Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 31 de maio de 2020

Varal de Trovas n. 279


Luís Alberto Saavedra (Revelação)


Ela havia marcado a consulta por telefone naquela manhã e tinha urgência de ser atendida. Eu, para me valorizar, disse a ela que tinha horário de encaixe apenas à tarde (na verdade a minha agenda estava livre desde a manhã). Ela topou.

Chegou pontualmente no horário, Imaginei que tivesse cinquenta e poucos anos, vestida de forma sofisticada e com bom gosto. Tinha um belo sorriso. Em resumo, uma mulher bonita. O seu nome era Catarina.

Apresentações feitas, disse-me que tinha me escolhido por eu ser jovem e, por essa circunstância, esperava que eu pudesse entender melhor seu problema. Deixo de relatar questões mais íntimas da história dessa paciente, por razões óbvias, e me atenho apenas aos aspectos mais gerais, que não expõem sua intimidade. Devo dizer que, desde logo, se estabeleceu uma grande empatia entre mim e ela. Isso é importante e decisivo na construção do vínculo entre terapeuta e paciente.

Com desenvoltura começou narrar sua vida e a razão pela qual tinha vindo ao meu consultório.

- Eu sou uma mulher bem sucedida na minha profissão. Trabalho como gerente de vendas de um grande magazine. Apesar desse fato, na minha vida amorosa nunca tive muita sorte, pois eu me envolvi com homens que traíram a minha confiança. Essas experiências negativas me fizeram uma pessoa desconfiada e insegura. Passei um bom tempo sem ter ninguém. Tinha perdido a esperança.

- Compreendo.

- Há alguns meses conheci um homem maduro, quinze anos mais velho do que eu. Está sozinho. Estamos no início, sei pouco ainda da sua vida. Ele é viúvo. A minha intuição me diz que ele é diferente, até por ser uma pessoa bem sofrida. Cuidou da sua esposa com câncer até o fim. É assim que eu espero que um homem cuide de mim. Ele foi aos poucos conquistando a minha confiança, sem pedir nada em troca. O envolvimento foi acontecendo aos poucos. As minhas barreiras caíram e eu permiti que ele entrasse. Confiei a ele os meus sentimentos e sonhos. Porém, a coisa está ficando mais séria agora e voltou o pânico. Quando ele me convidou para conhecer seus filhos tive um grande susto e por reação impulsiva saí correndo sem me despedir. Depois liguei me desculpando e aceitei o convite.

Nesse ponto começou a chorar e eu lhe alcancei a caixa de lenços de papel.

- Tu sabes a causa desse teu repentino medo? Não estás te sentindo pronta para assumir um compromisso? - perguntei.

- Eu acho que tenho medo de que os filhos dele não me aceitem, pois sei que a mãe deles era muito legal. A minha cabeça está confusa. Não quero tomar o lugar de ninguém! Quero apenas ser uma amiga. - E começou a chorar de novo. Agora soluçando.

- Suponho que os filhos dele sejam adultos e saibam entender o momento da vida do pai. Para eles o importante é que pai esteja feliz. Eles também fizeram livremente suas escolhas. Não é mesmo?

- Acha mesmo isso?

Nesse ponto tivemos que interromper a consulta, pois o horário já tinha ido. Ela se despediu contente, dando-me um abraço efusivo. A nuvem tinha se dissipado.

Saí correndo do consultório para jogar tênis. Depois fui jantar com minha namorada no Barranco. Quando chegamos, vi meu pai numa mesa adiante, nem percebi que estava acompanhado. Como era natural, fomos cumprimentá-lo. Foi um choque, pois ele estava jantando com Catarina, nada mais nada menos, que a minha nova paciente.

Fonte:
Escrita Criativa

Luís Vaz de Camões (Sonetos) 3


Soneto 043

Como quando do mar tempestuoso
o marinheiro, lasso e trabalhado,
d'um naufrágio cruel já salvo a nado,
só ouvir falar nele o faz medroso;

e jura que em que veja bonançoso
o violento mar, e sossegado
não entre nele mais, mas vai, forçado
pelo muito interesse cobiçoso;

Assi, Senhora eu, que da tormenta,
de vossa vista fujo, por salvar me,
jurando de não mais em outra ver me;

minh'alma que de vós nunca se ausenta,
dá me por preço ver vos, faz tornar me
donde fugi tão perto de perder me.
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Soneto 071


Como fizeste, Pórcia, tal ferida?
Foi voluntária, ou foi por inocência?
—Mas foi fazer Amor experiência
se podia sofrer tirar me a vida.

—E com teu próprio sangue te convida
a não pores à vida resistência?
—Ando me acostumando à paciência,
porque o temor a morte não impida.

—Pois porque comes, logo, fogo ardente,
se a ferro te costumas?—Porque ordena
Amor que morra e pene juntamente.

E tens a dor do ferro por pequena?
—Si: que a dor costumada não se sente;
e eu não quero a morte sem a pena.
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Soneto 086

Cara minha inimiga, em cuja mão
pôs meus contentamentos a ventura,
faltou te a ti na terra sepultura,
porque me falte a mim consolação.

Eternamente as águas lograrão
a tua peregrina formosura;
mas, enquanto me a mim a vida dura,
sempre viva em minh'alma te acharão.

E se meus rudes versos podem tanto
que possam prometer te longa história
daquele amor tão puro e verdadeiro,

celebrada serás sempre em meu canto;
porque enquanto no mundo houver memória,
será minha escritura teu letreiro.
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Soneto 093

Conversação doméstica afeiçoa,
ora em forma de boa e sã vontade,
ora de u’a amorosa piedade,
sem olhar qualidade de pessoa.

Se depois, porventura, vos magoa
com desamor e pouca lealdade,
logo vos faz mentira da verdade
o brando Amor, que tudo em si perdoa.

Não são isto que falo conjecturas,
que o pensamento julga na aparência,
por fazer delicadas escrituras.

Metido tenho a mão na consciência,
e não falo senão verdades puras
que me ensinou a viva experiência.
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Soneto 097


Com grandes esperanças já cantei,
com que os deuses no Olimpo conquistara;
depois vim a chorar porque cantara
e agora choro já porque chorei.

Se cuido nas passadas que já dei,
custa-me esta lembrança só tão cara
que a dor de ver as mágoas que passara
tenho pela ‘mor mágoa que passei.

Pois logo, se está claro que um tormento
dá causa que outro n'alma se acrescente,
já nunca posso ter contentamento.

Mas esta fantasia se me mente?
Oh! ocioso e cego pensamento!
Ainda eu imagino em ser contente?
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Soneto 104


Correm turvas as águas deste rio,
que as do Céu e as do monte as enturvaram;
os campos florecidos se secaram,
intratável se fez o vale, e frio.

Passou o Verão, passou o ardente Estio,
u’as coisas por outras se trocaram;
os fementidos Fados já deixaram
do mundo o regimento, ou desvario.

Tem o tempo sua ordem já sabida;
o mundo, não; mas anda tão confuso,
que parece que dele Deus se esquece.

Casos, opiniões, natura e uso
fazem que nos pareça desta vida
que não há nela mais que o que parece.
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Soneto 159


Chorai, Ninfas, os fados poderosos
daquela soberana formosura!
Onde foram parar na sepultura
aqueles reais olhos graciosos?

Ó bens do mundo, falsos e enganosos!
Que mágoas para ouvir! Que tal figura
jaza sem resplendor na terra dura,
com tal rosto e cabelos tão formosos!

Das outras que será, pois poder teve
a morte sobre coisa tanto bela
que ela eclipsava a luz do claro dia?

Mas o mundo não era dino dela,
por isso mais na terra não esteve;
ao Céu subiu, que já se lhe devia.

Fonte:
Luís Vaz de Camões. Sonetos. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro.

Sílvio Romero (A Princesa Roubadeira)


Havia um pai que tinha três filhos. Um deles plantou um pé de laranjeira, outro um pé de limeira, e o terceiro um pé de limoeiro.

Lá num dia, o filho mais velho foi ao pai e lhe disse:

— Meu pai, eu já estou moço feito. Quero sair pelo mundo para ganhar a minha vida.

O pai o aconselhou para não fazer aquilo, mas o moço insistiu e afinal o velho lhe disse:

— Pois bem, meu filho, vai, mas tu que queres: a minha bênção com pouco dinheiro, ou a minha maldição com muito?

