Mostrando postagens com marcador Sopa de Letras. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sopa de Letras. Mostrar todas as postagens

sábado, 3 de outubro de 2026

Célio Simões (O nosso português de cada dia) Obra de Santa Engrácia

 Mais um julho passou, e com ele as viagens de fins de semana dos veranistas rumo às praias do litoral paraense como as de Salinas, Ajuruteua, Marudá e Algodoal, com os motoristas enfrentando estoicamente os 42km da BR 316 que separam Castanhal de Santa Maria do Pará ainda em inacreditável mão única, recheada de lombadas, buracos e araras, onde impera o trânsito lento das carretas, verdadeiro convite às ultrapassagens suicidas dos irresponsáveis.

Ainda em junho refiz esse perigoso trajeto e o que vi me deixou desanimado: a sonhada duplicação da pista está estagnada, longe de ser concluída. Fiz uma parada próximo ao ramal de Santo Antônio do Prata, na venda do mestre Otacílio, que faz um caldo de cana de doer na nuca de tão gelado e meu comentário foi inevitável: 

- E a duplicação da pista meu amigo, sai ou não sai?...

Pra que eu havia de falar naquele assunto. Teso de raiva, o homenzinho despejou uma catadupa de objurgatórias e impropérios impublicáveis contra aquela situação escalafobética, xingando a mãe e os avoengos dos políticos que mandam, desmandam e posam de benfeitores do povo, mas não movem uma palha em Brasília para acabar com aquele descalabro:

- A estrada só está desse jeito por causa da ‘cachorrice’ desses políticos pilantras, bando de enganadores. Eles só vêm aqui pedir voto nas eleições e depois somem. Todo santo dia tem acidente grave nesse trecho, bote anos que isso está assim e não anda, disque por causa da briga do DENIT com a empresa de energia, para desviar os postes do linhão de Tucuruí. Papo furado!

- Acho que é também problema orçamentário, falta de grana ou ainda não deram a devida prioridade para o assunto - ponderei...

- Que seja, redarguiu o “Rei da Garapa”. Desculpa é que não falta. Ora são os 190 postes que devem ser mudados de lugar, ora são os igarapés que a estrada corta e não podem ser aterrados, ora são os rios maiores que precisam das pontes, enfim... Quer saber doutor? Acho mesmo é que devem ter enterrado caveira de burro no pedaço, porque a duplicação tá parecendo OBRA DE SANTA ENGRÁCIA!... 

Eita! Aquele caboclo inconformado, mesmo sem querer, me deu o precioso mote para esta crônica. 

"Obra de Santa Engrácia" é um dito popular muito comum em Portugal (e também no Brasil) usado para descrever uma obra, tarefa ou projeto que demora uma eternidade para ser concluído, que parece nunca ter fim ou que é constantemente adiado, parecido exatamente com os benditos 42km de suplício rodoviário que enfrentamos quando vamos veranear em Salinas.

Essa expressão tem uma base histórica real e literal. Nasceu em Lisboa, devido à construção da Igreja de Santa Engrácia (que hoje é um Panteão Nacional), cuja construção começou no remoto ano de 1682, atrasou uma barbaridade por causa de problemas financeiros, desencontros arquitetônicos, mudanças políticas, constantes e demoradas interrupções, até finalmente ser inaugurada oficialmente em 1966, ano em que a Inglaterra conquistou a Copa do Mundo de futebol, tendo demorado nada menos que 284 anos para ficar pronta! 

Com um histórico desses, não é de admirar que o nome da Santa tenha virado sinônimo de algo que começa mas não tem fim previsível. Mas afinal, quem foi Santa Engrácia e porque foi homenageada com um panteão em Portugal? Conhecida também como Santa Engrácia de Saragoça ela foi uma virgem e mártir cristã que nasceu por volta do ano de 285 d.C. em Braga, Portugal e viveu entre os séculos III e IV, sendo venerada tanto na Igreja Católica quanto na Igreja Ortodoxa. 

Prometida em casamento a um nobre do sul da atual França, Engrácia viajava acompanhada de um tio (Lupércio), de uma criada e de 18 cavaleiros. E ao passar pela atual Saragoça, Espanha, deparou-se com as violentas perseguições aos cristãos promovidas pelo governador romano Públio Daciano, sob as ordens do imperador Diocleciano. 

Inconformada com as perseguições, a destemida Engrácia se apresentou ao governador para defender os cristãos, declarando-se também cristã e recusando-se a renunciar à sua fé. Por tamanha petulância foi presa e torturada até a morte no ano 303 d.C. E seu martírio foi extremamente doloroso e cruel: Açoitada, foi amarrada e arrastada por cavalos, teve a carne lacerada com ganchos de ferro, os seios cortados e pregos cravados no corpo. O governador, sádico e vingativo, ordenou que a deixassem agonizar com as feridas expostas, vindo ela a falecer pouco tempo depois devido à gravidade dos ferimentos. Seu tio, a criada e os 16 cavaleiros também foram mortos, depois de martirizados. 

A essa heroína da cristandade foi dedicado o dia 16 de abril e em Lisboa, a famosa Igreja de Santa Engrácia (Panteão Nacional) deu origem à expressão "obras de Santa Engrácia", para descrever algo que demora muito tempo para ser concluído, já que o monumento levou quase 300 anos para ser finalizado.

E chegou ao Brasil com os colonizadores, entrando definitivamente no costume popular de indicar algo que nunca acaba, entra ano sai ano continua na mesma, como aliás, algumas reformas de prédios ou ruas que existem por aqui mesmo, o mais emblemático deles, além da duplicação da estrada antes aludida, o famigerado BRT, que atravessou vários mandatos de prefeitos, alguns anabolizados com 8 anos de gestão, e só mais recentemente entrou em funcionamento, embora com notórias e inexplicáveis deficiências. 

