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terça-feira, 25 de março de 2025

José Feldman (1954) Biografia atualizada

  

José Feldman nasceu na cidade de São Paulo, no dia 27 de setembro de 1954. Aos 6 anos de idade aprendeu a jogar xadrez com seu pai. Desde os 10 anos mostra aptidão para a escrita, ao escrever pequenos contos baseados em personagens de história em quadrinhos. Com cerca de 13 anos de idade, escreve as suas primeiras poesias. Na época já lia muitos livros e revistas.

Primeiros livros foram a coleção de Monteiro Lobato dada por seu pai. Aos 12 anos se apaixonou por paleontologia e arqueologia ao ler o livro Romance da Terra, de Rudolf Thiel. Com cerca de 15 anos de idade participou de concursos de poesia sem sucesso. Desde 1973, com uma fome enorme de conhecimento, realizou vários cursos, como Filosofia no Instituto Palas Athena, Italiano na Associação de Cultura Afro-Brasileira, Inglês no Instituto Roosevelt e Instituto Norte Americano, Leitura Dinâmica e Desinibição e Criatividade, no Instituto Dynamics Cymel, Arte Dramática no Instituto Macunaíma, Filosofia no Centro de Estudos Filosóficos Pró-Vida, além de diversas palestras e encontros de literatura.

Em 1975, devido a enfermidade de seu pai, auxilia-o na direção de clube de xadrez no Instituto Cultural Israelita Brasileiro (ICIB), assumindo definitivamente a diretoria em 1978, sendo reeleito sucessivamente até o ano de 1996. Neste período, foi também auxiliar de diretoria, arbitro e professor de xadrez no Xadrez Clube Sorocaba e no Clube de Regatas Tietê. Foi jogador no 3. tabuleiro pelo ICIB em Torneios Interclubes a nível regional e nacional e 1. Tabuleiro pelo Xadrez Club Sorocaba na Categoria Especial.

Também, no ICIB, pertenceu à diretoria cultural, promovendo diversos eventos musicais, revelando talentos musicais dos jogadores do departamento de xadrez. Neste período começa a dar maior ênfase também à literatura, ao fazer, na Casa Mário de Andrade (Oficina da Palavra) o curso de Poesia Viva, com a poetisa Eunice Arruda, curso de literatura com Mario Amato, Ficção Cientifica na literatura e no cinema com o escritor de renome internacional, André G. Carneiro, além da Oficina de trovas com Izo Goldman.

No xadrez, como organizador, diretor, arbitro, granjeou a admiração e o respeito de grandes jogadores, o que o fez elevar o clube da 3ª categoria para a categoria especial. Criou também um boletim enxadrístico denominado “J’Adoube” (eu arrumo), direcionado a todos os níveis de jogadores, com partidas, notícias, estudos, piadas enxadrísticas, etc., e com tempo obteve a adesão de colaboradores com desenhos artísticos, poemas, etc. (na época não havia computador, era tudo na máquina de escrever e mimeógrafo).

Entregue de corpo e alma à literatura, continuou tentando ainda concursos de poesia na Livraria Freitas Bastos e Scortecci, mas ainda sem sucesso. 

Casou-se em 1995 com a poetisa, escritora e tradutora paranaense Alba Krishna Topan, a qual conhecera no curso de Ficção Científica, na Casa Mario de Andrade. Foi em 1999 para Curitiba, onde ficou longe da literatura e do xadrez. Não conseguindo se adaptar ao clima, mudou-se para a cidade de Ubiratã, a cerca de 70 km de Cascavel (PR).

Em Ubiratã, começou a se firmar ao ser eleito em 2001 como vice presidente da diretoria provisória, da Associação dos Literatos de Ubiratã (ALIUBI), tendo contato com poetas da região. Foi um dos fundadores da Associação de Cinema Amador na cidade.

Em 2003, começou a se dedicar ao estudo de Administração de Empresas, realizando cursos no SEBRAE, SENAI, Universidade de Viçosa e vários outros, tendo sido diplomado em dezenas de cursos na área administrativa e participado de palestras até os dias atuais.

Participou de concursos de contos em Portugal e França. Também participou de torneios de xadrez regionais, sagrando-se campeão, terceiro e segundo lugares, respectivamente, em 3 torneios em três anos consecutivos.

Criou o Blog Pavilhão Literário Cultural Singrando Horizontes (http://singrandohorizontes.blogspot.com/) seguindo os mesmos moldes do boletim, com muito mais conteúdo, postados diariamente, iniciado ao final de dezembro de 2007.

Com isto, começou a ficar mais conhecido devido a sua divulgação dos escritores, sendo convidado no mês de junho de 2008 a efetuar uma palestra na Academia de Letras de Maringá, onde discursou sobre o Panorama da Literatura no Brasil. Muitos escritores começaram a enviar seus textos e livros para apreciação crítica. 

Em novembro de 2008, a convite do escritor Sorocabano Douglas Lara, passou a ser membro da ONE (Ordem Nacional dos Escritores), recebendo juntamente com sua esposa, o medalhão das mãos do presidente da ONE, José Verdasca, em 2008, em Sorocaba.

Nas palavras de Vãnia Ennes, de Curitiba/PR: "É com grata emoção que a diretoria Estadual do Paraná vem acompanhando seu magnífico trabalho, há mais de 1 ano. Dia após dia, Feldman, você se supera na arte de produzir, criar e disseminar a cultura poética e literária no âmbito nacional e internacional. Cada vez mais, podemos observar a sua sensibilidade que está exposta, claramente, no Pavilhão Literário Cultural Singrando Horizontes, desde dezembro de 2007 a março de 2009 e que muito orgulha o nosso Paraná. É um belíssimo desempenho cultural!!! A oportunidade de poder apreciar seu site, ler, reler, participar, aprender com ele, são atitudes que nos induzem seguir adiante e, nos fazem muito bem. Portanto, receba nossos mais calorosos aplausos ."

Em 2011 mudou-se definitivamente em Maringá/PR, com sua esposa Alba Krishna, gatos e cadelas. 

Foi Consultor Educacional atuando junto a alunos e professores de cursos de bacharelado, mestrado e doutorado de diversas universidades do Paraná e São Paulo.

Em 2015, a convite do Conde Carlos Ventura passou a pertencer como Imortal Correspondente na Academia de Letras Brasil-Suiça, cadeira n. 145, escolhendo o patrono: Mário Quintana. Ocasião em que foi agraciado com a Medalha de Mérito Cultural Euclides da Cunha desta academia.

Em 2017, a convite do presidente Luís Antonio Cardoso, da Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (ARLAC) de Taubaté/SP, tornou-se Acadêmico Correspondente no Grau de Oficial (1. Grau), quando lhe foi conferido também o Prêmio "Mahatma Gandhi" de Liderança pela Paz, da Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura de Taubaté/SP

A. A. de Assis, de Maringá/PR diz:
“Há uma palavra moderninha – bookaholic, que na verdade nem é tão moderninha assim, porém me pareceu com jeito de chique e vem aqui a calhar. Foi a melhor maneira que achei para definir o escritor, pesquisador e animador cultural José Feldman, paulistano radicado há alguns anos em Maringá. Bookaholic é a pessoa excessivamente apaixonada por livros. Em português, um sinônimo próximo seria bibliófilo. Feldman é assim: gosta de cães e gatos, mas sua paixão enormemente maior é pelos livros. Lê tudo, em todos os momentos disponíveis. E quase tudo que lê ele transcreve em seus vários blogues, para alegria de milhares de leitores. Ele é o maior divulgador de textos alheios via internet. O maior propagador da arte literária no país.”

Em 2021, o presidente Luiz Antonio Cardoso, da Academia Internacional da União Cultural, o empossa como acadêmico.
 
Ainda neste ano funda a Confraria Brasileira de Letras junto com um artista plástico de Curitiba, que falece neste mesmo ano, uma academia virtual, assumindo então a Presidência desta entidade.

Participou da Comissão Julgadora de diversos Concursos de Poesias.

Assina seus escritos/versos pela cidade de Floresta, vizinha de Maringá..

