Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A. A. de Assis (Revista Trovia n. 196 - Outubro de 2016)




Já que tens alma de artista,
vive teus sonhos em paz;
mas que não percas de vista
o feio mundo em que estás!
Archimimo Lapagesse

Na conquista de troféus,
um só quero merecer:
chegar às portas dos céus
e a mão de Deus me acolher.
Aurolina de Castro

No portão os namorados
são como barcos no cais:
pelos beijos amarrados,
querem ir e ficam mais.
Cleonice Rainho

A dor é o caro pedágio
que é pago na ponte erguida
de um estágio a outro estágio
na travessia da vida.
Clóvis Maia

Todo o teu corpo estremece
se te falo – que doidice!
Que dirá se eu te dissesse
aquilo que eu não te disse...
Djalma Andrade

Pode o homem ser vassalo,
desde porém que a mulher
não pense nunca em trocá-lo
por outro escravo qualquer...
Jorge de Pádua

Deixa a criança correr
descalça pelos caminhos!
Ela precisa aprender
a pisar sobre os espinhos...
José Maria M. de Araújo
 

Miséria de pão maltrata...
Mas quanta gente, Senhor,
sabeis que morre ou se mata
quando há miséria de amor!
Lilinha Fernandes

Quero falar... retrocedo...
pois tenho um pavor medonho
de que ao contar meu segredo
você destrua o meu sonho!
Luiz Otávio

Senhor, escuta os cicios
dos excluídos, sem teto...
Troca seus ninhos vazios
por ninhos cheios de afeto!
Milton Nunes Loureiro

E’ tanto o amor que me invade
quando em seus braços estou,
que cada instante é saudade
do instante que já passou!
Newton Meyer

A trova é tão pequenina
mas quanta beleza encerra;
feliz de quem tem a sina
de espalhá-la pela Terra!...
Sônia Martelo – PR
 



Em tempos de forte apego
a e-books e outros afins,
os vírus tomam o emprego
das traças e dos cupins.
Arlindo Tadeu Hagen – MG

Fio dental, na verdade,
com seu cercado pequeno,
delimita a propriedade,
mas não esconde o terreno!
Edmar Japiassú Maia – RJ

Vida boa, de ricaça,
passa o dia enchendo o bucho:
morar em sebo, pra traça,
é condomínio de luxo.
Eliana Jimenez – SC
 

A pulga e o “pulgo” a brigar...
Foi enorme a confusão!
A pulga deixou o lar
e... foi morar noutro cão!
Renato Alves – RJ

Marchando, na estante, em bando,
numa balbúrdia infernal.
– Eram traças protestando
contra o livro virtual!
Pedro Ornellas – SP

Tanto erotismo continha
o livro, do início ao fim,
que o pai proibiu a tracinha
de comer o folhetim!
Therezinha Brisolla – SP

A esposa numa pirraça
diz ao marido “rueiro”:
– Se “de graça” não tem graça,
me passa a grana primeiro.
Wandira F. Queiroz – PR



 
Pecado é o não cumprimento
da missão que a gente tem;
é ser dono de um talento
sem usá-lo para o bem.
A. A. de Assis – PR

Meu pai, muito te agradeço
por tudo que me ensinaste.
Não existe nenhum preço
pelo tanto que me amaste.
Agostinho Rodrigues – RJ

Este amor que é meu tormento
bate em casa abandonada;
responde, na voz do vento,
somente o eco – mais nada!
Amaryllis Schloenbach – SP

Das juras que ambos fizemos
sobre a rede a balançar,
belos frutos nós colhemos:
nossas filhas, nosso lar.
Alberto Paco – PR

O tempo voa, bem sei,
nos dias da mocidade;
mostra onde errei e acertei,
tem remorso e tem saudade ...
Almir de Azevedo – RJ

Quando, então, do céu descer
um brilho no teu olhar,
é porque no entardecer
meus sonhos vão te buscar.
André Ricardo – PR

