sábado, 17 de fevereiro de 2018

João Batista Xavier Oliveira (Trovas Collection) I

Fonte: O Trovador

Olivaldo Júnior (3 Minicontos do Carnaval)

Ô, ABRE ALAS!

O coração daquele jovem nunca tinha batucado. Batia, desde sempre, no ritmo insone de manter viva a vida que Deus lhe dera, mas batuque mesmo não, nunca tinha batucado.

Foi que, no Carnaval daquele ano, sairia no carro abre-alas do Desfile Municipal, e, para isso, se preparara com afinco. Foram meses frequentando a quadra da Escola e tudo.

Na passagem da segunda para a Terça-feira de Carnaval, vestindo azul, chapéu de abas curtas branco na fronte, sentia seu peito batucar, no abre-alas da Avenida e de outro "eu"!

'MIL' CONFETES

O salão do clube de campo daquela pequena cidade interiorana não parecia mais um mero salão de clube de campo do interior, mas o interior de um bolo de festa de criança.

No chão, confetes mil se avolumavam, e por ele passavam senhoras e senhores que, ao pisarem lá, se transformavam e sentiam vir à tona a criança entorpecida de tempos idos.

Assim, ao som de "Máscara Negra" e de tantas outras lindas canções carnavalescas, deram-se as mãos e, numa imensa dança circular, giraram sobre o chão de 'mil' confetes...

UM PIERRÔ

Vestiu-se feito um Pierrô para a folia. Sabia que em algum ponto da Alegria haveria de encontrar a Colombina. O Arlequim, página virada para ela, seria só mais um amor e só.

Porém, no decorrer da alegoria, viu seu sonho virar cinzas e, no caos da manhã raiada, raiou sem ela na avenida. Bêbado de amor sem nexo, vagou, vadio, pelas vielas a chorar.

Não sabe como o Carnaval acabou. Chorou até seu rosto se mostrar. Não foi dessa vez! Acordou nos braços do amigo, um Arlequim sem Colombina que o fizera despertar.

Fonte: O Autor

Érico Veríssimo (As Aventuras de Tibicuera) Capítulos 17 a 20

17 — MEU AMIGO ANCHIETA
Quando recuperei os sentidos encontrei-me num lugar desconhecido. Estava eu estirado numa rede, junto da qual vi o homem misterioso, que me contemplava com ar amigo. Sorri para ele. Fazia anos que eu não sorria para ninguém, porque eu achava que o guerreiro que sorri, abre no sorriso uma porta por onde pode entrar a piedade e a fraqueza.

Fiquei muito admirado quando o desconhecido falou minha língua.

— Como é teu nome? — perguntou ele.

— Tibicuera.

Começou então para mim uma vida nova. 0 homem misterioso era o padre jesuíta José de Anchieta. Tinha vindo ao Brasil com o segundo governador geral, Duarte da Costa. Estávamos em 1554, na aldeia de Piratininga. Não me lembro de ter dedicado a alguém amizade igual à que dediquei àquele homem. Segui-o por toda parte como um cão fiel. Sempre me achei disposto a sacrificar minha vida por amor dele. E ainda hoje me lembro com saudade daquele homem encurvado, fraco, feio e de grandes olhos brilhantes.

Morava Anchieta com outros padres numa pobre casinha de barro e paus, coberta de palha. Era ali que os jesuítas recebiam os índios e procuravam ensinar-lhes coisas úteis e belas. Essa casa tinha uma única sala duns quatorze passos de comprimento por dez de largura. Servia ao mesmo tempo de escola, enfermaria, dormitório, cozinha, despensa e refeitório. Chegavam até ela índios de todas as tribos. Entravam desconfiados, ariscos, olhando para os lados.

Anchieta os recebia como um pai. E falava-lhes em Deus. No Deus Único, que fez o Mundo e que o governa.

Como havia índios de cabeça dura! Por mais que o santo padre falasse, por mais que gesticulasse, desse exemplos e riscasse figuras explicativas na areia — os indígenas não percebiam nada. Mas Anchieta não perdia a paciência.

Se aparecia algum índio doente, ele lhe dava remédio e conforto. Se surgiam entre os indígenas brigas, questões, disputas, Anchieta resolvia tudo como o melhor e mais justo dos juízes

Anteontem, assistindo a uma ópera no Municipal, lembrei-me que a primeira representação que vi na minha vida me foi proporcionada no colégio de Piratininga pelo meu grande e saudoso amigo Anchieta. Como os indígenas não se interessavam pela religião e mesmo lhes era custoso compreendê-la, Anchieta organizava espetáculos no colégio. As peças que ele escrevia para os índios representarem chamavam-se autos.

Lembro-me bem de um auto em que tomei parte. Chamava-se “O Mistério do Natal”. Um dia Anchieta reuniu os índios mais inteligentes, ensinou-lhes seus papéis e deu começo aos ensaios. Aparecia no auto a Virgem Maria, São José, o Menino Jesus. Como não havia mulheres na missão, era um índio que fazia o papel de Virgem Maria. Fiquei muito aborrecido por não ter sido escolhido para tomar parte na representação. Anchieta me botou a mão no ombro e disse:

— Paciência, meu filho. Tomarás parte de outra vez. Os papéis já estão todos distribuídos.

Fiquei melancólico. Fiz ainda uma tentativa:

— Padre, se eu fizesse o papel de burrinho?

Anchieta sorriu. E no dia da festa eu fui o burrinho que estava no estábulo onde nasceu o Salvador do mundo.

E assim muitos índios compreenderam a doce história do Natal. E Anchieta encontrou facilidade para convertê-los depois.

Quando chegava a Piratininga a notícia de que alguma tribo atacara um aldeamento de brancos, Anchieta ficava triste, abatido e passava horas e horas a rezar.

18 — O DEUS ÚNICO
Anchieta me contou as maravilhas do mundo. Com desenhos riscados na areia e palavras simples ele me explicou o que era uma ilha, um continente, um cabo. Fiquei também sabendo que do outro lado do grande mar existiam outras terras, outras nações com povos de pele, cara e costumes diferentes dos das nossas tribos.

Uma noite, olhando pata o céu, Anchieta murmurou.

— Mundos, Tibicuera, mundos...

E apontou para as estrelas. Fiquei olhando para o céu, de boca aberta. E eu, que pensava que uma estrela cabia na palma de minha mão, relutei muito em acreditar que cada estrela fosse um mundo.

Anchieta tornou a falar:

— Deus, Deus é ainda muito maior que as estrelas que ele fez com suas mãos mágicas.

— Deus... — murmurei.

E a pergunta que eu trazia presa no peito conseguiu derrubar o muro da minha timidez e saltou:

— Padre, o teu Deus é mais forte que Anhangá?

Anchieta sorriu.

— Muito mais.

— Mais forte que Curupira?

— Anhangá e Curupira não existem, meu filho. E Deus está em toda a parte.

Dei um pulo e fiquei de pé.

— Mas eu vi, Padre, eu vi Curupira e Anhangá! Foi no mato. Ninguém pode com eles.

Anchieta bateu no meu ombro e explicou:

— Tu viste os espíritos do mato porque estavas cego. Cego é aquele que não conhece o Deus verdadeiro.

Eu sacudia a cabeça, teimoso como uma mula. Tinha visto os espíritos do mal que moravam na mata. Tinha, tinha e tinha.

— Só existe um Deus, senhor do Céu e da Terra. Os que creem nele não podem temer os gênios do mal.

Retruquei:

— As armas dos guerreiros não conseguem ferir os espíritos maus. Pajé me disse que ninguém pode com eles.

Anchieta me mostrou a cruz preta que trazia presa ao pescoço por um cordel de couro.

— Com esta arma vencerás os espíritos da floresta.

E me deu a cruz. Naquele mesmo dia entrei no mato. O medo tinha desaparecido de meu corpo. Eu trazia, apertada nos dedos, a cruz que o padre me dera. Gritava:

— Anhangá! Curupira!

O eco respondia longe. Mas depois caía o silêncio. A noite me surpreendeu no mato. E dentro da noite eu gritei ainda pelos espíritos maus.

Silêncio.

“Os gênios do mato morreram” — pensei. E voltei para o colégio.

19 — CORSÁRIOS FRANCESES
Nos meses que se seguiram, aprendi a amar e respeitar o Deus Único. Estudei gramática, catecismo e rudimentos de música. Fui batizado. Anchieta me quis dar um nome cristão. João, Tomé ou Pedro. Supliquei-lhe que me conservasse o nome antigo. Eu me lembrava das palavras do pajé: “e o neto do neto de Tibicuera ainda será Tibicuera”.

Passei dias felizes no colégio de Piratininga. Duma feita salvei a vida de Anchieta, livrando-o da flechada de um índio vingativo.

Um dia nos chegaram notícias desagradáveis. Os índios se revoltavam nas capitanias de Espírito Santo, Pernambuco e Bahia. Os tamoios se reuniam numa confederação muito forte, aliavam-se aos franceses e, juntos, pretendiam expulsar os portugueses do Brasil.

Anchieta escreveu na areia o nome do comandante da expedição francesa: Nicolau Durand de Villegaignon. Fiquei olhando por longo tempo estas palavras. Depois apaguei-as com o pé, raivoso. Pouco me importava que o Brasil ficasse com os portugueses ou com os franceses. Mas acontecia que meu amigo José de Anchieta era de corpo e alma devotado aos portugueses. As dores dele eram as minhas dores. Eu estava, portanto, contra os corsários franceses!

A situação piorava. Os aliados — tamoios e franceses — ficavam cada vez mais fortes.

Um dia Anchieta nos trouxe a notícia da chegada do novo Governador Geral, Mem de Sá. O chefe branco entrou com o pé direito. Procurou corrigir os erros do governo anterior, mandou construir aldeias, proteger os índios e auxiliar os padres na catequese. E bem como hoje se vê na tela dum cinema, nos intervalos, este letreiro: É proibido fumar no salão, Mem de Sá espalhou proclamas proibindo a guerra entre as tribos e a antropofagia. Ora, proibir a guerra e a antropofagia para a maioria dos índios era o mesmo que hoje proibir o basebol aos americanos do norte, as touradas aos espanhóis ou o futebol aos americanos do sul...

Eu já andava cansado da vida quieta do colégio. Não morrera o guerreiro que existia dentro do meu peito... Eu fazia a mim mesmo perguntas que ficavam sem resposta: “Por que será que o Governador não ataca os franceses?”

Achei que não podia ficar o resto de minha vida agarrado à batina de Anchieta, como um filho mimoso. Um dia me despedi dele com tristeza, dizendo-lhe que ia correr mundo.

