Mostrando postagens com marcador Florilégio de Trovas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Florilégio de Trovas. Mostrar todas as postagens

domingo, 23 de agosto de 2026

Luiz Gonzaga da Silva (Trova e Cidadania) 12: Ganância e avareza


O pobre carece de muitas coisas,
o avaro de tudo (Sêneca)

A ganância é um fenômeno humano que destrói tanto o próprio ganancioso quanto a todos os que estão no mesmo meio social. É o acúmulo insaciável de bens materiais, em geral em prejuízo dos outros seres humanos. O ganancioso não se contenta em obter o suficiente para viver bem. O acumular torna-se o único objetivo, à custa dos valores éticos, do bom senso e muitas vezes da legalidade. É um fenômeno destrutivo, incompatível com a cidadania.

Num Brasil de ouvidos moucos
a vida perde os encantos
quando a ganância de poucos
promove a fome de tantos!...
Antônio Juraci Siqueira - PA

Num triste e cruel enredo
escrito por poderosos,
a Terra treme com medo
das mãos dos gananciosos.
Ademar Macedo - RN

Seres vis, gananciosos,
movidos pela torpeza,
com seus atos criminosos
saqueiam nossa riqueza.
Gonzaga da Silva - RN
 
A avareza é reconhecida no Velho Testamento como um dos sete pecados capitais. Ganância e avareza são atitudes muito próximas, mas com certeza o avarento sofre mais do que o ganancioso. Podemos dizer que o avarento é um pobre coitado. Enquanto o ganancioso trocou o ser pelo ter, o avarento trocou o ser pela possibilidade de ter. Segundo Horácio, o avarento vive sempre na pobreza.

O avarento é estranho ser
- só quer dinheiro guardar;
o seu medo de perder
faz a ganância aumentar.
Lairton Trovão de Andrade - PR

Asqueroso é o avarento
que, de si, nada consome;
à família é rabugento,
por dinheiro, unha de fome.
Lairton Trovão de Andrade - PR


(Luiz Gonzaga da Silva (org.). Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019. Enviado pelo autor. )

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Luiz Gonzaga da Silva (Trova e Cidadania) 11: Verdade e Mentira


O homem em princípio aspira à verdade. A humanidade busca a verdade, mas também pode asfixiá-la. Os poderosos procuram calar a verdade que os incomoda. Os de espírito lúcido querem descobrir a verdade, mas sempre haverão os mal-intencionados que querem a todo o custo encobri-la, em benefício próprio.

A verdade, deusa nua,
duas faces sempre tem;
e cada homem cultua
a face que lhe convém!
Moacir Figueiredo - SC

A mentira, bem vestida
anda orgulhosa na rua.
A verdade anda escondida
porque é pobre e vive nua. 
José Firmo Cavalcanti - PE

A verdade que redime
não viveria de luto
se a mentira fosse crime
e, enfim, pagasse tributo!...
Hermoclydes Siqueira Franco - RJ

Movido a farsas e engodos...
É assim que o Universo gira,
um mundo onde quase todos
sobrevivem da mentira,..
Darly O. Barros - SP

Se o barco imenso da vida
seguisse rumo à verdade,
alcançaria guarida:
- paz, amor, fraternidade,
Ione Arruda Gomes - CE

Não é possível construir a cidadania sem desvelar a verdade que se esconde por trás das intenções dos grupos mais diversos, seja de amigos, de profissão, de partido, de religião, de castas sociais. Os grupos dominantes procuram sempre encobrir os crimes praticados contra o povo, os crimes perpetrados para mantê-los no poder. Entretanto,

Uma verdade evidente
não há texto que distorça:
– Ante a imagem contundente,
a palavra perde a força.
Almerinda Fernandes Liporage - RJ

O lucro das aparências
que no mundo se arrecade,
só prevalece na vida
até que chegue a verdade,
Auta de Souza - RN

A verdade redentora
ante a farsa do vilão,
é chama íluminadora
dissipando a escuridão.
Pedro Grilo - RN