O moço respondeu que queria a maldição com muito dinheiro e assim o pai fez. O moço disse aos irmãos que quando a sua laranjeira começasse a murchar, era ele que estava em trabalhos e lhe acudissem. Partiu.

Chegando adiante, já muito cansado e com muita fome, avistou uma fumacinha ao longe e para lá se encaminhou. Era a casa de uma senhora muito rica. Pediu um agasalho e o que comer. A senhora mandou dar-lhe de jantar.

Acabada a janta, o convidou para dar um passeio em sua horta. Antes de chegar a ela, tinha de passar um riachinho. Aí a moça, que era a princesa roubadeira, suspendeu bastante o vestido a ponto de deixar ver um tanto das pernas. Passeavam na tal horta, que só tinha couves e mais nada. De volta, a princesa perguntou ao hóspede:

— Então, o que achou mais bonito na minha horta?

Ele respondeu:

— Couves.

A moça convidou-o depois para o jogo, no qual lhe ganhou todo o dinheiro que levava. Acabado o jogo, mandou-o prender e sustentar de couves.

Lá em casa do moço, a sua laranjeira começou a murchar. O irmão do meio, vendo isto, foi ao paí e disse:

— Meu pai, meu irmão está em trabalhos. Eu quero ir atrás dele.

O pai custou muito a consentir e afinal perguntou:

— Tu o que queres: a minha bênção com pouco dinheiro ou a minha maldição com muito dinheiro?

Ele quis a maldição com muito dinheiro. O pai assim fez. O moço partiu.

Depois de andar muito, já cansado e com fome, avistou ao longe uma fumacinha e caminhou para ela. Apareceu-lhe, num palácio, uma linda moça, a qual ele pediu de comer e um agasalho. Ela mandou-o entrar e servir-lhe de jantar. Depois convidou-o para dar um passeio na horta e ele aceitou. Ao passar o riachinho a princesa suspendeu os vestidos, deixando ver as pernas. De volta, ela perguntou ao hóspede:

— Então, o que viu de mais bonito em minha horta?

Ele respondeu:

— Couves.

Lá consigo a moça disse: "Este é como o outro". Convidou-o para jogar. Ganhou-lhe todo o dinheiro e mandou-o prender e cevar de couves.

Lá na casa dele a limeira começou a murchar, e o irmão mais moço, vendo isto, foi ao pai e disse-lhe:

— Meus irmãos, que foram ganhar a vida, estão em perigo e eu quero ir ao seu encontro.

O pai observou:

— Meu filho, eu já estou velho, e sendo tu o meu filho único, não te vás também embora.

O moço insistiu e o pai lhe falou:

— Então o que queres: minha maldição com muito dinheiro ou minha bênção com pouco?

O filho respondeu:

— A bênção com pouco dinheiro.

Partiu. Chegando bem longe, encontrou uma velhinha, que era Nossa Senhora, que lhe disse:

— Aonde vai, meu netinho?

Ao que respondeu:

— Vou ganhar a minha vida.

A velha lhe deu uma toalha, dizendo:

— Quando tiveres fome, pega nela e diz: "Põe a mesa, toalha!" e a mesa aparecerá.

Deu-lhe mais uma bolsa, dizendo:

— Esta bolsa tem o mesmo préstimo.

Deu também uma violinha, dizendo:

— Quando se acabar a toalha e a bolsa, põe-te a tocar nela e não hás de ter fome.

O moço seguiu o seu caminho. Ao longe avistou uma fumacinha e dirigiu-se para lá. Foi ter a uma casa onde estavam presos os seus dois irmãos. Aí descansou e jantou. A princesa roubadeira o convidou para dar um passeio na sua horta. O moço aceitou e foram. Ao passar o riachinho, a linda moça levantou os vestidos e mostrou as pernas quase todas. O moço botou os olhos com cuidado. De volta, a princesa perguntou-lhe:

— Então, o que viste mais bonito em minha horta?

— Com licença da senhora, foram as suas pernas.

Lá consigo disse a moça: "Este me serve". Seguiu-se o jogo em que ela lhe ganhou todo o dinheiro e mandou-o prender. Quando chegou a hora de dar de comer aos presos, indo a negra com a comida para ele, não a quis, dizendo:

— Leve lá à sua senhora, que eu não preciso dela.

Pegou na toalha e foi muita comida que apareceu logo. Os presos todos, que eram muitos, e que andavam mortos de fome, comeram a fartar-se e guardaram muita comida. A negra, vendo aquilo, foi ter com a senhora e lhe disse:

— Não sabe, minha senhora?! Aquele preso de ontem tem uma toalha que basta ele pegar nela para aparecer muita comida e da melhor. Só vosmecê é que devia possuir aquela toalha, minha senhora princesa.

A princesa roubadeira disse à negra:

— Vai perguntar se ele a quer vender.

A escrava foi, e o preso respondeu:

— Diga à sua senhora que para ela não é nada. Basta que me deixe dormir uma noite na porta do quarto dela do lado de fora.

A escrava levou o recado. A senhora tomou aquilo por grande desaforo, mas a negra lhe disse que não desse atenção àquilo, que não queria dizer nada e ela ficaria com a sua toalha. No dia seguinte, ao levar o almoço, não o quis, e puxou pela bolsa e foi comida por cima do tempo. A negra, que via aquilo, correu e foi contar à senhora:

— Não sabe, princesa minha senhora?! O preso está terrível. Puxou agora por uma bolsa que só vosmecê possuindo... É melhor que a toalha.

A ambiciosa mandou oferecer compra pela bolsa. O preso lhe mandou dizer que para ela não era nada. bastava deixá-lo dormir no seu quarto do lado de dentro, junto da porta. A roubadeira ficou muito insultada e pôs-se a rosnar. Foi preciso que a escrava lhe dissesse:

— Ô xente! minha senhora, que mal faz? Vosmecê dorme em sua cama e aquele tolo lá no chão.

Fez-se o negócio e o maganão dormiu dentro do quarto da princesa. No dia seguinte, indo a negra levar o almoço, ele puxou pela viola e pôs-se a tocar e todos os presos a dançar, e a negra largou os pratos no chão e pôs-se também a dançar, e demorou-se muito, a ponto da roubadeira mandar chamar a negra, admirada daquela demora. A preta lhe respondeu:

— Minha senhora, aquele preso está com o diabo. Tem agora uma violinha que só vosmecê possuindo...

A princesa mandou logo oferecer dinheiro por ela; o preso não quis, dizendo:

— Esta... só se ela casar comigo!

A negra foi dar o recado. A moça arrufou-se, mas afinal consentiu e casou-se. Depois disto todos os presos foram soltos. Houve muita festa. Eu lá estive (diz a narradora) e trouxe uma panelinha de doce, que caiu ali na ladeira.

Entrou por uma porta
Saiu por um canivete
Manda o rei, meu senhor
Que me conte sete.

Fonte:
Sílvio Romero, Folclore brasileiro; cantos e contos populares do Brasil. RJ: José Olympio, 1954.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Varal de Trovas n. 278


Cláudio de Cápua (Tudo pela Literatura)


Após o jantar em casa, Norberto encaminhou-se para sua mesa de trabalho, onde, aborrecido, ficou contemplando as folhas brancas de sulfite.

Às vezes, desviava o olhar para as estantes que o rodeavam, repletas de livros.

Andréa tocava, ao lado, uma suave sonata.

- Com mil demônios! bradou Norberto - Não consigo!

- Que há, querido? Perguntou Andréa, parando de tocar.

- Estou estressado, não consigo escrever minha crônica para o periódico.

Andréa abandonou o piano e foi sentar-se ao lado do marido.

Norberto confidenciou-lhe que, após escrever dez anos, diariamente, para o jornal, não encontrava, por mais que procurasse, o tema para seu artigo.

- Acho que estou precisando descansar...tirar umas férias.

Já focalizara recordações da infância e dos tempos de juventude na faculdade, assim como histórias e casos de família. Mas, agora, por mais que forçasse a memória, nada conseguia.

- Querida, as pessoas possuem alguns casos reais, experiências adquiridas no dia a dia, mesmo você que é um anjo de bondade e um talento musical, não teria, talvez algum episódio que pudesse me ajudar a fugir desse sufoco profissional?

Andréa concordou, com um sorriso:

- Casei-me com você porque o amei e continuo com você, porque o amo - essa é a minha história.