— Vai — disse-me o padre. — Agora Tibicuera é cristão, conhece o Deus verdadeiro. Nada de mal lhe poderá acontecer.

Fui.

Caminhei pela beira do mar. Já não ia mais seminu como os indígenas. Levava roupas iguais às dos colonos portugueses. Trazia por baixo da camisa a cruz preta que Anchieta me dera.

20 — PASSAGEIRO CLANDESTINO
Cheguei à Bahia.

Vi navios ancorados no porto. Pelas conversas que ouvi nas ruas compreendi que se tratava de uma armada mandada de Portugal para combater 0s franceses.

Andei a caminhar sem rumo pelas ruas de Salvador. À tardinha ia olhai o mar. Via as naus num balanço suave sobre as águas. Gaivotas voavam ao redor dos mastros e depois partiam na direção do mar alto. Senti uma saudade estranha nem eu mesmo sabia de quê. Dormi aquela noite na areia da praia.

Antes de fechar os olhos fiquei olhando as estrelas. Elas me pareceram caravelas da grande armada de Deus e o céu um mar azul sem ondas. Sonhei que Anchieta estava prisioneiro dos franceses, que o iam matar. Acordei sobressaltado. Vi que havia a bordo dos navios muita agitação. Levavam para as porões barricas d’água, caixas com mantimentos. Marinheiros corriam dum lado para outro. Limpavam-se os canhões.

Naquela manhã aprendi muita coisa. O comandante da armada se chamava Bartolomeu Vasconcelos da Cunha. Ia descer para o Sul com seus navios, com o fim de combater e expulsar os franceses do Rio de Janeiro.

Passei o dia inquieto. Precisava ir com eles. Procurei um oficial. Supliquei-lhe que me levasse. Respondeu que a tripulação estava completa. Além do mais, eu era um índio que não conhecia o serviço de bordo.

Anoiteceu. O luar prateava as águas, acariciava os navios adormecidos. Eu tinha na cabeça um plano muito confuso... Tirei a roupa. Fiquei de tanga, como nos meus tempos de guerreiro tupinambá. Joguei-me n’água e
nadei sem ruído na direção dos navios. Aproximei-me do primeiro casco, subi por um grosso cabo que pendia da popa. O trabalho foi fácil. Eu era musculoso. Estava habituado a me içar pelos cipós que pendem de certas árvores do mato.

Consegui saltar para a coberta do navio sem ser visto. Escondi-me atrás de duas barricas que se achavam junto do castelo de proa. Ali fiquei muito quieto. A noite passou. Clareou um novo dia. Ouvi berrarem ordens. Içaram-se as velas. Os navios começaram a se mover. Dentro de algumas horas estávamos longe da Bahia.

Fonte:
Érico Veríssimo. As aventuras de Tibicuera, que são também do Brasil. (Texto revisto conforme Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em vigor em 2009). Porto Alegre: Edição da Livraria do Globo, 1937.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Talita Batista (Trovas)

1
A humanidade hoje implora
por gente mais altruísta,
que jogue o egoísmo fora
e do amor jamais desista.
2
Chamando a gente de amigo
tem muita gente que o faz,
mas alguns são só perigo,
jogam malícia por trás.
3
Invadiu-me aquela hora,
constrangimento sem fim!...
Seu coração bate agora
só por outra e não por mim!
4
Joga-nos sempre no abismo
tudo que nos desalinha,
droga não é mecanismo
para um bom final de linha!
5
Nosso coração também
só tem um norte certeiro
quando, sábio, ele retém
ser do bem seu hospedeiro.
6
Para fazê-los brilhar
a mãe sacrifica os filhos,
levando-os a saltar
sobre muitos empecilhos.
7
Pela poesia que fiz,
após a sua partida,
vejo que fui bem feliz...
Até sua despedida!
8
Ser do bem seu hospedeiro,
sendo também altruísta
é mais que ganhar dinheiro
só para quem é artista!
9
Surgem da simplicidade
aprendizagens da vida.
Não é com celebridade
que a lição se consolida.
10
Trapaça, meio ilusório,
de alguém chegar à vitória,
pois entra no somatório
dos erros da nossa história.
11
Ururau, que é encantado,
do sino ele é guardião,
no Paraíba abrigado,
virou uma assombração.
12
Vou viver de fantasia,
nesse mundo que hoje é cão,
pois não imaginaria
você me deixar na mão!...

Talita Batista (A Poetisa em Xeque)

Entrevista realizada por Paulo R. O. Caruso, do site Reino dos Concursos com a poetisa/trovadora Talita Batista

Caruso: De onde você é? Quando você começou a se aventurar na literatura? Sofreu influência direta de parentes mais velhos, amigos, professores? O que aprendeu na escola o instigou a criar textos?
Talita: Sou de Campos dos Goytacazes/RJ. Sempre fui uma apreciadora da poesia, especialmente aquelas que têm rimas. Meu pai era um poeta e fui criada ouvindo poesias desse tipo, acredito que isso muito me incentivou.

Caruso: Você já leu muitas obras e lê frequentemente? Que gêneros (poesia, contos, crônicas, romance) e autores prefere?
Talita: Sim. Sempre gostei de ler, especialmente assuntos nos quais eu estou trabalhando. Atualmente, há nove anos, mais precisamente, meu interesse focou para o lado da poesia, especialmente do gênero poético da TROVA. Apesar desse meu “namoro literário” ter esse tempo citado, tem apenas 3 anos e 2 meses que tive coragem de fazer minha primeira trova.

Caruso: Costuma fazer um glossário com as palavras que encontra por aí (em livros, na internet, na televisão etc.) e ir ao dicionário pesquisá-las?
Talita: Sim. Faço isso sempre! Uso muito e gosto de usar o dicionário e vou escrevendo, a lápis, no próprio texto que leio o que encontro no dicionário.
Caruso: Há escritores de hoje na internet (não consagrados pelo povo) que admira? Em sites, Academias de que de repente você participa etc.
Talita: Sou acostumada a ler no papel, grifando e fazendo, a lápis, meus apontamentos. Com relação a Academias, apesar de, assistematicamente, eu frequentar este espaço, nunca aceitei ou me interessei a participar porque nunca tive tempo, devido a compromissos profissionais. Agora que estou numa fase mais tranquila em relação ao trabalho, acredito que a gente não pode fazer muitas coisas, ocupando vários espaços ao mesmo tempo. Também não gosto de ter tantos compromissos em várias instituições e sou muito responsável para saber que não dou conta e, mesmo assim, entrar em muitos lugares. Explico que sou uma pessoa muito simples, que não dou valor a cargos, nem a titulações próprias. Se eu entrasse em alguma instituição seria apenas com o intuito de ser útil à cultura do lugar em que vivo, tentar preservar a tradição cultural do nosso povo. O ego inflamado de muitas pessoas não me deixa muito à vontade, em certos lugares. Daí que nunca me interessei em participar mais diretamente de Academia alguma, apesar de respeitar e reconhecer a beleza dessas instituições.

Caruso: Você costuma participar de antologias? Acha-as algo interessante?
Talita: De algumas poucas já participei.

Caruso: Participaria de uma se eu a lançasse?
Talita: Participaria, sim, com prazer, desde que fosse dado tempo suficiente para eu me organizar.

Caruso: Você é membro de Academias de Letras? Aceitaria indicações para ingressar em Academias de Letras como membro?
Talita: Já respondi que, no momento, não. Associei-me à U.B.T. – União Brasileira de Trovadores e o meu interesse e foco no estudo da Trova – sua evolução histórica e as instituições a ela dedicadas não me dão tempo para distribuir o meu tempo a muitas outras atividades.

Caruso: Tem ideia de quantos textos literários já escreveu? Há quanto tempo escreve ininterruptamente?
Talita: Textos de literatura mesmo, há cerca de três anos. Mas sempre escrevi assuntos ligados aos saberes ligados à Educação, campo em que lecionava.

Caruso: Você tem dificuldade de escrever em prosa, em verso?
Talita: Tenho me dedicado, ultimamente à escrita em trova, ou poesia setessilábica. Mas não sinto dificuldade de escrever em prosa, onde sempre me expressei.

Caruso: Você possui algum lugar onde publica textos virtualmente? Qual?
Talita: Sempre procuro divulgar boas trovas, de autores de todo o Brasil – nas redes sociais em geral. Eventualmente, publico umas trovas de minha autoria também. Mas sem o objetivo de autopromoção. Apenas com a intenção de mostrar que o movimento trovadoresco pode atingir várias camadas da população e que é um aprendizado útil ao ser humano sensível e que gosta de poesia, independente da escolaridade ou idade da pessoa que se interessa. Basta apreciar a trova e querer, de fato, aprender.
Caruso: Que temas prefere escrever? Prefere ficção ou o que vivencia e vê no dia a dia?
Talita: Prefiro as questões existenciais, mais próximas do nosso cotidiano, seja texto filosófico (que eu muito admiro), lírico ou humorístico (que eu gosto muito, mas considero de muito difícil inspiração, apesar de eu gostar muito de rir).

Caruso: Aprecia outros tipos de arte usualmente? Frequenta museus, teatros, apresentações musicais, salões de pintura? Está envolvido com outro tipo de arte (é pintor, músico, escultor?)
Talita: Não sou artista, mas sou uma apreciadora da arte. Gosto muito de música, de teatro, cinema. Mas, admiro também a pintura.

Caruso: Que retorno você espera da literatura para si mesmo no Brasil? E a nível de mundo?
Talita: De minha parte, tenho uma pretensão muito modesta, não vivo em busca de reconhecimento algum, nem conto com isso porque nem sei se tenho esse talento poético. Mas desejo, como professora que sou, socializar o que aprendo, contribuir, no que estiver ao meu alcance, para melhorar o nível do padrão cultural da nossa população, seja a nível municipal, estadual ou nacional. Torço muito para que o nosso povo desenvolva e alcance um bom nível cultural.

Caruso: Você acha que o brasileiro médio costuma ler? Acha que ele gosta de literatura tradicional ou só de notícias rápidas e sem profundidade?
Talita: Infelizmente, cada vez menos as pessoas leem. Os celulares e internets facilitam de tal forma que só sabem copiar e colar. Até tirar fotos do que precisam escrever, nas próprias universidades. Leem muito pouco e escrevem muito menos ainda!

Caruso: Você costuma registrar seus textos na FBN antes de publicá-los? Sabe da importância disso?
Talita: Não faço isso e até desconheço esse processo. Se puder explicar e divulgar, tenho interesse em aprender para avaliar a possibilidade.