Uma verdade é verdade
antes de ser proferida,
e sempre em qualquer idade,
ela deve ser mantida.
Nadir Nogueira Giovanelli – SP

Às vezes o poeta põe em relevo o contraste entre a verdade e a mentira:

A verdade anda tão rara
que a mentira, ultimamente,
já nem sequer se mascara
para enganar tanta gente!
João Freire Filho - RJ

Como é engraçada a vida
que de contraste se tece:
a Verdade anda escondida,
a Mentira é que aparece,
Ascendino Almeida - RN
= = = = = = = = = = = = = =  

(Luiz Gonzaga da Silva (org.). Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019. Enviado pelo autor.) 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Luiz Gonzaga da Silva (Trova e Cidadania) 10: Fome e Miséria


O mendigo sob o frio 
grita forte no cansaço, 
com o estômago vazio, 
arrastando o triste passo.
José Feldman – PR

Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. 
Quando pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista 
[Dom Helder Câmara).

A fome aniquila o ser humano, alucina consciências, gera desespero. A fome rouba a honra e a altivez do homem, que sem forças para a luta entrega-se à languidez e assim é acusado de preguiça. Josué de Castro em seu livro Geografia da fome mostra bem este indesejável fenômeno.

A geografia da fome
mostra a distância traçada
entre quem tudo consome
e quem não consome nada.
Gonzaga da Silva - RN

Eu sei de uma negra cruz,
de tão negra não tem nome:
essa que o pobre conduz
pelo calvário da fome.
Sebastião Soares - RN

A tristeza me consome
diante desta crueldade!
A violência da fome
dizimando a humanidade.
Reinaldo Aguiar - RN

A miséria por capricho
sai bem cedo vasculhando...
Mexe mil latas de lixo
volta de mãos abanando.
Minervino Wanderley - RN

É o abuso da riqueza
e o desprezo à educação
que põe sobre a nossa mesa
a fome, em lugar do pão.
Sônia Sobreira da Silva - RJ

Poderosa, ela se ajeita
e entre o bem e o mal permeia
a infame fortuna feita
à custa da fome alheia...
Divenei Boseli - SP

Quando a miséria se ajeita,
na ausência d'água e de pão,
faminta a fome se deita
na esteira que forra o chão!
Prof. Garcia - RN

A miséria devora os seres humanos. A miséria crônica é uma patologia social que poderia e deveria ser evitada. Mas como evitar a fome se os Estados preferem gastar com armamentos? Não podemos deixar de lembrar o título completo do livro de Josué de Castro: Geografia da fome: o dilema brasileiro - pão ou aço. Parece que o mundo prefere mesmo o aço.

A fome que o mundo assola
tem raízes na injustiça:
o pobre vive de esmola
sob o jugo da cobiça!
Angélica Villela Santos - SP

A arma mais poderosa
que o homem já inventou
foi esta fome horrorosa
que a tantos já dizimou.
Gonzaga da Silva - RN

O triste da caminhada,
na longa estrada da vida,
é ver a fome estampada
em tanta gente excluída!
Hermoclydes Siqueira Franco - RJ

Não pode haver raciocínio
quando a miséria, sem nome,
invade qualquer domínio
e o domina pela fome!...
Hermoclydes Siqueira Franco - RJ

Se o teu riso é de grandeza,
vaidade que te consome,
- olha bem para a tristeza
do pranto de quem tem fome.
Fernando Câncio - CE

Sentir fome e não comer
porque não tem condição
pode mesmo comover
quem tem duro coração.
Aracy da Silveira Cavalcante - CE

Mas como se comover se em geral a fome em sua forma mais terrível está longe dos nossos olhos? Nossos amigos não passam fome, nossos vizinhos não passam fome, no meio social que frequentamos não vemos ninguém passando fome... Os meios de comunicação não mostram os bolsões de fome, preferem mostrar o "progresso" das vitrines... É como diz o provérbio: O que os olhos não veem o coração não sente! Só mesmo uma convulsão social drástica para alertar o mundo.