Meus bons anos se passaram,
com a leitura aprendi...
Hoje as letras se apagaram
mas o saber não perdi.
Ari Santos de Campos – SC

A praia é sempre pisada,
mas nos dá grande lição,
pois, mesmo sendo humilhada,
massageia o coração.
Arlene Lima – PR

Tudo em ti pede carinho,
pela graça que tu és...
– Amo o teu corpo inteirinho,
beijável da testa aos pés!
Bruno Pedina Torres – RJ
 

Não prolongues a partida...
Vai... não olhes para trás;
dói bem mais a despedida,
quão mais longa ela se faz!
Carolina Ramos – SP


Enganar que sou feliz
é coisa inútil, porque
meu sorriso triste diz
quanto sofro por você!
Conceição de Assis – MG

A trova não envelhece,
assim é toda a poesia.
É perene como a prece,
imortal a cada dia!
Cônego Telles – PR

Doy un beso agradecida
al árbol que está sembrado.
¡Con su vida nos da vida
aun despúés de ser cortado!
Cristina Olivera Chávez – USA

Um coração que se isola
cava a própria solidão
e não há melhor escola
que o convívio com o irmão.
Dáguima Verônica – MG

Nos momentos mais diversos,
sonho minha vida assim:
– Chuva de rimas e versos,
florindo  trovas em mim!
Delcy Canalles – RS
 

Ser feliz é ser poeta;
mais feliz, só trovador:
ambos, sendo um só esteta,
dizem tudo com amor!
Diamantino Ferreira – RJ

Procure espalhar, na vida,
alegria em sua estrada,
que a alegria dividida
é sempre multiplicada!
Domitilla Borges Beltrame – SP

Uma trova, um poema, um fado...
Quanta beleza se encerra
no meigo arrulho encantado
da língua de nossa terra!
Dorothy Jansson Moretti – SP

Lendo um bom livro, pressinto
que há entre mim e o autor
um sentimento indistinto
que é quase um caso de amor.
Élbea Priscila – SP
 

É tão forte a intensidade
das loucuras da paixão,
que no amor a insanidade
é o que eu chamo de razão!
Elisabeth Souza Cruz – RJ
 

Olho a tapera habitada
e em minha fé me concentro:
– Feita de restos de “nada”!...
e quanta paz tem por dentro!!!
Ercy Marques de Faria – SP

Em silêncio, a noite fria
dorme com a luz do luar...
Comigo dorme a magia
do brilho do teu olhar!
Eva Yanni Garcia – RN

Minha casa é meu cantinho,
onde tudo é natural;
no beiral fizeram ninho
as aves do meu quintal.
Evandro Sarmento – RJ

Gerador de paz e calma,
que dispensa cerimônia,
o livro é o jantar da alma
nas noites claras de insônia.
Flavio Stefani – RS

A solidão me angustia
e à noite aumenta o meu drama,
vendo a cadeira vazia
que a tua ausência reclama!
Francisco Garcia – RN

No coração de quem ama
transborda felicidade,
mas, quem perdeu essa chama
vive a chorar de saudade.
Gasparini Filho – SP

Não julgue alguém pela imagem,
pois muitos fazem de tudo
para esconder na “embalagem”
a falta de conteúdo.
Gérson César Souza – PR

Um mundo melhor... queria,
para deixar aos meus netos,
onde imperasse a alegria
numa transfusão de afetos!
Gislaine Canales – RS

 
No aconchego do regaço,
aquele que aqui chegou
foi trabalhando com os braços
que o progresso semeou.
Hulda Ramos – PR

Debruçado na lagoa,
qual Narciso a se mirar,
pescador jamais enjoa
de sonhar e de pescar...
Jaqueline Machado – RS

Ao conforto acorrentado,
quem se prende corta acesso
ao caminho acidentado
que levaria ao sucesso!
JB Xavier – SP

