terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Aparecido Raimundo de Souza (O ódio e a sua doce face adulterada)


NA PRAÇA em frente à pequena igrejinha de Nossa Senhora das Candongas Aflitas, o relógio colocado recentemente pela prefeitura, marca o tempo como quem não se importa com ele. As pessoas vão e vem. Passam apressadas, umas pelas outras, três ou quatro saem da recém terminada missa do padre Faustulóbio. Cinco ou mais, logo adiante, deixam o mercado com sacolas plásticas abarrotadas de compras.

Ao mesmo tempo, sem tirar nem pôr cada uma dessas almas carregam a sua ligeira sofreguidez como se fosse um segredo perigoso que precisa ser guardado a sete chaves. E aqui, entre o vai e vem que apenas se entrelaça por força das correrias dessas criaturas, vejo surgir um sentimento estranho: o ódio adulterado, ou melhor explicando, a face conturbada das malévolas trazidas em cada coração que bate descompassado.

Esse ódio, é um ódio cru, destemperado e insosso. Não aquele que explode em gritos ou socos. Na verdade, esse agastamento é um mal disfarçado, um enfado repulsivo, camuflado com perfume barato, vestido de boas maneiras, a maioria dessas maneiras entrelaçadas de palavras polidas. Um ódio meio assim neurastênico que sorri, que aperta mãos, que diz “bom dia” por dizer, enquanto na surdina do seu “eu” mais profundo, trama quedas e baques silenciosos.

Esse ódio açoitado não queima de imediato. Ele corrói devagar, sem pressa, “come pelas beiradas”, se distende como ferrugem em ferro esquecido. Se adultera, misturado com conveniências e vaidades. Se dilata e se torna quase invisível. E por isso, se faz mais letal e perigoso. Mais fulminante e agressivo, pelo fato de não se reconhecer ao primeiro olhar.

Ele parece cordial, se mostra justo, se molda perfeito até ao conhecido como racional. Eis alguns exemplos: na fila da padaria, na mesa do jantar, no cotidiano das redes sociais, ele se infiltra. Um comentário irônico, por exemplo, uma piada que não se faz ou não se coaduna só numa piada, uma crítica que veste a máscara da preocupação. Tudo contribui para o ódio adulterado não gritar: o ódio adulterado, aliás, não faz barulho, apenas sussurra.

E esse sussurro, repetido mil vezes, acaba virando verdade para quem não presta muita atenção. No final da tarde, quando o sol se despede atrás dos telhados da igreja do padre Faustulóbio, na mesma forma das casas e prédios no longevo da avenida, percebo que o danado do ódio tipo “as sete vidas de um gato” se transformam literalmente como uma sombra: e, como tal, ele só existe porque há luz.

Talvez seja esse o desafio. A gente aprender a reconhecer a sombra ofuscante sem deixar que ela, num momento de puro descuido, nos engula da cabeça aos pés. E enquanto o relógio da praça segue marcando os minutos, matutamos com nossos botões que o antídoto não está em negar esse mal corrosivo, mas em trazê-lo às corridas do dia a dia, e desmascará-lo.

Descobre-se que só quando a gente revela o disfarce que ele traz camuflado, é que se pode verdadeiramente escolher não carregar esse peso infame, vida à fora, ou repetindo, para deixar bem claro, esse ódio encolerizado. O disfarce desse ódio pecaminoso se revela justamente nos detalhes, nos pequenos gestos disfarçados de mimos que parecem inocentes, mas bem sabemos, ou deveríamos ter consciência, carregam um veneno quase mortal. Ele não se mostra em explosões, se molda em fissuras.

No fundo, essa artimanha embuçada se revela quando alguém ousa prestar atenção. O ódio contaminado depende da distração coletiva; basta um olhar atento para que a máscara se rache e caia por Terra. Tenho visto esse ódio mascarado em todos os lugares. Na mesa do café, na padaria, quando a garçonete traz o pedido com um sorriso ensaiado. O cliente agradece, porém, o olhar dela demora um segundo a mais, carregado de julgamento.