As revoltas não têm fim
e explodem cada vez mais,
que a fome acende o estopim
das convulsões sociais!
João Freire Filho - RJ

Treme o mundo e se consome
ao som de um terrível brado:
- o grito que sai com fome
da boca do ínjustiçado!
A. A. de Assis - PR

Metade da humanidade
infelizmente não come;
e não dorme a outra metade,
temendo os que passam fome,
Geraldo Amâncio - CE

Há mil gritos e protestos
na fila ingente da fome,
onde a migalha dos restos
não chega pra quem não come!
Delcy Canalles - RS

Quando os muros da opressão
enfim forem derrubados,
o mundo terá mais pão
e menos injustiçados.
Gonzaga da Silva - RN
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
LUIZ GONZAGA DA SILVA é um respeitado trovador e articulador cultural radicado em Natal/RN. No universo da poesia clássica e das competições de trovas, ele se destaca como uma das figuras mais ativas do movimento trovadoresco do Nordeste brasileiro.  Nasceu em São José do Campestre/RN, em 1940. Aos doze anos sua família mudou-se para o Rio de Janeiro, mudando definitivamente para Natal/RN, em 1975, onde reside até hoje e concentra suas atividades literárias e profissionais. É um dos principais pilares da trova em Natal. Ele atua frequentemente como coordenador, organizador de certames e interlocutor da poesia potiguar com trovadores de todo o Brasil. É um mestre na composição da trova tradicional. Seus versos transitam com facilidade entre o lirismo filosófico, o amor ao chão nordestino e o humor sutil. Por sua competência técnica e sensibilidade, acumula premiações e classificações de destaque em concursos nacionais de trovas promovidos por diferentes ramificações da trova no Brasil. Atuação como Julgador e Coordenador: É recorrentemente convidado para presidir comissões julgadoras ou coordenar concursos de âmbito nacional, avaliando trovas enviadas por poetas de todas as regiões brasileiras sob temas específicos.
Entre suas contribuições impressas para a preservação do movimento poético, destaca-se: "Trova e Cidadania" (Natal/RN): Obra que reúne parte de sua sensibilidade poética e reflete sobre o papel social da poesia na construção da cidadania; Coletâneas Didáticas: Participação ativa em antologias locais e nacionais, além de registrar suas produções na antologia digital coletiva A Trova Potiguar.
A relevância de Luiz Gonzaga da Silva concentra-se na salvaguarda e difusão da trova na Região Nordeste. Em uma era dominada por versos livres e mídias rápidas, o trabalho de preservação das formas poéticas fixas (como a trova e o soneto) exige dedicação e paixão. Ao capitanear concursos nacionais a partir do Rio Grande do Norte, ele insere o estado na rota dos grandes trovadores do país, garantindo que a tradição lírica originada em solo potiguar permaneça vibrante, acessível e atraente para as novas gerações de escritores.

[Luiz Gonzaga da Silva (org.). Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019.] Enviado pelo trovador.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Projeto de Trovas para uma Vida Melhor (Premiados: Novos Trovadores)


 SÃO JOSÉ DOS CAMPOS, SP, BRASIL
IVº CONCURSO, 8ª ETAPA, 
TEMA: PROBLEMA/S 
JULHO/AGOSTO: 2026

NOVOS TROVADORES. 

 1º LUGAR
Pare com esse dilema
pois não é nada sadio,
o que parece problema, 
não passa de um desafio.
Bernadete Lacerda Soares 
Itaperuna/RJ

2º LUGAR
Problemas têm solução,
basta haver inteligência,
jamais perder a razão,
manter respeito e decência.
Lilian Miranda dos Santos.
Santos/SP

3º LUGAR
Se muito insiste um problema 
em tenaz te acompanhar,   
encara logo o dilema,
para livre caminhar!   
Amanda Fiorillo
Curitiba/PR

4º LUGAR
O amor pode ser problema
quando não correspondido.
A tristeza vira emblema
de um coração ressentido.
Aluísio Félix de Farias
Parnamirim/RN