Por medo de te perder,
não errei – pobre aprendiz!
– Não soube me conceder
o risco de ser feliz...
Jeanette De Cnop – PR

Viva intensamente quem
tem um sonho a ser vivido,
que a saudade sempre vem
atrás de um sonho perdido…
João Costa – RJ

Largo sorriso é o recado
nascido do coração:
aquele abraço apertado
no reencontro com o irmão!
Jorge Fregadolli – PR

Mandando a carta da prece
com destino à Divindade,
quanta gente não se esquece
do envelope da humildade!
José Fabiano – MG

Ontem... florestas... encanto...
flores a desabrochar.
Hoje... pinheiros em pranto,
um grito parado no ar!
José Feldman – PR

A idade, a chegar de manso,
respeitando o meu cansaço,
põe cadeiras de balanço
nas tardes por onde eu passo!
José Ouverney – SP

Partiu, deixando o seu traço
no meu caminho dos sós...
A saudade é esse espaço
que existe sempre entre nós.
José Valdez – SP

Enquanto houver um luar
e um sol cheio de esplendor,
há de se ouvir o cantar
da lira de um trovador!
Lisete Johnson – RS
 

Na pouca pressa que tens
de aliviar minha saudade,
enquanto espero e não vens,
transcorre uma eternidade!
Lucília Decarli – PR

Não foi perto, nem distante
o nosso amor ideal;
nasceu da luz de um instante
e se tornou imortal!
Luiz Carlos Abritta – MG

Na estrada das aventuras
vemos quedas sem guarida,
algumas tão prematuras,
outras no fim da corrida.
Luiz Damo – RS

Na renúncia à própria vida
pra gerar os filhos seus,
uma mãe tem, garantida,
outra vida junto a Deus.
Luiz Hélio Friedrich – PR

Espera... se eu demorar,
quando eu voltar, certamente,
o sonho que eu te sonhar
te habitará... novamente.
Luiz Poeta – RJ

Longe vão minhas andanças
e, em meu trêmulo cansaço,
tento fazer das lembranças
bastão... e assim firmo o passo.
Mª Conceição Fagundes – PR


Qual boca sensual, a onda
beija as areias da praia.
Ao final de cada ronda
volta ao seu leito... e desmaia.
Mª Luíza Walendowski – SC

Retorno ao fim da jornada
e encontro alguém na memória,
que foi noite e madrugada,
que foi fracasso e vitória...
Mª Thereza Cavalheiro – SP

Tenho por certo, em verdade,
bem vivo, embora pungente
que a mais pungente saudade...
é aquela de alguém presente!
Maurício Friedrich – PR
 

Tua amizade aguardei
com muito amor e afeição.
Quando de ti precisei,
fui buscar no coração.
Neiva Fernandes – RJ

Esperar muito da vida,
das pessoas, é ilusão.
É um beco sem saída
que termina em decepção.
Nilsa Alves de Melo – PR

Mira a “boneca” o “pendão”,
que a contempla lá de cima...
– É o milho em fecundação
pra safra que se aproxima!
Olga Agulhon – PR

Verga o galho num lamento
que a noite fria produz
sofre e range com o vento
da tristeza que o conduz.
Renato Frata – PR

Dos instantes devotados
a cada luta vencida,
todos estão retratados
no painel da minha vida.
Roberto Acruche – RJ

O vento, com peraltice,
leva folhas pelo espaço.
Que bom se um dia o sentisse
levando as preces que faço...
Ruth Farah – RJ
 

Quando a inspiração vagueia
à procura de um motivo,
o meu passado passeia
em cada verso que eu vivo.
Selma Patti Spinelli – SP

Seu trabalho, agricultor,
classificam-no “primário”,
mas nada tem mais valor
nem é tão prioritário.
Talita Batista – RJ

A vida não vale nada
se a gente nada produz.
Tanto a pena, quanto a enxada,
abrem veredas de luz!
Thalma Tavares – SP