- Querida, você é gentil, mas eu falo do antes de mim, antes dos seus 21 anos. Veja se me entende, quero torná-la minha colaboradora. Afinal, seja lá o que haja acontecido antes de mim, não me importa!

Ante tais argumentos, Andréa capitulou:

- Está bem, entendo os nobres interesses da literatura. Vou contar-lhe um fato anterior ao nosso relacionamento mas, por favor, não me interrompa... caso contrário, não irei até o fim.
    Fui apaixonada por mais de 3 anos...Não feche a cara. Era uma paixão louca, de jovem. Não um caso sério, de amor, como o nosso.

- Continue!

- Não sei, estou envergonhada...

- Continue.

- Querido, essa confissão é um sacrifício que faço para ajudar. O maestro Sílvio, meu professor de piano, era casado e eu queria, a toda força, separá-lo da Leonor. Se hoje sou boa, naquela época fui má. Como você sabe, o primo Antenor era e é grande conquistador e eu procurei aproximar o primo da Leonor e ele acabou por seduzi-la. Atingi meu objetivo que era a destruição daquela feliz união.

- Chega de infâmia! gritou Norberto - Você foi capaz de tal canalhice?

Andréa olhou o marido e riu com ternura.

- Claro que não, nunca existiu em minha vida um Sílvio, professor de piano, e muito menos a seduzida Leonor, foi tudo armação, tudo por você e pela literatura.

No domingo, Norberto indagou ao sogro, com naturalidade, durante o almoço:

- Dr. Celso, que fim levou aquele maestro, que dava aulas particulares de piano para Andréa em solteira?

- Silvano e a esposa Leontina, disse-lhe o sogro, tinham ficado muito amigos de Andréa e do meu sobrinho Antenor, mas, de repente, sumiram e, mais tarde, fiquei sabendo que o casal se havia separado.

Norberto empalideceu, enquanto Andréa, com voz macia, lhe dizia ao ouvido.

- Querido, não vai acreditar, vai? Foi tudo pela literatura.

(Revista Santos Arte e Cultura – Março 2009)

Fonte:
Cláudio de Cápua. Retalhos de Imprensa. São Paulo: EditorAção, 2020.
Livro gentilmente enviado pelo escritor.

Nilton da Costa Teixeira (Os Sacis)


Os trilhos das estradas onde ainda hoje correm remanescentes dos trens de ferro das Cias. Mojiana e São Paulo e Minas estão sendo retirados e transferência de todo o acervo dessas cias. passando as suas estações a funcionarem no bairro do Tanquinho, local onde já se inicia o movimento de trens na nova estação ferroviária. Ambas as estações do centro estão praticamente desertas e os leitos das mesmas que se localizam na parte central, acham-se abandonados e as partes mais longínquas despovoadas e tristes... Algumas taperas já se desmantelando moldam o correr do caminho e dão ao cenário um aspecto lúgubre... Várias cruzes lúgubres plantadas aqui e ali testemunham vinganças que existiam em épocas já perdidas no tempo. Os caminhos íngremes, sinuosos e cobertos de matos, são agora, segundo a crendice popular, palcos de habitações de assombrações e sacis de risos convulsos e escaninhos e de assobios estridentes e profundos. Nesse local também existem almas penadas de choros e lamentos dolentes que causam estranhas sensações assustando o caminhante despreocupado que passa em horas tardias e mortas...

No caminho sinuoso e em triste escuridão,
Há sombras que sutis se emergem e amedrontam,
E o caminhante, indo em tristonha solidão,
Vê perspectivas más que sempre lhe despontam...

Esses caminhos trens de ferro transitam,
E agora o caminhante aí, noites escuras,
Vê sempre esgueirar- entre os vagões que ficaram
Um negrinho a saltar e fazer diabruras.

As cambalhotas, sobre uma perna, fugaz,
Assusta o caminhante e segue em disparada,
Pulando a gargalhar satânico e mordaz,
Deixando quem o vê estático na estrada...

Assobios toda a noite se sucedem,
E, ruidosamente, há alguém que sempre ri,
Enquanto vozes já exaltadas perseguem
quem á noite tiver que transitar aí.

Em grande vozerio e aos gritos de terror,
As chusmas de sacis, em um vaivém constante,
Produzem algazarra e fazem tal clamor
Que acabam por prostrar o pobre viandante.

Fonte:
Nilton da Costa Teixeira. Versos a Ribeirão Preto, 1970.
Enviado por Nilton Manoel Teixeira

Malba Tahan (O Sábio da Efelogia)


Durante a última excursão que fiz a Marrocos, encontrei um dos tipos mais curiosos que tenho visto em minha vida.

Conheci-o, casualmente, no velho hotel de Yazid El-Kedim, em Marrakesh. Era um homem alto, magro, de barbas pretas e olhos escuros; vestia sempre pesadíssimo casaco de astracã com esquisita gola de peles que lhe chegava até às orelhas. Falava pouco; quando conversava casualmente com os outros hóspedes, não fazia, em caso algum, a menor referência à sua vida ou ao seu passado. Deixava, porém, de vez em quando, escapar observações eruditas, denotadoras de grande, extraordinário saber.

Além do nome — Vladimir Kolievich — pouco se conhecia dele. Entre os viajantes que se achavam em “El-Kedim” constava que o misterioso cavalheiro era um antigo notável professor da Universidade de Riga, que vivia foragido por ter tomado parte numa revolução contra o governo da Letônia.

Uma noite estávamos, como de costume, reunidos na sala de jantar quando uma jovem escritora russa, Sônia Baliakine, que se entretinha com a leitura de um romance, me perguntou:

— Sabe o senhor onde fica o rio Falgu?

— O quê? rio Falgu?

Ao cabo de alguns momentos de baldada pesquisa, nos caminhos da memória, fui obrigado a confessar a minha ignorância, lamentável nesse ponto, nunca tinha ouvido falar em semelhante rio, apesar de ter feito um curso completo e distinto na Universidade de Moscou.

Com surpresa de todos, o misterioso Vladimir Kolievich, que fumava em silêncio a um canto, veio esclarecer a dúvida da encantadora excursionista russa.

— O rio Falgu fica nas proximidades da cidade de Gaya na Índia. Para os budistas o Falgu é um rio sagrado, pois foi junto a ele que Buda, fundador da grande religião, recebeu a inspiração de Deus!

E, diante da admiração geral dos hóspedes, aquele cavalheiro, habitualmente taciturno e
concentrado, continuou:

— É muito curioso o rio Falgu. O seu leito apresenta-se coberto de areia; parece eternamente seco, árido, como um deserto. O viajante que dele se aproxima não vê nem ouve o menor rumor do líquido. Cavando-se, porém, alguns palmos na areia, encontra-se um lençol de água pura e límpida.

E, com simplicidade e clareza peculiares aos grandes sábios, passou a contar-nos coisas curiosas, não só da Índia, como de várias outras partes do mundo: falou-nos, por exemplo, minuciosamente, das “filazenes”, espécie de cadeiras em que se assentam, quando viajam, os habitantes de Madagáscar.

— Que grande talento! Que invejável cultura científica! segredou, a meu lado, um missionário católico, sinceramente admirado.

A formosa Sônia afirmou que encontrara referência ao rio Falgu exatamente no livro que estava lendo, uma obra de Otávio Feuillet.

— Ah! Feuillet, o célebre romancista francês! — atalhou ainda o erudito cavalheiro do astracã — Otávio Feuillet nasceu em 1821 e morreu em 1890. As suas obras, de um romantismo um pouco exagerado, são notáveis pela finura das observações e pela concisão e brilho do estilo!

E, durante algum tempo, prendeu a atenção de todos, discorrendo sobre Otávio Feuillet, sobre a França e sobre os escritores franceses. Ao referir-se aos romances realistas, citou as obras de Gustavo Flaubert: Salambô, Madame Bovary, Educação Sentimental...

— Não se limita a conhecer só a Geografia — acrescentou, a meia voz, o velho missionário. — Sabe também literatura a fundo!

Realmente. A precisão com que o erudito Vladimir citava datas e nomes e a segurança com que expunha os diversos assuntos não deixavam dúvida alguma sobre a extensão de seu considerável saber.

Nesse momento, começa uma forte ventania. As janelas e portas batem com violência. Alguns excursionistas, que se achavam na sala, mostraram-se assustados.