5º LUGAR
"Cada um com seus problemas!"
Tornou-se regra hoje em dia...
Não há virtudes supremas?
Acabou toda a empatia?
Carlos Rogério Vriesman
Carambeí/PR
========================

1ª MENÇÃO HONROSA 
Um problema sempre ensina 
o valor da persistência,
cada dor dessa rotina
lapida nossa existência.
Regina Silva do Nascimento
São José dos Campos/SP

2ª MENÇÃO HONROSA 
Teu olhar que me sacia
a sede do coração...
Dos problemas me alivia,
tal qual brisa no verão!
Carlos Rogério Vriesman
Carambeí/PR

3ª MENÇÃO HONROSA
Quando o problema aparece
o temor quer florescer;
porém, se a coragem cresce
faz a vida renascer.
Celso Capodeferro
Bragança Paulista/SP   

4ª MENÇÃO HONROSA
Dramas, conflitos espessos,
vêm para desafiar.
Problemas, quedas, tropeços,
ensinam a levantar.
Lilian Miranda dos Santos.
Santos/SP

5ª MENÇÃO HONROSA
Ainda que o mundo tema,
expansiva distopia,
solucionar o problema
é buscar diplomacia.
José Fernando Cardoso da Silva
Pindamonhangaba/SP
======================

1ª MENÇÃO ESPECIAL
Os problemas vêm e vão,
tais as curvas de uma estrada,
são carros na contramão
que encontramos na jornada!
Ana Mairlene Moleta Retko
Ponta Grossa/PR

2ª MENÇÃO ESPECIAL
Fazer o mal ou o bem?!
Eu resolvo seu dilema:
escolha o que ajude alguém,
não o que cause problema.
Walter Antonio Dias Duarte
Itu/SP

3ª MENÇÃO ESPECIAL
O problema: falta paz;
a raiva deve abrandar,
um sorriso é eficaz,
pra vida não desandar!
Isabel Cristina Foggiatto
Ponta Grossa /PR

Fonte:
Maria Inez Fontes Ricco
Presidente da Seção São José dos Campos, SP.

sábado, 15 de agosto de 2026

Luiz Gonzaga da Silva (Trova e cidadania) 9: Terceira idade


Implacável é a idade,
todos os dias morremos
um pouco, com a saudade
daqueles que não mais vemos. 
José Feldman - PR

Os velhos morrem porque já não são amados 
(Montherlant - Paris/França, 1896 - 1972)

Uma das formas de se apreender se um povo exercita de fato a cidadania, é verificando como este povo trata o velho, que se convencionou chamar de terceira idade. Pensamos que este tema ainda é tratado com ambiguidade. Por um lado, há os que não têm o menor respeito pelo idoso, por outro, há os que exageram, tratando os velhos de uma maneira piegas.

Nosso amor pela pessoa velha não deve ser uma opressão, uma tirania a inventar cuidados chocantes, temores que machucam... Libertemos os velhos de nossa fatigante bondade (Paulo Mendes Campos).

Trate o velho com respeito;
dê-lhe o amor que possa dar.
Mas não lhe roube o direito
de a SI mesmo governar!
A. A. de Assis - PR

Para o trovador, a velhice é constantemente associada à saudade:

Sempre que a praça atravesso
curvada ao peso da idade,
por onde passo eu tropeço
num canteiro de saudade…
Ercy Maria Marques - SP

Curvada ao peso da idade,
a vovó, serena e bela,
distrai o tempo e a saudade
entre o novelo e a novela.
A. A. de Assis - PR

Os anos trazem cansaços,
nossa vida é sempre assim,
e a saudade segue os passos
da velhice até o fim.
José Lucas de Barros - RN

Outras vezes, a velhice é também associada à tristeza e morte dos sonhos:

Vai findando a mocidade
e, nos meus dias tristonhos,
em surdina, uma saudade
chora a morte dos meus sonhos...
Izo Goldman - SP

Depois de muitas andanças,
cansado de tanta lida,
hoje vivo de lembranças,
juntando os cacos da vida...
Raimundo Andrade de Paiva - CE

Mas os sonhos não envelhecem, ou não deveriam envelhecer. Por mais que se tornem difíceis de serem realizados, não devemos abandoná-los.