Os poetas, em repentes,
se unem num elo de luz...
Suas trovas são correntes
de amor, que a todos seduz.
Vanda Alves – PR

É tão vazia a paisagem,
e nem um vulto se vê...
Mas, sem ver qualquer imagem,
consigo enxergar você!
Vanda Fagundes Queiroz – PR
 

Vence valores, de fato,
quando em meio à discussão,
se revolta de imediato,
mas, na ofensa... dá o perdão!!!
Vânia Ennes – PR
 

Somos velhos caminhantes...
a doçura nos invade;
namoricos vão distantes,
fica o flerte da saudade!
Wagner Lopes – MG

Sem outra opção que a rotina
de esperar-te sempre em vão,
minhas noites de neblina
só gotejam solidão...
Wanda Mourthé – MG

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Dáguima Verônica (Grinalda de Haicais) III


Clarice Lispector (Dos palavrões no teatro)

Eu própria não uso palavrões porque na minha casa, na infância, não usavam e habituei-me a me exprimir através de outro linguajar. Mas o palavrão – aquele que expressa o que uma palavra não faria – esse não me choca. Há peças de teatro, como A volta ao lar (Fernanda Montenegro, excelente) ou Dois perdidos numa noite suja (Fauzi Arap e Nélson Xavier, excelentes), que simplesmente não poderiam passar sem o palavrão por causa do ambiente em que se passam e pelo tipo dos personagens. Essas duas peças, por exemplo, são de alta qualidade, e não podem ser restringidas.

Além do mais, quem vai ao teatro em geral já está pelo menos ligeiramente informado, por rumores até, da espécie de espetáculo a que assistirá. Se o palavrão lhe dá mal-estar ou o escandaliza, por que então comprar a entrada? E mais ainda: as peças de teatro têm censura de idade, e o mais comum é só permitir a entrada de menores a partir de dezesseis anos, o que é uma garantia. Embora mesmo antes dessa idade os palavrões sejam conhecidos e usados pela maioria da juventude moderna.

Qual é então o problema que o uso do palavrão adequado a um texto poderia suscitar? E sem falar que, agrade ou não, o palavrão faz parte da língua portuguesa.

Chacrinha?! De tanto falarem em Chacrinha, liguei a televisão para seu programa que me pareceu durar mais que uma hora. E fiquei pasma. Dizem-me que esse programa é atualmente o mais popular. Mas como? O homem tem qualquer coisa de doido, e estou usando a palavra doido no seu verdadeiro sentido. O auditório também cheio. É um programa de calouros, pelo menos o que eu vi. Ocupa a chamada hora nobre da televisão. O homem se veste com roupas loucas, o calouro apresenta o seu número e, se não agrada, a buzina do Chacrinha funciona, despedindo-o. Além do mais, Chacrinha tem algo de sádico: sente-se o prazer que tem em usar a buzina. E suas gracinhas se repetem a todo o instante – falta-lhe imaginação ou ele é obcecado.

E os calouros? Como é deprimente. São de todas as idades. E em todas as idades vê-se a ânsia de aparecer, de se mostrar, de se tornar famoso, mesmo à custa do ridículo ou da humilhação. Vêm velhos até de setenta anos. Com exceções, os calouros são de origem humilde, têm ar de subnutridos. E o auditório aplaude. Há prêmios em dinheiro para os que acertarem através de cartas o número de buzinadas que Chacrinha dará; pelo menos foi assim no programa que vi.

Será pela possibilidade da sorte de ganhar dinheiro, como em loteria, que o programa tem tal popularidade? Ou será por pobreza de espírito de nosso povo? Ou será que os telespectadores têm em si um pouco de sadismo que se compraz no sadismo de Chacrinha? Não entendo. Nossa televisão, com exceções, é pobre, além de superlotada de anúncios.

Mas Chacrinha foi demais. Simplesmente não entendi o fenômeno. E fiquei triste, decepcionada: eu queria um povo mais exigente.