Caruso: Já tem livros-solo publicados? Consegue vendê-los com certa facilidade?
Talita: Em relação à área de Literatura, tenho três livros-solo organizados, mas nenhum ainda publicado.

Caruso: Já conhecia o poeta-escritor Oliveira Caruso (desculpe-me... Esta pergunta é padrão para quem participa de meus concursos literários)?
Talita: Sim, conheci-o inicialmente, pelos grupos de Whatsapp, há cerca de uns dois anos, aproximadamente. Depois nos comunicamos por e-mail e já participei como jurada de alguns concursos de poesias livres, promovidos por ele. Mas, sinceramente, o meu interesse é mais em TROVA. Sempre arrumo tempo para me envolver nas coisas ligadas à trova, ainda que, de fato, o tempo seja curto!

Caruso: Você trabalha com literatura inclusive para aumentar sua renda ou a leva como um delicioso hobby?
Talita: Apenas por hobby, mas sou bastante dedicada e curto muito esse ambiente literário.

Caruso: Você trabalha(ou) fora da literatura?
Talita: Trabalhei, por longos 50 anos como professora da rede estadual – em todos os níveis de Ensino, assim como no Ensino Superior, com Formação de Professores, Sociologia e Ciência Política. Atualmente ainda encontro-me ligada à Universidade Candido Mendes, como coordenadora de cursos de Pós-Graduação.

Fonte:
Paulo R. O. Caruso in https://reinodosconcursos.com.br/entrevista-com-talita-batista

Aldo Nora* (O Mestre vai ao Estádio de Futebol)

*Alfredo Nogueira Ferreira (Florianópolis/SC)
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Era domingo. Um sol fulgurante, morno e aconchegante, num céu azul sem mácula, alegrava o dia.

Havia um movimento desusado nas ruas . Gente, carros buzinando, ônibus atulhados, davam mais vida e redobravam a alegria nesse domingo.

Toda a festiva animação era a decorrência do grande clássico de futebol que se jogaria dentro de algumas horas.

Os portões do estádio já estavam abertos e uma mole humana se concentrava nas imediações.

Viam-se bandeiras, faixas, grupos com tambores e cornetas, homens e mulheres envergando as camisetas de seus clubes. Gritos, palavras de ordem, desaforos, enfrentamentos, por vezes, intervenções da polícia.

Uma multidão imensa coloria as bancadas do imponente estádio. Entrava sempre mais gente que se acomodava, agora, em pé, na volta do campo. Já próximo do início do jogo, entra no estádio um grupo compacto de homens e algumas mulheres e que chama a atenção pela sobriedade do comportamento. Dava a impressão de um grupo de turistas, pois não tomava partido por qualquer dos litigantes. Era notória a presença de um líder que comandava o grupo. Simpático, ereto, barbudo, sandálias nos pés, envergava uma túnica vermelha.

A bola rolava, os torcedores manifestavam-se. Gritos, xingamentos, um coro de vozes apoiando o time dos encarnados feriam os tímpanos dos mais próximos, neles se incluindo aquele peculiar grupo. O adversário fardava-se de azul e seus apoiantes situavam-se no lado oposto do campo.

Em determinado momento um jogador dos azuis apanha a bola, dribla um, avança, finta um segundo, um terceiro e já na área, para, levanta a bola e de cabeça atira para o gol. A bola bate no travessão e sai. O líder do grupo que até ali se mantivera quieto e calado, aplaudiu, entusiasticamente, a jogada. Torcedores do outro  clube vaiaram o jogador e, tendo notado a manifestação daquele homem, começaram a ofendê-lo, lançando injúrias e insultos. Passados poucos minutos o goleiro dos rubros faz uma defesa assombrosa, “voando” para o alto e desviando a bola do ângulo, após uma cobrança de pênalti. Novamente aquele homem aplaudiu o lance de belo efeito. Toda aquela chusma que o havia vaiado ficou, agora, calada. Que torcedor era aquele que ora aplaudia os de azul, ora os de vermelho? E um deles, mais atrevido e gritando, perguntou:

– E aí, meu? Qual é o teu time?

Um dos do grupo ouviu o desafio e cutucou o Mestre (era assim que o chamavam) que falava com outro.

Este, calmo, virou-se para  o provocador e disse:

– Sou do Azul, a cor do céu. Veja como está lindo! O vermelho lembra o fogo, o sangue...

– O sangue que é vida, energia e força. O sangue que nos vai dar a vitória, emendou o outro.

– O sangue que é derramado em disputas inúteis, completou o Mestre.

O insolente não perdeu tempo e provocou:

– E por que esse vermelho que te cobre o corpo? E esses arreganhos, ainda há pouco, na defesa do nosso  goleiro? Não dá pra te entender, meu chapa!

– É simples, meu caro senhor, a cor nada mais é do que luz e a luz alumia o mundo. O mundo é a natureza. E a natureza é feita de cores. Assim, o mundo é colorido e por ser colorido é mais belo. Não devemos desmerecer as cores. Há criaturas que não aceitam certas cores por razões clubísticas ou outras. Isso não é próprio de alguém que se preza. Já disse, sou torcedor  do time azul, mas não deixo de vestir um blusão ou uma camiseta vermelha, sempre que me aprouver.

Isso foi dito em meio a uma zoeira atordoante e, assim, poucos puderam ouvir essas palavras.

O jogo continuava disputado, atraente, eletrizante. A bola não saía da área, ora de um, ora de outro, sempre com o risco de gol. E aí aconteceu... numa jogada rápida, dois avançados da equipe escarlate tabelando de cabeça, entram na área e um deles finaliza para o fundo das redes. A jogada arranca aplausos e leva ao delírio a sua torcida.

O Mestre aplaude, levanta os braços para os seus pupilos que seguem o Mestre nos aplausos.

O atrabiliário torcedor rubro empolgado vira-se para o grupo com a intenção de gozar os adversários e alvejá-los com ironias e indecências; e vê o Mestre  comemorando o gol. E não se conforma. E não entende o que vê. E em tom de provocação, grita:

– Só tinha de comemorar mesmo, seu palhaço. Os otários do teu time não fazem isso. São uns... (e cuspiu um palavrão).

O Mestre esperou que a  barulheira abrandasse, acercou-se do exaltado torcedor e, como nas anteriores intervenções, falou comedido.

– Sabe o senhor, que o esporte é um espetáculo que atrai muito público. Esse público sabe que vai encontrar duas qualidades: o bom e o belo. Há exceções é evidente. Ora, o futebol sendo um espetáculo é bom porque nos proporciona prazer. E se jogado segundo as regras e com qualidade, torna-se vistoso e de extraordinária beleza. Quem não vibra com um gol de bicicleta? Um gol de bicicleta é pura arte. Só ele já paga a entrada no estádio. Quem não aplaude um daqueles dribles que deixa o adversário estatelado no chão? Um drible assim é pura arte. Quem não se entusiasma vendo um goleiro “voando” para defender uma penalidade chutada no canto de seu gol? Esse “voo” é arte que encanta. Quem  não pasma quando um jogador apanha a bola no seu meio campo e, com ela grudada no pé, vai avançando e fintando quantos adversários lhe apareçam pela frente e, no derradeiro toque, passa pelo goleiro  e empurra a bola para o gol vazio? Um lance assim não é uma obra de arte? Devemos aplaudir a arte no momento   em que ela se define aos nossos olhos. Não importa que a arte seja executada pelo adversário. Foi o que fiz. Se todos fizessem isso o futebol seria maravilhoso dentro e fora do campo.

A essa altura, já se cumpria o intervalo e o torcedor havia chegado mais perto do Mestre. E com  as arquibancadas menos rumorosas ficou mais fácil a conversação.

– E onde fica a torcida e o amor pelo clube que pede ou exige o recurso ao xingamento e ao palavrão? Retrucou o apaixonado torcedor rubro.

– A torcida e o amor pelo clube ficam intocados. Cada um vai continuar torcendo pelo seu time do coração. Eu me referi aos lances de efeito, de grande beleza. A beleza dentro do campo deve ser aplaudida. E quem assim proceder estará dando um espetáculo de beleza fora do campo. Quanto ao xingamento e ao palavrão, aquele que os profere dá uma pobre demonstração de si, não ajuda o time em nada e estimula mais o ânimo belicoso.

– Eu não vou nessa conversa de que tudo é arte e maravilha dentro do gramado. Não vês agressões, violências, brigas generalizadas? E digo mais, cara. Em noventa minutos de jogo, só há trinta ou quarenta minutos de jogo jogado. A arte e a beleza de uma jogada é exceção. O espectador é o mais prejudicado. Os jogadores usam de malandragem e de desonestidade o tempo todo. Um tipo toca o outro com o dedo e o cara cai ao chão, rebola três, quatro vezes, abre a boca e grita, parece que vai morrer. São desonestos, fazem uma falta claríssima e dizem ao juiz que nada fizeram. Chutam a gol, a bola vai direto pra fora e apontam logo para o escanteio. Tinha de haver um código de ética para os jogadores. E os técnicos deviam chamar a atenção do jogador para este aspecto.

– É verdade. Há muitas faltas e é pena. Isso torna o espetáculo caro para um esporte que se diz popular.

– Não tens jeito de torcedor, desses que frequentam os estádios sempre que há jogos, mas parece que entendes do assunto. Então, me diz, qual seria a solução para o caso?

– É simples. O jogador de qualquer modalidade esportiva deve olhar o adversário como um colega de profissão, melhor ainda, como um irmão. Ninguém vai tratar mal um irmão, não é assim?

– Isso não funciona. Os caras entram em campo para enfrentar um inimigo. Tinha de haver uma punição mais dura para esses infratores. Repito, um código de ética para os jogadores.

– Esse código já existe e tem um só artigo.

– Como assim?

– Está dentro de cada um.

– Não entendo, cara. Põe clareza nisso.

– Ama o teu próximo como a ti mesmo. Se não queres o mal para ti, não o faças a outro. Este preceito, se fosse levado à risca, resolveria tudo.

– Não acredito nisso. É coisa do passado. De dois mil anos atrás e nesse tempo nem futebol havia. Hoje, no futebol, só interessa vencer. Vencer significa mais dinheiro e é o dinheiro que comanda o futebol . E para vencer vale tudo – até quebrar uma perna ou um braço do adversário. As entidades esportivas, os dirigentes, os técnicos, os jogadores, os empresários dos jogadores só pensam em dinheiro, querem enriquecer rápido. Estamos diante de um capitalismo feroz no reino do futebol.

O Mestre concordava com o torcedor, pois, o que ele dizia era evidente. Porém não abdicava de seu ponto de vista.