Um sonho de juventude
não morre nunca, eu suspeito,
pois me assusta a inquietude
que ainda carrego ao peito.
Gonzaga da Silva - RN

Beirando a terceira idade
me aproximando do fim…
Vejo em grande atividade
a criança que há em mim.
Francisco Macedo - RN

Não importa a face externa
do corpo que envelheceu:
juventude é sempre eterna
no sonho que não morreu.
Antônio Bispo dos Santos - RJ

Se a mocidade se afasta,
não julgue a vida tristonha.
- A ação do tempo não gasta
o coração de quem ama!
Aparício Fernandes - RJ

Em outros momentos, a velhice é vista com mais naturalidade e até com certo entusiasmo:

Minhas netas, sempre rindo,
são meu alegre evangelho:
- musgo verde revestindo,
de esperança, um muro velho!
Lilinha Fernandes - RJ

Mas sociedades em que a preocupação com a produção de bens materiais não é um fim em si mesmo, o velho é visto como um ser que acumulou experiência e sabedoria e, portanto, tratado com mais respeito e dignidade. É o que está expresso nestas sábias travas:

Quanto mais a idade aumentou
e a ilusão se distancia,
a gente mais se alimenta
do pão da sabedoria.
Ercy Maria Marques - SP

O tempo tira a beleza,
rouba da gente a vaidade,
o tempo dá-nos firmeza,
sabedoria e bondade.
Nair Starling - MG

Velhice não é demência
nem é vã filosofia;
é fonte de experiência
que nos traz sabedoria.
Hélio Pedro Souza - RN

Fonte:
Luiz Gonzaga da Silva (org.). Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019.
Livro enviado pelo autor.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Luiz Gonzaga da Silva (Trova e Cidadania) 8: Guerra e (Paz?)


No mundo, em que há injustiça,
que o ser humano propaga,
empatia é uma premissa
para viver nova saga.
José Feldman – PR

Na antinomia entre guerra e paz parece que o primeiro termo sobreleva-se extraordinariamente! Infelizmente! O mundo nunca teve um dia de paz, A história da humanidade é a história das guerras. Não conheço nenhum livro dedicado à paz, mas inúmeros dedicados à guerra. Talvez porque a paz seja um estado natural, normal, enquanto a guerra é um fato provocada pela estupidez do homem. Apesar disso, a paz é um ideal a ser buscado, mesmo que ela se nos apresente como uma utopia!

Sem os horrores da guerra,
feliz o mundo seria.
É pena que Paz na Terra
ainda seja utopia.
João Costa - RJ

Trovadores - renitentes -
tenhamos este ideal:
- Fazer das trovas sementes
para a Paz universal!
Alberto Fernando Bastos - RJ

O que eu mais quero na vida
é a paz remando na Terra,
mas não a paz confundida
com mera ausência de guerra...
Newton Vieira - MG

O bom senso é que lhes faz
o apelo nobre e profundo;
- Um beijo branco de paz
na face rubra do mundo!
Batista Soares - CE

A paz que tanto se exorta
há de encontrar o seu clima;
o mundo já não comporta
novas versões de Híroshima!
José Overney - SP

Num tempo em que tanta guerra
enche o mundo de terror,
benditos os que, na Terra,
semeiam versos de amor!
A. A. de Assis - PR

No passado e no presente,
pelo mal que sempre fez,
é a guerra - infinitamente -
a suprema insensatez!
Waldir Neves - RJ

Por trás das guerras estão quase sempre os interesses econômicos, principalmente o dos interessados em vender armas. A indústria de armamento é um dos setores mais poderosos e ricos do mundo, graças à miséria das guerras, espontâneas ou incentivadas.