Fonte:
Clarice Lispector. Cronicas de Descoberta do Mundo.

Chuva de Versos n. 461



Uma Trova de Curitiba/PR
Roza de Oliveira

Vai voltar a monarquia?
Que coisa louca de boa…
Isto mesmo é que eu queria:
– Ver no trono uma coroa! 

Um Poema de Pescara/Itália
Gabriele D'Annunzio
(1863 - 1938)
                                                                         
CANÇÃO DE AMORES 

Entoa o mar uma canção de amores
durante o plenilúnio à selva quieta.
Vejo descer do zênite os fulgores
animando a penumbra mais discreta.

Traz o vento gregal frescos olores  
das marítimas águas de Impruneta.
E dou-me às fantasias e aos ardores
dos desejos nostálgicos do poeta.

E mais amante e generoso acento
ouço se alçar do mar. Sons cristalinos
de um lindo nome me repete o vento.

E se perde nos altos diamantinos
um fantasma de vôo manso e lento,
com olhos grandes, ternos e divinos.

Uma Trova Hispânica de México/USA
Cristina Oliveira Chávez

Mis amigos Trovadores
sembradores del amor,
con trovas de mil sabores
hacen un mundo mejor

Um Poema de Florença/Itália
Dante Alighieri
(1265 - 1321)

RETRATO DA AMADA 
Soneto XV da  "Vida Nova"
                                        
Tanto é gentil e tão honesto é o ar
da minha dama, quando aos mais saúda,
que toda a língua de tremor é muda,
e os olhos não se atrevem de a fitar.

E ela perpassa, ouvindo-se louvar,
vestida de humildade e tão sisuda,
que se diria que, do céu transmuda,
à terra veio milagres comprovar.

E é graciosa tanto a quem na mira
que dá dos olhos tal ternura ao seio,
que entendê-la não pode o que a não sente.

E é como se em seus lábios fora ardente
um espírito suave e de amor cheio
que, sem dizê-lo, às almas diz: - Suspira.

Uma Trova de Belém/PA
Sarah Rodrigues

No contraste a dor sentida
dos que não tiveram sorte:
– a morte buscando a vida,
e a vida esperando a morte.

Um Poetrix de Juiz de Fora/MG
Cecy Barbosa Campos

LISBOA

Nas paredes – azulejos,
na solidão – um fado,
um barco nas águas do Tejo.

Um Poema de Florença/Itália
Guido Cavalcanti
(1255 - 1300)

DE TODAS A MELHOR 

Tendes em vós as flores e a verdura,
tudo que luz e é bonito de ver;
resplende mais que o sol vossa figura:
não tem valor quem não nos pode ver.

Não existe no mundo criatura
tão cheia de beleza e de prazer:
quem tem medo de amor, logo o assegura
vosso rosto gentil, de o merecer.

Aquelas que vos fazem companhia,
muito me agradam pelo vosso amor:
e eu lhes peço, por sua cortesia,

que cada qual vos preste honra maior
e tenha apreço a vossa senhoria,
porque vós sois de todas a melhor.

Trovadores que deixaram Saudades
Luiz Otávio
(1916 – 1977) 

Duas vidas todos temos,
muitas vezes sem saber:
– a vida que nós vivemos
e a que sonhamos viver…

Um Poetrix de Porto Alegre/RS
Isiara Caruso

Desmatada 

O machado febril,
desnuda a terra.
Arara desterrada. 

Um Poema de Caprese/Toscana/Itália
Michelangelo di Ludovico Buonarroti Simoni
(1475 - 1564)

POR VOSSOS OLHOS VEJO 
                                                                           
Por vossos olhos vejo a flama que me atrai
e que, cegos, sem vós, os meus jamais veriam;
e, assim, com vossa ajuda, eu venço a longa estrada,
pois estou preso a vós, a vossos ternos passos.