Mas desse drama da mobilidade urbana da capital paraense mestre Otacílio parece que nunca se apercebeu, porque no ramal de Santo Antônio do Prata ele vive desde menino e só raramente vem a Belém, isto para tratar com o médico do SUS que virou seu amigo a impertinente presbiacusia (perda da audição) que o persegue, desde que chegou à terceira idade. Talvez por isso ele tenha o vezo de xingar e esbravejar com tom de voz tão elevado, achando que ninguém o está ouvindo direito...
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Célio Simões (1947)
O advogado e escritor CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é uma das personalidades intelectuais e jurídicas mais respeitadas do estado do Pará, destacando-se como cronista, poeta e guardião da memória histórica e cultural da Amazônia. Nasceu na histórica cidade de Óbidos/PA, em 1947. Embora suas raízes obidenses definam profundamente sua identidade literária, ele construiu grande parte de sua vida residencial e profissional em Belém, capital paraense, onde mora atualmente. Entre 1945 e 1953, durante a juventude, também viveu em regiões de várzea às margens do Rio Amazonas. Sua trajetória na área jurídica e acadêmica é extensa e renomada: Graduou-se em Direito pela Universidade Federal do Pará e pós-graduou-se em Direito e Processo do Trabalho pela Universidade Cândido Mendes (RJ). Atuou como Juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Pará (TRE-PA) na classe de jurista e foi membro da Advocacia Consultiva da União. Professor na Universidade da Amazônia (UNAMA), na Escola Superior de Advocacia (ESA) e na Escola de Árbitros e Mediadores do Pará. Serviu como Conselheiro Estadual, Juiz do Tribunal de Ética e Disciplina e presidiu a Comissão de Combate ao Trabalho Forçado.
Prolífico cronista, ensaísta, poeta e memorialista. Suas produções abordam desde a cultura popular, expressões idiomáticas e histórias do cotidiano até profundos resgates históricos regionais. Pelo seu prestígio, integra importantes instituições: Academia Paraense de Letras (APL) – Membro "Imortal"; Academia Paraense de Letras Jurídicas (APLJ) – Membro titular e ex-presidente; Academia Paraense de Jornalismo (APJ) – Sócio-fundador e ex-vice-presidente; Academia Artística e Literária de Óbidos (AALO) – Idealizador, fundador e seu primeiro presidente; Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP) – Sócio efetivo; Sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGT), fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém, membro do Instituto dos Advogados do Pará. membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras (PR).
Ao longo de sua carreira literária, recebeu três prêmios literários principais, incluindo uma destacada Medalha de Prata em concurso promovido pela tradicional Revista TROFÉU, de São Paulo. Em 2022, também foi condecorado com o Título Honorífico de Honra ao Mérito pela Câmara Municipal de Belém. Possui seis livros autorais publicados, além de coautorias. Destacam-se: Recados da Memória (2018) – Cujas rendas de lançamento foram inteiramente revertidas em doação para a Santa Casa de Misericórdia de Óbidos; Um Pouco de Muitas Histórias (2017); Rio Amazonas – Um Abraço Apertado – Obra em coautoria.
A relevância de Célio Simões para a literatura paraense e amazônica reside na sua atuação como um "escritor memorialista". Assim como fez o clássico autor obidense Inglês de Sousa, Célio Simões transporta para as suas crônicas e contos a alma do Baixo Amazonas, o cotidiano ribeirinho e a identidade do povo paraense. Além disso, seu papel institucional foi fundamental para descentralizar a cultura no estado; ao idealizar e fundar a Academia Artística e Literária de Óbidos, ele criou um polo essencial para a preservação e fomento de novos talentos fora da capital jurídica e literária de Belém.

Fontes:
Texto enviado e imagem enviados pelo autor. 
Biografia = Obidos.net, Obidense, Jeso Carneiro, Instituto Histórico e Geográfico do Pará, Confraria Brasileira de Letras.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Aventuras de Pedro Malasartes * 1 *

 
Imagem - IA Microsoft Bing
MALASARTES ROUBA AS JOIAS DE UMA FAMÍLIA

E foi dar no castelo de um ricaço que era casado e tinha uma filha, e ofereceu-se para empregado. E foi aceito.

Como era tempo de chuva, o chiqueiro estava que era mesmo um lameiro. E Malasartes teve logo uma ideia. De noite tocou para longe a porcada do ricaço e, voltando, espetou no lameiro as caudas dos porcos. E, quando de manhã o dono da casa veio ver a porcada, Malasartes lhe apontou o lameiro e disse-lhe que os porcos estavam atolados, apenas com os rabos de fora.

O dono da casa mandou-o logo que fosse em casa buscar duas enxadas a ver se podiam desenterrar os animais.

Pedro Malasartes foi numa corrida e, lá chegando, viu a dona e a filha passeando no jardim e lhes disse:

-O patrão mandou que as senhoras me acompanhem. Elas duvidaram, mas Malasartes gritou, perguntando ao patrão que estava lá embaixo:

-As duas, patrão?

-Sim, as duas, e sem demora! As duas, pateta!

E, então, as senhoras não puseram mais diferença e acompanharam Pedro que tomou com elas outra direção. Já longe o velhaco amarrou-as numa árvore, tirou-lhes todas as jóias que eram de grande preço, fugiu e foi tocar a porcada que tinha ocultado no dito retiro.

E, quando o ricaço, cansado de esperar, foi a casa e não encontrou a mulher e a filha, bateu a procurá-las até que as achou amarradas onde Malasartes as havia deixado.

Quando voltou é que viu que dos porcos só havia os rabinhos, que ele é que era um pateta de marca.

A muitas léguas dali, o Malasartes negociou a porcada, recebeu o cobre, comprou um bom terno de roupa e foi parar em certa cidade, onde, logo na entrada, havia uma bonita chácara que era do dr. Juiz de Direito.
= = = = = = = = = = = = = =  = = = = = = = = = = = = = =  

DE COMO MALASARTES FAZ MAIS UMA QUE PARECIA DUAS 

Eram já por umas dez da noite. O Malasartes bateu à porta e pediu pousada, dando o nome de doutor Fulano, que vinha visitar aquela terra. O Juiz costumava entrar tarde, pois ficava até à meia-noite fora de casa, jogando marimbo com um seu compadre. E vai então o filho do Juiz na sua simplicidade, mandou entrar o hóspede e, depois de um bom chá, deu-lhe pousada, no quarto da sala, onde o Juiz costumava se vestir. E quando o Juiz chegou, o filho lhe contou o que se tinha passado e o tolo ficou muito satisfeito daquela hospedagem.

E vai então lá pela madrugada o Malasartes começou a sentir umas coisas na barriga...Procurou o vaso e, não o encontrando, abriu a janela... mas lá fora havia uma cachorrada, que foi um barulho de latidos que nunca se viu.

O Malasartes estava suando frio: Mas nisto avistou na prateleira uma caixa. Abriu, havia dentro uma cartola de pelo. Estava salvo! Tirou a cartola, fez nela o que quis, pôs outra vez na caixa e esta no lugar onde antes estava.

De manhã, quando ouviu tropel dos criados saiu e... este mundo é meu!...

Quando vieram chamar o Malasartes para o café, não o acharam mais.

À hora do almoço, o Juiz saiu do quarto e foi para o cômodo em que se costumava vestir.

Era dia de júri. Vestiu a sobrecasaca, e, distraído, tirou a cartola que enterrou, de um golpe, na cabeça.