Se os povos querem que a paz
reine sempre em toda a terra,
por que é que cada vez mais
fabricam armas de guerra?
Roosevelt da Silveira - ES

Faz vergonha nesta terra
ver gente brigar por óleo
e nações fazerem guerra
por um barril de petróleo.
Rodrigues Neto - RN

O que mais nefasto existe,
em qualquer parte da Terra,
é o quadro horrível e triste
da violência da guerra.
Reinaldo Moreira de Aguiar - RN

Sinto que a vida na terra,
com a guerra se desfaz!
Só se faz arma de guerra,
com a terra pedindo paz!
Prof. Garcia - RN

Por razões, às vezes fúteis,
corre o sangue numa guerra.
Eis as sangrias inúteis
que envergonham nossa terra.
Miguel Russowsky - SC

Algumas vezes tem-se o cinismo de fazer guerra em nome da paz, fato que devemos denunciar com veemência.

Um grito de pacifismo
há de ecoar sobre a terra,
denunciando o cinismo
de quem, pela paz, faz guerra!
Gonzaga da Silva - RN

Esta violência me aterra,
este cinismo é demais:
- Dizer-se que se faz guerra
em benefício da Paz!
Luiz Rabelo - RN

Quem meditar por instantes
certos conceitos refaz:
o mais caro dos brilhantes
não vale o brilho da paz!
Ederson Cardoso de Lima - RJ

Os homens maus desta terra
de forma vil e falaz,
promovem, no mundo, a guerra,
em nome da própria paz!
Ademar Macedo - RN

Irônica hipocrisia
dos poderosos da terra:
com promessas de harmonia
pregam paz e fazem guerra.
Wanda de Paula Mourthé - MG

A triste realidade é que a guerra segue assolando a humanidade. O trovador a denuncia, mas quando será ouvida a sua voz?

Nesta mensagem se encerra
o que o mundo sempre faz:
- acata as ordens da guerra,
nega as mensagens de paz.
Luiz Carlos Abrita - MG

É o desvario do mundo
de alguns Senhores da Terra…
que implanta, de quando em quando,
os desvarios da guerra!
João Freire Filho - RJ

Quando há morte programada
pelos quadrantes da terra,
homens que não valem nada
sentem paz plantando guerra.
Nilton Manoel Teixeira - SP

Com ódio, o homem na Terra,
a tudo faz e desfaz…
Que bom, se ao invés de guerra,
pensasse apenas na Paz!
Nilci da Silva Guimarães - MG

Vive o mundo em que vivemos
gemendo, pedindo paz,
mas a resposta que temos
mais sofrimento nos traz.
Angélica Villela Santos - SP

O mundo está mergulhado
num cauda! de violência,
oprimido, fustigado,
pelo furor das potências.
Aristeu Bulhões - SP

A paz seria o roteiro,
o caminho natural
para unir o mundo inteiro
num abraço universal!
Aristeu Bulhões - SP

Infelizmente, a paz tão desejada ainda permanece uma utopia. Só nos resta continuarmos a lutar por ela, com os recursos de que dispomos, a nossa sensibilidade de poeta. O nosso anseio pela paz é tão intenso e legítimo que muitas vezes ela se transforma em sonho e fantasia.

A Paz - bandeira alvadia
que pelo espaço se embala,
tanta guerra concilia
que a violência se cala.
Sebastião Soares - RN

Vou brincar com pirilampos
e beijar as flores nuas
pra ver se encontro nos campos
a paz que fugiu das ruas!
José Lucas de Barros - RN

Minha luta se agiganta,
pois vivo pregando a paz,
cantando-a por quem não canta,
fazendo-a por quem não faz.
Rodrigues Neto - RN

A paz, virtude fugaz,
que todos querem buscá-la,
só com atitude audaz
poderemos alcançá-la!
Gonzaga da Silva - RN

Mas a guerra, além da devastação e do sofrimento em geral, tem um triste e mais doloroso aspecto, o das famílias que veem seus filhos partirem para a guerra e são mortos nas batalhas.