Sem asas, vosso vôo aos astros me conduz;
no azul, o vosso gênio eleva-se em seus braços;
empalideço e coro, ao vosso imenso império
tremendo sob o sol e ardendo sobre a neve.

Minha vontade está em vós, e só em vós;
sem coração, sinto por vosso coração;
se falo, o vosso pensamento fala em mim.

Meu amor, semelhante à vaga luz da lua,
que de si nada tira, é um sonho, um sonho apenas,
um reflexo do sol sobre a fronte da sorte.

Uma Trova Humorística do Rio de Janeiro/RJ
Edmar Japiassú Maia

Se o teu beijo, que inebria,
deixasse os lábios doendo,
o bairro não dormiria
com tanta gente gemendo!… 

Um Poetrix do Rio de Janeiro/RJ
Israel dos Santos

Clave de dó

Ao som do piano
Não mais sorvia
Pausa nem harmonia. 

Um Poema de Arezzo/Itália
Pietro Aretino
(1492 – 1556)

SEM TERMO NEM MEDIDA 

Amemo-nos sem termo nem medida
pois que só para o amor temos nascido...
Vive por nosso amor! - é o meu pedido
pois sem tal bem, que valeria a vida?

E se depois da vida já perdida
ainda se amasse... Eu, tendo já morrido
pediria outro amor, - o bem querido –
para poder seguir gozando a vida.

Gozemos pois, tal como certamente
o primeiro casal no Éden, ao ser
aconselhado assim pela serpente.

Que nos perdemos por amar se diz. ..
Tolice! Outra é a verdade, podes crer:
só quem não ama sente-se infeliz!

Recordando Velhas Canções
Oração de Mãe Menininha
(1972)

Dorival Caymmi

Ai minha mãe
Minha Mãe Menininha
Ai minha mãe
Menininha do Gantois
 A estrela mais linda, hein?
Tá no Gantois
E o sol mais brilhante, hein?
Tá no Gantois
A beleza do mundo, hein?
Tá no Gantois
E a mão da doçura, hein?
Tá no Gantois
O consolo da gente, hein?
Tá no Gantois
E a Oxum mais bonita, hein?
Tá no Gantois

Olorum quem mandou
Essa filha de Oxum
Tomar conta da gente
E de tudo que há
Olorum quem mandou ô ô
Ora iê iê ô...
Ora iê iê ô...
Ora iê iê ô...

     Este “é um canto de amor e amizade que fiz para aquela senhora a quem venero e admiro há tantos anos”, declara Caymmi, que confirma o título da composição às vezes publicado de forma incorreta: “é ‘Oração de Mãe Menininha’, mesmo, assim como o povo costuma dizer ‘oração de Santo Antônio’, ‘oração de São José’...”
     Gravada pelo autor e pelo duo Gal-Bethânia, a canção tornou conhecida no país a figura de Mãe Menininha do Gantois. A propósito, Gantois foi um francês que fez fortuna na Bahia no século XIX. Com a Abolição, ele permitiu que ex-escravos seus, entre os quais ancestrais de Menininha, habitassem uma de suas terras em Salvador, lugar que acabou sendo chamado de Alto do Gantois. Foi ali que nasceu e viveu a famosa mãe-de-santo
Fonte: Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello. A Canção no Tempo. vol.2. 

Uma Trova de Londrina/PR
Cidinha Frigeri

Água pura e cristalina
no meu pote mergulhou…
E como luz que ilumina,
minha sede então saciou… 

Um Poema de Arezzo/Itália
Francesco Petrarca
(1304 - 1374)

NA SEPULTURA DE LAURA 
                       
Rimas dolentes, ide à pedra dura
que o meu caro tesouro em terra esconde;
ali chamai a quem do céu responde,
tendo o corpo mortal na sepultura.

Dizei-lhe que me canso desta escura
viagem num mar que à vida corresponde;
e os ramos recolhendo à murcha fronde,
passo a passo caminho à sua procura.