– Mas lembro, e uma vez mais, que o futebol é um espetáculo e como tal deve ser jogado. E dar pontapés e agredir o outro não é esporte. Precisamos, urgentemente, ser mais humanos. O que vemos é um clubismo doentio que cega  as pessoas e lhes tolhe a razão. E quando esta não funciona o homem se embrutece. E então, nosso próximo já está muito distante de ser um irmão.

– Não achas que os técnicos com a responsabilidade do cargo e com a ascendência que têm sobre os jogadores podiam ter uma palavra a dizer nesse problema?

– Os técnicos, muitos deles, mandam bater, jogar duro com o adversário.

– Então para que servem os técnicos?

– Para nada. O técnico é um desperdício para o clube. É o que mais ganha e o que menos rende. Começa que está do lado de fora do gramado, portanto, não joga. E quem ganha ou perde os jogos são os que estão lá dentro. Digo mais: são eles, muitas vezes, a razão da derrota do time.

– Mas, há aqui uma contradição. Se não faz nada, como diz, e se são até a causa de derrotas, por que é que são tão disputados?

– É isso que me intriga. Como é que uma diretoria composta de homens (que se supõe) esclarecidos paga uma fortuna para um cidadão que é figura nula numa equipa de futebol? E depois, – o que é altamente assombroso – despedem-no após duas derrotas e contratam outro, talvez por uma soma maior ainda.

– E, depois, de tudo o que disse, eu pergunto. E para que serve o técnico, então?

– Para nada. O técnico é uma figura decorativa, uma espécie de rei que não manda e, principalmente, que nada decide.

– Aí eu não concordo. O técnico manda, sim senhor, é ele que determina a  estratégia do jogo, a tática a ser usada, a escolha dos jogadores, os que devem ser substituídos, o ritmo a ser empregado e por aí vai...

– Meu caro senhor! Aparentemente, manda. Contratado a peso de ouro ele não tem que dizer alguma coisa a seu jogadores? Não chamam a isso preleção? Preleção é dar lição, é ensinar. Ora, o técnico não ensina o jogador a jogar. O que faz é dar umas noções de tática, e de como atuar dentro de campo. Dizer isso e não dizer nada é o mesmo. No campo vão encontrar um adversário que pode desfazer todos os seus intentos. Basta que tais adversários sejam melhores. Melhores, digo. E aqui está o segredo de tudo – os melhores serão sempre os vencedores, seja qual for o técnico. Há exceções, claro; estas, confirmam a regra. Mas, dizia, por essas preleções começaram os técnicos a ser chamados de professores. Com isso desmoralizaram uma classe de escol. A classe mais imprescindível de um país, pois, sem essa classe, nenhum país cresce, nenhum povo se torna civilizado. O professor é alguém que muito estudou e que depois vai ensinar, em qualquer ramo do conhecimento, a tornar uma pessoa capacitada a exercer as suas habilitações e a vencer na vida. É como um oftalmologista que procura dar luz aos olhos de um ceguinho. Ora, o que vemos são técnicos quase iletrados dirigindo equipes de futebol. O que se pode esperar deles?

– Quer dizer, então, que é um despropósito contratar um técnico de futebol?

– Sem dúvida. Com o que pagam para contratar um técnico, comprariam uns quatro ou cinco muito bons jogadores. Isso é que deixaria mais forte e competitiva a equipa. E com o salário do técnico, a cada mês, pagariam dois ou três jogadores do elenco. Olhe, para não dizer que não servem para nada, servem, pelo menos, para divertir o publico. São mais atores cômicos do que, propriamente, técnicos de futebol. Eu me divirto muito com eles quando vejo os jogos pela televisão. Mas não vou falar disso, agora. Para encerrar essa questão do técnico vou lhe citar apenas uma (dentre muitas) expressão de um afamado técnico. Perguntado, ao final de um jogo, porque só vitórias acumulava, respondeu: “eu ganho porque tenho os melhores jogadores”. Essa resposta diz tudo.

A esta altura, o exaltado torcedor esquecia o jogo e era todo ouvidos para as palavras do Mestre. Já não era seu contraditor, mas um atento admirador desse homem que, apesar da aparência , conhecia as artimanhas do futebol e falava tão melifluamente.

Estavam tão embebidos no diálogo que estremeceram com a explosão de gritos e a ovação retumbante vindas das arquibancadas.

O jogo estava no fim dos acréscimos quando, depois de um escanteio a favor dos azuis, a bola é cabeceada para fora da área, cai nos pés de um contrário que, de uns trinta e cinco metros, manda uma “bomba” para empatar a partida.

A saída é tumultuada. Há gritos, aplausos, empurrões, bandeiras lambendo a face de muitos, a estridência de cornetas ferindo os tímpanos. Na confusão, o torcedor e o Mestre se desencontram.

Fora do estádio vão se formando grupos que logo se adensam em multidão. Um alarido infernal vai se alastrando naquele imenso espaço. Gritos histéricos, xingamentos, um batucar contínuo de tambores. O chão está coalhado de garrafas e de latinhas. Há, seguramente, nos vasos sanguíneos álcool suficiente para deflagrar um enorme incêndio. As provocações são cada vez mais ferinas. Um clima tenso, nervoso desce sobre o local. Há choques de torcedores, um prenúncio de conflito.

Surgem os primeiros policiais . Torcedores exaltados xingam os recém-chegados . Só se ouvem frases carregadas de podridão. Logo dois se engalfinham e, num átimo, são dezenas em luta corporal. A polícia procura separar os desafetos. O que era um entrevero torna-se numa verdadeira batalha. Torcedores de ambos os clubes que lutavam entre si, envolvem-se com os policiais. A refrega é geral e vale tudo. Pedras, paus, garrafas, barras de ferro, cadeiras são arremessadas na confusão. Já há armas engatilhadas nas mãos de policiais. Um corre-corre desordenado e aflito gera mais confusão.

O grupo liderado pelo Mestre, ao deixar o estádio depara-se com um ambiente caótico e hostil. Uma espécie de névoa paira sobre esse palco de distúrbios, fruto do gás lacrimogênio e gás pimenta lançados pela polícia. Repórteres dos veículos de informação correm, ora procurando um flagrante insólito, ora fugindo dos canhões d'água.

Sem saber o que fazer o torcedor dos rubros, agora perdido na multidão, pede a um repórter – pensando em uma solução para acalmar os ânimos – que entreviste o Mestre. O repórter não sabe quem é o Mestre e onde encontrá-lo. O torcedor dá-lhe algumas referências sobre a criatura, ligando-o a um grupo. O repórter aceita a incumbência e com um megafone nas mãos lança no ar um apelo. “Pedimos a um ilustre senhor envergando uma túnica vermelha e que lidera um grupo de pessoas, o favor de dirigir-se até nós, com urgência”. E deu uma referência fácil de ser identificada. Volvidos alguns minutos, surge o Mestre e seu séquito. E, então, o repórter com voz firme, pede: “por favor, atenção, pedimos a todos que escutem. É alguém que vos quer falar”.

O Mestre com serenidade diz: “Senhores torcedores e senhores policias. Peço-vos um instante de atenção”. Suas palavras ressoam no espaço como algo estranho e sobrenatural.

– Depois de um espetáculo prazeroso não se pode presenciar uma batalha entre irmãos. Caríssimos senhores, estou vendo pais de um lado e filhos de outro; maridos em lado oposto ao das esposas; jovens confrontando jovens. Isto não é de humanos. O amor a uma camisa de clube não pode ser maior que o amor a um ser humano.

A esta altura, todos, sem exceção, ouviam em silêncio.

– Quero lembrar que há uma única regra de boa convivência entre os homens: amai-vos uns aos outros. Se todos a seguissem com rigor não haveria disputas, não haveria crimes. Não haveria, sequer, zangas. Vimos há pouco um espetáculo de beleza, no estádio. Essa beleza deve ser procurada a cada instante, no mundo que nos rodeia. Ver e sentir o belo extasia a alma e nos torna feliz. Mas, parece que o homem abdicou da beleza para contemplar a fealdade. A beleza nos eleva; a fealdade (o mau uso da vida) nos rebaixa. Precisamos inverter estes valores. Deixar os ínvios caminhos que trilhamos e enveredar pela senda do amor.

Assim, ia discorrendo o Mestre quando uma voz esgoelada varou o espaço. Vinha de um torcedor, ocultado por uma árvore para não ser apanhado pelas balas de borracha.

– Não vem com esse papo, parceiro. Ninguém vai deixar de xingar os caras do time adversário. Não há coisa melhor do que abrir a boca e vomitar todos os palavrões conhecidos e inventados contra os jogadores, técnicos, juiz e até mesmo os do próprio time. A gente descarrega toda a tensão  e nervosismo e fica aliviado. Dá um sentimento de prazer como se festejasse um gol. É isso aí... não vem com essas baboseiras.

O Mestre ouviu tudo e quando o agastado torcedor terminou, ele, com brandura e alteando a voz para que todos ouvissem, continuou:

– Meus amigos: vivemos pela cabeça, a parte mais nobre do corpo. Por ser nobre está no alto e o seu interior – a porção mais importante – está resguardada em uma redoma óssea. Daí, partem os comandos para o resto do corpo. É, pois, vital que a cabeça se mantenha limpa para que a boca não se abra para sujeiras. Quando tal acontecer seremos mais afetivos e mais compreensivos. Seremos mais humanos. E, se na boca aflorar um sorriso, tanto melhor, pois as palavras que se seguirem serão de suavidade e não de aspereza, de amor e não de ódio. E como disse um poeta, às vezes basta um sorriso para dar sabor à vida. Se desejamos ser bem acolhidos e bem tratados, sejamos acolhedores e reverentes. Se assim procedermos a vida será melhor e não haverá desacatos. Os que me ouvem, agora, estiveram, como eu, assistindo a um espetáculo. E quem vai a um espetáculo, é para fruir esse espetáculo. Do princípio ao fim. E de lá sair satisfeitos pelo prazer que nos proporcionou. Lembro a todos que a cobiça do primeiro lugar e a conquista dos três pontos estão na origem de todas as disputas. Devemos manter sempre o nosso cariz (caráter) humano quando, nos espetáculos desportivos, se digladiam dois adversários. Os que estão na luta vão procurar vencer e é justo que assim procedam, desde que obedeçam às regras, tanto regulamentares quanto éticas. Os que, fora do campo assistem à disputa, cabe-lhes incentivar com aplausos, cantos, gritos, e frases de estímulo e tudo o que for capaz de contribuir para a vitória do seu grupo. E, no final, se vitoriosos, fazer a festa. Os perdedores, embora tristes, devem sair de cabeça erguida, se jogaram como lhes competia. Perderam no resultado, mas foram sócios na feitura do espetáculo. E devem merecer elogios porque aceitaram com dignidade a vitória dos seus opositores. Destes, deveriam ouvir  como homenagem o “victis honos” (em honra dos vencidos).