Quando não está imerso na literatura, tem por hobby tocar Saxofone, Clarinete e Flautas barroca, germânica, contralto e celta.

Nas palavras de Carolina Ramos, de Santos/SP: 
”Quando se tem um ideal na vida, tudo parece mais fácil de ser realizado. Só assim, é possível explicar a capacidade ímpar de José Feldman em levar avante a tarefa espontânea à qual, há tanto tempo, se entrega, na missão auto imposta de espalhar poesias e textos de seus amigos e irmãos de jornada, por este Brasil afora. É isto o que Feldman faz, passando por cima de seus próprios problemas e cansaços, fazendo, do bondoso coração, um ninho de afetos que a todos acolhe com fraternal carinho, estendendo ainda sua ternura aos cães e gatos que lhe servem de companhia através da vida. 

Em audaciosa imagem, José Feldman é uma espécie de “gralha azul” que, em vez de semear pinhões, semeia letras e versos, reflorestando o Brasil com esse viço poético que desperta a sensibilidade - em tempos atuais, sob constante ameaça de ser sufocada pelo árido e pesado concreto do dia-a-dia. 

Sensível, sofrido, faz ele de sua vida um barco que enfrenta tempestades e mares revoltos, com o estoicismo de poucos, e, sem esmorecer, digita, altas horas, as páginas que cria, repletas de obra alheia e, nas quais, quem menos aparece é seu próprio nome. 

Difícil enumerar, sem pecado de omissão, os inúmeros blogs e jornais virtuais por ele criados e alimentados com dedicação digna de ressalto. Entre eles: - Pavilhão Literário Singrando Horizontes, O Voo da Gralha Azul, Coleção Memória Viva, Paraná Poético, Almanaque Paraná, Chuva de Versos, etc. 

Afetivo e impulsivo, por vezes, Feldman não hesita em dar um passo atrás para desfazer mal entendidos, ciente de que, o caminhar por esta vida, não nos isenta de tropeços que uma amizade sincera não possa suplantar. Este é José Feldman, cujo coração fraterno bate mais forte pelos que o cercam, do que, na verdade, em proveito próprio.” 

Algumas Premiações Literárias:

Poesias:

- III Prêmio Literário Gonzaga de Carvalho. ALTO (Academia de Letras de Teófilo Otoni). 10. Lugar. 2018.
- IV Prêmio Literário Gonzaga de Carvalho. ALTO (Academia de Letras de Teófilo Otoni). 12. lugar. 2019.
- 30. Concurso Internacional de Poesias, Contos e Crônicas da ALPAS (Academia Internacional de Artes, Letras e Ciências "A Palavra do Século XXI"). 2019.
- Concurso Literário Virtual da ALAP, Academia de Letras e Artes de Paranapuã/RJ. 1. lugar. 2020.

Entidades as quais pertence:

- Confraria Brasileira de Letras (CBL) Cadeira n. 1 - Patrono: André Carneiro - Presidente Nacional.
- Academia de Letras de Teófilo Otoni/MG (ALTO) - Acadêmico correspondente
- Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (ARLAC) de Taubaté/SP - Acadêmico Correspondente no Grau de Oficial (1. Grau)
– Academia Internacional da União Cultural – Acadêmico titular
- Movimento União Cultural - Conselheiro Internacional
- Academia Virtual Brasileira de Trovadores – Acadêmico titular
- Confraria Luso-Brasileira de Trovadores – Acadêmico titular
- Associação dos Literatos de Ubiratã (ALIUBI) (vice-presidente 2001 - 2003).
- Academia de Letras Brasil-Suiça . Cadeira n. 145 - Patrono: Mário Quintana
- Ordem Nacional dos Escritores (ONE).
- União Hispanomundial de Escritores (UHE).
- Casa do Poeta Lampião de Gaz, de São Paulo.
- Sociedade Mundial dos Poetas.
- Ordem dos Cavaleiros Templários (OCT).
- Ordem Sagrada do Templo e do Graal (OSTG).
- Antiga e Mistíca Ordem Rosae Crucis (AMORC).

Honrarias:

- Medalha de Mérito Cultural "Euclides da Cunha" da Academia de Letras Brasil-Suiça, em Berna/Suiça. 2015;
- Comenda por Mérito Cultural da Academia Pan Americana de Letras e Artes. 2016;
– Mérito Cultural da Academia Brasileira de Trovas. 2016;
- Prêmio "Mahatma Gandhi" de Liderança pela Paz, da Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura de Taubaté/SP. 2017;
- Prêmio "Monteiro Lobato" do Movimento União Cultural. 2018.

E-books que organizou:

- Almanaque O Voo da Gralha Azul (16 números)
- Boletim Literário Singrando Horizontes (13 números)
- Almanaque Chuva de Versos (475 números)
- Almanaque Paraná (12 números)
- Folhetim Literário Desiderata (10 números)

Ebooks de sua autoria:
- Labirintos da vida.
- Peripécias de um jornalista de fofocas & outras histórias.
- Dissecando a magia dos textos: Contos e Crônicas.
- Devaneios poéticos.

Livros publicados:
– Guirlanda de Versos.
– Coleção Terra & Céu. José Feldman e Izo Goldman(organizada por Milton Souza)

Poesias em alguns livros de outras autorias:
- Revista Literária da Academia de Letras de Teófilo Otoni, Café com Letras (poesia). 2013.
- Edição comemorativa de 35 anos do Movimento Poético em São Paulo (poesia). 2016.
- Coletânea dos Poetas de Maringá - IV. (poesia). 2016.
- Luciano Dídimo (org.). 100 sonetos de 100 poetas. 2019.
- XV Coletânea de Poesias da ALIUBI (poesia). 2019.
- Sandra Veroneze (org.). Poetas pela paz (poesia). 2020.

Possui o blog http://singrandohorizontes.blogspot.com.br em atividades desde 2007, com cerca de 20.000 artigos e uma média de 7 mil leitores/mês, e mais de 3.500.000 leitores.

Contatos, colaborações pelo email: gralha1954@gmail.com

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Giuseppe Paolo Dell’Orso, por ele mesmo


Chamo-me Giuseppe Paolo Dell’Orso, nasci em 15 de junho de 1927 em uma pequena cidade chamada Pieve di Soligo, localizada no interior da Itália. Desde jovem, demonstrei um profundo amor pela literatura, influenciado por meu avô, que era um poeta local. Minha infância em meio às montanhas e campos da região moldou minha sensibilidade artística, inspirando as primeiras composições poéticas. 

Após concluir o ensino médio, decidi me mudar para Roma para estudar Literatura Italiana na renomada Universidade La Sapienza. Durante meus anos universitários, me destaquei como um aluno excepcional, recebendo diversos prêmios acadêmicos, dentre os quais se destacam: 

- Prêmio de Excelência Acadêmica (1956) – Reconhecimento por minhas pesquisas inovadoras sobre a poesia moderna. 

- Bolsa de Estudos Michelangelo (1957) – Concedida a alunos com alto desempenho acadêmico, permitindo-me que realizasse um intercâmbio na Universidade de Paris. 

- Prêmio de Melhor Trabalho de Conclusão de Curso (1958) – Por minha tese sobre a influência do Renascimento na poesia contemporânea. 

Após obter meu diploma, busquei novos horizontes e me mudei para a Inglaterra, onde fui aceito no programa de pós-graduação em Literatura Comparada na Universidade de Harvard. Minha pesquisa focou na relação entre a poesia renascentista italiana e a literatura contemporânea, o que me rendeu um doutorado com honras e o prêmio Harvard Literary Fellowship, um reconhecimento pela contribuição significativa ao campo da literatura. 

Em 2001, recebi uma proposta irrecusável: lecionar Literatura Italiana em uma universidade no Brasil, no estado do Paraná. Fascinado pela cultura brasileira e pela rica diversidade literária do país, aceitei o desafio e rapidamente me adaptei à nova realidade. 

No Brasil, me envolvi profundamente com a comunidade literária, fazendo amizade com muitos escritores locais. Organizei encontros literários e oficinas de poesia, promovendo um intercâmbio cultural que unia vozes italianas e brasileiras. 