Para que tal fizeste! Ficou com a cara enlameada e sentiu um cheiro que quase o afogou. Começou então a gritar. A família veio toda, pensando que tinha acontecido alguma desgraça. Ao vê-lo naquele estado, correram todos a buscar socorro. O filho trouxe-lhe um banho, a filha água florida, a mulher sabonete de cheiro.

E depois houve risada que não foi brinquedo, enquanto o Juiz bufava de raiva. E os jurados já estavam cansados de esperar por ele...

Mas o Malasartes já estava longe. Até parecia que tinha parte com Beizebum.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
Pedro Malasartes 
PEDRO MALASARTES é um dos personagens mais ricos e duradouros do folclore nacional, representando a figura clássica do malandro camponês, astuto e bem-humorado, que usa a inteligência e o logro para sobreviver, dar lições em avarentos e se vingar da opressão dos poderosos. Apesar de ser uma figura central do imaginário caipira e sertanejo brasileiro, Malasartes não nasceu no Brasil. Ele tem origem medieval na Península Ibérica (Portugal e Espanha). O nome "Malasartes" deriva diretamente da expressão em espanhol malas artes (artes más), que no contexto medieval significava "travessuras", "artimanhas" ou "trapaças".
A menção literária mais antiga ao personagem data dos séculos XIII e XIV, aparecendo na cantiga 1132 do Cancioneiro da Vaticana sob a alcunha de "Payo de Maas Artes". O personagem chegou ao Brasil na bagagem cultural dos colonizadores portugueses através dos contos populares transmitidos pela tradição oral. Ao cruzar o oceano, o personagem se adaptou perfeitamente à realidade da colônia e, posteriormente, do Brasil imperial e republicano. O "burlão" ibérico transformou-se no matuto, caipira e sertanejo sem posses. No cenário agrícola brasileiro, marcado por profundas desigualdades estruturais entre grandes coronéis (donos de terras) e trabalhadores humildes, as histórias de Malasartes ganharam um forte contorno de justiça social. Ele virou o herói dos desfavorecidos que vencia a força dos ricos usando apenas a astúcia.
A transição de Pedro Malasartes da tradição oral para a cultura letrada e de massa foi impulsionada por grandes nomes da literatura e das artes no Brasil: Luís da Câmara Cascudo: O maior folclorista brasileiro catalogou e analisou o personagem em obras fundamentais como o Dicionário do Folclore Brasileiro e Contos Tradicionais do Brasil, definindo-o como o exemplo do "burlão invencível". Monteiro Lobato: Em suas histórias do Sítio do Picapau Amarelo, o personagem é citado e suas artimanhas (como a famosa história da "Sopa de Pedra") são recontadas para o público infantil; 
O escritor modernista Mário de Andrade escreveu o libreto da ópera cômica "Pedro Malazarte" (composta por Camargo Guarnieri e estreada em 1952), elevando o personagem à música erudita nacional; 
Pedro Bandeira: Um dos maiores autores de literatura infantojuvenil do Brasil adaptou as peripécias do personagem em formato de cordel e rimas, como no livro Malasartes: Histórias de Malasartes em Versos de Cordel; 
Mazzaropi: No cinema, o comediante imortalizou o herói no clássico filme "As Aventuras de Pedro Malasartes (1960), consolidando sua imagem visual como o típico caipira brasileiro.
Em 2017, o diretor Paulo Morelli lançou o longa-metragem de fantasia comercializado como "Malasartes e o Duelo com a Morte"
A figura do trickster (o trapaceiro esperto que subverte as regras sociais) é um arquétipo universal, existindo em quase todas as culturas com roupagens locais:
América Hispânica = Pedro Urdemales: É exatamente o mesmo personagem de origem ibérica (usando a variação Urdemales, que significa "tecedor de males/artimanhas").  Famosíssimo no Chile, na Argentina, no Peru e na Guatemala.
Alemanha e Flandres = Till Eulenspiegel: Personagem do folclore medieval germânico. Um camponês que viaja pregando peças e expondo a hipocrisia, a ganância e a burrice da elite e do clero de sua época. 
Oriente Médio e Turquia = Nasreddin Hodja: Um sábio e filósofo popular de tom cômico e satírico. Ele usa histórias engraçadas, paradoxos e aparente "tolice" para dar lições morais na corte, em juízes corrompidos e nos orgulhosos. 
África Ocidental e Caribe = Anansi: A famosa aranha astuta da mitologia Ashanti. Como não tem força física diante de animais grandes (como o leopardo ou a cobra), Anansi usa puramente a lábia e a inteligência para enganá-los e conseguir o que quer. 

Fontes:
Aumanack, Wikipedia, Bloguirapuru Brainly, Museu Mazzaropi, Malasartes.com.br, etc.

domingo, 20 de setembro de 2026

Washington Daniel Gorosito Pérez* (Adeus a Vicente Quirarte)

(tradução do espanhol por José Feldman)

Vicente Quirarte Castañeda (1954-2026), poeta, ensaísta, dramaturgo, narrador, cronista e acadêmico, nasceu em 19 de julho, 1954 na Cidade do México e faleceu em 11 de agosto de 2026, aos 72 anos na mesma cidade.

Ele frequentou o graduação em Língua e Literatura Hispânica pela Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), onde também obteve o título de mestre em Literatura Hispânica e, em 1998, obteve seu doutorado em Letras Mexicanas, na mesma instituição educacional.

Na UNAM trabalhou por décadas como professor, pesquisador, coordenador de oficinas e foi membro do Conselho Diretor da mais alta casa de estudos do México e América Latina, desde 2017. Docente de Bacharelado, Mestrado e Bacharelado e convidado para instituições estrangeiras como Austin College, a Universidade Hebraica de Jerusalém e Universidade de Sevilha. Ele era membro do Sistema Nacional de Pesquisadores.

Em 2024, a UNAM prestou homenagem a ele por ocasião de seus 70 anos e de sua carreira. Foi acompanhado pelo colóquio chamado: "Viver é escrever com todo o corpo". Além disso, em 2003, ingressou na Academia Mexicana de Lengua, ocupando  a cadeira 31 e o discurso de aceitação que ele fez naquela ocasião foi intitulado: "O México dos contemporâneos".

No período de 2004 a 2008, foi diretor da Biblioteca Nacional do México. Ele entrou como membro do National College em 2016. Sua palestra inaugural foi intitulada: "El laurel invisible" que foi respondido pelo arqueólogo Eduardo Matos Moctezuma, que ressaltava a habilidade de Quirarte de entrelaçar literatura, história e cultura enriquecendo o panorama cultural do país. Nessa instituição, dedicou-se à disseminação de da literatura e cultura mexicanas.