Pequeno gesto. Quase invisível. Mas nele está entranhado o ódio adulterado, escondido nas entrelinhas da sutileza. Outro dia, dentro do ônibus, uma senhora pediu licença para passar. O rapaz se levantou, todavia, em seguida suspirou alto, como quem carrega o peso mórbido de uma concessão forçada. Não houve insulto, não houve grito. Só o suspiro.

Um pequeno gesto. O ódio ignominioso se infiltra assim, se abanca no meio de nós como a poeira que vem da rua e não percebemos que a sujeira trazida ultrapassou os limites da janela. Na reunião de trabalho, a colega elogia a ideia bailada, mas acrescenta (talvez sem querer, ou sem refletir) uma “pena que você demorou tanto para pensar nisso”. O comentário se avizinha embrulhado em papel de presente, mas dentro dele há um outro embrulho menor, esse cheio de espinhos.

Repetindo o já dito acima, um pequeno gesto. Com ele, o ódio fulminante vestindo a melhor roupa da frágil cordialidade. Na rua aqui de casa, a minha vizinha de lado cumprimentou um outro morador que mora casas abaixo. O fez com a mão. O corpo dela se virou rápido demais, como quem não queria estar ali. De novo, batendo na mesma tecla repetitiva, o pequeno gesto. O ódio deselegante se revelando na pressa de cair fora, de escapar.

Entendo perfeitamente e até levo em conta que esses gestos não fazem estardalhaços, não produzem alardes. São como gotas de um vidrinho pequeno de remédio que temos em casa, na nossa farmacinha doméstica. Gotas que caem em silêncio, sem alardes, entretanto, juntas, tem o poder de inundar. O ódio carcomido pela falsidade não precisa de palco.

Ele se alimenta da rotina, das microexpressões. Igualmente das palavras que parecem sem estilos ou friamente neutras. Talvez seja aí que resida o verdadeiro perigo: porque o ódio infectando a gente, não o reconhece de imediato. Por conta, ele se acumula nos detalhes, até que um dia, quando alguém finalmente presta atenção, percebe que o mundo ao redor, se fez infectado de grandes e monstruosas rachaduras.

Devemos ter em mente, sempre, haja o que houver, que há gestos que parecem sem sentido, ou se assemelham a coisa alguma, porém, no âmago carregam universos. Um suspiro atravessado, um olhar enviesado que se desvia, uma palavra que chega com doçura e sai do outro lado deixando por onde passa, um rastro de ferrugem bombasticamente destrutiva. O ódio adulterado tem uma cólera doce, passeia por cadências afinadas, não se anuncia em trombetas.

Ele é sádico, desumano, empedernido. Carrega os rancores da mais vil das opressões, se veste delas. Prefere haja o que houver, o silêncio das mínimas linhas, das brechas e frestas. Devemos ficar atentos, olhos abertos. E fugir quanto mais depressa melhor, passar longe, dar a volta por cima desse mal inquisitorial que tenta de todas as formas nos levar para o buraco da desgraça e dentro dele nos DEFINHAR.
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Aparecido Raimundo de Souza, natural de Andirá/PR, 1953. Em Osasco, foi responsável, de 1973 a 1981, pela coluna Social no jornal “Municípios em Marcha” (hoje “Diário de Osasco”). Neste jornal, além de sua coluna social, escrevia também crônicas, embora seu foco fosse viver e trazer à público as efervescências apenas em prol da sociedade local. Aos vinte anos, ingressou na Faculdade de Direito de Itu, formando-se bacharel em direito. Após este curso, matriculou-se na Faculdade da Fundação Cásper Líbero, diplomando-se em jornalismo. Colaborou como cronista, para diversos jornais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, como A Gazeta do Rio de Janeiro, A Tribuna de Vitória e Jornal A Gazeta, entre outras.  Hoje, é free lancer da Revista ”QUEM” (da Rede Globo de Televisão), onde se dedica a publicar diariamente fofocas.  Escreve crônicas sobre os mais diversos temas as quintas-feiras para o jornal “O Dia, no Rio de Janeiro.” Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras (PR). Reside atualmente em Vila Velha/ES.

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Texto enviado pelo autor.

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