Além da carreira acadêmica e literária, sou um defensor ativo de causas sociais. Contribui para várias entidades filantrópicas tanto no Brasil quanto na Itália, focando em projetos que promovem a educação e a inclusão social. Meu envolvimento em iniciativas culturais ajudou a criar bibliotecas comunitárias e programas de alfabetização em áreas carentes. 

Apesar de aposentado, continuo a lecionar e criar. Minha jornada, que começou em uma pequena cidade italiana, me levou a se tornar um elo entre duas culturas, inspirando muitos jovens escritores e amantes da poesia. Através de minha obra e de ações, perpetuo a ideia de que a literatura é uma ponte que conecta pessoas, independentemente de fronteiras. 

A amizade que tive com o magnífico poeta José Feldman é uma história de conexão cultural e literária que começou em 2005. Desde o início de minha jornada no país, fui acolhido por Feldman, um gestor cultural reconhecido em todo território brasileiro e no exterior, que se destacou por seu trabalho em promover a literatura nacional e internacional. Conheci sua dedicação pela trova e pela literatura em geral na Biblioteca de Parma, onde há diversas trovas e poemas de sua autoria em revistas da região. Nos conhecemos em um evento literário em Curitiba, onde eu estava estava apresentando minhas obras e minha visão sobre a interseção entre a literatura italiana e brasileira. Feldman, impressionado com a sensibilidade e a musicalidade dos poemas, se aproximou para discutir as possibilidades de colaboração e intercâmbio cultural. A amizade rapidamente se fortaleceu, baseada em uma profunda admiração pelo trabalho um do outro. Fiquei impressionado com o empenho de Feldman em promover a literatura e a cultura, não apenas no Paraná, mas também em um contexto mais amplo, por pura paixão. Mais ainda pelo seu conhecimento ímpar dos poetas de países europeus, africanos e americanos, com quem muitos deles possui contato. José Feldman, além de ser um poeta e escritor talentoso, é um fervoroso defensor da literatura mundial, organizando concursos e oficinas que conectam escritores de diferentes origens. 

Juntos, iniciamos diversos projetos que visavam fomentar a literatura e a troca cultural entre Brasil e Itália. A parceria resultou em oficinas de poesia, leituras públicas e intercâmbios de escritores, permitindo que vozes diversas fossem ouvidas e celebradas. Feldman, como um grande incentivador, sempre me apoiou na divulgação de minhas obras, ajudando a criar um espaço onde a poesia pudesse florescer, com seu blog que existe desde 2007. 

A influência de Feldman na minha carreira literária é inegável. Através de suas iniciativas, não só ajudou a promover minhas obras, mas também contribuiu para a criação de uma comunidade literária vibrante, ao mesmo tempo que eu trazia uma nova perspectiva à cena literária, enriquecendo o diálogo cultural com nossas experiências e visões. 

A nossa amizade é um exemplo de como a literatura pode unir pessoas de diferentes culturas e origens. Juntos, promovemos a poesia e a literatura, mostrando que a arte é uma ponte que conecta corações e mentes, independentemente das fronteiras. A admiração mútua e a colaboração entre nós é um testemunho do poder transformador da amizade na literatura.

Sou autor de diversos livros, tanto em italiano quanto em português, com destaque para a poesia. Meus poemas refletem a fusão entre a tradição literária italiana e as influências culturais brasileiras. 

As publicações são: 

- "Sussurros da Terra": uma coletânea de poesias que explora a beleza natural do Brasil e suas semelhanças com a paisagem italiana. 

- "Coração Trovador": um livro que reúne poemas inspirados na tradição trovadoresca, adaptados ao contexto contemporâneo. 

- "Versos entre Culturas": uma obra que aborda o diálogo entre as literaturas italiana e brasileira. 

– "Fragmentos do Eu": esta coletânea de poemas reflete sobre a busca pela identidade em um mundo multicultural. Utiliza imagens e metáforas para capturar a complexidade das experiências pessoais, abordando como as raízes familiares e as influências culturais moldam quem somos. 

– "Cantos da Terra": neste livro, exploro a conexão entre o ser humano e a natureza, traçando paralelos entre as paisagens italianas e brasileiras. A obra destaca a importância da preservação ambiental e celebra a beleza dos diferentes ecossistemas, refletindo sobre como eles impactam a vida e a cultura. 

– "Ecos de Outras Vozes": uma coletânea que reúne poemas inspirados por poetas de diversas culturas. Homenageio influências literárias de diferentes partes do mundo, mostrando como a poesia pode ser um meio de diálogo entre tradições diversas. 

– "Entre Fronteiras": este livro aborda a experiência de viver entre culturas e os desafios e alegrias que isso traz. Compartilho relatos poéticos sobre minhas vivências no Brasil e na Itália, enfatizando as interações e os aprendizados que surgem dessas experiências. 

– "Sussurros do Coração": uma obra mais introspectiva, onde reflito sobre emoções universais, como amor, perda e esperança. Os poemas abordam a conexão humana, independentemente das diferenças culturais, destacando a empatia como um valor essencial. 

Fonte: Texto enviado pelo autor 

domingo, 19 de maio de 2024

George Sand* (As moças de Berry)

 Eu tenho uma moça, então duas,
Que não tem boca nem olhos;
Tenho três, então quatro,
Eu bem que queria resisti-las.
Eu tenho cinco, então seis,
Quem não quer seus beijos?
Por trás veio a sétima,
Nunca vi a oitava.

Verso antigo relembrado por Maurice Sand.

As moças de Berry parecem-nos primas das Milloraines da Normandia, que o autor de “Fantasias da Normandia” descreve como seres de tamanho gigantesco. Elas ficam paradas e sua forma, muito pouco distinta, não permite discernir seus membros ou seu rosto. Quando nos aproximamos, elas fogem por uma sucessão de saltos irregulares muito rápidos.

Estas moças ou jovens podem ser de diversos países. Eu não acredito que sejam de origem gaulesa, mas sim francesa, da Idade Média. De qualquer forma, vou relatar uma das lendas mais completas que consegui através de um de seus relatos. 

Um senhor de Berry, chamado Jean de La Selle, que viveu no século passado em um castelo localizado nas profundezas da floresta de Villemort. O camponês, triste e selvagem, comemora um pouco na orla da mata, onde a terra seca, plana e coberta de carvalhos, desce em direção a prados que dão em uma série de pequenos lagos que hoje em dia estão mal cuidados.

Já no momento de que falamos, as águas ficavam nos prados do senhor de La Selle, o bom cavalheiro não tendo muito o que fazer para limpar as suas terras. Tinha uma extensão bastante grande, mas de qualidade escassa e de pouco valor. No entanto, ele viveu feliz, graças aos gostos modestos e um caráter sábio e alegre. Seus vizinhos estavam sempre à sua procura devido ao seu temperamento agradável, bom senso e paciência na caça. Os camponeses daquele domínio e arredores o consideravam um homem de bondade extraordinária e de rara delicadeza. Dizem que ele preferiria que sua camisa ficasse permanentemente grudada em seu corpo e seu cavalo entre suas pernas a prejudicar um vizinho.

No entanto, aconteceu que, uma noite, o senhor de La Selle tendo estado em Berthenoux para vender um par de bois, voltava tranquilamente, escoltado por seu meeiro, o grande Luneau, que era um homem fino e educado, carregando na garupa esguia de sua égua cinza a soma de seiscentas libras em grandes moedas planas com a efígie de Luís XIV. Era a soma pelo gado vendido.

Como um bom senhor do campo que era, o senhor de La Selle havia jantado na taberna e, como não gostava de beber sozinho, fez o grande Luneau sentar-se à sua frente e serviu-lhe o vinho sem poupar, a fim de deixá-lo à vontade.

Tanto é que o vinho, o calor e o cansaço do dia e, acima de tudo, o trote rítmico da égua cinza tinha adormecido Monsieur de La Selle, e ele chegou em casa sem saber por quantas horas havia andado ou o caminho que havia seguido. Cabia a Luneau conduzi-lo, e Luneau o dirigira bem, pois chegaram sãos e salvos; seus cavalos não tinham o lombo molhado.