Beija a mãe, filho querido
convocado para a guerra!
Não há um adeus mais doído
em toda a face da terra!...
Hélio Azevedo de Castro - PR

Morreu na guerra. Que brilho!
Tem mais um herói a história.
E a mãe, chorando o seu filho,
amaldiçoa essa glória.
Lilinha Fernandes - RJ

Da guerra, entre os seus horrores,
não há glória que compense,
para os Pracinhas, as dores
de quem perde ou de quem vence!...
Hermoclydes Siqueira Franco - RJ

E finalmente, nunca é demais enfatizar:

Pela guerra não há glória:
- Perder, vencer, tanto faz!
- A verdadeira vitória,
só se alcança pela paz!
Orlando Woczikosky - PR
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Luiz Gonzaga da Silva é médico, de Natal/RN. Resumo biográfico, clique AQUI.

(Luiz Gonzaga da Silva [org.]. Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019. Livro enviado pelo autor. )

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Luiz Gonzaga da Silva (Trova e Cidadania) 7: Exclusão Social


Sob o frio da calçada,
deita o corpo sem abrigo.
Toda a noite fria e longa,
dorme, infeliz, o mendigo.
José Feldman – PR

A exclusão social é a consequência de todas as atitudes mesquinhas que viemos denunciando. É a síntese da falta de cidadania. Entre os excluídos sociais encontram-se os moradores de rua, os que não têm voz para gritar pelo seu direito de cidadania. São as vítimas da sociedade competitiva, onde os valores foram invertidos. Em que a dignidade humana foi lançada ao fosso do esquecimento. Onde a riqueza do mundo é abocanhada pelas minorias dominantes, sob o olhar indiferente dos que ainda poderiam se rebelar, mas preferem ver as injustiças regulamentadas em vez de abolidas.

Nesta minha caminhada
não me horroriza a violência,
mas a boca que calada
alimenta-lhe a existência.
Ângela Togeiro - MG

Ei-los vestidos de trapos
pedindo roupa e comida:
não são gente, são farrapos
nas reticências da vida!
Dias Monteiro - SP

Nos becos da iniquidade,
os órfãos do ter e ser
são frutos que a sociedade
semeia... e não quer colher!...
João Freire Filho - RJ
 
Bem mais triste que o lamento
de um velho e rouquenho sino
é o de quem dorme ao relento
sobre o leito do destino.
Sebastião Soares - RN

Só se vê naquela esquina
pedintes, gente sofrida,
carregando a triste sina
dos excluídos da vida.
Hélio Pedro Souza - RN

Nas noites frias, um drama
que a miséria perpetua:
alguns chamarem de cama
o que outros chamam... de rua!
Sérgio Ferreira da Silva - SP

Se todos fossem honestos
ninguém veria na praça
mendigos comendo restos
do pão que a miséria amassa.
Clarindo Batista de Araújo - RN

Bandeiras ornam a rua,
foguetões sobem ao céu;
porém a dor continua
de quem sempre vive ao léu,
Rodrigues Neto - RN

Perdoem-me os meus amigos,
nada tenho a festejar,
pois são milhões de mendigos
e ninguém para ajudar!
Juril Carnascíali - PR

Quantos banquetes regados
a vinho, trufa e salmão...
quantos irmãos relegados
sem água, sem luz, sem pão!
Francisco José Pessoa - CE

Denunciando o abandono e a exclusão social alguns trovadores o fazem com imagens tão poéticas que minimizam essa terrível condição.

Dorme o menor na calçada
e a rua se estende ao léu,
feito uma rede amarrada
aos dois extremos do céu!
Antônio de Oliveira - SP

Meu barraco na favela,
onde vou vivendo ao léu,
na moldura da janela
não tem vidraça, tem céu.
José Antônio Jacob - MG
 
Dois moradores de rua,
casados com a desventura,
ao relento, olhavam a lua...
- Olhar de quase ternura...
Gonzaga da Silva - RN
 
Uma família sem teto,
repartia o mesmo pão...
Mas sobrava sempre afeto,
no final da divisão...!
Mara Melinni Garcia - RN

Um casebre na favela...
O espaço ganhou fulgor
quando alguém pôs na janela
um simples vaso de flor!
Vanda Fagundes Queiroz - PR

Muito se tem falado em inclusão social, mas pouco se tem feito de modo eficiente. A lei por si só não garante a inclusão, fica apenas nos discursos ditos "politicamente corretos". O trovador protesta.