Nela tão só falando, viva e morta,
antes mais viva já, pois imortal,
por que o mundo a conheça e também ame.

Que a meu breve passar na última porta
atente; venha ao meu encontro e, qual
está no Céu, a si me atraia e chame.

Um Poetrix de Ribatejo/Portugal
Martinho Branco

No gume doce e insaciável das nossas línguas II

Sem estrelas, eclipso-me
no céu da tua boca
amor bilingue…

Uma Trova de Mogi-Guaçu/SP
Olivaldo Junior

No caminho do poeta,
nessa estrada de carinho,
todo ninho tem a meta
de abrigar um passarinho! 

Um Poema de S. Alberto de Ravena/Itália
Stecchetti
(Olindo Guerrini)
(1845 - 1916)

ETERNO AMOR 

Vou morrer, pois que a morte já me espera
para envolver-me em sua treva densa:
e a terra, que se rasga em fauce imensa,
há de tragar-me com furor de fera.

Em volta, refloresce a primavera,
mas eu, como a cumprir minha sentença,
vejo a morte chegar, com a indiferença
de um muro velho sufocado de hera...

No meu sepulcro, a resplender de flores,
pelas tardes serenas se lá fores,
colhê-las, ou beijá-las com temor,

sentirás que os meus ossos, de ansiedade,
aos teus beijos, tão cheios de saudade,
dentro da cova tremerão de amor 

Uma Trova de Mogi-Guaçu/SP
Maria Vanilda Lima

Nas livrarias da vida,
muitas coisas aprendi:
– não ficar tão deprimida
se meu “peixe” não vendi.

Hinos de Cidades Brasileiras
Município de Engenheiro Beltrão/PR

I
Qual a estrela que a história ocultasse
Entra as sombras do velho sertão
Eis agora a esplender sua face
Minha terra Engenheiro Beltrão
Há em seu nome crescente homenagem
Ao herói que este chão desbravou
E no seio da agreste paisagem
Uma nova cidade plantou.

Estribilho

Força viva propulsora
Nosso amor palpita em ti
Nessas glebas promissoras
Que embelezam o Ivaí.
Num porvir que já não tarda
Tua marcha alcançará,
As fileiras da vanguarda
Que honram o Nosso Paraná.

II
Teu progresso é vibrante mensagem
De trabalho, de amor e de fé.
Que mudou a floresta selvagem
Em perene caudal de café.
Pelas dignas mãos dessa gente
Que o teu alto destino conduz
Qual rosário deslizam sementes
Que germinam searas de luz

Estribilho

Força viva propulsora
Nosso amor palpita em ti
Nessas glebas promissoras
Que embelezam o Ivaí.
Num porvir que já não tarda
Tua marcha alcançará,
As fileiras da vanguarda
Que honram o Nosso Paraná.

Um Poetrix de Luanda/Angola
Thomaz Ramalho

Melancolia

Os cotovelos no parapeito da sacada
e o pensamento apoiado
na linha do horizonte.

Um Poema de Florença/Itália
Dante Alighieri
(1265 - 1321)

 “TÃO DISCRETA E GENTIL ”
Soneto XV da "Vida Nova"
                                                
Tão discreta e gentil que me afigura
ao saudar, quando passa, a minha amada,
que a língua não consegue dizer nada
e a fitá-la, o olhar não se aventura.

Ela se vai sentindo-se louvada
envolta de modéstia nobre e pura.
Parece que do céu essa criatura
para atestar milagre foi baixada.

Ao que a contempla infunde tal prazer,
pelos olhos transmite tal dulçor,
que só quem prova pode compreender.

E assim, parece, o seu semblante inspira
um delicado espírito de amor
que vai dizendo ao coração suspira

Uma Trova de Porto Alegre/RS
Delcy Canalles

Quando a tristeza angustia
e a incerteza tira a calma,
faço versos… e a poesia 
toma conta de minha alma!

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to