Bêbado, o senhor de La Selle não estava. Em sua vida, ninguém o tinha visto sem fazer sentido. Assim que se levantou, disse ao criado que levasse a mala para o seu quarto, depois conversou muito razoavelmente com o grande Luneau, deu-lhe boa-noite e foi para a cama sem dificuldades para encontrá-la. Mas no dia seguinte, ao abrir a mala para pegar o dinheiro, encontrou apenas pedras grandes e, após buscas inúteis, foi forçado a perceber que haviam sido roubados.

O grande Luneau, chamado e consultado, jurou por sua crisma e seu batismo que tinha visto o dinheiro contado na mala, que ele carregou e amarrou nas costas da égua. Também jurou por sua fé e pela lei que ele não havia deixado seu mestre sozinho desde que entraram na estrada principal. Mas confessou que, ao entrar na floresta, sentiu-se um pouco sonolento e conseguiu dormir em seu cavalo por cerca de um quarto de hora. De repente, ele se viu perto da Gâgne-aux--Demoiselles e, desde aquele momento, não tinha dormido e não havia visto nenhuma alma cristã.

— Vamos — disse o senhor de La Selle —, algum ladrão deve estar rindo de nós. A culpa é ainda mais minha do que sua, meu pobre Luneau, e o mais sábio é não se gabar. O prejuízo é só meu, já que você não participou da venda do gado. Eu saberei como me decidir, embora o assunto me incomode um pouco. Isso vai me ensinar a não adormecer a cavalo.

Luneau queria em vão levantar suspeitas de alguns caçadores pobres que estavam no lugar.

— Não, não — respondeu o bravo escudeiro. — Não irei acusar ninguém. Todos na vizinhança são honestos. Não falemos mais nisso. Eu tive o que mereci.

— Mas talvez você esteja um pouco bravo comigo, mestre...

— Por ter dormido? Não, meu amigo; se eu tivesse lhe dado a mala, eu tenho certeza de que você teria ficado acordado. Eu só culpo a mim, e minha fé, não pretendo me punir por isso. É o bastante ter perdido o dinheiro, vamos guardar nosso bom humor e apetite.

— Se você acredita em mim, no entanto, mestre, você deveria procurar em Gâgne-aux-Demoiselles.

— Gâgne-aux-Demoiselles é uma vala que tem cerca de meio quarto de légua de comprimento; não seria fácil remexer toda aquela lama, e além disso, o que encontraria lá? Meu ladrão não teria sido tão tolo a ponto de atirar minhas moedas lá!

— Você pode dizer o que quiser, mestre, mas o ladrão talvez não seja como você pensa!

— Ah, meu grande Luneau, você também acredita nas jovens que são espíritos malignos que gostam de pregar peças!

— Eu não sei, mestre, mas eu estive lá uma manhã, em plena luz do dia, com meu pai, nós as vimos como vejo você agora; ao mesmo tempo, voltamos para casa com muito medo, sem chapéus, nem gorros em nossas cabeças, nem sapatos em nossos pés, nem facas em nossos bolsos. Elas são muito espertas! Parecem fugir, mas, sem te tocar, te fazem perder tudo que conseguem pegar e se beneficiam disso, porque ninguém encontra suas coisas outra vez. Sim, se eu fosse você, drenaria todo aquele pântano. Seria melhor para você e as jovens logo sairão de lá; já que é de conhecimento de todo homem de bom senso que elas não gostam de lugares secos e que vão de lagoa em lagoa, à medida que a névoa da qual se alimentam é removida.

— Meu amigo Luneau — respondeu o senhor de La Selle —, secar o pântano certamente seria um bom negócio para o prado. Mas, além das seiscentas libras que perdi, nunca tive nenhum motivo para desalojar as jovens. Não é que eu acredite nelas precisamente, já que nunca as vi, nem qualquer outra criatura parecida; mas meu pai acreditava um pouco nisso, e minha avó acreditava completamente. Quando conversamos sobre isso, meu pai disse: “Deixe as moças em paz; elas nunca me fizeram mal, nem a ninguém.” E minha avó costumava dizer: “Nunca atormente ou invoque as moças; sua presença é boa para a terra, e sua proteção é um amuleto de boa sorte para uma família”.

— Por isso mesmo — retomou o grande Luneau, acenando com a cabeça. — Elas lhe roubaram!

Cerca de dez anos depois desta aventura, senhor de La Selle voltou da mesma feira de Berthenoux, trazendo de volta a mesma égua cinza, já muito velha, mas ainda trotando sem vacilar, com uma soma equivalente àquela que lhe fora roubada de forma tão singular. Desta vez ele estava sozinho, o grande Luneau havia morrido há vários meses; e nosso senhor não dormiu a cavalo, tendo renunciado e perdido definitivamente este hábito importuno.

Quando ele estava na orla da floresta, ao longo da Gâgne-aux-Demoiselles, que está localizada na parte inferior de uma encosta bastante alta e toda coberta de arbustos, velhas árvores e grandes gramíneas silvestres, o senhor de La Selle foi tomado de tristeza ao se lembrar de seu pobre fazendeiro inquilino, sentindo sua falta, embora seu filho Jacques, alto e magro como ele, e assim como ele prudente e astuto também, parecia fazer o seu melhor para substituí-lo. Mas não podemos substituir velhos amigos, e o senhor de La Selle também estava envelhecendo.

Ele foi tomado por pensamentos sombrios; mas sua boa cabeça logo os dissipou, e ele começou a assobiar uma melodia de caça, dizendo a si mesmo que, como em sua vida e em sua morte, seria o que Deus quisesse.

Quando estava aproximadamente no meio do comprimento do pântano, foi surpreendido ao ver uma forma branca, que até então ele havia tomado por aqueles vapores com os quais as águas paradas são cobertas, mudam de lugar, depois saltam e voam para longe, dissipando-se por entre os galhos. Uma segunda forma mais sólida emergiu dos juncos e seguiu a primeira, estendendo-se como uma tela flutuante; depois uma terceira, depois outra e mais outra; e, ao passarem pelo senhor de La Selle, tornaram-se vultos tão visivelmente enormes, vestidos com saias longas e claras, com cabelos esbranquiçados arrastando em vez de esvoaçantes atrás delas, de tal forma que ele não conseguiu sair dali.

Estes eram os fantasmas sobre os quais ele tinha ouvido falar quando criança. Assim, esquecendo-se do que sua avó o recomendara, de que se algum dia se deparasse com elas deveria agir como se não as visse, passou a saudá-las como o homem educado que era. Cumprimentou a todas, e quando chegou à sétima, que era a maior e mais visível, não pôde deixar de dizer a ela: “senhora, estou ao seu dispor”.

Mal proferiu esta frase, a jovem alta apareceu na garupa atrás dele, abraçando-o com os dois braços, frios como o amanhecer, e a velha égua cinzenta, apavorada, saiu a galope, carregando o senhor de La Selle pelo pântano.

Embora muito surpreso, o bom cavalheiro não perdeu a cabeça. “Pela alma de meu pai”. Ele pensou. “Nunca fiz nada de errado e nenhum espírito pode me machucar”. Ele segurou firme as rédeas e forçou a égua para fora da lama. Lutou, enquanto a jovem parecia tentar detê-lo e desviar a égua.

O senhor de La Selle tinha pistolas em seus invólucros, e ocorreu-lhe a ideia de usá-las; mas, julgando que se tratava de um ser sobrenatural e lembrando-se além disso que seus pais o haviam recomendado não ofender as donzelas da água, contentou-se em dizer gentilmente: “Realmente, linda senhora, deveria me deixar seguir meu caminho, pois não cruzei o seu para incomodá-la, e se a cumprimentei, foi por educação e não por escárnio. Se você quiser orações ou missas, torne seu desejo conhecido e, palavra de um cavalheiro, você as terá!”

Então o senhor de La Selle ouviu uma voz estranha acima de sua cabeça dizendo: “Mande rezar três missas pela alma do grande Luneau e vá em paz!”

Ele pensou então que tinha tido uma visão; no entanto, ordenou as três missas. Mas qual não foi sua surpresa quando, abrindo a mala, encontrou ali, além do dinheiro que recebera na feira, as seiscentas libras em moedas planas, ostentando a efígie do falecido rei.