O bruxulear de uma chama
de vela, gasta e mortiça,
lembra o excluído que clama
por respeito e por justiça!
Angélica Villela Santos - SP

Tenham todos terra e teto,
sem preconceito ou fronteira
e que haja amor, não decreto,
para a inclusão verdadeira!
Therezinha Dieguez Brisolla - SP

Trabalho, teto, respeito...
Justiça, saúde, escola…
Meu povo quer, por direito,
jamais receber esmola!
Maria Cristina Corrêa - SP

É urgentíssima a inclusão
dos deserdados da vida,
dai-lhe a terra e a certidão,
identidade e guarida.
Francisco Macedo - RN

Mas excluídos não são apenas os moradores de rua. Parcelas significativas da sociedade vivem o processo de exclusão social. Numa tentativa de minimizar o abismo entre os poderosos e os excluídos, a Constituição e as leis procuram explicitar alguns direitos que deveriam livre e naturalmente ser praticados. E cria-se outro abismo, agora entre a intenção da lei e a sua efetividade.

Neste mundo de defeito,
no perpassar destes anos,
vivemos sem ter direito
aos tais "direitos humanos"!
Aloísio Bezerra - CE

Quando a miséria se expressa
em mão tímida que implora,
qualquer pão se faz promessa
que enxuga um oíhar que chora…
Elen de Novais Félix - RJ

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
    LUIZ GONZAGA DA SILVA é um respeitado trovador e articulador cultural radicado em Natal/RN. No universo da poesia clássica e das competições de trovas, ele se destaca como uma das figuras mais ativas do movimento trovadoresco do Nordeste brasileiro.  Nasceu em São José do Campestre/RN, em 1940. Aos doze anos sua família mudou-se para o Rio de Janeiro, mudando definitivamente para Natal/RN, em 1975, onde reside até hoje e concentra suas atividades literárias e profissionais. É um dos principais pilares da trova em Natal. Ele atua frequentemente como coordenador, organizador de certames e interlocutor da poesia potiguar com trovadores de todo o Brasil. É um mestre na composição da trova tradicional. Seus versos transitam com facilidade entre o lirismo filosófico, o amor ao chão nordestino e o humor sutil. Por sua competência técnica e sensibilidade, acumula premiações e classificações de destaque em concursos nacionais de trovas promovidos por diferentes ramificações da trova no Brasil. Atuação como Julgador e Coordenador: É recorrentemente convidado para presidir comissões julgadoras ou coordenar concursos de âmbito nacional, avaliando trovas enviadas por poetas de todas as regiões brasileiras sob temas específicos.
Entre suas contribuições impressas para a preservação do movimento poético, destaca-se: "Trova e Cidadania" (Natal/RN): Obra que reúne parte de sua sensibilidade poética e reflete sobre o papel social da poesia na construção da cidadania; Coletâneas Didáticas: Participação ativa em antologias locais e nacionais, além de registrar suas produções na antologia digital coletiva A Trova Potiguar.
A relevância de Luiz Gonzaga da Silva concentra-se na salvaguarda e difusão da trova na Região Nordeste. Em uma era dominada por versos livres e mídias rápidas, o trabalho de preservação das formas poéticas fixas (como a trova e o soneto) exige dedicação e paixão. Ao capitanear concursos nacionais a partir do Rio Grande do Norte, ele insere o estado na rota dos grandes trovadores do país, garantindo que a tradição lírica originada em solo potiguar permaneça vibrante, acessível e atraente para as novas gerações de escritores.

(Luiz Gonzaga da Silva (org.). Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019.
Livro enviado pelo autor.)