Quirarte Castañeda foi agraciado com múltiplos prêmios, por sua obra literária, entre os que se destacam em 1979, recebeu o Prêmio Nacional de Poesia Juvenil Francisco Francisco González León, em 1990; o Prêmio Nacional José Revueltas de Ensaio Literário, em 1991, o Prêmio Xavier Villaurrutia, em 1994, o Prêmio Universitário Distinção Nacional para Jovens Acadêmicos na área de Criação e Extensão Artística de Cultura.

O poeta e ensaísta, recebeu em 2000 o Prêmio Sergio Magaña; o Prêmio Poesia Ibero-Americana Ramón López Velarde 2011; o Prêmio da Universidade Nacional, em 2012 na categoria de Criação Artística e Extensão da Cultura; Em 2013, ele foi agraciado com a Prêmio da Universidade Nacional. Quando recebeu o Prêmio de Artes e Literatura em 2024, sobre sua carreira, o escritor disse:

"A morte é um grande enigma, mas também é uma aceitação da vida. Nascer é começar morrer, já estamos mortos. O que fazemos é viver a vida como ela nos é dada para fazer isso."

Vicente Quirarte Castañeda disse: "O segredo não é ser jovem, mas manter a juventude, a insatisfação com a ideia que não prospera, a frase mal articulada, o projeto superior ao pensamento".

Ele descreveu o Cidade do México, o centro de seu trabalho como: "A cidade como uma máquina do tempo onde eles podem ser melhores examinando os caminhos paralelos e divergentes da história e da literatura; a cidade como uma mulher nutritiva ou devoradora".

O trabalho literário começou em 1979 com a coletânea de poemas intitulada: "Teatro sobre o Vento Amado", mais tarde sua obra poética e narrativa foi prolífica e excepcional. Entre ela. Livro de poesias: "Vencer a brancura" (1982); Ensaio: Por el azogue y la granada: Gilberto Owen em seu discurso amoroso (1990); "O anjo é um vampiro." (1991). "Em Louvor da Rua" (2004); "Viajantes Mexicanos para Nova York." (2009). A coletânea de contos: "Dying Every Day" (2019) e o ensaio autobiográfico: "O Invencível". (2013). Junto com Bernardo Esquinca, publicou o antologia Ghost City. História fantástica da Cidade do México (XIX-XXI).

Vicente Quirarte Castañeda foi uma figura-chave na literatura mexicana contemporânea, que em uma ocasião, referindo-se à poesia, ele disse:

"Você vai toda a vida procurando aqueles versos que concentram tudo que a humanidade sente porque, no fim, quem escreve o que os outros sentem, só se coloca o no meio do caminho, o leitor completa o ciclo."

Eu compartilho com você um poema de Vicente Quirarte Castañeda:

ENCONTRO COM A NEVE

Nevou toda a noite e amanhece
a terra imaculada.
Quem poderia dizer que abaixo o manto
prepara seu verdor a primavera.
Se a pureza existe,
quão semelhante é à neve:
folha branca dada pelo mundo
para provar que nada permanece.

Até o próximo encontro…!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
* Washington Daniel Gorosito Pérez (1961)
O escritor, sociólogo e jornalista WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ é uma voz de grande relevância na literatura hispano-americana contemporânea. Nascido no Uruguai e naturalizado mexicano, sua produção artística e intelectual conecta com maestria a sensibilidade poética às reflexões críticas sobre a política internacional, a educação e os problemas sociais. Nasceu em 1961, na cidade de Montevidéu, no Uruguai. Viveu sua juventude no Uruguai. Desde 1991, mudou-se para o México, fixando residência na cidade de Irapuato, no estado de Guanajuato. Tornou-se oficialmente cidadão mexicano naturalizado em 1999. Iniciou sua trajetória acadêmica no Uruguai, graduando-se em Jornalismo aplicado aos Meios de Comunicação Social. No México, consolidou uma sólida carreira acadêmica nas Ciências Humanas: licenciou-se e obteve o título de Mestre em Sociologia da Educação, tornando-se também doutorando em Pedagogia. Atua há décadas como catedrático universitário, pesquisador e conferencista. É um jornalista ativo de opinião, sendo o autor da célebre coluna internacional “Encuentro con Gorosito”, publicada em diversos veículos de comunicação das Américas e da Europa. 
Sua inserção no mundo das letras é marcada por uma produção híbrida, dividida entre o rigor dos ensaios acadêmicos e o lirismo da poesia existencial e urbana. Possui forte vínculo com instituições intelectuais no território mexicano, participando ativamente de saraus, congressos e núcleos de escritores associados à Academia Nacional e Internacional de Poesía (como os núcleos de San Luis Potosí e da Cidade do México), além de ser colaborador frequente de coletivos de vanguarda e revistas culturais independentes. Ao longo de sua estrada literária, acumulou um expressivo reconhecimento em certames de prosa e poesia pela América Latina. Ele recebeu 2 prêmios provinciais, 5 prêmios nacionais e 14 prêmios internacionais de literatura. Suas produções também foram selecionadas para integrar mais de 16 antologias internacionais de poesia e contos.
Entre livros individuais, ensaios de sociologia e participações em antologias poéticas de prestígio, destacam-se: Una biblioteca sin libros (2022); Relatos de tradiciones (2022); Tras las huellas de Ana Neumann (2023); Trazos poéticos 3 (2023) – Obra comemorativa do Dia Mundial da Arte; Sombras del Aire, antología 2023 – Coletânea poética de grande repercussão em Guanajuato; Urbana – Livro comemorativo celebrando sua produção de crônicas e versos.
A relevância de Gorosito Pérez reside em sua condição de escritor de fronteiras e de fusão cultural. Como um legítimo representante da literatura da diáspora e do exílio voluntário, ele transporta a melancolia rioplatense (típica do Uruguai) para a vibrante e mística realidade do interior mexicano. Sua bagagem como sociólogo confere à sua poesia uma profundidade ímpar, na qual o lirismo nunca se desliga das dores do homem comum, da passagem do tempo e das desigualdades sociais. Além disso, seu papel como educador e colunista internacional constrói pontes fundamentais de integração cultural dentro do continente americano, mantendo a palavra escrita como uma ferramenta viva de resistência e conscientização política.

