora é afim com o reino animal porque grita quando é arrancada e esse grito pode enlouquecer quem o escuta."

Qual o papel do escritor na sociedade?

Nossa função, penso, é não deixar nunca que a superfície chapada das coisas vigore, ou se revigore. O compromisso do escritor é com o lúdico, com o in-útil essencial da vida. Brincantes e mágicos, feiticeiros e inventores, os escritores temos que estar atentos para que a linguagem não congele em fórmulas exitosas. Necessário o gosto e o gozo do texto sempre novo, o ar, a nova aragem. Numa sociedade que tende à estagnação da linguagem, o escritor é aquele demônio capaz de revirar o tempo todo, revirar esta mesma linguagem para que ela não pereça nem morra de preguiça ou pelo uso congelado de sua repetência. O olhar do escritor tem que estar sempre e invariavelmente na direção do horizonte... Quem se dedica a buscar, está sempre encontrando.

Fonte:
A Garganta da Serpente. http://www.gargantadaserpente.com/