— Não tenham medo — acudiu, bondoso, o extraordinário Kolievich. — Não há motivo para temores e receios. Faye, o grande astrônomo, que estudou a teoria dos ciclones...

E depois de discorrer longamente sobre a obra de Faye passou a falar, com grande loquacidade, dos ciclones, avalanchas, erupções e de todos os flagelos da natureza.

Senti-me seriamente intrigado. Quem seria, afinal, aquele homem tão sábio, de rara e copiosa erudição, que se deixava ficar modesto, incógnito, como simples aventureiro, numa velha e monótona cidade marroquina?

No dia seguinte, ao regressar da fatigante excursão aos jardins de El-Menara, encontrei-o casualmente, sozinho, no pátio da linda mesquita de Kasb. Não me contive e fui ter com ele.

— O senhor maravilhou-nos ontem com o seu saber — confessei respeitoso. — Não podíamos imaginar, com franqueza, que fosse um homem de tão grande cultura. Na sua Academia, com certeza...

— Qual, meu amigo! — obtemperou ele, amável, batendo-me no ombro — Não me considere um sábio, um acadêmico ou um professor. Eu pouco sei — ou melhor — eu nada sei. Não reparou nas palavras de que tratei? Falgu, filazenes, Feuillet, França, Flaubert, Faye, flagelo. Começam todas pela letra “F”! Eu só sei falar sobre palavras que começam pela letra “F”!

Fiquei ainda mais admirado. Qual seria a razão de tão curiosa extravagância no saber?

— Eu lhe explico — acudiu com bom humor o estranho viajante. — Sou natural de Petrogrado, e vivo do comércio do fumo. Estive, porém, por motivos políticos, durante dez anos nas prisões da Sibéria. O condenado que me havia precedido, na cela, em que me puseram, deixou-me como herança, os restos de uma velha enciclopédia francesa. Eu conhecia pouco esse idioma, e — como não tivesse em que me ocupar — li e reli, centenas de vezes, as páginas que possuía. Eram todas da letra “F”. Desde então fiquei sabendo muita coisa, tudo, porém, sem sair da letra “F”: fá, fabagela, fabela, fabiana, fabordão.

Achei curiosa aquela conclusão da original história do inteligente Kolievich — o negociante de fumo.

Ele era precisamente o contrário do famoso e venerado rio Falgu, da Índia. Parecia possuir uma corrente enorme, profunda e tumultuosa de saber; entretanto, sua erudição, que nos causara tanto assombro, não ia além dos vários capítulos decorados da letra “F” de uma velha enciclopédia.

Era, inquestionavelmente, o homem que mais conhecia a ciência que ele mesmo denominara “Efelogia”!

Fonte:
Malba Tahan. O Gato do Xeique e Outras Lendas.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Varal de Trovas n. 277


Rachel de Queiroz (Falar e Escrever)


AGORA MUITO SE DISCUTE a linguagem, ou antes, a falta de linguagem dos jovens, que não falam nem escrevem e ninguém sabe como se comunicam — queixam-se os mestres deles e os entendidos em geral. Ora, talvez se comuniquem por grunhidos e acenos como os chimpanzés, ou por um curto vocabulário de nomes e verbos elementares, como os aborígenes australianos.

A crise é ameaçadora principalmente para nós que da palavra escrita e falada tiramos o nosso pão de cada dia. Mas os meninos — eles — não se queixam. A privação ou pobreza linguística evidentemente não os afeta nem lhes tira a alegria, nem sequer lhes dá complexo de inferioridade perante os mais articulados. Ou, se de alguma coisa se queixam, é de que a falação em torno já está um saco, pô!

A verdade é que nós, os adultos da velha geração, temos que nos conformar com o fato concreto de que as gentis artes da fala e da escrita estão em triste decadência nesta idade do mundo, e a tendência é a situação ficar cada vez pior. E não digo escrita me referindo só ao ato intelectual de botar pensamentos no papel, mas ao ato material de desenhar caracteres, de riscar letras compondo sílabas, palavras e frases, Ninguém tem mais letra, que dirá boa letra, A escrita dos jovens é um arranhar sumário de riscos ilegíveis, que os professores aceitam porque. naturalmente, se cansariam de lutar. Os trabalhos escolares dos meus netos, por exemplo, os poucos que já vi, se eu fosse professora deles punha os dois de penitência, copiando cada letra do ABC vinte mil vezes pelo menos. Mas, como me argumentou o mais novo, toda função sem uso tende a desaparecer e, com a escrita mecânica, a letra de mão não tem mais uso. “Você por caso escreve alguma coisa à mão? Pô.” O melhor, pois, será dar a eles uma máquina assim que se alfabetizarem, ensinar datilografia em vez de caligrafia e não se fala mais no assunto.

Quanto ao discurso e à redação não acho, como li num articulista, que os jovens repelem as nossas formas peremptórias de linguagem, já que nós não escrevemos como se fala. Essa não. Nós, os da minha geração, escrevemos como falamos, ou o mais aproximadamente possível. Quem escreve difícil e arrevesado e ininteligível é a geração meio termo, que ronda os trinta e os quarenta anos, querendo passar por nova, imbuída de tecnicismos, fazendo questão de mostrar cultura pelo uso de palavras raras, ou inventadas, ou mal traduzidas e em geral grotescas.

É entre eles e os muito jovens que se abre o tal vácuo de linguagem; e é contra eles que se insurgem os meninos, no que fazem muito bem. Os jornais e revistas vivem encaroçados de bobagens do pessoal da suposta intelligentsia, um abominável jargão que propriamente não quer dizer nada, e que poderia ser vertido em linguagem comum e bonita, sem o menor prejuízo, antes com lucro. E desses espúrios vocabulários hoje em uso, o pior, me parece, é o falar metido a psicológico ou psicoanalítico; eles não dizem que namoram ou vivem com uma pessoa, mas que “têm relacionamento”; se alguém os oprime ficam castrados (gostam muito da ideia: mãe carrasca é castradora, decepção é castrante, reprimir-se é castrar-se). Falta de educação é agredir, sujeito tímido tem bloqueio, a moça se joga nua da janela porque está carente, quem não se envergonha do que faz se assume. Aliás, fazer análise é o grande sarro, não há vedetinha nem subgalã de novela que não dependa do seu analista, nem há estrela que se respeita que não confesse pelo menos de dez a cinco anos de análise. Análise dá status, e status é uma das palavras mais em moda.

Assim, os meninos que ainda não estão contaminados pelo gongorismo tecnocrático dos seus pais, irmãos mais velhos e professores reagem como podem, reduzindo o seu falar às palavras de quatro letras e aos monossílabos elementares. E por isso mesmo eu não fico apreensiva quanto a essa inarticulação dos muito jovens, antes a encaro como reação natural ao intolerável e vazio pedantismo dos que lhes são imediatamente mais velhos pais, irmãos e professores. (Ah… os professores de ‘‘Comunicação  e Expressão’’, que é a velha gramática em novos termos!)

Talvez dessa recusa os meninos saíam para uma linguagem nova, ríspida e expressiva; à medida em que forem se desenvolvendo, terão necessidade de se exprimir melhor e criarão, ou recriarão, a linguagem necessária ao seu tempo e aos seus sentimentos, livres da enxurrada de bobagens festivas dos preciosos ridículos desta década. E nós, os avós que ainda estivermos vivos, estaremos às ordens para aplaudir e comemorar a rebelião linguística dos meninos; e até a auxiliá-los com alguns arcaísmos úteis, que os pernósticos de entre nós e eles terão posto fora de uso.

Fonte:
Rachel de Queiroz. As Menininhas e outras crônicas. RJ: J. Olympio, 1976.