Fonte:
Biografia de Washington = Literomania, Revista Mimeografo, Sombra del Aire, Revista Innombrable, El Sol de Irapuato, Espacio Latino, etc.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Célio Simões (O nosso português de cada dia) “Erro crasso”

General romano Crasso

A cultura popular incorporou essa expressão a partir do erro do general romano Marco Licínio Crasso, que em 53 a.C. perdeu a batalha de Carras e nela também a própria vida. Crasso era um figurão que dividiu o poder com Júlio César e Pompeu no ano 59 a.C, no período historicamente conhecido como Primeiro Triunvirato. Obcecado por conquistar o Império Parto, na Mesopotâmia, esse oficial atacou a cavalaria inimiga em campo aberto com uma tropa de infantaria a pé, e o resultado foi que teve seu exército dizimado. 

Assim, a expressão "Erro crasso", equivale a um erro grosseiro, visível, primário, inaceitável e possui duas conotações: a da sua origem linguística real e a aventura militar que devastou tantas vidas. 

A palavra deriva do latim “Crassus”, que literalmente significa gordo, denso, espesso, bruto ou volumoso. Com o tempo, passou a ser usada em sentido figurado para indicar algo sem refinamento, tosco ou muito evidente. Um "Erro crasso" é um erro elementar, percebido de cara, algo tão denso, volumoso e visível, que não pode passar despercebido. 

Quanto à origem histórica, como dito antes, a expressão é associada à tragédia das tropas do general romano Marco Licínio Crasso, que viveu de 115 a.C. a 53 a.C., o homem mais rico de Roma, cujo eco anabolizado e superlativa vaidade, eram infinitamente maiores do que sua própria fortuna pessoal.

Faminto por glória militar, liderou ele uma campanha contra o Império Parta (região onde está o Iraque), porém ignorou os conselhos dos oficiais do seu “staff”, recusou a ajuda de aliados e marchou com 40.000 soldados pelo deserto para o combate frontal, sem o devido respaldo tático ou logístico. O resultado dessa sandice foi que, ao encontrar as tropas adversárias na Batalha de Carras, a infantaria romana foi cercada e quase aniquilada pelos arqueiros partas, que disparavam flechas certeiras de um plano mais alto, montados em seus cavalos. 

Na refrega, que os apanhou desprotegidos, mais de 20.000 combatentes de sua tropa morreram, incluindo o general e seu filho, sendo os milhares de feridos e sobreviventes, capturados e aprisionados. Foi um dos piores desastres militares de toda a história de Roma, que desfrutava da fama de ser imbatível. 

Embora linguistas reforcem que o adjetivo “crassus”  já existia no latim com o sentido de "grosseiro" antes mesmo do general Crasso ficar famoso pela fragorosa derrota, que consolidou para sempre a expressão na cultura popular. 

No cotidiano, jornais, blogs, sites, redes sociais e o noticiário televisivo nos revelam notícias estarrecedoras sobre erros crassos cometidos nas mais diversas profissões, sejam manuais, técnicas ou intelectuais. 

Cirurgiões esquecem pinças no abdome de pacientes; engenheiros constroem prédios que desabam ao sopro mais vigoroso do vento; comandantes encalham navios por equívocos nas plotagens de rumos; motoristas morrem e matam ao ultrapassarem em locais proibidos; árbitros de futebol validaram gol feito com a mão em Copa do Mundo, dentistas erram nos moldes das próteses móveis e o cliente sai praticamente mudo do consultório...  

Na literatura, na música popular brasileira e em geral no cancioneiro nacional, o termo "erro crasso" é frequentemente usado por críticos literários, professores e linguistas para classificar graves desvios gramaticais, de concordância nominal ou verbal, inadvertidamente cometidos por desatentos autores. As petições judiciais, redigidas na refinada linguagem forense, é o território fértil onde argutos advogados alfinetam impiedosamente colegas que por pura desatenção cometem gafes primárias, denunciando-as ao juiz em termos respeitosos, porém destilando veneno contra “quem de direito”. Um exemplo, pinçado do anedotário jurídico, foi o que escreveu o causídico, contestando incisivamente o pedido feito pela parte contrária:

“MM JUIZ: O pedido da autora é improcedente. Ajuizou a presente ação de investigação de paternidade em favor do menor M.D.C, porém laborou em grave equívoco, pois na aludida ação figura como ré Marinusa da Silva(*). Trata-se, a toda evidência, de clamoroso, lamentável e imperdoável erro crasso de  para V. Exa., por impossível biologicamente, que a senhora Marinusa Silva não é o pai do menor M.D.C!!!...”

Ainda no universo das relações jurídico-processuais, os Oficiais de Justiça, quem diria, eventualmente engordam as extravagâncias forenses com suas certidões incorretas, imprecisas, quando não simplesmente anedóticas. Em “Ação de busca e apreensão de uma motocicleta” proposta por uma instituição financeira contra o cliente que deixou de pagar as prestações do financiamento, o zeloso meirinho certificou nos autos: 

“CERTIFICO E DOU FÉ, que no dia 28/07/1997 compareci ao endereço constante do mandato e lá chegando, fui informado na portaria do prédio que o requerido não mais residia naquele endereço. Dialogando com alguns moradores presentes ao ato, uma atenta e bem informada vizinha do réu declarou que tão logo soube da ação visando apreender sua moto, o devedor se evadiu para lugar ignorado, montado na mercadoria. Assim, devolvo o presente mandato para os devidos fins”. 

O festejado escritor, historiador, pesquisador, palestrante, artista plástico, acadêmico e advogado Sebastião Godinho, destacado membro do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Academia Paraense de Letras e da Academia Paraense de Jornalismo, que lidera quixotescamente as batalhas contra a dilapidação dos monumentos de Belém e a deturpação da memória história do Pará, recentemente se valeu da expressão “Erro crasso” para denunciar mais uma danosa omissão da Prefeitura, quanto à incorreta denominação dos logradouros da Capital paraense. Profligou ele, em sua apreciada página no Facebook e sem dissimular a indignação, a grafia incorreta da placa que identifica uma das nossas importantes ruas:

“Outro erro crasso que compromete o bom entendimento da História. Angostura e não Angustura era o nome da fortificação que se rendeu, sem combate, às forças brasileiras que a ocupou em 30 de dezembro de 1868, dentre os conflitos ensejados pela Guerra do Paraguai. Mais um equívoco que expõe a nossa ignorância a respeito do tema, sem que ninguém mova uma palha para retificá-lo. Enquanto isso, o presidente da câmara de Belém se preocupa em aprovar uma lei que eleva a condição de patrimônio imaterial do povo belenense, o som automotivo. Pode?”.

Ressalve-se, por necessário, que no ilimitado universo da arte, em especial na poesia, o que poderia ser visto como "erro crasso" é tolerado e aceito como licença poética, recurso estilístico ou variação linguística necessária para manter a métrica, a rima e a identidade cultural de uma canção. 

