Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 31 de março de 2018

Trova 281 - Janske Niemann (Curitiba/PR)


Contos e Lendas do Mundo (Brasil: Zinho, O Detetive)

O Detetive Zinho estava em seu quarto arrumando suas coisas de detetive, quando ouviu um grito pavoroso:

- Aaaiiiii!

Zinho saltou da cama, pegou sua lupa e seu chapéu, e abriu a porta do seu quarto. Daí ouviu o grito de novo:

- Aaaiiiii!

Zinho quase se assustou. Mas aí lembrou-se que um verdadeiro detetive não se assusta. Engoliu o susto em seco e pegou um desentupidor de pia que estava no corredor. Com o desentupidor debaixo do braço ele se sentiu mais confiante para enfrentar aquela ameaça terrível. E pôs-se a investigar de onde viriam os gritos.

- Aaaiiiii!

Era o grito pavoroso de novo. Zinho já estava no alto da escada quando decidiu pegar mais uma arma: entrou no quarto da mãe e saiu de lá com um sutiã na mão para usar como se fosse estilingue. Testou o suti-estilingue e... funcionava. Lançou uma bola de meia longe. A bola bateu no espelho do corredor, voltou e bateu na cabeça de Zinho, que ficou meio atordoado. O que mostrava que o suti-estilingue funcionava.

- Aaaiiiii!

Quanto mais descia a escada mais pavoroso o grito ficava. E o detetive Zinho resolveu se armar de um tênis largado pelo irmão mais velho bem no pé da escada. O tênis estava muito sujo e Zinho fez a besteira de cheirar o tênis do irmão.

- Arrgghh! Que chulé! - “ disse Zinho tapando o nariz.

Era mais uma arma perfeita contra o que quer que fosse que estava causando aqueles gritos de medo. E por falar em grito:

- Aaaiiiii!

Passando pelo banheiro no corredor o detetive Zinho entrou. Pelo barulho que fez deve ter derrubado um monte de coisas lá dentro. E saiu armado de papel higiênico (pra amarrar o inimigo), uma escova de dentes (caso ele esteja com mal-hálito) e um rodo (que podia ser usado como espada ou coisa assim).

Carregado com todos esses apetrechos o detetive Zinho ouviu novamente:

- Aaaaaahhhhhh!

O grito tinha ficado ainda mais pavoroso. E finalmente Zinho pode identificar de onde vinha o grito: da cozinha.

Aproximou-se com cuidado da porta da cozinha, que estava fechada. O detetive Zinho ainda se lembrou de pegar um espanador que estava numa mesinha perto da porta. Por um segundo ou dois hesitou. Devia mesmo entrar? Que terríveis perigos o aguardavam atrás daquela porta.

- Aaaaahhhhhhhh!

Quando ouviu esse último grito não teve dúvidas: ele ia fazer o que tinha vindo fazer. E chutou a porta da cozinha com tanta força que ela se abriu estrondosamente. Pode ver então sua irmã mais velha em cima de uma cadeira. A irmã olhava para o lado e deu mais um grito horripilante:

- Socoorroooo!

Que terríveis monstros marcianos atacavam a cozinha querendo raptar sua irmã? Que perversos bandidos assaltavam a casa em busca dos doces que sua mãe tinha feito para o jantar? Que cruéis monstros sanguinários invadiam a casa prontos para sugar todo o leite da geladeira até a morte? O detetive Zinho tentou manter a calma. E reparou que sua irmã olhava para baixo. Estalou os dedos e concluiu brilhantemente:

- Ahá! O que está assustando minha irmã deve estar no chão!

Então o detetive aproximou-se do ser maligno que estava causando todo esse terror em sua parente tão próxima. Armado com todos os objetos que pegou pela casa ele não tinha medo, não podia falhar.

E foi então que ele chegou bem perto e pode ver, ali no chão limpo da cozinha... uma barata.

Fonte:
Contos de Encantar

Fernando Pessoa (Quadras ao Gosto Popular) IV


Ai, os pratos de arroz doce
com as linhas de canela!
Ai a mão branca que os trouxe!
Ai essa mão ser a dela!