Elas queriam dizer que o grande Luneau, arrependido na hora da morte, havia pedido para que seu filho Jacques fizesse essa restituição, e que este, para não manchar a memória de seu pai, havia solicitado que as jovens o fizessem. O senhor de La Selle nunca permitiu que nenhuma palavra fosse dita contra a probidade do falecido, e quando essas coisas eram faladas sem respeito em sua presença, ele costumava dizer: “os homens não podem explicar tudo, talvez seja melhor aqui estar sem censura do que sem fé”.
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* Biografia
George Sand (pseudônimo de Amandine Aurore Lucile Dupin, baronesa de Dudevant) nasceu no dia 1 de julho de 1804, filha de Maurice e Sophie Dupin. Seu pai faleceu quando ela era ainda criança, após uma queda de cavalo, quando acompanhava o príncipe Murat em campanhas armadas. Amandine é então mandada para Nohant, aos cuidados de sua avó, Marie-Aurore de Saxe. Sua avó era neta do célebre Marechal de França, o conde Maurício de Saxe, sendo este, filho bastardo de Augusto II, rei da Polónia e de Saxe, e da sua amante, a condessa Maria Aurora von Königsmark.

Durante sua infância, ao lado de sua avó, Amandine passava os dias brincando e descobrindo cada canto da propriedade de Nohant com seu meio-irmão Hippolyte Chatiron (filho do seu pai com uma amante da região), companheiro e parceiro em todas as suas aventuras e travessuras. Os dois estudavam em casa com um preceptor, quando não desapareciam nas profundezas da região. Sua avó preocupada com a educação e o comportamento de sua neta, a matriculou no Couvent des Anglaises em Paris e enviou Hippolyte para uma grande escola de cavalaria de uma cidade vizinha. Acontece que a menina se apaixonou pela vida silenciosa e introspectiva que levava dentro das paredes de pedra do convento e desejou ser freira. Lá, se interessou também por música e teatro e para alegrar suas amigas, decidiu criar pequenas peças de teatro e montar um grupo de meninas para representá-las.

As peças eram um sucesso, e Amandine gostava cada vez mais da vida no convento. Sua avó sabendo disso, levou a neta de volta a Nohant. De volta ao convívio com Aurore de Saxe, ela começou a compreender e amar cada vez mais a sua avó e quando esta morreu, pouco tempo depois, Amandine sofreu muito. Para que herdasse Nohant seria preciso que se casasse, assim, pouco tempo depois, ela se casou com François-Casimir Dudevant, em 1822. Desse casamento nasceram dois filhos - Maurice e Solange. Essa união, devido a infidelidades e alcoolismo de Casimir, desencadeou incontáveis problemas, culminando com o divórcio - fato incomum para a época - em 1836.

George começou a escrever para o jornal Le Figaro, com a colaboração de Jules Sandeau. Usavam, então, o pseudônimo de Jules Sand – inspirado no nome de Sandeau. Em 1831, lançaram o livro Rose et Blanche. Passou a usar o pseudônimo de George Sand em 1832, quando escreveu, sozinha (obrigada a usar um pseudônimo masculino, para ser aceita no meio literário), o romance Indiana, seu primeiro livro, seu primeiro sucesso. De 1832 a 1837, escreveu muitos outros romances, que invariavelmente eram publicados, primeiramente, como folhetins no jornal. Esses romances refletiam seus próprios desejos e frustrações, advogando o direito da mulher de ter um amor sincero e dirigir sua própria vida.

Além de seus comentados relacionamentos, Sand também tinha outros hábitos incomuns para sua época. Vestia-se com roupas masculinas por diversão ou praticidade e comodidade (como dizia). Também tinha o costume de fumar em público num tempo em que isso era inaceitável para uma mulher. Comentava-se, ainda, sobre a grande quantidade de obras que produzia como sendo uma característica pouco feminina.

George Sand teve uma vida amorosa agitada, com paixões que a influenciaram consideravelmente, como o escritor Jules Sandeau, que lhe deu o pseudônimo literário, o poeta Alfred de Musset, o advogado Michel de Bourges (entre 1835 e 1837), que a converteu aos ideais republicanos e socialistas, o músico Frédéric Chopin, a quem esteve ligada entre 1838 e 1847 e seu último amante Alexandre Manceau, gravador e dramaturgo. Depois de Jules Sandeau e antes de Alfred de Musset, teve também uma breve aventura com o escritor e arqueólogo Prosper Mérimée.

De 1838 a 1845, Sand expressou suas preocupações com os problemas sociais em romances como Consuelo (1842-1843) e O Companheiro da Viagem pela França (1840). Sonhava com um mundo em que o amor fraterno unisse as classes sociais. Teve participação ativa na revolução de 1848. De 1846 a 1853, escreveu romances leves, idealizando a vida nas províncias francesas. Estes incluem Francisco, o Bastardo (1847-1848), A Pequena Fada (1849) O Charco do Diabo (1846), Mauprat, 1837, entre tantos outros de igual sucesso. Finalmente, de 1854 a 1876, escreveu contos simples, à maneira das histórias de fadas. Desse período destaca-se Contos de uma Avó (1873), com histórias que ela escreveu para seus netos.

Os personagens de George Sand e suas histórias são invariavelmente repletos de ingenuidade, poesia e otimismo. Como dizia a escritora: "O romance não precisa ser necessariamente a representação da realidade." Ela faz parte também dos escritores políticos, contando em sua obra mais de 70 títulos, entre novelas, contos, peças de teatro e textos políticos. Suas memórias constituem suas obras de maior interesse, especialmente A História de Minha Vida (1854-1855) e Ela e Ele (1859), referência à sua ligação com Alfred de Musset

George Sand faleceu no dia 8 de junho de 1876, em Nohant, na França. Alguns dos seus romances se transformariam em filmes e séries de tv, como: Mauprat (1926), Mauprat (1972), os belos cavalheiros da Floresta Dourada (1976), A pequena fada (2004), O charco do diabo (1972), As crianças do século (1999), entre outros. Seus romances continuam a serem versionados para o teatro e realizados muitos filmes e livros sobre sua vida, assim como grupos de estudo sobre ela, seu tempo e sua obra.

Considerada a maior escritora francesa e a primeira mulher a viver de direitos literários, sua propriedade em Nohant foi doada ao governo francês, por sua neta Auror e está aberta à visitação pública - Maison de George Sand. Seus restos mortais e de quase toda a sua família estão no pequeno cemitério ao lado de sua casa em Nohant. (https://pt.wikipedia.org/wiki/George_Sand

Fonte: George Sand. Lendas Rústicas. Publicado originalmente em 1858. 
Disponível em Domínio Público 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Batista de Lima (1949)

José Batista de Lima, nascido em Lavras da Mangabeira/CE (1949), embora pertença ao “grupo” da revista O Saco, pois seu primeiro livro, de poemas, é de 1977, passou a divulgar seus contos mais recentemente: O Pescador da Tabocal saiu em 1997 e Janeiro é Um Mês Que Não Sossega, em 2002. Seminarista no Crato, formou-se em Letras e Pedagogia pela Universidade Estadual do Ceará. Especializou-se em Teoria da Linguagem na Universidade de Fortaleza, onde exerceu a chefia do Departamento de Letras e a diretoria do Centro de Ciências Humanas. Cursou o mestrado em Literatura na Universidade Federal do Ceará. Iniciou-se como professor de Português em colégios de Fortaleza.  

Na vida literária deu os primeiros passos no Clube dos Poetas Cearenses. Mais tarde participou ativamente dos grupos Siriará, Arsenal, Catolé e Plural. Pertence à Academia Cearense de Letras, à Academia Cearense da Língua Portuguesa e à Academia Lavrense de Letras. Desde 2009, é conselheiro do Conselho Estadual de Educação. Publicou Poemas: Miranças (1977); Os Viventes da Serra Negra (1981); Engenho (1984); Janeiro da Encarnação (1995); O sol de cada coisa (2008); Tiborna (2014); Concerto para espantos (2015). Contos: O pescador de Tabocal (1997); Janeiro é um mês que não sossega (2002); Assim falou Sipaúbas (2019). Ensaio: Os vazios repletos (1993); Moreira Campos, a escritura da ordem e da desordem (1993); O fio e a meada (2000); Uma casa toda mãe (2022).