Ildefonso Guimarães, saudoso mestre da ficção que no passado abrilhantou a Academia Paraense de Letras, em seu livro “Senda bruta” (que em 1963 merecidamente recebeu o Prêmio Samuel Mac Dowell da APL), discorrendo sobre as antigas festas juninas, nos mostra em “Caminhos do Vento” (p. 40/41) que fazer rimas perfeitas não é a única forma de dar musicalidade aos versos:

“Eu sou caçador afamado
Que vim lá da cabeceira;
Hoje eu mato esse boi,
Seja lá de que maneira!

Não caçador!
Faz pena, faz horror!
Não mate esse boi
Que meu amo criou!!!”

Um verdadeiro show, em especial por se tratar de texto da lavra de poetas anônimos, o que nem de longe significa escrever errado. E a prova disso são os versos de rima falsa que o genial escritor utilizou, como acima se vê. Regra geral, versos rimados precisam terminar com a mesma sonoridade, isto é, não se pode combinar singular com plural, som fechado com aberto, nem tônico com átono, etc. Por tal razão, fora do amplo espectro da licença poética, rimar de outra forma, sempre é vista pela crítica como “erro crasso”, expressão cuja origem o leitor agora já sabe exatamente de onde veio, assim como e porque se albergou em definitivo no nosso português de cada dia!
= = = = = = = = = = = = = =  
(**) Nome fictício
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Célio Simões (1947)
O advogado e escritor CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é uma das personalidades intelectuais e jurídicas mais respeitadas do estado do Pará, destacando-se como cronista, poeta e guardião da memória histórica e cultural da Amazônia. Nasceu na histórica cidade de Óbidos/PA, em 1947. Embora suas raízes obidenses definam profundamente sua identidade literária, ele construiu grande parte de sua vida residencial e profissional em Belém, capital paraense, onde mora atualmente. Entre 1945 e 1953, durante a juventude, também viveu em regiões de várzea às margens do Rio Amazonas. Sua trajetória na área jurídica e acadêmica é extensa e renomada: Graduou-se em Direito pela Universidade Federal do Pará e pós-graduou-se em Direito e Processo do Trabalho pela Universidade Cândido Mendes (RJ). Atuou como Juiz do Tribunal Regional Eleitoral do Pará (TRE-PA) na classe de jurista e foi membro da Advocacia Consultiva da União. Professor na Universidade da Amazônia (UNAMA), na Escola Superior de Advocacia (ESA) e na Escola de Árbitros e Mediadores do Pará. Serviu como Conselheiro Estadual, Juiz do Tribunal de Ética e Disciplina e presidiu a Comissão de Combate ao Trabalho Forçado.
Prolífico cronista, ensaísta, poeta e memorialista. Suas produções abordam desde a cultura popular, expressões idiomáticas e histórias do cotidiano até profundos resgates históricos regionais. Pelo seu prestígio, integra importantes instituições: Academia Paraense de Letras (APL) – Membro "Imortal"; Academia Paraense de Letras Jurídicas (APLJ) – Membro titular e ex-presidente; Academia Paraense de Jornalismo (APJ) – Sócio-fundador e ex-vice-presidente; Academia Artística e Literária de Óbidos (AALO) – Idealizador, fundador e seu primeiro presidente; Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP) – Sócio efetivo; Sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGT), fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém, membro do Instituto dos Advogados do Pará. membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras (PR).
Ao longo de sua carreira literária, recebeu três prêmios literários principais, incluindo uma destacada Medalha de Prata em concurso promovido pela tradicional Revista TROFÉU, de São Paulo. Em 2022, também foi condecorado com o Título Honorífico de Honra ao Mérito pela Câmara Municipal de Belém. Possui seis livros autorais publicados, além de coautorias. Destacam-se: Recados da Memória (2018) – Cujas rendas de lançamento foram inteiramente revertidas em doação para a Santa Casa de Misericórdia de Óbidos; Um Pouco de Muitas Histórias (2017); Rio Amazonas – Um Abraço Apertado – Obra em coautoria.
A relevância de Célio Simões para a literatura paraense e amazônica reside na sua atuação como um "escritor memorialista". Assim como fez o clássico autor obidense Inglês de Sousa, Célio Simões transporta para as suas crônicas e contos a alma do Baixo Amazonas, o cotidiano ribeirinho e a identidade do povo paraense. Além disso, seu papel institucional foi fundamental para descentralizar a cultura no estado; ao idealizar e fundar a Academia Artística e Literária de Óbidos, ele criou um polo essencial para a preservação e fomento de novos talentos fora da capital jurídica e literária de Belém.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Imagem =  Zentral Media 
Biografia = Obidos.net, Obidense, Jeso Carneiro, Instituto Histórico e Geográfico do Pará, Confraria Brasileira de Letras.

Washington Daniel Gorosito Pérez (O escritor mexicano Villoro e o outro, em uma ilha deserta)

O escritor e jornalista mexicano Juan Villoro, membro do El Colegio Nacional, referiu-se em sua série de palestras nessa instituição, intitulada "O desafio do outro: náufragos, exilados e migrantes na literatura", à ilha deserta na literatura como espaço de aventura, mas também de condenação: "No México tivemos prisões em ilhas e José Revueltas escreveu um romance sobre a prisão em que estava, nas Ilhas Marías, e este romance se chama Os muros de água. A ilha tem sido um espaço de desejo, um possível paraíso, um espaço de salvação para um náufrago, mas também tem sido um espaço de condenação."

Mas se existe uma ilha fundamental para o naufrágio, disse Villoro é a de Daniel Defoe, onde seu personagem Robinson Crusoé viveu por 28 anos, a mesma que o escritor francês Michel Tournier recriou no século XX em seu romance Fridays ou Os limbos do Pacífico. Após detalhar a vida de fracassos de Defoe, explicou que, assim como seu personagem Robinson Crusoé, "ele era um homem cheio de ambição; Defoe era pretensioso, usava uma peruca como se pertencesse à aristocracia, usava uma espada por pura elegância."

Sempre lutando para sobreviver, Defoe escreve Robinson Crusoé que, para Villoro, "é a história de um grande arrependimento, porque ele vai para o mar desobedecendo aos pais e cai em um naufrágio, e podemos dizer que esse naufrágio é uma espécie de batismo que o reconverte. Ele chega à ilha, tem que agradecer, batiza a ilha como Esperança, como uma das três virtudes teologais, e diz: 'Tenho que agradecer por estar vivo, e minha forma de dar graças, e aqui entra a ética protestante, é trabalhar. O trabalho é o que vai me redimir.'"

Além do fato de que, na história, a ilha deserta é uma tábula rasa que permite começar do zero: Robinson Crusoé "foi um livro muito direto que falava sobre problemas muito específicos de como sobreviver, mas o público adorava, que se sentia representado, entendia que havia alguém que falava sua língua".