À roda dos dedos juntos
enrolaste a fita a rir.
Corações não são assuntos
e falar não é sentir.

A Senhora da Agonia
tem um nicho na Igreja.
Mas a dor que me agonia
não tem ninguém quem a veja.

A tua janela é alta,
a tua casa branquinha.
Nada lhe sobra ou lhe falta
senão morares sozinha.

Comes melão às dentadas,
porque assim não deve ser.
Não sei se essas gargalhadas
me fazem rir ou sofrer.

Comi melão retalhado
e bebi vinho depois,
quanto mais olho p'ra ti
mais sei que não somos dois.

Compreender um ao outro
é um jogo complicado,
pois quem engana não sabe
se não estava enganado.

Cortaste com a tesoura
o pano de lado a lado.
Porque é que todo teu gesto
tem a feição de engraçado?

Deixaste o dedal na mesa
só pelo tempo da ausência —
Se eu te roubasse dirias
que eu não tinha consciência.

Deram-me um cravo vermelho
para eu ver como é a vida.
Mas esqueci-me do cravo
pela hora da saída.

Dona Rosa, Dona Rosa.
de que roseira é que vem,
que não tem senão espinhos
para quem só lhe quer bem?

Dona Rosa, Dona Rosa,
quando eras inda botão
disseram-te alguma cousa
de a flor não ter coração?

Eu vi ao longe um navio
que tinha uma vela só,
ia sozinho no mar...
Mas não me fazia dó.

Floriu a roseira toda
Com as rosas de trepar...
Tua cabeça anda à roda
Mas sabes-te equilibrar.

Frescura do que é regado,
por onde a água inda verte...
Quero dizer-te um bocado
do que não ouso dizer-te.

Manjerico que te deram,
amor que te querem dar...
Recebeste o manjerico.
O amor fica a esperar.

O canário já não canta.
não canta o canário já.
Aquilo que em ti me encanta
talvez não me encantará.

O laço que tens no peito
parece dado a fingir.
Se calhar já estava feito
como o teu modo de rir.

O malmequer que colheste
deitaste-o fora a falar.
Nem quiseste ver a sorte
que ele te podia dar.

O que sinto e o que penso
de ti é bem e é mal.
É como quando uma xícara
tem o pires desigual.

O ribeiro bate, bate
nas pedras que nele estão,
mas nem há nada em que bata
o meu pobre coração.

Quando ela pôs o chapéu
como se tudo acabasse,
sofri de não haver véu
que inda um pouco a demorasse.

Quem te deu aquele anel
que ainda ontem não tinhas?
Como tu foste infiel
a certas ideias minhas!

Tens um anel imitado,
mas vais contente de o ter.
Que importa o falsificado
se é verdadeiro o prazer.

Uma boneca de trapos
não se parte se cair.
Fizeste-me a alma em farrapos…
Bem: não se pode partir.

Fonte:
PESSOA, Fernando, Quadras ao gosto popular, Lisboa, Ática, 1994.

segunda-feira, 5 de março de 2018

quinta-feira, 1 de março de 2018

Olivaldo Júnior e José Feldman (Um Homem Solitário)

Pintor: Teun Hocks (Holanda, 1947-)
De Olivaldo Júnior para José Feldman

Só um homem solitário
tem na boca a lua cinza,
que sorri de modo vário,
mas acaba só, ranzinza.

Só um homem solitário
quer tornar a vida linda,
que, bonita, faz lendário
um herói que luta ainda...

Na janela, o calendário
"vira" pássaro e revoa,
busca o novo itinerário!...

Mas um homem solitário,
no silêncio que atordoa,
faz, sem sol, seu relicário.

26.12.2017

De José Feldman para o Olivaldo Júnior

Só um homem solitário
transforma em dias as trevas,
carregando em seu fadário
tantas tristezas malevas.

Só um homem solitário
sabe o sentido da dor,
e, exprimindo-a num rimário,
chora a ausência de um amor.

Faz de seus olhos vidraça,
do pranto seu vestuário,
das lágrimas a mordaça.

Pois, neste homem solitário
cujas ilusões abraça...
solidão é um rosário.

27.12.2017

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to