Paulo Leminski (Versos Diversos) 1


quem é vivo
aparece sempre
no momento errado
para dizer presente
onde não foi chamado
****************************************

tem quem se proteja
por trás
de uma barragem
de bons dias
boas tardes
boas noites
assim não tendo
que ver o que está passando
****************************************

Achar
a porta que esqueceram de fechar.
O beco com saída.
A porta sem chave.
A vida.
****************************************

O tempo fica
cada vez
mais lento
e eu
lendo
lendo
lendo
vou acabar
virando lenda
****************************************

um dia desses quero ser
um grande poeta inglês
do século passado
dizer
ó céu ó mar ó clã ó destino
lutar na índia em 1866
e sumir num naufrágio clandestino
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contranarciso

em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós
****************************************

sobre a mesa vazia
abro a toalha limpa
a mente tranquila
palavra mais linda

aqui se acaba
a noite mais braba
a que não queria
virar puro dia

somos um outro
um deus, enfim,
está conosco
****************************************

cesta feira

oxalá estejam limpas
as roupas brancas de sexta
as roupas brancas da cesta

oxalá teu dia de festa
cesta cheia
feito uma lua
toda feita de lua cheia

no branco
lindo
teu amor
teu ódio
tremeluzindo
se manifesta

tua pompa
tanta festa
tanta roupa
na cesta
cheia
de sexta

oxalá estejam limpas
as roupas brancas de sexta
oxalá teu dia de festa

Fonte:
Paulo Leminski. Toda Poesia.

Aparecido Raimundo de Souza (Bico de Adagas)




O APARTAMENTO DEFRONTE AO QUE BANANÔNCIO MORA possui duas campainhas distintas. Uma delas tem uma tampinha cinza e o buraco redondo com duas pernas de fios soltas. Quando chega alguém querendo falar com o morador, que, diga-se de passagem, nunca ninguém viu nem mais gordo, nem mais magro, existe, abaixo do olho mágico da porta uma caixinha dessas modernas, ou melhor, a campainha de verdade para que seja comprimida e, uma vez acionada, alerte o residente de que há gente do lado de fora. Sempre que pinta uma viva alma no pedaço, Bananôncio fica sabendo, não porque bisbilhote o tempo todo, longe disso. Simplesmente o alarme sonoro do subir e descer do elevador dispara um “plim” igual ao da Globo, e corroborando a atitude desse mecanismo, as dobradiças enferrujadas da velha engenhoca rangem desesperadamente.

Nessas ocasiões, o rapaz aproveita para explorar, claro, pelo visor da sua própria entrada e ver quem é a visita que anda à cata do vizinho misterioso. Curiosidade de quem não tem o que fazer, a não ser esperar passar os dias lendo um romance, vendo televisão e aguardando o INSS, todo final de mês, depositar na sua conta bancária a aposentadoria conseguida em decorrência de um acidente acontecido há um ano, quando um pesado cachorro que vivia na cobertura de seu prédio (e até hoje, não ficou bem esclarecido) despencou doze andares e veio com tudo, para baixo, caindo exatamente sobre seus costados. Fora essa lembrança amarga, espreitar quem bate no vizinho passou a ser um bom exercício para ajudar a passar o tempo e fugir da rotina. Bananôncio se depara, nessas ocasiões, com as situações mais engraçadas e inusitadas possíveis. Dias atrás uma moça loira, bem vestida, procurava pelo botãozinho da campainha. Ela não viu diante de si a caixinha, abaixo do olho mágico e, por essa razão, começou a futucar, na esperança de enfiar um dos dedos no buraco da tampinha cinza e juntar os fios. Os dedos não ajudaram em nada.

Talvez fossem os anéis que atrapalhassem. Quem sabe a cor dos cabelos. Em seguida ela introduziu o polegar e o indicador com o objetivo de a qualquer custo fazer funcionar a geringonça. Puro fiasco. Saiu furiosa, cuspindo marimbondos.

Não foi diferente com um cidadão baixinho, aparentando uns quarenta anos, de chapéu na cabeça e uma bolsa dessas 007. O infeliz chegou ao cúmulo de, a certa altura das frustradas tentativas, meter a cara no olho mágico com a finalidade de ver se pastorava alguma coisa dentro da peça. Também teve problemas com os cordéis. Pelo visto, e pelo ar desagradável que fechou em seu rosto, deve ter tomado um tremendo de um choque. Desistiu, pois, da empreitada. Resmungando cobras e lagartos, deu meia volta e desapareceu.

Bananôncio chegou à conclusão que as pessoas, de um modo geral são levadas ao grotesco, e expostas ao ridículo por pura comodidade. Ninguém para, por alguns instantes, com a intenção de analisar o que está posto e visível diante do nariz. E pensar numa solução simples, que culmine num resultado rápido e prático. Às vezes, um problema insignificante, de finalização gritante e à vista, está logo ali, atropelando, esmagando, instigando, como se fosse uma cobra prestes a dar o bote. Todavia, a pressa, aliada à azáfama e à afobação, juntas, de mãos dadas, com a velha burrice derramam tudo a perder.

O incrível e cômico na história: quem quer que chegue logo se vê às voltas com os atalhos da campainha. Talvez, no fundo, seja essa a verdadeira intenção do dono do apartamento. Dar choque nos chatos que não desistem de vir até ali perturbar o seu sossego. O engraçado morador deve rir muito e se divertir um bocado. De qualquer forma, esse vizinho de Bananôncio não quer, decididamente, ser incomodado por ninguém. Ora, se não quer ser molestado, por que então fornece o endereço de seu domicílio?

Desse, por exemplo, o de uma tia, ou o de um amigo, ou da pizzaria logo ali na esquina, a menos de duzentos metros e preservasse a sua privacidade com unhas e dentes, não com fios desencapados. Mas os trocinhos do nariz sonoro daquela campainha, soltos, de certa forma instigam a atenção dos que acampam, de repente, diante da entrada do elemento, seja com pressa, suando em bicas, ou porque tenham outros afazeres a serem cumpridos, além daquele de estar ali. Pelo sim, pelo não, todos os que zanzaram até agora pelo corredor imenso, se olvidaram de atentar para os mínimos detalhes e de apertar o botãozinho correto, logo abaixo do olho de visão.

Bananôncio percebeu, e não só percebeu, aprendeu e muito com suas olhadelas clandestinas. Concluiu que cada pessoa reage de uma maneira diferente. Uns destratam, afrontam, espinafram, xingam. Outros fazem caretas, olham para todos os lados, desconfiados. Teve um visitante que, inconformado, se deu ao trabalho de urinar no pé da porta, e depois, seguir seu caminho. As mulheres, em meio a essa confusão são as mais interessantes de ser reparadas. Elas se ajeitam antes. Penteiam os cabelos, retocam a maquiagem, renovam o batom dos lábios num cunho estritamente ligado a favor da boa elegância. Os homens são menos exigentes com a aparência. Só corrigem o nó da gravata, os óculos, ou dão uma batida discreta, com uma das mãos no paletó para afastar algum pozinho ou cisco que, por ventura, tenha grudado. No geral, pensam em tudo, esses ilustres turistas, todavia se esquecem do mais comum e corriqueiro: apertar o botãozinho da segunda campainha, logo abaixo do olho mágico, ou por outra, de baterem suavemente com os nós dos dedos produzindo um leve e quase inaudível toc, toc na porta sisuda, carrancuda e silenciosa, parada, estática, sem vida, bem ali, diante de suas imperturbáveis imbecilidades.

Fonte:
Aparecido Raimundo de Souza. As mentiras que as mulheres gostam de ouvir. Rio de Janeiro: Editora AMC Guedes, 2013

domingo, 24 de maio de 2020

Varal de Trovas n. 276


Contos e Lendas do Brasil (Os Músicos Prosas)

Havia numa terra de Minas dois músicos, afamados clarinetistas. Ninguém podia com eles. Por isso mesmo, eram rivais e andavam sempre de rusgas. Pertenciam a bandas diferentes e seus admiradores constituíam-se em partidos.

Certa vez encontraram-se na rua e puseram-se a conversar. É que de mal, de mal mesmo, nunca chegaram a ficar. Sustentavam sempre boa política.

Um deles gabou-se:

— Há poucos dias, toquei numa festa do Senhor dos Passos em certa cidade e quando saiu a procissão a banda tocava um dobrado tão lindo que meti a clarineta na boca, seu compadre, com um gosto... Todo mundo me admirava e já nenhum outro instrumento sobressaía. Dali a pouco, viu-se o Senhor dos Passos mover-se no andor e como quis subir ao céu, embalado pelo sons que saiam da minha clarineta. Os padres, as irmandades, o povo, tudo estava voltado para mim e de boca aberta, diante daquele milagre. Foi preciso parar o dobrado para que a procissão continuasse a marcha e o Senhor dos Passos ficasse quieto no andor!