Na quietação daquele momento, quando todos os olhares buscavam aquele homem falando com suavidade, o torcedor avinagrado e num esganiço, lança farpas contra o Mestre.

– Chega de conversa fiada, cara. Ninguém vai nessa de dar a mão ao próximo, ver no adversário um irmão, ter um sorriso na boca. Isso não cola mais, isso é palhaçada. Hoje, o que vale é a esperteza, o “jeitinho”, a engambelação. O resto é frescura...

Logo um sussurro se alastrou rapidamente. Vozes cada vez mais fortes se juntaram em desaprovação e uma atordoadora vaia fez calar o desabrido torcedor.

E, então, ouviram-se palmas. Um estrepitoso bater de palmas dirigido ao Mestre que se afastava do local, à frente de seu grupo. As dezenas de torcedores que, ainda, permaneciam no recinto, ovacionavam e cumprimentavam o Mestre ao vê-lo passar. Polícias, muitos com as  armas nas mãos, faziam um sinal de positivo com o polegar erguido.

Um casal que se afastava lentamente, ia trocando impressões sobre o acontecido e, um deles, comentava não ter, agora, mais dúvida sobre a força da palavra – “na verdade, a palavra tem mais força que a própria força. O episódio  trouxe-me à memória um poema que li e que dizia: os canhões não podem derrotar a ideia”.

Medalha de Ouro em Conto no Júri Civil, I Concurso da AECALB no RJ

Fontes:
Reino dos Concursos
Imagem = Aliexpress

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Trova 279 - Nei Garcez (Curitiba/PR)


Érico Veríssimo (As Aventuras de Tibicuera) Capítulos 13 a 16

13 — UM PROBLEMA DE DISTÂNCIA
Vocês naturalmente sabem que o homem sempre mediu as distâncias de acordo com seus meios de transporte. Há cinquenta anos atrás nos perguntavam: “Do Rio a Porto Alegre é muito longe?” E a gente, pensando nos meios de transporte daquele tempo, respondeu: “É longe. São muitos dias de viagem.” A resposta hoje seria: “É perto. Algumas horas de avião.” E eu até acho que no futuro um cidadão poderá despedir-se dos amigos na Avenida Rio Branco e dizer: “Até a vista, rapazes. Vou até a Groenlândia. Volto daqui a pouco.”

Pois lá pelo ano de 1500, D. Manuel, o Afortunado, rei de Portugal, andava às voltas com um grave problema. O navegador português Vasco da Gama havia descoberto o caminho para as Índias, voltando de lá com um carregamento de pimenta, canela, gengibre — enfim: todas as preciosas especiarias do Oriente. Ora, esses artigos tinham grande aceitação na Europa, onde eram vendidos a bom preço. Estava claro que aquele que primeiro conseguisse chegar às Índias, voltando também pelo caminho mais curto, faria melhor negócio. Em resumo: a febre das especiarias orientais naquele tempo era mais ou menos parecida com a febre de petróleo de nossos dias.

D. Manuel não hesitou. Organizou uma armada. Botou no comando dela um capitão-mor, Pedro Álvares Cabral, e lhe disse, naturalmente em outras palavras: “Olhe, comandante, precisamos achar um caminho mais curto para as Índias, ouviu?”

A armada zarpou. O que aconteceu na viagem, não sei. Não vi. Contam muita coisa desencontrada. Uns dizem que Cabral se afastou das costas da África, batido por um grande temporal e acabou descobrindo o Brasil por acaso. Outros afirmam que o comandante português não andava às tontas, sabia onde tinha o nariz e chegou à terra desconhecida por causa dum plano muito bem traçado. Nada disto nos interessa. O importante é que o Brasil foi descoberto.

Um dos navios da armada, comandado por um tal André Gonçalves, voltou para Portugal para dar a boa notícia ao Rei, enquanto Cabral seguiu com o resto da frota para as Índias. D. Manuel decerto deu pulos de contentamento ao saber da novidade. Mais terras para a Coroa de Portugal!

Mandou três caravelas explorar a nova terra. As três casquinhas de nozes, todas cheias de velas e bandeiras, correram à costa, descobrindo cobras e lagartos, isto é: cabos, rios, ilhas, baías, montanhas... Dois anos depois veio mais uma esquadrilha exploradora. Alguns anos mais tarde, outra.

14 — A MADRUGADA DO BRASIL
Trinta anos após o descobrimento fez-se a primeira tentativa de colonização. Fundaram-se as primeiras povoações. São Vicente e Santo André da Borda do Campo.

Em 1534 quem reinava em Portugal era D, João III. Resolveu ele distribuir as terras do Brasil entre pessoas importantes do Reino, que tivessem capacidade para povoar e defender a nova pátria. Dividiu a costa em partes mais ou menos iguais a que deu o nome de feitorias. Eram 5: Santa Cruz, Rio de Janeiro. Cabo Frio, Iguaçu e Itamaracá. Logo depois dividiu a nova terra em capitanias hereditárias.

Olhando o mapa da divisão, não posso deixar de sorrir. O Brasil me dá a impressão duma perna de porco dividida em dez fatias. Vejam: Havia espalhados pela perna de porco, isto é, pelas dez capitanias, uns 2000 colonos. A maioria se dedicava à lavoura. Já apareciam os primeiros engenhos, as primeiras fabriquinhas. Era o clarear do dia duma nação. (Gostaram da frase? Pois podem ficar com ela. Dou-lhes de presente. Em 1500 essa imagem podia ser novidade. Mas hoje...)

Vocês pensam que as capitanias viveram em paz? Qual! Sofriam ataques dos selvagens, que não se conformavam com ver sua pátria invadida. Depois, começavam também a aparecer piratas. Vinham espiar a terra nova, com um olho deste tamanho, com uma vontade danada de abocanhar um naco da terra que Portugal descobrira.

Vendo que a divisão do Brasil em capitanias não dava resultado, o rei de Portugal resolveu criar um governo geral. O primeiro Governador Geral se chamava Tomé de Sousa. Trouxe para o Brasil 300 soldados, 300 colonos, 400 degredados e 6 jesuítas. Estes últimos eram chefiados pelo Padre Manuel da Nóbrega.

Tomé de Sousa fundou a cidade de Salvador da Bahia, visitou as capitanias do Sul, mandou grupos de homens explorar o sertão. Foram aventuras tremendas. As proezas de cada um desses grupos, que se chamavam entradas, davam um romance de arrepiar o cabelo. Infelizmente ninguém se lembrou de escrevê-lo.

Uma das coisas mais admiráveis da História do Brasil foi o trabalho dos jesuítas. Os padres fundaram colégios e, enquanto os outros homens pensavam em arrancar da terra ouro e pedras preciosas, eles se preocupavam exclusivamente com a educação dos selvagens. Achavam que uma alma valia mais que um diamante. E, sem armas de guerra, metiam-se no meio dos índios, aprendiam a sua língua, procuravam mostrar-lhes que eles levavam uma vida feia, sem conhecer o Único Senhor do Universo — Deus, um pai que não gostava que seus filhos na Terra cultivassem o pecado e a antropofagia.

Mas agora é que estou vendo que a história da minha vida está virando História do Brasil. Vamos fazer ponto e começar novo capítulo. O capítulo em que continuo as aventuras de Tibicuera, o valente guerreiro tupinambá. (Modéstia à parte.)

15 — EU E MEU FILHO
Todos esses fatos que narrei no capítulo que vocês acabam de ler, aconteceram na terra em que eu me encontrava. No entanto não presenciei nenhum deles. Só me lembro de que certa vez tomei parte num ataque a um aldeamento de portugueses. Fomos repelidos. Eles usavam canhões e espingardas. Os nossos homens ficaram apavorados diante dos “tacapes que vomitavam fogo”.

Minha tribo se meteu no mato. Passaram-se muitas e muitas luas. Meu filho cresceu a meu lado. Era um rapagão desempenado, da minha altura. Tão parecido comigo, que muitas vezes os outros guerreiros da tribo não sabiam distinguir o filho do pai. E como o rapaz se chamasse também Tibicuera, a confusão ficava maior ainda.

Eu amava meu filho. Meu filho me amava. Ensinei-lhe a arte da guerra. Contei-lhe os meus segredos. Ele aprendeu a nadar; a caçar; a fazer pinturas bonitas no corpo; a curar feridas produzidas por flechas envenenadas; a ser mais ágil que a onça; mais flexível que a cobra; mais impetuoso que a anta. Às vezes nós dois passávamos horas e horas um ao lado do outro, conversando. Eu não me esquecia das palavras do pajé, que me dissera que o pai pode continuar no filho, o filho no neto, e assim por diante, de sorte que o tempo e a morte deixam de existir.

Eu pulava de alegria quando meu filho caçava uma onça ou derrubava um inimigo. Às vezes eu olhava para o rapaz e ele imediatamente lia meus pensamentos, sem que fosse necessária a troca de palavras. Eu também enxergava as ideias dele no fundo de seus olhos, do mesmo modo como se vê um peixe colorido nadando no fundo de um rio de água transparente.

Meu filho foi pai de um filho, que recebeu também o nome de Tibicuera e cresceu na taba à nossa sombra. Passei a amar meu neto como amava meu filho. Era uma cadeia de afeição, de compreensão, de camaradagem. Contei a meu filho o que o pajé me disse aquela noite em sua oca a respeito do tempo, da morte e da eterna mocidade. E o resultado de tudo isso é estar eu hoje aqui, depois de mais de quatrocentos anos, sem saber se durante todos esses quatro séculos eu fui apenas uma pessoa ou uma série de pessoas do mesmo sangue, com o mesmo espírito. Não importa. De qualquer forma não importunarei mais vocês com essa história. Para facilidade de narrativa vamos admitir que só existiu um Tibicuera: este que está agora contando as suas aventuras, que coincidem até certo ponto com as aventuras do Brasil.

16 — VI A MORTE DE PERTO

Só sei que um dia me encontrei sozinho no mato, longe de minha tribo. Caminhei todo o dia sem rumo. Ao anoitecer, cansado, dormi debaixo duma grande árvore. Um bando de vagalumes pousou no meu corpo, cobrindo-o todo. Acordei aturdido. Que era aquilo? Sonho? Ou travessura de Anhangá? Meu corpo despedia uma luz esverdeada. Saí a caminhar, assustado. Os vagalumes não me deixavam. E — apaga acende, apaga acende — pareciam estrelas brilhando no céu pardo do meu corpo.