Inspirado pelo naufrágio do marinheiro Alexander Selkirk, outro personagem aparece na obra de Defoe, um aborígene que ele batiza com o nome de Sexta-Feira e, "embora estejamos lidando com uma história no efeito de um senhor e um servo, uma história assimétrica de dominação, com o tempo Robinson Crusoé começa a ficar curioso, e uma dose de respeito pelos aborígenes que estão lá."

Ao longo dos anos, Juan Villoro recordou, Robinson Crusoé tornou-se "um personagem que já é equivalente a um mito; assim como muitos autores abordaram o tema de Fausto ou Don Juan, há muitos que abordaram o tema de Robinson Crusoé até o século XX, por exemplo, A Ilha de Cimento, de Ballard, o grande autor inglês de ficção científica. A Ilha, de Aldous Huxley, lhe deve muito. A Invenção de Morel, por Adolfo Bioy Casares".

A lista vai tão longe quanto Michel Tournier e seu Sexta-feira ou Os Limbos do Pacífico, onde "o que ele vai fazer é uma antropologia do outro; Ele muda a equação entre o náufrago branco e o aborígene e vai criar um romance profundamente diferente, algo muito difícil porque tem o precedente de uma das maiores obras que atravessou os leitores de forma muito bem-sucedida desde o século XVIII."

Tournier, também filósofo, descreve um Robinson Crusoé ambicioso e desequilibrado que, ao contrário de Defoe, que "administra sua ilha", cai em depressão e até é abandonado pelo cachorro com o qual naufraga. Crusoé, de Tournier, é salvo pelo tempo e preparado para a chegada de alguém radicalmente diferente dele: Sexta-Feira, um aborígene que ele transforma em servo e que maltrata repetidas vezes, apesar de seu humor festivo e alegre.

Durante os 28 anos em que Robinson, interpretado por Tournier, também permanece na ilha, abusos contra Sexta-Feira acontecem repetidas vezes, mas, ao contrário de Defoe, o náufrago do francês reconsidera e reflete repetidamente até ver o outro, Sexta-Feira, como "um poeta, um inventor, uma personagem maravilhosa. É exatamente isso que Sexta-feira no Náufrago alcança: que ele se torna espiritualmente alguém diferente e pode aspirar a ser poeta ou inventor ele mesmo."

"Visto de longe e com a mentalidade da antropologia do outro, Sexta-Feira ou Os Limbos do Pacífico também é uma educação para entender nossa própria sociedade; os valores que Robinson aprende com Sexta-Feira podem ser valores desta sociedade. Daniel Defoe escreve um romance no qual um náufrago busca preservar seus valores em extrema solidão, ele está enraizado no passado. Nesse sentido, é um romance conservador: para se salvar, não para se desumanizar, precisa preservar sua tradição, o que é. O que Tournier faz de forma incrível, por outro lado, é que ele escreve um romance voltado para o futuro."

Villoro recordou uma palestra de Tournier na qual refletiu que a verdadeira dedicatória de seu romance era aos trabalhadores estrangeiros na França. "Ele diz: 'Existem milhões de pessoas que vieram dos confins do mundo para que possamos viver melhor, e são pessoas que não vemos, são pessoas anônimas. Tentei, neste romance, dar um rosto e uma vida àquele Sexta-Feira que é aquele que nos permite comer, que limpa nossa casa, que nos sustenta, que nos ajuda, que dirige o carro, o taxista, todas as pessoas que nos permitem viver: os imigrantes.'"

Graças a essas duas versões literárias do naufrágio, Villoro disse: "vemos a descoberta de um ser diferente, a quem podemos temer, mas que também é alguém que tem muito a nos ensinar. Quando uma pegada aparece em uma ilha deserta que não é nossa, isso pode nos assustar, pode nos assustar, mas vimos aqui que essa também é uma oportunidade extraordinária de aprendizado porque o outro, o diferente, é necessariamente o que alimenta a si próprio.”
(tradução do espanhol por José Feldman)
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
O escritor, sociólogo e jornalista WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ é uma voz de grande relevância na literatura hispano-americana contemporânea. Nascido no Uruguai e naturalizado mexicano, sua produção artística e intelectual conecta com maestria a sensibilidade poética às reflexões críticas sobre a política internacional, a educação e os problemas sociais. Nasceu em 1961, na cidade de Montevidéu, no Uruguai. Viveu sua juventude no Uruguai. Desde 1991, mudou-se para o México, fixando residência na cidade de Irapuato, no estado de Guanajuato. Tornou-se oficialmente cidadão mexicano naturalizado em 1999. Iniciou sua trajetória acadêmica no Uruguai, graduando-se em Jornalismo aplicado aos Meios de Comunicação Social. No México, consolidou uma sólida carreira acadêmica nas Ciências Humanas: licenciou-se e obteve o título de Mestre em Sociologia da Educação, tornando-se também doutorando em Pedagogia. Atua há décadas como catedrático universitário, pesquisador e conferencista. É um jornalista ativo de opinião, sendo o autor da célebre coluna internacional “Encuentro con Gorosito”, publicada em diversos veículos de comunicação das Américas e da Europa. 
Sua inserção no mundo das letras é marcada por uma produção híbrida, dividida entre o rigor dos ensaios acadêmicos e o lirismo da poesia existencial e urbana. Possui forte vínculo com instituições intelectuais no território mexicano, participando ativamente de saraus, congressos e núcleos de escritores associados à Academia Nacional e Internacional de Poesía (como os núcleos de San Luis Potosí e da Cidade do México), além de ser colaborador frequente de coletivos de vanguarda e revistas culturais independentes. Ao longo de sua estrada literária, acumulou um expressivo reconhecimento em certames de prosa e poesia pela América Latina. Ele recebeu 2 prêmios provinciais, 5 prêmios nacionais e 14 prêmios internacionais de literatura. Suas produções também foram selecionadas para integrar mais de 16 antologias internacionais de poesia e contos.
Entre livros individuais, ensaios de sociologia e participações em antologias poéticas de prestígio, destacam-se: Una biblioteca sin libros (2022); Relatos de tradiciones (2022); Tras las huellas de Ana Neumann (2023); Trazos poéticos 3 (2023) – Obra comemorativa do Dia Mundial da Arte; Sombras del Aire, antología 2023 – Coletânea poética de grande repercussão em Guanajuato; Urbana – Livro comemorativo celebrando sua produção de crônicas e versos.
A relevância de Gorosito Pérez reside em sua condição de escritor de fronteiras e de fusão cultural. Como um legítimo representante da literatura da diáspora e do exílio voluntário, ele transporta a melancolia rioplatense (típica do Uruguai) para a vibrante e mística realidade do interior mexicano. Sua bagagem como sociólogo confere à sua poesia uma profundidade ímpar, na qual o lirismo nunca se desliga das dores do homem comum, da passagem do tempo e das desigualdades sociais. Além disso, seu papel como educador e colunista internacional constrói pontes fundamentais de integração cultural dentro do continente americano, mantendo a palavra escrita como uma ferramenta viva de resistência e conscientização política.