O outro músico ouviu com toda paciência a maranha do rival. Depois, pegando a palavra, saiu-se com esta:

— Isso é nada, compadre, em comparação com o que se deu comigo na mesma cidade de que você falou. Fui tocar no enterro de um graúdo. Gente que não acabava mais. Começamos uma marcha fúnebre. Minha clarineta estava mesmo manhosa; chorava que dava gosto. O povo ficou apatetado, olhando para mim, como se a minha música fosse coisa nunca ouvida, vinda lá do céu. Dali a pouco, não havia quem não chorasse, gabando a minha clarineta, dizendo que não havia coisa igual em toda a redondeza.    Eu continuei, modestamente e, quando ia no melhor da festa, o caixão começou a mover-se, a tampa abriu-se e, ao som do instrumento, o defunto foi-se levantando até que ficou de pé. E, voltando-se para mim, gritou entusiasmado:

- Vá tocar clarineta... nos quintos dos infernos!

Fonte:
Anísio Mello (org.). Estórias e Lendas de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. São Paulo. Ed. Iracema.

Gislaine Canales (Glosas Diversas) 14


O MAR E A NOITE...

MOTE:
O mar sentindo embaraços
na noite de lua cheia,
carrega a noite nos braços
para deitá-la na areia!...
Ademar Macedo
Santana do Matos/RN, 1951 – 2013, Natal/RN


GLOSA:
O MAR SENTINDO EMBARAÇOS
no sabor de uma paixão,
quer entregar os abraços
que nascem do coração!

O mar fica mais sensual
NA NOITE DE LUA CHEIA,
num prateado sem igual
fala de amor à mancheia!

Com carinho, em seus espaços
explodindo de desejos,
CARREGA A NOITE NOS BRAÇOS
e a enche de ternos beijos!

O mar sendo amante e amigo,
aproveita a maré-cheia
e leva a noite consigo,
PARA DEITÁ-LA NA AREIA!…
****************************************

SOLIDÃO CONTIGO!

MOTE:
Dei um basta à indiferença!...
– Nem tentes mais meu perdão,
pois foi na tua presença
que eu conheci solidão!...
Clenir Neves Ribeiro
Nova Friburgo/RJ


GLOSA:
DEI UM BASTA À INDIFERENÇA,
pois vou ser feliz, sozinha;
não fazes parte da crença,
da crença de amor que eu tinha!

Não tentes chegar a mim,
– NEM TENTES MAIS MEU PERDÃO,
meu amor chegou ao fim,
é o que diz meu coração!

Vou sentir a diferença
de agora, ser bem feliz,
POIS FOI NA TUA PRESENÇA
que eu sofri, fui infeliz!

Foi nessa vida vazia,
vivida sem emoção,
que eu perdi minha alegria
QUE EU CONHECI SOLIDÃO!…
****************************************

TRÊS POR QUATRO

MOTE:
BEIJO-TE A FOTO... E NA ESPREITA
DESTE AMOR QUE EU IDOLATRO,
MINHA SAUDADE SE AJEITA
NO RETRATO TRÊS POR QUATRO.
Edmar Japiassú Maia
Nova Friburgo/RJ


GLOSA:
BEIJO-TE A FOTO... E NA ESPREITA
a esperar-te, com emoção,
tu és, minha doce eleita,
dona do meu coração!

Vivo de sonho e lembranças,
DESTE AMOR QUE EU IDOLATRO,
desfilam as esperanças:
Personagens de um teatro!

Dessa angústia, nem suspeita
o meu eu apaixonado,
MINHA SAUDADE SE AJEITA,
vai se aninhando ao teu lado!

Essa peça não tem fim,
é da vida, o anfiteatro,
e eu mato a saudade, enfim,
NO RETRATO TRÊS POR QUATRO.
****************************************

PLANTANDO GUERRA

MOTE:
Quando há morte programada
pelos quadrantes da terra,
homens que não valem nada
sentem paz plantando guerra.
Nilton Manoel
Ribeirão Preto/SP

 

GLOSA:
QUANDO HÁ MORTE PROGRAMADA,
uma sombra de tristeza
é por tudo derramada
na pobre terra indefesa.

É como a voz do trovão
PELOS QUADRANTES DA TERRA,
voz sem nenhuma emoção
que dentro de si, encerra!

A justiça equivocada,
num triste engano, premia
HOMENS QUE NÃO VALEM NADA
que só plantam agonia.

Os governantes maldosos
(onde a bondade se ferra),
pensando ser poderosos,
SENTEM PAZ PLANTANDO GUERRA.

Fonte:
Gislaine Canales. Glosas Virtuais de Trovas XXV. In Carlos Leite Ribeiro (produtor) Biblioteca Virtual Cá Estamos Nós. http://www.portalcen.org. março de 2005.

Guimarães Rosa (O Riacho Sirimim)


Só a vocês eu vou contar o riachinho Sirimim. Ele é só ali, não é de mais ninguém. Em uma porção de grotinhas, ele vai nascendo. São muitos olhos-d’água, de toda espécie, um brota naquela pedreira, que tem atrás da casa do Pedro. Na grota onde tem uma pedra grande, cortada pelo meio, e aí as abelhas aproveitaram uma fresta e fizeram casa dentro. Ali é a nascente mais alta, e uma das grandes. Ele nasce junto com o mel das abelhas.

A pedra é de blocos quadrados, bonitos, ela é toda dura, toda reta, entre árvores — um pouquinho da mata, que ficou. Pedra mais alta que esta casa. Em cima, cheia de cactos; debaixo, forma-se uma lapinha, em que entrou o tatu que o Pedro caçou; no meio, a fenda horizontal, dentro dela se instalou o enxame de abelhas oropa, que fugiu da casa de alguém. Uma abelha picou o Maninho, que então meteu a foice ali, colheu. Inácia coou o mel. Ali não dá formiga. Ali é uma noruega: todo este grotão — a matinha, a pedra; até a casa do Pedro. As abelhas estão lá. O mel também mereja*, daquela pedra, junto do lugar que nasce a água. A água vem descendo da pedra, pela face da pedra. Ele nasce ali, é mais um molhado na pedra. Só uns fiapos d’água, que correm pela pedra.

Simples, sem-par, águas fadadas — e inavegável a um meio-amendoim. De amor um mississipinho, tão sem fim. Ele já é o Sirimim.

E faz um pocinho e uma biquinha, ali onde o Pedro pegou o tatu. E o Pedro teve a especialidade de plantar inhames perto, para as folhas servirem de copos. Ali ainda é noruega, a água em inverno e verão está sempre fresquinha. O Pedro bebe nas folhas de taioba, mas diz: “É pena eu não ter um copo de vidro, pra se poder ver embaciar...”

Outro poço, entre as goiabeiras, o da Eva lavar as panelas. E, depois da biquinha de bambu, em que bebe gente, tem o pocinho para os bichos: as galinhas, as cabritinhas; lá bebia a Bolinha, de quem o Pedro gostava tanto, que caçava tanto, e que “era tão amiga, que, quando zangou, foi zangar pra longe...”

Daí, a primeira disciplinada que dão nele: a virada de um reguinho, que fizeram, desviando-o de não ir no pé da mangueira grande, que não gosta de água. Sonso, o leito dele, todo, é um berço — é sempre assim — o Sirimim.

Solto, dali passa no arrozal do Pedro, que é uma várzea pequenininha, fresca, entre a mangueira grande e o escarpado do morro; de arroz mais bruto, que se facilita, por não precisar de tanto trato. Porque o Pedro é ainda meio tolhido, da que teve, como lá ele mesmo diz: uma “doença de brejo”. Sirimim se faz uns quatro regos, e nele nadam já os peixes barrigudinhos. Sirimim vai se engrossando. Terreno todo ali mina água. Sirimim, água-das-águas, é menos de meio quilômetro, ele inteiro. Só isto, e a fada-flor — uma saudade caudalosa: Sirimim-acima Sirimim-abaixo — alma para qualquer secura.

Sobrevindo outro riachinho, de lá de um pé de embaúba, nova, já no caminho da casa do Joaquim, onde rebenta seu olhinho-d’água: no lugar, quando o Joaquim planta o milho, deixa uma moita de capim, para “favorecer” o miriquilho. Essezinho também nasce alto, ele vem descendo assim. A confluência dos dois é bem debaixo da pinguela, que mais bem é uma estiva, a ponte de paus.