Sua fortuna crítica está reunida no livro Pele e Abismo na Escritura de Batista de Lima (Fortaleza, Unifor, 2006), organizado por Nilto Maciel.

A presença do poeta é visível em muitas histórias. O ensaísta talvez se mostre quando a narrativa se aproxima da crônica social e política.

Batista de Lima apresenta os contos quase sempre em diversas ações, isto é, em diversos tempos e lugares. Em “Os Cavaleiros da Lua”, que oferece características de lenda, vemos: “Deu-se que Adamastor parou de respirar, porque morrer mesmo ela já havia morrido desde que voltara do seringal.” A linguagem, porém, é sempre poética e muito particular.

Ora em Tabocal, ora em Sipaúbas, é nesses lugarejos do sertão cearense que as personagens se movimentam, nascem, vivem e morrem. O sertão é pintado sem exageros de descrição. Há somente referências a objetos, situações, seres, como parte do cenário ou das vidas dos personagens: tapiocas, esterco de vaca, cuia de leite mungido, pé de muçambê, palhoça à beira do açude, vagens de feijão, queijo de cabras, coité. Nada de descrições inúteis ou excessivas.

Os personagens de Batista são homens e mulheres do sertão ou das cidades pequenas, até mesmo aqueles já desaparecidos, já tornados mitos, como Lampião. Alguns desses personagens, sempre secundários, se repetem em diversas histórias: padre Inácio é “habilidoso” em “A Festa de Janeiro”, aparece “já velho e ocupado com o rebanho em Cristo, de Tabocal”, em “O Pícaro”; Coronel Nicodemos, ou Demo, é o mandão do lugar, Tabocal; Dona Bilinha, mulher do coronel; major Apolônio; padre Otávio, Cabo Zezinho; e outros. Isto dá aos livros de Batista certa unidade, embora os dramas não se misturem, não se confundam.

Muitos dos personagens Batistianos têm características próprias - são caracteres. Como Maria Raimunda, a vendedora de abelhas (“As abelhas”). Ou como os padres, coronéis, doutores, fabricantes de cachaça, valentões, afinadores de violões, coveiros e até animais. A presença de cobras, cachorros e gatos é frequente na obra de Batista de Lima: em “O Lobisomem de Tabocal” o bicho “veio dos lados do cemitério, já trazendo uma porção de cachorros latindo desesperados.” Dona Margarida, na história de título homônimo, herda do terceiro marido alguns cachorros. Em “Bonifácio bom de fala” vê-se “um amontoado de cachorros”. Em “A botija” há também a presença desses animais. Há até um conto de gatos, que passam a dominar a casa de Macário (“Os gatos”).

O universo de Batista de Lima é habitado por criaturas às vezes picarescas, mas sempre muito reais. O narrador-escritor ou o narrador-onisciente atua como um memorialista muito cioso da verdade dos fatos ou um repórter astuto. Em vista disso, aqui e ali o leitor perceberá na narrativa o tom da crônica, como em “O Hospital Fantasma” e “O saque a Sipaúbas”. Neste a problemática da seca é o drama central: “Os sipaubenses comiam calango, miolo de mandacaru, carne de urubu, mas resistiam.” Na mesma linha está “Os sobreviventes”.

Alguns dos personagens de Batista são caricaturas, como Manilton, cheio de manias. Outros, como Macário, têm desenhado o comportamento ou o caráter e não tanto a fisionomia ou a aparência. Em vista disso, muitas histórias são de personagem. Malaquias, de “O póstumo”, por exemplo, “era morto de preguiça.” O conto de personagem é o mais frequente na obra de Batista. Muitos têm por título o nome ou o apelido do protagonista (“Carmina”, “Banana”); outros, a condição física, social (“O velho”, “O delegado”, “O insepulto”).

O tempo em Batista de Lima é dilatado. As ações de um mesmo drama são narradas de forma sucinta, ligadas uma a outra, porém entre uma e outra o tempo é de dias, meses, anos. Em “O Pícaro” no primeiro parágrafo Dona Bilinha “estava sentindo as primeiras dores do primeiro parto”. No segundo parágrafo o rebento, Caetano, “foi dado para criar ao Pe. Inácio”. No outro, o menino já crescido, bebia o vinho, comia as hóstias e roubava o dinheiro da coleta da igreja. Mais adiante, aos doze anos, virou lavador de pratos e limpador de banheiro em um bar. Mais adiante, tornou-se guia de cego. Termina sargento e provável candidato a prefeito. Em “O Afinador de Violões” a vida do protagonista daria um romance, como diz o povo. A história tem começo como muitas narrativas populares: “Naquele tempo”. A seguir o afinador de violões “tornou-se cassaco”. As referências ao passar do tempo são frequentes na narrativa: “Dias depois”, “O afinador começou a afinar-se de carnes”, “voltou para a companhia da mãe”, “Os anos se passaram”, “Foram anos e anos de afinação”, “Certa feita”, “Uma noite de agosto”. Essa variedade de ações/tempos está presente em muitos outros contos, como um recurso de linguagem utilizado com insistência.

Batista não se atém ao instante, ao flash, ao momento de tensão da trama. Importa a ele o ritmo do calendário, o passar do tempo. Em “Julho é um mês que não tem fim” o próprio título é significativo. Todo o passado do lugarejo é “revivido” como num sonho. Os mortos revivem suas façanhas. (…) “a noite continuou por dias e anos transfigurados. Muitas moagens e histórias se repetiram no pequeno espaço de horas.” Em “Dona Margarida” o mesmo processo: “em outros tempos”, “uns foram embora”, “de tempos em tempos”, “já enterrara dois maridos”, “chegou a festa do padroeiro”, “depois de alguns anos”.

Há dois tipos de contos nos dois livros de Batista de Lima: as histórias do sertão e as narrativas poéticas, quase poemas em prosa, como “Vertigem” e “A pedra”. Nestes a ausência de trama e de personagens chama a atenção do leitor. Às vezes há personagens, como em “O eremita”. São personagens-símbolo: Deus e Canlima, o eremita. Em “O capote” a protagonista Marta é uma menina. E tudo gira em torno de sua amizade com um capote, isto é, galinha d’angola. A narrativa se desenrola com suavidade e poesia até o desfecho, quando Marta se sente adolescente, “o capote já velho”: “Certa feita, depois de algum tempo,” o capote “amanheceu morto.” A menina “não derramou sequer uma lágrima. Andava muito entretida em se arrumar, ultimamente.” Vê-se também o fantástico ou o fantasioso em algumas narrativas, como “O encontro” e “Projeção”. Esses contos geralmente não se localizam no campo, no sertão, constituindo, pois, uma minoria no conjunto das histórias.

O conto sem enredo, de personagens sem nome, também compõe a obra de Batista, como “O cordeiro”. Algumas dessas peças podem ser denominadas parábolas, como “A Carta”. E o que dizer de uma história cujo personagem principal é a morte? Em “Lindolhar” o protagonista se vê “perseguido” ou “olhado” pela morte: (…) “ela estava no último galho da árvore”, como se fosse uma coruja. “Ela estava lá, antiga como a noite, afinando as garras para o bote”, como uma cobra.

E como o contista arranja os desenlaces de suas narrativas? Muitas vezes o desfecho é a morte do protagonista, como em “Luizão”, “O Lobisomem de Tabocal”, “O Afinador de Violões”. Em outros contos, no entanto, nada de tragédia no desenlace. Em “Os Enganos das Aparências” o suposto machão soldado Viriato, “só músculos”, o “gigante”, é flagrado em banho com negro Terto no banheiro de Dona Maroca. “Naquela mesma noite” “desapareceu pelos fundos da pensão”, “levando nas costas a mala de roupas e de surpreendentes mistérios.” Esse tipo de humor contido está presente em diversas narrativas, como “O Herói que não Retorna”, “Manilton”, “Os Azares do Aspirante”. Desfecho com humor se vê também em “O falso crime do Padre Arnaldo”. Talvez não tanto com humor é o desenlace de “Os gatos”.