Quando dei por mim, tinha entrado às cegas numa taba. Os índios que me viram começaram a correr e a gritar: “Anhangá! Anhangá!”

Eu corria também, atordoado. Os vagalumes continuavam a piscar. O pajé da tribo desconhecida apareceu e começou a dançar a meu redor, dizendo palavras que eu não compreendia. De repente os vagalumes levantaram o voo Caí no meio da ocara, pois os meus joelhos se vergaram de cansaço.

Vendo que eu era um homem como os outros, os índios me cercaram e me fizeram prisioneiro. Fui levado à presença do morubixaba. Ele me fez perguntas numa língua que eu não entendia.

Tibicuera sacudia a cabeça, como a dizer que não lhes era possível responder.

Levaram-me para o centro da ocara e me amarraram com fortes cipós a um poste. Acenderam fogueiras. Os índios começaram a dançar a meu redor. Eu só via caras ferozes, retorcidas de raiva. A água fervia em grandes potes em cima das fogueiras. Compreendi. Eu ia ser morto, pelado em água fervente, e devorado por aqueles homens!

Olhei para o céu. A lua estava muito calma lá em cima, como se fosse cega, como se não enxergasse a minha desgraça. As estrelas eram como vagalumes agarrados ao corpo escuro da noite.

Os tambores batiam — bum-te-bum — os guerreiros dançavam, a água fervia. O pajé falou à sua gente. Levaram-me para cima duma grande pedra. Fiquei ali com os braços ainda amarrados, as pernas moles, a cabeça zonza. Um enorme guerreiro se aproximou de mim, com um tacape na mão. Era o meu fim. Lembrei-me do meu filho, da minha primeira guerra e esperei com coragem o golpe. Havia um silêncio de morte na taba. O índio ergueu o tacape, reboleou-o no ar. Fechei os olhos. E de repente ouvi uma voz que falava de longe.

Era uma voz diferente, tão clara, tão macia e tão fresca que parecia ter saído da própria lua. Abri os olhos sem querer. O homem que ia me matar deixou cair o tacape. Todas as cabeças se voltaram para o lado donde tinha partido a voz. Da escuridão surgiu um vulto. Não era índio. Não era, nas roupagens, nem parecido com os marinheiros portugueses que eu vira havia muitos anos. Era um homem branco, todo vestido de preto. Pareceu-me tão fraco que nem teria força para erguer um tacape. Havia, porém, no rosto dele qualquer coisa que logo me conquistou. Um rosto amigo e ao mesmo tempo severo. Senti perto dele aquela mesma impressão esquisita que produzira em mim a grande cruz dos portugueses.

O homem misterioso avançou pelo meio dos índios e parou na frente do morubixaba. Disse-lhe baixinho algumas palavras. Vi o chefe da tribo baixar a cabeça e depois dobrar os joelhos e fazê-los cair por terra, aos pés do desconhecido.

Deve ser Tupã que desceu à Terra para me salvar— pensei. Senti que me faltavam as forças. Desmaiei.

Fonte:
Érico Veríssimo. As aventuras de Tibicuera, que são também do Brasil. (Texto revisto conforme Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em vigor em 2009). Porto Alegre: Edição da Livraria do Globo, 1937.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Olivaldo Júnior (Carnaval em Trovas) IV


Érico Veríssimo (As Aventuras de Tibicuera) Capítulos 9 a 12

9 — UM BELO ESPETÁCULO
Foram dias de festa para nós. Os marinheiros portugueses desembarcaram e espalharam-se por toda a praia. Riam, falavam alto, cantavam, dançavam. Tocavam instrumentos estranhos. Cantavam numa língua que nós achávamos barbaramente arrevesada. Davam aos índios espelhos, colares e outros objetos: recebiam em troca pedras coloridas, arcos, flechas, potes de barro...

Às vezes o pajé aparecia à entrada de sua oca, olhava os marinheiros, sorria, voltava para dentro de sua morada e ficava fumando cachimbo em
silêncio.

Havia na enseada um ilhéu. Foi nele que os portugueses rezaram a primeira missa. Nunca tínhamos visto aquilo. De olhos arregalados e em profundo silêncio escutamos e olhamos... Não perdemos um gesto, um som. Quando o capelão da armada (naquele tempo eu não conhecia estes nomes...) ergueu no ar o ostensório, tive a impressão de que era o próprio sol que de repente brilhava nas mãos dele. Fiquei deslumbrado. Senti um nó na garganta. Julguei que ia chorar. Eu, um guerreiro!

Dias depois os portugueses saíram em procissão, levando dois pedaços de madeira pregados em cruz. Plantaram-no a pouca distância do mar. Houve nova missa.

Uma noite, enquanto todos dormiam, fui olhar a grande cruz. A noite estava clara. Imaginei-me diante dum gigante negro de braços abertos. Eu sentia qualquer coisa que não sabia dizer que era. A cruz me deixava mudo, com um peso no peito. Naquela noite dormi à sombra dela.

Quando os navios portugueses se aprontaram para partir, o pajé mandou levar ao comandante da armada muitos presentes: cocares, enduapes, pedras preciosas, potes de barro, penas coloridas... O chefe branco — que hoje eu sei que se chamava Pedro Álvares Cabral — recebeu os presentes e decerto achou que eles significavam isto: “Chefe branco, eu te mando estas coisas porque eu e minha gente gostamos de ti e de teus homens e queremos viver em paz com a raça branca.” Na verdade, porém, a intenção do pajé fora outra. Ele quisera dizer: “Mando-vos estes presentes como pagamento das horas divertidas que nos fizestes passar.”

As velas ficaram inchadas, batidas pelo vento. Um canhão deu três salvas. As naus começaram a se mover na direção do mar alto. Aos poucos se foram sumindo...

Os índios ficaram reunidos na praia. Faziam gestos amigos, pulavam. Muitos traziam no pescoço colares e miçangas. As mulheres se olhavam nos pequenos espelhos.

Ficaram conosco dois brancos, que choravam.

O pajé viu as naus se sumirem no horizonte e depois falou:

— Foram-se. Que belo espetáculo!

E durante vários meses não disse mais nada.

10 — ENCONTREI CURUPIRA NO MATO
Se não me falha a memória, foi pouco tempo depois da partida dos portugueses que encontrei Curupira no mato. Andava eu muito orgulhoso dos meus músculos e de minha coragem. Tinha caçado a minha décima segunda onça e tomado parte na minha vigésima guerra. Trazia doze cicatrizes no corpo e tinha muitas caveiras de chefes inimigos na minha caiçara.

Um dia, no meio do mato, dei de repente com o Curupira. Era ele mais feio que o índio mais pavoroso de todas as tabas de Pindorama. Tinha cabelos cor de fogo das fogueiras de guerra. Trazia na mão um maracá, que sacudia como um desesperado, deixando a gente zonza e surda. Olhei para os pés da aparição. Eram torcidos, voltados para trás. Não havia dúvida. Era mesmo Curupira.

Aprontei arco e flecha e disparei o tiro. Pobre de mim! A flecha caiu a dois passos de meus pés, mole e sem força. Curupira matraqueava, matraqueava como um louco. Seus cabelos chispavam. Seu corpo era uma piorra. Seus olhos, dois vagalumes de brilho verde.

Fiquei tão assustado que saí a correr e a gritar. Cheguei sem fala à taba. Os índios me cercaram. Deram-me cauim a beber. Quando o pavor me deixou o corpo, pude dizer:

— Pajé, não tenho medo de homem. Que é que vou fazer para vencer os espíritos do mato?

O feiticeiro sacudiu a cabeça.

— Ninguém pode com eles. Ninguém.

Agora não era mais o medo e sim a raiva que não me deixava falar.

11 — O SEGREDO DO PAJÉ
Um dia o pajé me chamou à sua oca. Entrei. Fui recebido com esta pergunta:

— Tibicuera, qual é o maior bem da vida?

— A coragem — respondi sem esperar um segundo.

— Só a coragem?

Embatuquei. O pajé ficou sorrindo por trás da fumaça do cachimbo. Gaguejei:

— A... a...

O feiticeiro me interrompeu:

— O pajé é corajoso. Mas de que vale isso? Seu braço não pode levantar o tacape, seus pés não têm mais força para correr.

— Oh! — exclamei. — Mas tu és poderoso, sabes de remédios para todas as dores, consegues tudo com tuas mágicas.

O pajé continuou a sorrir. Sacudiu a cabeça:

— Ilusão — disse.

Depois dum silêncio curto tornou a falar:

— O maior bem da vida é a mocidade. Um dia Tibicuera fica velho. Atirado na oca, fazendo rede. Não pode mais ir para a guerra. O jaguar urra no mato e Tibicuera não tem força para manejar o arco. Tibicuera é mais fraco que mulher.

Escancarou a boca desdentada. Eu escondi o rosto nas mãos para não enxergar o fantasma da minha velhice.

— Pajé... Tibicuera não quer ficar velho. Ensina-me um remédio para vencer o tempo, para vencer a morte. Tu que sabes tudo, que viste tudo, que falaste com o grande Sumé.

O pajé continuava a me olhar com os olhos espremidos. Bateu na testa com o dedo indicador da mão direita.

— O remédio está aqui dentro, Tibicuera. Não há feitiçaria. O pajé gosta de ti. Ele te ensina. Escuta. O tempo passa, mas a gente finge que não vê. A velhice vem, mas a gente luta contra ela, como se ela fosse um guerreiro inimigo. Os homens envelhecem porque querem. Só muito tarde é que compreendi isso. Tibicuera pode vencer o tempo. Tibicuera pode iludir a morte. O remédio está aqui. — Tornou a bater na testa. — Está no espírito. Um espírito alegre e são vence o tempo, vence a morte. Tibicuera morre? Os filhos de Tibicuera continuam. O espírito continua: a coragem de Tibicuera, o nome de Tibicuera, a alma de Tibicuera. O filho é a continuação do pai. E teu filho terá outro filho e teu neto também terá descendentes e o teu bisneto será bisavô dum homem que continuará o espírito de Tibicuera e que portanto ainda será Tibicuera. O corpo pode ser outro, mas o espírito é o mesmo. E eu te digo, rapaz, que isso só será possível se entre pai e filho existir uma amizade, um amor tão grande, tão fundo, tão cheio de compreensão, que no fim Tibicuera não sabe se ele e o filho são duas pessoas ou uma só.