Fontes:
Sumar Literomania nr. 410-411 (21.07.2026)
https://www.litero-mania.com/el-escritor-mexicano-villoro-y-el-otro-en-una-isla-desierta/
Biografia = Literomania, Revista Mimeografo, Sombra del Aire, Revista Innombrable, El Sol de Irapuato, Espacio Latino, etc.

sábado, 22 de agosto de 2026

Teatro de Ontem e de Hoje (Como fazer uma peça de teatro) 1


COMPONENTES IMPRESCINDÍVEIS DE UMA PEÇA DE TEATRO
 
Uma peça de teatro é uma obra escrita para ser representada, então tem elementos próprios — sem eles, não existe texto teatral. Vamos separar em estrutura interna e elementos do texto:
 
a. Ação e Conflito —  O CORAÇÃO
 
É o mais fundamental de todos. Sem conflito não há teatro!
 
- Ação: o conjunto de fatos, comportamentos e mudanças que acontecem na história (o que se passa).

- Conflito: o choque entre forças opostas — desejo × obstáculo, personagem × sociedade, ele × ele mesmo… 
É o que faz a história avançar.
 
“O teatro não é só pessoas falando. É pessoas querendo algo e lutando para conseguir.”
 
b. Personagens — QUEM VIVE A HISTÓRIA
 
São os seres que realizam a ação. Precisam ter:
 
- Objetivo: o que cada um quer alcançar (motivação clara!)

- Relações: como se conectam entre si

Mesmo que seja um monólogo, precisa haver pelo menos um personagem — sem isso, não há peça.
 
c. Diálogo — A LINGUAGEM PRINCIPAL
 
É o veículo principal do teatro: o que os personagens dizem uns aos outros. Revela personalidade, avança a trama, mostra conflitos.
 
Inclui também monólogo (quando um só fala) e apartes (fala direta ao público, os outros não ouvem).
 
d. Estrutura Dramática — COMO SE ORGANIZA
 
Quase sempre segue essa sequência clássica:
 
1. Apresentação/Exposição: mostra quem são, onde estão, situação inicial

2. Nó/Conflito: o problema surge, a tensão sobe

3. Clímax: o momento de maior pressão — decisão ou acontecimento decisivo

4. Desenlace/Resolução: consequências e encerramento
 
e. Indicações Cênicas — O QUE O LEITOR/ATOR PRECISA SABER
 
São as instruções do autor, escritas fora das falas. Imprescindíveis no texto:
 
-Cenário e Lugar: onde acontece
-Comportamento dos personagens: entram, saem, sentam, gestos, tom de voz
-Tempo: época, hora do dia
-Elementos técnicos: luz, som, figurino — quando definidos pelo autor
 
f. Divisão em Partes — Formato Próprio
 
Todo texto teatral se divide em:
 
- Atos: grandes blocos da história (geralmente 1, 2 ou 3 atos)
- Cenas: muda quando entra ou sai um personagem — cada mudança = cena nova
- Em textos mais completos: pode ter Cena, Quadro e Episódio, mas Atos e Cenas são sempre presentes
 
g. Espaço e Tempo — ONDE E QUANDO ACONTECE
 
A história precisa se situar: não existe “em lugar nenhum, em tempo nenhum”. Pode ser um só local ou vários, um dia ou décadas — mas sempre definidos.
 
Resumo: Lista Curta — O QUE NÃO PODE FALTAR DE JEITO NENHUM
 1. Conflito / Ação dramática ⭐ — o mais essencial
2. Personagens
3. Diálogo / Fala
4. Estrutura (início → meio → fim)
5. Indicações cênicas
6. Espaço + Tempo
 
Diferença-chave: num romance o autor conta; numa peça o autor mostra por meio de falas e ações. Se faltar qualquer um dos 6 acima, vira texto narrativo — deixa de ser peça de teatro.
= = = = = = = = = = = = = =  
continua…

(A. I. Dola)

domingo, 16 de agosto de 2026

Conto & Crônica: Da Ideia à Publicação (Parte 10)


Aqui estão frases de grandes escritores sobre a arte e o ato de escrever:

Clarice Lispector: 
"Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível."

Machado de Assis: 
"A palavra foi feita para dizer o que o espírito sente; quando não diz tudo, diz o que pode."

Rubem Alves: 
"Escrever é um ato de amor. É a tentativa de deixar um pedaço de nós no coração do outro."

Carlos Drummond de Andrade: 
"Escrever é procurar entender, é dar a conhecer aos outros o que se descobriu.”

Toni Morrison: 
"Se há um livro que você quer ler, mas ele ainda não foi escrito, você precisa escrevê-lo.”

Ernest Hemingway: 
"Não há nada de especial em escrever. Basta sentar-se à máquina de escrever e sangrar."

Stephen King: 
"Escrever é telepatia humana."

Maya Angelou: 
"Não há agonia maior do que carregar uma história não contada dentro de você."

Margaret Atwood: 
"Uma palavra após a outra, após a outra, é poder."

Saul Bellow: 
"Você nunca escreve bem a menos que escreva pelo seu próprio bem."

Gabriel García Márquez (Colômbia): 
"O escritor escreve para que o queiram mais, e isso é no fundo uma grande necessidade de afeto."

Jorge Luis Borges (Argentina): 
"Escrever é apenas um modo lento de sonhar."

Isabel Allende (Chile): 
"A escrita é uma longa introspecção, é uma viagem para as cavernas mais escuras da consciência."

Virginia Woolf (Inglaterra): 
"Cada segredo da alma de um escritor, cada experiência de sua vida, cada qualidade de sua mente está escrita em larga escala em suas obras."

José Saramago (Portugal): 
"Escrever é um ato de interrogação permanente."

Franz Kafka (Tchéquia): 
"Escrever é uma forma de oração."

Essas frases refletem a reflexão e a visão sobre a escrita, encorajando novos escritores a explorar sua voz e suas experiências.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
JOSÉ FELDMAN (71) é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por mais de 10 anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Professor de trovas e escrita criativa. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título Magnus Magister em Letras, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 
1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 
2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 
3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.
======================================