Batista utiliza sempre a narração como forma básica de contar as suas histórias. Não há diálogos explícitos, diretos. E isto se dá tanto do ponto de vista onisciente como da primeira pessoa. As narrativas são constituídas basicamente de narrações, com raríssimas descrições e falas em discurso indireto.

Batista de Lima também cultiva o miniconto, embora os outros não sejam longos. Uns poucos alcançam mais de três páginas de livro, como “Janeiro é um mês que não termina”. Quanto mais reduzido, mais o conto tende a se afastar da forma tradicional. O miniconto às vezes se aproxima do poema. É o que se vê em Batista. É o poeta dando a mão ao narrador ou ao prosador. E ambos caminhando de cabeça erguida, certos de estarem cumprindo suas missões no vasto mundo das letras.

Fontes: - MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008. Enviado pelo autor.
– Soares Feitosa e Nilto Maciel. Jornal do Conto; 
– Academia Cearense de Letras.

sábado, 15 de outubro de 2022

Filemon Martins (Cecim Calixto, o poeta do amor)


CECIM CALIXTO nasceu em Pinhalão, Paraná, a 28 de julho de 1926, onde fez seus primeiros estudos, transferindo-se aos treze anos para Curitiba, a cidade sorriso. Trabalhando e estudando, diplomou-se em Ciências Contábeis na Faculdade de Ciências Econômicas De Plácido e Silva. Já formado, adotou a cidade de Tomazina, PR, onde começou a exercer sua profissão. Tornou-se bancário e passou boa parte de sua vida às voltas com orçamentos, balanços, planilhas de custos, planos de aplicação financeira desbravando várias regiões do Norte Novo do Paraná, trabalhando no banco Bamerindus.

Fora da vida prosaica sua alma de poeta nunca deixou de escrever poesia, especialmente nas horas de folga, exercitando com maestria a poesia clássica. Tornou-se um magnífico sonetista, premiado em vários concursos literários de São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná, entre outros.  Publicou em 1951 seu primeiro livro com o título de “NINFAS”, cuja segunda edição saiu em 1967.

Em 1997 com 99 sonetos publicou “EMOÇÕES” pela editora Editek & Cia Ltda ME, no qual demonstra toda inspiração que um poeta precisa ter para compor, criar e arrebatar corações sensíveis que amam o belo.  No soneto OBSESSÃO, diz: “A fé perfeita que a meu ser importa/ dá-me mais força para abrir a porta/ e entrar no reino que o amor produz. //Desprezo os pomos do pomar alheio/ pois, na verdade, o meu maior anseio/ é pelos frutos divinais da luz”. Ou ainda nestes dois tercetos do soneto ORATÓRIO: “A liberdade que me inspira tanto/ dá-me o conforto que jamais me falta/ enquanto a sós e a caminhar medito. // Na solidão em que sozinho canto/ minha oração que dispensou voz alta/ possui mais força que estrondoso grito”.

Assim, Cecim Calixto foi-se consagrando como um dos melhores e maiores poetas de nosso tempo no Paraná e no Brasil, ao lado de nomes como Apolo Taborda França, Emílio Sounis, Harley Clóvis Stocchero, José Wanderlei Resende, Leonardo Henke, Moacir Antonio Bordignon, Oldemar Justus, Orlando Woczikosky, Paulo Leminski e Vasco José Taborda.

Os versos do poeta paranaense agradam aos ouvidos do mais exigente leitor, porque são escritos com musicalidade, espontaneidade, inspiração e em português escorreito. O livro “A VOZ DO AMOR” veio à luz da publicidade em 2000 pela Juruá Editora, de Curitiba, onde o poeta mais uma vez esbanja o seu perfeccionismo, com outro conjunto de 99 sonetos impecáveis.  Estudioso, aprimorou sua técnica e após sua aposentadoria, pôde então dedicar-se à Literatura, como sempre desejou.

Com razão o poeta quando escreve em seu soneto A VOZ DO AMOR, que abre o livro com este mesmo título: “Esfrio a guerra congelando mágoas/ aqueço as almas como esfrio as águas/ em mutações que a própria mente enseja. // Abro caminho aos vegetais floridos/ e encho de vida os corações feridos/ porque sou tudo que o mortal deseja”.

Conquistou o 2º lugar no 14º Concurso Nacional de Poesia, Categoria Especial Paraná, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura, Governo do Paraná, em 2003, com o soneto O Rival:

“Você de novo colibri teimoso,
roubando a seiva da singela rosa!
Morro de inveja do rival airoso
que suga o mel da minha flor mimosa.

A minha rosa tem o olor gostoso
que até perturba a vizinhança prosa.
E sem modéstia o menestrel brioso,
todo orgulhoso, sempre a fez ditosa.

Cedo levanto e para a rosa eu canto
e com carinho vou secar o pranto
da noite fria, que seu bojo aninha.

Mas... meu rival, de novo mais ligeiro,
logrou a mim e a bajulou primeiro,
sugando a gota que era toda minha”.

Opiniões sobre o trabalho excepcional do intelectual Cecim Calixto:

“Quem tiver oportunidade de ler seus sonetos verificará, desde logo, o poeta rico de emoções e sentimentos, que sabe cantar a dor, a paixão e a nostalgia, com rara elegância e distinção”. (Paschoal A. Pítsica – Presidente da Academia Catarinense de Letras).

“Emoções são, de fato, uma constante na vida do poeta e sua sensibilidade o induz a criar e viver um mundo onírico de Beleza e Paz”. (Horácio Ferreira Portella – Centro de Letras do Paraná).

Pertenceu ao Centro de Letras do Paraná, Academia Paranaense de Poesia, UBT-PR, Academia de Letras “José de Alencar” e Círculo de Estudos Bandeirantes. Além dos livros já publicados, como “NINFAS”, 1951 e 1967 – 2ª edição, “EMOÇÕES”, 1997 e “A VOZ DO AMOR”, 2000, o vate de Pinhalão, Paraná, teve pronto para publicação novo livro de sonetos, sem título ainda e o seu primeiro livro de trovas, “TROVAS & SONHOS”. Participou também da Antologia SETE POETAS, ao lado de grandes nomes da poesia paranaense.            

Verbete da ENCICLOPÉDIA DE LITERATURA BRASILEIRA, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa, edição do MEC, 1990, com revisão de Graça Coutinho e Rita Moutinho Botelho, edição revista e atualizada, em 2001.

O poeta silenciou em 29 de maio de 2008, em Tomazina, aos 81 anos.

Fonte:
Texto enviado pelo autor.

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Henriette Effenberger (Trovas Temáticas)

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SAUDADE
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Para falar de saudade
sempre se vai precisar
ter um pouquinho de idade
e coisas para lembrar...

Saudade de nossa infância,
saudade de tempos idos...
Saudade pela distância
dos nossos entes queridos.

Saudade de gargalhadas,
saudades da adolescência,
das noites enluaradas,
plenas de efervescência...

Saudade não é lembrança,
saudade não é sofrer.
Lembrança sem esperança,
isso ela pode até ser.…

A campa tão nua e fria
do morto desconhecido
recebeu a cortesia
de um ipê todo florido.

A saudade, envelhecida,
virou apenas lembrança
não dói mais como ferida,
pois já perdeu a esperança…

Na quietude da noite
onde até o silêncio dorme,
a saudade, qual açoite,
retalha o sonho disforme.

Nos meus momentos de insônia,
minha saudade acalanto
e ela, sem cerimônia,
repousa sobre meu pranto.

Pra espantar felicidade,
a maldade tanto fez
que se vestiu de saudade
pra machucar outra vez.

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DESTINO
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A vida que tenho agora
é apenas resultado
de escolhas de outrora,
de opções do passado...

Dizem que eu tive sorte,
que o destino me sorriu,
ao escolher o meu norte
todo caminho se abriu.

O que chamam de destino,
boa, má sorte ou maré
eu apenas denomino
fruto de trabalho e fé.