Eu olhava para o pajé, mal compreendendo o que ele me ensinava. O feiticeiro falou até madrugada alta. Quando voltei para minha oca fiquei longo tempo olhando meu filho que dormia na rede.

E eu me enxerguei nele, como se a rede fosse um grande espelho ou a superfície dum lago calmo.

12 — A HISTÓRIA É UMA MARAVILHA
Se me pedissem uma definição de História, eu diria: “É a narrativa da aventura do Homem no Mundo.” Ou então: “É um romance de aventuras que se passa na Terra e tem como personagem principal a Humanidade.”

Tenho vivido tanto, que não sei se estas definições são minhas mesmo ou se eu as ouvi ou li de alguém no decorrer de meus quatrocentos e tantos anos de vida.

Um dia destes, lendo a “Pequena História do Mundo” de meu caro amigo H. G. Wells, famoso escritor inglês, encontrei este trecho: “A História do
nosso mundo é ainda muito imperfeitamente conhecida. Há coisa de um par de séculos os homens só eram senhores da História dos últimos três mil anos. O que havia acontecido antes era objeto de lenda e especulação.”

Mas, seja como for, a História é uma maravilha. A gente para no meio da rua e grita:

— Quem foi que descobriu o Brasil?

O garoto que está vendendo jornais levanta o dedinho e grita:

— Foi “seu” Pedro Álvares Cabral!

No entanto eu, Tibicuera, guerreiro da taba tupinambá, homem de trinta anos, não saberia responder a essa pergunta no próprio ano de 1500! E o Brasil por assim dizer tinha sido descoberto a poucos palmos do meu nariz...

Vi os portugueses chegarem. Tomaram conta da terra. Plantaram a cruz. Rezaram duas missas. De novo se fizeram ao mar. E não compreendi que se tratava do descobrimento do Brasil!

A vida para mim continuou a ser a mesma de antes. Correrias pela beira do mar. Guerras. Caçadas. Aventuras. Nasciam crianças na taba. Os velhos morriam. Vinham grandes chuvas. Passavam-se luas e sóis. E o tempo seguia na sua marcha misteriosa, como uma grande cobra que vai deslizando, sem mostrar a cabeça nem a ponta do rabo, isto é: um monstro sem princípio nem fim.

No entanto, abro a História do Brasil e, após vinte minutos de leitura fácil, fico sabendo do que se passou antes do descobrimento e nos cinquenta anos que se lhe seguiram.

Positivamente: a História é uma maravilha!

Fonte:
Érico Veríssimo. As aventuras de Tibicuera, que são também do Brasil. (Texto revisto conforme Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em vigor em 2009). Porto Alegre: Edição da Livraria do Globo, 1937.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Olivaldo Júnior (Carnaval em Trovas) II


Érico Veríssimo (As Aventuras de Tibicuera) Capítulos 5 a 8


5 — VÉSPERA DE BATALHA

Muito tempo passou. Fiquei curumiaçu, que quer dizer adulto. Chegou a véspera da minha primeira guerra. Os tupinambás se enfeitaram de plumas, botaram no pescoço colares feitos com dentes de inimigos mortos, armaram-se de arcos, flechas, tacapes e lanças.

Eu me lembro com se tivesse acontecido ontem... Era de noite. Céu sujo, vazio de lua e de estrelas. As fogueiras ardiam vermelhas, debaixo dos
potes de cauim. O maracá começou a chocalhar.

Minha mãe chegou e disse:

— Tibicuera, vais para a guerra.

— Vou, mãe.

— Teus avós foram valentes.

— Eu sei.

— Estão morando do outro lado das grandes montanhas.

— Eu sei.

Minha voz estava trêmula. Eu olhava a minha sombra no chão. Não era mais o guri barrigudo de pernas de caniço. Eu era agora um homem forte,
um guerreiro.

Minha mãe continuou:

— Matarás muitos inimigos, derrubarás muitas cabeças, serás um grande chefe.

Estremeci. Apertei com força o meu tacape. Senti que meus olhos estavam fuzilando. Perguntei, com um nó na garganta:

— Mãe, mãe, quando chegará a hora? Quando? Estou fervendo como o cauim. Não posso esperar.

Minha mãe sorriu.

O pajé reuniu os guerreiros no meio da ocara. Falou. Sua voz parecia sair do fundo duma caverna cheia de cobras, escorpiões e morcegos. E enquanto o feiticeiro falava, as nuvens foram se abrindo e as estrelas aparecendo uma a uma.

— Guerra! — gritava o pajé. — O guerreiro forte que ficar na taba é covarde.

Penas e braços dançaram no ar. Um coro horrível repetiu:

— Guerra!

O pajé continuou:

— O goitacá traiçoeiro comeu a carne de nossos antepassados. Vingança!

O discurso do pajé durou cinco horas. Depois os tupinambás começaram a dançar e a beber cauim. Também dancei e bebi. E a madrugada ainda não tinha clareado quando nos pusemos a marchar.

6 — A VITÓRIA
O sol dourava o grande campo. A noite tinha se escondido do outro lado das montanhas. Os nossos guerreiros avançavam. Tudo quieto. Às vezes um gavião passava alto. Eu pensava:

— Anhangá pode estar escondido no corpo duma ave...

(Agora, sentado aqui numa boa poltrona, no estúdio de meu apartamento de Copacabana — onde escrevo esta história — eu sorrio ao me lembrar de meus pensamentos de selvagem.)

De repente, um grito. Tive a impressão de que as macegas, a uns duzentos metros de onde estávamos, cresciam de repente. Eram os inimigos que nos esperavam de emboscada. Uma chuva horizontal de flechas cortou o ar. Traziam nas pontas plumas azuis, amarelas, vermelhas e roxas. Eram tão lindas voando e brilhando no ar luminoso que fiquei de boca aberta, a contemplá-las, tão encantado que me esqueci de me deitar para fugir às flechadas.

Vi um companheiro cair perto de mim com uma seta cravada no peito. Os nossos começaram a atirar também. O combate durou muito tempo. No fim foi a luta corpo a corpo.

Os maracás chocalhavam. Os guerreiros gritavam. Agitei o tacape e corri na direção dos inimigos. Surgiu um índio forte na minha frente. Levantei o tacape e dei o golpe. Pan! O inimigo rolou.

(No momento em que descrevo esta cena, estou no ano de 1942. O meu rádio noticia voos estratosféricos, conta maravilhas da televisão. E a um anúncio de sabonete segue-se uma sinfonia de Beethoven. Olho para a minha máquina de escrever portátil e para as minhas mãos agora cuidadas e custa-me acreditar que estas mesmas mãos já empunharam armas brutais, já feriram, já derrubaram cabeças... Estremeço de leve. Toco a campainha. Peço um chá ao meu criado e continuo a descrever a minha primeira guerra.)

Apareceu outro goitacá. Pan! Rolou também. Outro. Pan! A mesma coisa. Todos caíam. Minha arma zunia no ar sem descanso e sem piedade.

Aquele quadro — homens baqueando aos gritos, plumas coloridas voando ao vento, som de maracás — foi tão forte que hoje, passados mais de quatrocentos anos, eu me lembro dele com toda a clareza. Por fim ergue-se na minha frente um guerreiro enorme. Pela pintura que trazia no corpo, vi que era o chefe da tribo inimiga. Levantou o tacape. Recuei e rebolei também a minha arma. As nossas clavas se chocaram no ar. Pléf! E se quebraram.

Olhei para os braços musculosos do meu adversário e pensei: Estou perdido. Mas não perdi a calma. Como um tigre saltei-lhe em cima. Atracados, rolamos por terra. Senti as mãos de ferro do goitacá trançadas nas minhas costas, enquanto seus braços apertavam meu tronco, procurando esmagá-lo. Fiz um esforço doido e consegui segurar com ambas as mãos a garganta do chefe. E enquanto ele me apertava a cintura eu lhe apertava o pescoço. No fim de alguns minutos notei que o abraço do inimigo afrouxava. Senti um alívio. Eu tinha vencido.

7 — SERENATA PARA AS ESTRELAS
Voltamos para a taba com os troféus da vitória.

Minha mãe me esperou sorrindo.

— Cem cabeças de inimigos. Que lindos enfeites para a nossa caiçara, mãe!

(Assim pensava eu no ano de 1490. Hoje, olho urna tela de Portinari ou uma escultura de Brecheret e digo: “Que lindos enfeites para o meu gabinete.)

Veio o pajé com o seu sorriso irônico e me disse:

— Tibicuera é um valente. Oh! Mas ele não pode com os gênios do mato.

Naquela noite a lua me pareceu mais clara, mais suave a minha rede, mais melodioso o barulho do mar. Com o osso da coxa do chefe inimigo fiz uma flauta. E na hora em que a taba dormia, comecei a soprar no instrumento. O som que saiu dele foi doce e triste. Então fiz a minha primeira serenata para as estrelas. Toquei com tanta alma, com tanto sentimento, que a música misteriosa dançou no ar leve voou para o mato e fez calar de espanto o urro do jaguar, o canto de fundo do urutau e o grito guinchado de Curupira. As cobras vieram me lamber os pés, tontas. Pareceu-me até que as próprias estrelas pararam de brilhar para melhor ouvirem a minha musiquinha. Eu soprava na flauta e de tão comovido comecei a chorar.

Mais tarde, fui dormir. Sonhei que o chefe goitacá veio para mim e disse:

— Tibicuera, estou contente por ter sido vencido por ti. Estou orgulhoso de ti. Porque fizeste uma flauta com o meu fêmur e tocas nela tão bem, tão bonito, que até os mortos que moram para além das grandes montanhas ficam com vontade de voltar, só para te ouvir.

8 — VELAS NO MAR
O pajé me contava histórias dos tempos em que a Lua era noiva do Sol. Eu ficava sentado na oca dele, de pernas cruzadas, escutando. Uma fogueira quase morta nos separava. A fumaça subia. Por trás da fumaça o pajé sorria, mostrando a boca escura e desdentada. E a faia dele era como o barulho do vento nas folhagens.

Um dia ele me estava recontando uma história que aprendera do velho Sumé, quando se ergueu uma gritaria na taba. Saí para ver o que acontecia. Um homem vira coisas estranhas no mar. Por isso estava gesticulando, gritando, contando... O chefe da tribo armou os seus guerreiros. Fomos todos para a beira do mar.