Sirimim, mais, se revira, e entra na várzea grande, mais baixa, que o terreno vem sempre descambando. Aí a várzea cortada de canais, abertos para os muitos minadouros* e que querem-se todos ao Sirimim: um que vem do curral velho, uns que nascem debaixo das tajubas — árvores boas para fazer mourão. São esses os de volume maior, os que tantos se surgem do fundo da várzea grande; mas o mais cheio e alto é mesmo o da casa do Pedro, por isso deu-se tradição de ser nascente principal: o próprio, primitivo Sirimim, batizado num jardim.

Só daí ele vem ao arrozal do Joaquim. Sarapintam-no, onde, as traíras, tigrinas, hieninas. Sereno nosso riacho e seu caminho manso, por entre o chão chato, terras-águas de arroz — as lezírias* de verdes reflexos.

Seja que, desde depois, se vê, em uma sua margem, a única arte que ele faz, só esta maldade do Sirimim: o “chupão”, lugar em que a terra é encharcada e as pessoas podem se afundar. O genro do Joaquim uma vez afundou, tiveram de estender a ele um pau, e se ajuntaram, todos, para o tirar. Joaquim tenteou o chupão com um bambu, o bambu se some lá para dentro. Joaquim fincou uns bambus em volta, para avisar de que ali é lugar que podia dar desgraça. Sob mato: verde: uma moita que fica mais verde.

Súbito, então, os bambus. Sirimim passa-os, por baixo. Sirimim penetra um grande lugar, a horta, a partezinha de horta dele nilegíptico — com alfaces, libélulas, rãs e náiades. Serve-a em três canais principais, que Joaquim fez, às tortas, aproveitando os tortos troncos velhos de ipê, madeira dura, que estavam caídos ou enterrados, quando ele limpou o brejo. Num deles, surte-se a biquinha da Irene lavar roupa. Tem um pé de rosa: rosinha cor-de-rosa, que se desfolha à toa; mas, de longe, você já sente o cheiro. Tudo que é casa tem essa roseira — de rosinhas pequenas, em cachos — roseira própria para chamar abelhas. Joaquim tirou também um retalhado de reguinhos, e tapagem de pequenas represas, para proibir as formigas e reservar água de rega para a tarde da seca. Mas as solertes* enguias pretas, que são os muçuns, socavam o fundo dos açudinhos, furando túneis que dão fuga à água; e uma praguinha verde prospera recobrindo tudo, plantinhas ervas que parecem repolhinhos — as formigas aproveitam para passar por cima. Joaquim xinga: — “Não é que dá praga até na água?!” Joaquim também plantou umas laranjeiras, condenadas à umidade — elas estão sentidas, umas já morreram — mas ali é o único recanto em que formiga não ataca. Joaquim só diz: — “Antes delas morrerem, sempre dão alguma alegria à gente...”

Sirimim, sua margem sul: uma carreira de bananeiras. Sirimim segrega sob a ponte — por onde passa a estradinha da casa. Sirimim — e há agora o bambu, que tem o ninho do sabiá; o que foi cortado, mas brotou — só aquele breve tufo, com uns poucos penachos, bonitos: num deles, vê-se, o ninho do sabiá; Sirimim o deixa para trás. Seguinte — só os cinco metros — é a biquinha antiga, abandonadinha, aquela coisinha de bambu, que colhe água. Sirimim veio até aqui quieto, que dele não se ouve; mas, a biquinha antiga, saturada, aí a água cai tanta, que já faz som, aí ele começa a falar: ...se bem, bem, bem bom... — e lá se vai, marulho abaixo.

Sirimim traspassa agosto, setembro a abril, chovido fevereiro, dezembro e tudo, flui, flui.

Sirimim e a estrada se separam, ele vem um trecho quase reto, se sorrateia lá no fundozinho de seu vale, em meio a um espaço verde, sem lavoura, porque ali ficava para pastar a bezerrinha do pé quebrado.

Sirimim atravessa uma noite e um luar, muito claros, os vagalumes vindos, os curiangos* cantando, perto e longe, por cima do mundo inteiro.

Sirimim se curva — aonde vai ser o açude — à carícia destes lugares. Ali, bulha entre outros bambus, grandes; após, o lugar onde se planta o amendoim — que vem quase à margem, fim. Separa-se para outra horta, a da dona do encanto. Sirimim...

Ah, e no bambual de bambus muito grandes, ele sai-se, deixa-se — para entrar sumido no rio. A enseada do Sirimim, coisa tão gostosa, você sabe. Assim toda de branca areia no fundo, aonde o Sirimim solve-se em sucinto, tranquilo. Aí, quando é época de pouco, ele nem chega a ajuntar-se com o rio: só se espalha na areia, e embebe-se, liquidado.

Se o rio toma de se enchendo, porém, ele represa o Sirimim, que se larga, que invade e ocupa a várzea toda, coberto de espumas e folhas de bambu. Siriminzinho, então, possui-se, cheio de peixes grandes. Sirimim ronca e barulha: em vez de correr para baixo, sobe ao arrepio, faz ondas, empurra-se para trás com a tanta água do rio, supera o chão e o tempo e confirma: toda a vida, todas as vidas, sim.
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Vocabulário
Curiango – ave de plumagem muito macia e voo silencioso.
Lezíria – leito maior ou planície de inundação, junto a certos rios, onde há depressões que são invadidas pelas cheias.
Mereja – mareja.
Minadouro – nascente de riacho ou ribeirão, ou olho-d'água dentro de grota.
Solertes – espertas, diligentes.
Tajuba – é o nome popular de uma árvore, o mesmo que taiúva.

Fonte:
Guimarães Rosa. Ave, palavra. Publicado em 1970 (póstumo)

sábado, 23 de maio de 2020

Varal de Trovas n. 275


Léo Buscaglia (História de uma Folha)


Era uma vez uma folha, que crescera muito. A parte intermediária era larga e forte, as cinco pontas eram firmes e afiladas. Surgira na primavera, como um pequeno broto num galho grande, perto do topo de uma árvore alta.

A Folha estava cercada por centenas de outras folhas, iguais a ela. Ou pelo menos assim parecia.

Mas não demorou muito para que descobrisse que não havia duas folhas iguais, apesar de estarem na mesma árvore.

Alfredo era a folha mais próxima. Mário era a folha à sua direita. Clara era a linda folha por cima. - Todos haviam crescido juntos. Aprenderam a dançar à brisa da primavera, esquentar indolentemente ao sol do verão, a se lavar na chuva fresca. Mas Daniel era seu melhor amigo.

Era a folha maior no galho e parecia que estava lá antes de qualquer outra. A Folha achava que Daniel era também o mais sábio. Foi Daniel quem lhe contou que eram parte de uma árvore.

Foi Daniel quem explicou que estavam crescendo num parque público. Foi Daniel quem revelou que a árvore tinha raízes fortes, escondidas na terra lá embaixo. Foi Daniel quem falou dos passarinhos que vinham pousar no galho e cantar pela manhã. Foi Daniel quem contou sobre o sol, a lua, as estrelas e as estações.

A primavera passou. E o verão também. Fred adorava ser uma folha. Amava o seu galho, os amigos, o seu lugar bem alto no céu, o vento que o sacudia, os raios do sol que o esquentavam, a lua que o cobria de sombras suaves.

O verão fora excepcionalmente ameno. Os dias quentes e compridos eram agradáveis, as noites suaves eram serenas e povoadas por sonhos. Muitas pessoas foram ao parque naquele verão. E sentavam sob as árvores. Daniel contou à Folha que proporcionar sombra era um dos propósitos das árvores.

— O que é um propósito? - perguntou a Folha.

— Uma razão para existir - respondeu Daniel.

— Tornar as coisas mais agradáveis para os outros é uma razão para existir. Proporcionar sombra aos velhinhos que procuram escapar do calor de suas casas é uma razão para existir.

A Folha tinha um encanto todo especial pelos velhinhos. Sentavam em silêncio na relva fresca, mal se mexiam. E quando conversavam eram aos sussurros, sobre os tempos passados. As crianças também eram divertidas, embora às vezes abrissem buracos na casa da árvore ou esculpissem seus nomes. Mesmo assim, era divertido observar as crianças. Mas o verão da Folha não demorou a passar. E chegou ao fim numa noite de inverno.

A Folha nunca sentira tanto frio. Todas as outras folhas estremeceram com o frio. Ficaram todas cobertas por uma camada fina de branco, que num instante se derreteu e deixou-as encharcadas de orvalho, faiscando ao sol. Mais uma vez, foi Daniel quem explicou que haviam experimentado a primeira geada, o sinal que era o inverno que estava chegando.