Sei que fiz o meu destino,
palmo a palmo, linha a linha,
nada veio repentino
nem tive fada madrinha...

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PAZ
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A paz nem sempre é perfeita,
esconde-se em descaminhos,
entre dores, fica à espreita,
como rosa entre os espinhos.

Paz: muitas vezes usada
para gerar tanta guerra,
palavra tão desgastada,
não a vemos cá na Terra.

Pedir paz é tão vulgar,
lugar comum, um clichê;
melhor mesmo é desejar
que a paz habite em você...

Viver na Paz do Senhor,
nos dizia a tia Sila,
só mesmo com muito amor
e com fé que não vacila.

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ESTAÇÕES DO ANO
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Bom seria cada dia
viver como a primavera,
trazendo luz e alegria,
pois o verão nos espera..

Na primavera me aninho,
sou colibri, beija-flor,
sou menina-passarinho
buscando por teu amor...

Gosto de verão “caliente”,
sol daqueles de rachar,
que aquece a alma da gente
e nos convida a amar.

Verão agora é assim
chove, chove, sem parar.
Essa água não tem fim,
parece o céu a chorar...

Às vezes penso que o outono
por vir depois do verão
é uma estação de sono,
de invernos que chegarão...

O  verão com sol brilhando
e um azul no céu sem fim;
no fundo está preparando
o outono que existe em mim...

Não gosto de tempo frio
nem daquele céu cinzento.
O inverno, eu avalio,
é um velho rabugento...
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Henriette Effenberger nasceu em Bragança Paulista-SP. Romancista, contista, memorialista, poeta, escreve também literatura infantil. Publicou, em 2002, em coautoria com Maria Dulce N. K. Louro, seu romance de estreia, A Ilha dos Anjos. Outros livros publicados: A aventuras do Superagora (infantil); SSAAM – 80 anos de acordes em harmonia; Aeroclube de Bragança Paulista – uma trajetória nas asas do tempo; Liga do Pico, Futebol e Pinga e Sindicato do Comércio de Bragança Paulista – 70 anos; Linhas tortas, em 2008, composto por contos premiados em concursos literários nacionais e internacionais, com apresentação de Ignácio Loyola Brandão, e Vida de Sabiá – o que sabiam os sabiás além de assobiar, vencedor do Prêmio João de Barro de Literatura Infantil, editado em 2009, pela Fundação Cultural de Belo Horizonte. Em 2017, organizou a coletânea de contos: Horas partidas e a coletânea de contos e crônicas do Movimento Mulherio das Letras.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Ascânio Lopes (1906-1929) Caderno de Versos


SERÃO DO MENINO POBRE


Na sala pobre da casa da roça
papai lia os jornais atrasados.
Mamãe cerzia minhas meias rasgadas.
A luz frouxa do lampião iluminava a mesa
e deixava nas paredes um bordado de sombras.
Eu ficava a ler um livro de histórias impossíveis
— desde criança fascinou-me o maravilhoso.
Às vezes, Mamãe parava de costurar
— a vista estava cansada, a luz era fraca,
e passava de leve a mão pelos meus cabelos,
numa carícia muda e silenciosa.

Quando Mamãe morreu
o serão ficou triste, a sala vazia.
Papai já não lia os jornais
e ficava a olhar-nos silencioso.
A luz do lampião ficou mais fraca
e havia muito mais sombra pelas paredes...
E, dentro em nós, uma sombra infinitamente maior.
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CENA DE UMA RUA AFASTADA
                         Para Martins de Almeida

A solteirona fechou as janelas com estrépito.
Uma mocinha da escola normal passou firme, sem olhar.
Um senhor gordo disse que era uma pouca vergonha
e que nossa polícia não vigiava os costumes.
Mas, indiferentes aos gritos dos carroceiros,
às pedradas dos garotos,
a lulu de D. Mariquinhas e o fox-terriê
                 [ (meio sangue) do sr. Fagundes
continuaram impudicos no meio da rua.
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MINHA NAMORADA

Seu nome era besta e ela também
mas quase não falava e só sabia olhar.
Gostei dela
fiz versos puxados
gastei tempo nas rimas raras
e na colocação de pronomes
porque ela era normalista
e gostava de gramática e não perdoava galicismos.
Mas um dia ela descobriu meus versos modernos
e percebeu que fingia
e gostava de errar nos pronomes
e que meus sonetos eram só pra ela.
Então me deu o fora e arranjou um poeta sincero
que a comparava a Marília
e que sabia de cor a "Ceia dos Cardeais"
e que sapecava todos os ritmos novos
e as poesias sem geometria e compasso.

E ficavam cinicamente amando no portão
quando não iam ao cinema delirar com as fitas
                      [ dramáticas italianas 12 atos.
Ela me deu o fora.
Também nunca mais fiz sonetos.
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SANATÓRIO

Logo, quando os corredores ficarem vazios,
e todo o Sanatório adormecer,
a febre dos tísicos entrará no meu quarto
trazida de manso pela mão da noite.

Então minha testa começará a arder,
todo meu corpo magro sofrerá.
E eu rolarei ansiado no leito
com o peito opresso e de garganta seca.

Lá fora haverá um vento mau
e as árvores sacudidas darão medo.
Ah! os meus olhos brilharão procurando
a Morte que quer entrar no meu quarto.

Os meus olhos brilharão como os da fera
que defende a entrada do seu fojo.
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Ascânio Lopes Quatorzevoltas nasceu em Ubá (MG), em 1906, mas foi criado em Cataguases, onde faleceu, em 1929. O poeta transferiu-se para Belo Horizonte em 1925, onde cursou a escola de direito. Em 1928, já doente, retornou a Cataguases.

Uma atividade marcante na curta vida de Ascânio Lopes foi sua participação no grupo que fundou a revista Verde, publicada em Cataguases 1927 e 1929. Publicação modernista, a Verde reunia jovens como o romancista Rosário Fusco e o poeta Guilhermino César. Cataguases era um polo de criação artística. Na mesma época, o cineasta Humberto Mauro, pioneiro do cinema brasileiro, havia montado na cidade sua produtora, a Phebo Sul America Film.

Modernista de primeira hora, Ascânio Lopes se correspondia com Mário de Andrade e escrevia poesia, prosa, ensaio. Seus versos, como não podia deixar de ser, têm muitos traços do modernismo anos 20. O poema "Serão do Menino Pobre" até lembra o lirismo drummondiano de "Infância" (de Alguma Poesia, 1930). Ascânio: "Na sala pobre da casa da roça / papai lia os jornais atrasados. / Mamãe cerzia minhas meias rasgadas."  Drummond: "Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. / Minha mãe ficava sentada cosendo. / Meu irmão pequeno dormia."

Em textos como "Cena de Uma Rua Afastada" e "Minha Namorada", Ascânio Lopes mostra a irreverência da fase heroica do modernismo, com uma irresistível inflexão para o poema-piada. No primeiro, trata de um tema que jamais poderia ser motivo de poema nos padrões tradicionais. No outro, numa ironia bem ao estilo do "Desafinado" bossa-novista, queixa-se de uma namorada normalista que colocava bem os pronomes e detestava versos modernos.

Em "O Chefe", o poeta se volta para a crítica aos desmandos dos potentados interioranos. Por fim, vem a nota mais doída. É a crônica amarga de um jovem que se vê definhar num hospital sem esperança de cura. "Sanatório", poema autobiográfico, é a página mais citada de Ascânio Lopes.

Com a morte do poeta, a revista Verde se dissolveu. Os remanescentes publicaram ainda um último número, exatamente para homenagear o amigo morto. Sobre Ascânio escreveram nomes como Mário de Andrade, Antonio de Alcântara Machado e Carlos Drummond de Andrade.

Em vida, Ascânio Lopes publicou apenas um livro, chamado Poemas Cronológicos (1928). Ao todo, sua obra resume-se a 48 poemas, um fragmento de novela, três ensaios e quatro resenhas. Todo esse material, mais outros documentos sobre o autor, está reunido no volume Ascânio Lopes – Todos os Possíveis Caminhos, do romancista cataguasense Luiz Ruffato.
Carlos Machado