O nosso espanto foi enorme. Abria-se na nossa frente a grande baía. Dentro dela, balançando-se de leve, estavam pousadas umas doze ou treze embarcações como nunca tínhamos visto em toda a nossa vida. Nós cortávamos os rios e o mar nas nossas igarás, barcos compridos e rasos, feitos em geral de troncos de árvores. Mas agora era diferente... Tratava-se de barcos altos, compridos, largos, todos cheios de mastros, cordas, panos, bandeiras Eu estava de boca aberta. Olhava muito admirado para as bandeiras coloridas que ondulavam ao vento no cordame dos navios. E só cem anos depois é que eu iria aprender que aquela era a frota portuguesa que descobria o Brasil! Naquela hora não existia Brasil, mas sim a nossa terra, por nós chamada Pindorama, — serra boa e
grande onde nossa tribo e muitas outras corriam, livres, acampando aqui e ali, caçando, pescando, dançando, guerreando...

O chefe tupinambá quis reunir seus homens para o combate. Mas o pajé, veio, olhou, sorriu e botou a mão no ombro do chefe:

— Não vai haver guerra. Eles vão nos divertir.

Não disse mais nada.

Assim como filhotes de ave que deixam a plumagem quente da mãe, muitos barcos se afastaram do maior dos navios e se aproximaram da praia. Os índios os esperaram em silêncio. Quando os barcos embicaram na areia, pudemos ver que eles estavam cheios de homens brancos. Traziam armas desconhecidas. Falavam língua que nenhum de nós entendia.

Um dos estrangeiros avançou para o nosso grupo. Tinha um grosso bigode preto. Sua espada brilhava ao sol. Começou a fazer gestos e caretas. Atrás dele seus soldados esperavam...

O pajé fez um gesto de paz e disse à nossa gente em tupi:

— Que será que esse macaco quer?

Risadas.

O homem do bigodão fez um sinal. Um dos soldados trouxe e colocou aos pés dele um grande cesto. O chefe branco se inclinou e tirou do cesto uma mancheia de colares de miçangas coloridas, espelhos e outras bugigangas para nós desconhecidas. Os índios começaram a ficar inquietos e a dar pulos. Só o pajé continuava a sorrir com indiferença.

Outras canoas se aproximavam da praia, vendo que a primeira fora recebida em boa paz.

Fonte:
Érico Veríssimo. As aventuras de Tibicuera, que são também do Brasil. (Texto revisto conforme Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em vigor em 2009). Porto Alegre: Edição da Livraria do Globo, 1937.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Olivaldo Júnior (Carnaval em Trovas) I


Érico Veríssimo (As Aventuras de Tibicuera) Capítulos 1 a 4

1 — NASCI

Nasci na taba duma tribo tupinambá. Sei que foi numa meia-noite clara. Fazia luar. Minha mãe viu que eu era magro e feio. Ficou triste mas não
disse nada. Meu pai resmungou:

— Filho fraco. Não presta para a guerra.

Tomou-me então nos seus braços fortes e saiu caminhando comigo para as bandas do mar. Ia cantando uma canção triste. De vez em quando gemia. Os caminhos estavam respingados do leite da lua. O urutau gemeu no mato escuro. Uma sombra rodopiou ligeira por entre as árvores.

O mar apareceu na nossa frente: grande, mole, barulhento, cheio de rebrilhos. Meu pai parou. Olhou primeiro para mim, depois para as ondas... Não teve coragem.

Voltou para a taba chorando. Minha mãe nos recebeu em silêncio.
2 — CRESCI

Passaram-se algumas luas. Uma tarde eu ia escanchado na cintura de minha mãe e o pajé da nossa tribo nos fez parar na frente de sua oca. Olhou para mim. Viu que eu era magro, feio e tristonho. O pajé era um homem muito engraçado. Como fazia troça de toda a gente e de todas as coisas, diziam que ele era irônico. Pois o pajé me examinou da cabeça aos pés, sorriu e disse:

“Tibicuera”.

O nome pegou. Toda a gente ficou me chamando Tibicuera. Tibicuera na nossa língua queria dizer cemitério. O nome sentava bem. Eu era magro e chorão.

Certa vez fiquei parado, olhando a minha sombra no chão. Era a sombra de um guri cabeçudo, de barriga enorme, como que inchada. As pernas eram finas como os juncos que crescem nos rios. Soltei um grito de tristeza. Na taba até pensaram que tinha sido gemido de urutau.

Uma tarde me debrucei sobre um córrego para matar a sede. Vi minha cara no espelho da água. Levei um susto. Ergui-me num pulo e saí a correr. Agarrei-me às pernas de minha mãe e choraminguei:

— Vi um peixe feio dentro d’água, mãe.

Cresci na caba, comendo terra, perseguindo as formigas e as minhocas. Aos cinco anos fiz minha primeira caçada de tucanos. Mas não me meti fundo no mato, porque tinha medo de encontrar Anhangá, Curupira e os outros espíritos maus.

À noite eu via as danças dos índios ao redor de uma grande fogueira. Os tupinambás pulavam, faziam roda, rebolavam as ancas, erguiam os braços,
batiam com os pés no chão. A fogueira tinha línguas de muitas cores. De dentro dela saltava um clarão que devorava a luz do luar, pintava de vermelho a cara dos guerreiros e ia abolir com o mato que estava dormindo.

Os guerreiros dançavam. Os tambores batucavam — bum-qui-ti-bum. bum-qui-ti-bum. bum, bum... Eu olhava para o céu. A lua parecia uma fogueira e as estrelas eram os índios dançando ao redor dela.

Um dia os tupinambás foram para a guerra. Os tambores soaram com raiva. 0 eco respondeu longe. O pajé reuniu o conselho. Os guerreiros prepararam suas armas. Dançaram os tacapes, os arcos, as frechas e as lanças. Depois os guerreiros entraram no mato. Só ficaram na taba os velhos, as mulheres e as crianças.

Comecei a sentir uma vontade muito grande de ficar homem para ir também à guerra.
3 — O MISTÉRIO DA CAVEIRAOs nossos guerreiros voltaram vitoriosos. Trouxeram muitos prisioneiros e o crânio do chefe inimigo. Fiquei olhando aquela cabeça sem corpo. Que cara horrível! Eu queria fechar os olhos ou olhar para outro lado, mas não podia. 0 crânio do chefe inimigo me atraía, me chamava, me prendia. . .

Naquela noite tive um pesadelo pavoroso. Sonhei que a cabeça sem corpo estava em cima de meu peito, pesando, procurando esmagar-me o coração. Acordei suando frio. Saí da minha oca. Silêncio na taba. A noite ia alta.

A lua minguante lá no céu parecia a caveira de algum grande chefe vencido. Os grilos cantavam. Saí a caminhar. Aonde era que eu ia? Alguma coisa me puxava...

Andei trocando pernas à toa por entre as ocas. Só depois de muito tempo é que compreendi o que queria. Eu tinha era vontade de pegar a caveira do chefe inimigo. Eu sabia que ela estava espetada num pau da caiçara perto da oca de nosso chefe. Fui...

Puxei o crânio branquinho com todo o cuidado. Sentei-me na areia da praia. E, sem ouvir o barulho do mar, nem o uivo do vento, nem os pios das aves da noite, revirei nas mãos a caveira e fiquei com os olhos pregados nela. Eu sentia um grande medo no coração. Queria decifrar o mistério daquela cabeça sem vida. Queria...

Que era aquilo? Cheguei a gritar para o céu. Que era aquilo?

O mar continuou rugindo, o vento uivando, as aves piando. Mas nada respondia à minha pergunta.

De repente senti um ímpeto... Peguei a caveira e joguei-a para o ar, como se a quisesse quebrar contra as pontas agudas das estrelas. A caveira brilhou ao luar e tornou a cair na areia. Póf!

Estendi-me ao lado dela e, cansado, dormi até o amanhecer.
4 — O MEU ENCONTRO COM ANHANGÁ

Eu gostava de visitar a oca do feiticeiro de nossa tribo. Havia lá dentro um ar de mistério, cobras se arrastando pelo chão, ervas colhidas em noites de lua cheia.

O pajé parecia andar sempre dormindo, olhos fechados, cara calma. Diziam que ele era mais velho que as árvores mais velhas do mato antigo. Sabia todos os segredos da vida. Tinha remédio para todos os males.

O pajé gostava de mim. Eu gostava do pajé. Ele me dizia:

— Ninguém pode com os espíritos maus. Anhangá entra no corpo dos guerreiros e os guerreiros ficam perdidos. Ai de quem encontrar Curupira no mato!

Eu escutava, com o coração batendo, os olhos muito arregalados.

Um dia, distraído a perseguir um bicho, me meti no matagal. Quando caí em mim, estava perdido. Comecei a caminhar sem rumo certo, procurando uma saída. Havia a meu redor troncos de árvores tão grossos e retorcidos que davam medo. Pareciam braços musculosos prontos para me esmagar. O sol mal entrava ali, porque a folhagem formava por cima da minha cabeça um toldo verde e espesso. Ouvi longe o ronco duma onça. Tremi. Um pássaro piou. Tremi de novo. Um graveto estalou. Tornei a tremer. Às vezes uma coisa mole e comprida passava ondulando pelo meio das ervas rasteiras. Cobra. Eu sentia calafrios.

De repente ouvi uma voz fina:
— Tibicuera!

Uma voz de caçoada. Parei. Quem seria? Olhei para os lados. Ninguém. Olhei para cima. Nada. Decerto tinha sido ilusão... Continuei a caminhar. Outro chamado:

— Tibicuera!

De repente um vulto cresceu diante de mim. Era uma figura esquisita, meio gente, meio bicho, preta como a noite, de olhos chispantes que pareciam duas fogueiras. Pulava num pé só, doidamente. Abri a boca num
espanto. Era Anhangá! Reuni toda a minha coragem e falei:

— Passa fora!

Anhangá soltou uma gargalhada: “Quá-quá-quá!”

O mato todo riu com ele. Riu de mim. Depois o diabo virou três cambalhotas no ar e começou a dançar com toda a velocidade em meu redor. Senti que meus olhos escureciam. Eu mal e mal ouvia a voz de Anhangá, berrando:

— Ninguém pode comigo! Ninguém me vence, nem Tupã!

Estendi os braços procurando agarrar alguma coisa. Foi quando Anhangá parou de rodopiar, recuou um pouco e pulou com o pé no ar. Senti uma dor muito forte no queixo e desmaiei.

Acordei na taba. Ouvi alguém perguntar:

— Foi Curupira?

Mal tive força para responder:

— Anhangá.

E comecei a chorar de raiva.

Fonte:
Érico Veríssimo. As aventuras de Tibicuera, que são também do Brasil. (Texto revisto conforme Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em vigor em 2009). Porto Alegre: Edição da Livraria do Globo, 1937.