— Por que ficamos com cores diferentes, se estamos na mesma árvore? - perguntou a Folha.

— Cada um de nós é diferente. Tivemos experiências diferentes. Recebemos o sol de maneira diferente. Projetamos a sombra de maneira diferente. Por que não teríamos cores diferentes? Foi Daniel, como sempre, quem falou. E Daniel contou ainda que aquela estação maravilhosa se chamava inverno. E um dia aconteceu uma coisa estranha.

A mesma brisa que, no passado, os fazia dançar começou a empurrar e puxar suas hastes, quase como se estivesse zangada. Isso fez com que algumas folhas fossem arrancadas de seus galhos e levadas pela brisa, reviradas pelo ar, antes de caírem suavemente ao solo. Todas as folhas ficaram assustadas.

— O que está acontecendo? - perguntaram umas às outras, aos sussurros.

— É isso que acontece no inverno - explicou Daniel - É o momento em que as folhas mudam de casa. Algumas pessoas chamam isso de morrer.

— E todos nós vamos morrer?- perguntou Folha

— Vamos sim - respondeu Daniel - tudo morre. Grande ou pequeno, fraco ou forte, tudo morre. Primeiro cumprimos a nossa missão. Experimentamos o sol e a lua, o vento e a chuva. Aprendemos a dançar e a rir. E, depois morremos.

— Eu não vou morrer! - exclamou Folha, com determinação - Você vai, Daniel?

— Vou sim... Quando chegar meu momento.

— E quando será isso?

— Ninguém sabe com certeza. - respondeu Daniel

A Folha notou que as outras folhas continuavam a cair. E pensou: "Deve ser o momento delas". Ela viu que algumas folhas reagiam ao vento, outras simplesmente se entregavam e caíam suavemente Não demorou muito para que a árvore estivesse quase despida.

— Tenho medo de morrer. - disse Folha a Daniel - Não sei o que tem lá embaixo.

— Todos temos medo do que não conhecemos. Isso é natural. - disse Daniel para animá-la - Mas você não teve medo quando a primavera se transformou em verão. E também não teve medo quando o verão se transformou em outono. Eram mudanças naturais. Por que deveria estar com medo da estação do inverno?

— A árvore também morre? - perguntou - Para onde vamos quando morrermos?

— Ninguém sabe com certeza... É o grande mistério.

— Voltaremos na primavera?

— Talvez não, mas a Vida voltará.

— Então qual é a razão para tudo isso? - insistiu a Folha - Por que viemos pra cá, se no fim teríamos de cair e morrer?

Daniel respondeu no seu jeito calmo de sempre:

— Pelo sol e pela lua. Pelos tempos felizes que passamos juntos. Pela sombra, pelos velhinhos, pelas crianças. Pelas cores do outono, pelas estações. Não é razão suficiente?

Ao final daquela tarde, na claridade dourada do crepúsculo, Daniel se foi. E caiu a flutuar. Parecia sorrir enquanto caía.

— Adeus por enquanto. disse ele à Folha.

E depois, a Folha ficou sozinha, a única folha que restava no galho. A primeira neve caiu na manhã seguinte. Era macia, branca e suave. Mas era muito fria. Quase não houve sol naquele dia... E foi um dia muito curto. A Folha se descobriu a perder a cor, a ficar cada vez mais frágil. Havia sempre frio e a neve passava sobre ela. E quando amanheceu veio vento que arrancou a Folha de seu galho.

Não doeu. Ela sentiu que flutuava no ar, muito serena. E, enquanto caía, ela viu a árvore inteira pela primeira vez. Como era forte e firme! Teve a certeza de que a árvore viveria por muito tempo, compreendeu que fora parte de sua vida. E isso deixou-a orgulhosa. A Folha pousou num monte de neve. Estava macio, até mesmo aconchegante. Naquela nova posição, a Folha estava mais confortável do que jamais se sentira.

Ela fechou os olhos e adormeceu. Não sabia que a primavera se seguiria ao inverno, que a neve se derreteria e viraria água. Não sabia que a folha que fora, seca e aparentemente inútil, se juntaria com a água e serviria para tornar a árvore mais forte. E, principalmente, não sabia que ali, na árvore e no solo, já havia planos para novas folhas de primavera.

Fonte:
Leo Buscaglia. A história de uma folha: uma fábula para todas idades. Publicado em 1982.

J. G. de Araújo Jorge (O Canto da Terra) 10


PARÁBOLA DAS PITANGAS E DOS CAJÚS

  Se pudéssemos se na vida o que nascemos,
e as pitangueiras não tivessem que dar cajús,
e os cajueiros pitangas,
se os cajus e as pitangas não nascessem sempre nos quintais vizinhos
para lábios estranhos...

Se as pitangas dessem pitangas, e os cajueiros cajús,
e nós todos pudéssemos comer os cajús e as pitangas
que plantássemos,
porque teríamos o nosso quintal e as nossas sementes...
os homens viveriam contentes…
****************************************

PENSAMENTO

Tudo porque,
(terão dito ignorados oráculos)
- no caminho dos homens que trouxeram o destino
imenso
de ser caminhos
Há homens que não trouxeram sequer, o destino inglório
de ser obstáculos…
****************************************

PERGUNTAS
  
  Que fizeram estes homens para que vivam à beira das calçadas
como as águas estagnadas?

E estas mulheres que dormem no vão das portas das igrejas
com mais filhos ao redor que pelo corpo inchado
as brotoejas?

e estas crianças de olhares doentes e narizes escorrendo,
que eu sempre, - por mais que feche os olhos, estou vendo?...
... estou vendo?…
****************************************

POEMA À GRANDE PONTE
(A Walter Nogueira da Silva)

Estende-me tua mão sobre oceanos e terras
que eu quero apertá-la, irmão...

Estende-me tua mão, muito alto, pelos céus...
São desumanas as guerras  
e infames, os seus troféus...
      
Formemos com as nossas mãos tão fortemente unidas  
ligando um horizonte a outro horizonte
num gesto sem igual,
- sobre um mundo a morrer em lutas fratricidas:
o "arco-íris" triunfal da indestrutível ponte
da fraternidade universal!

(Que o arco desta ponte livre e sem senhores,
lançada pelo amor mais belo e mais profundo,
terão todas as cores, - tal como o "arco-íris" -
e abraçarão o mundo!)
........................

Estende-me tua mão sobre oceanos e terras,
ó, meu irmão!

E lancemos também sobre as ruínas das guerras
nosso arco fraternal para a reconstrução!
****************************************

POEMA AO JORNALISTA
(A Mário Martins)

Ninguém te vê. Nem o homem sério de óculos que se sentou
de pijama na cadeira de palhinha
na calçada de um subúrbio qualquer,
nem a mulher gorda que tira os óculos e chora por causa do
assassinato hediondo,
- o homem que matou seis filhos e bebeu veneno, -
ou pelos dez órfãos da mãe desesperada,
a mulher que se jogou na linha do trem e o trem repartiu na terra -.

Ninguém te vê. Nem o garoto que fuma escondido num lugar
mal cheiroso do colégio,
nem e menina de tranças que gosta de se sentar na ponta do
banco do bonde
e esquece a rua com as últimas histórias do impossível;
ninguém te vê, nem o rapaz que discute política na mesa do café,
nem a moça que procura o seu nome na crônica social,
onde a caridade fica muito mais bonita
e onde ela se sente muito mais humana...

Ninguém te vê.
Estás sentado na tua mesa, entre papéis dispersos, telegramas
de última hora,
a voz do secretário, o relâmpago do magnésio, a campainha do diretor,
a importância do homem que vai dar uma entrevista;
estás sentado na tua mesa, e escreves com a música dos linotipos
o ruído das máquinas datilográficas,
o vozerio dos companheiros que vão e vêm
a bandeja de café, a fumaça do cigarro, o cheiro de óleo,
- e na tua cabeça há uma prodigiosa procissão de coisas diversas
que se atropelam como os homens na rua
na mudança dos sinais. 
(Verde-vermelho-verde-vermelho-
-verde-vermelho.)

Há presidente e chefes em Washington depois que o ladrão
assaltou o apartamento de Copacabana,
dois tiros, um aniversário, Marieta que cortou o pulso pela décima vez,
dez mil aviões desovando bombas, o jantar elegante no "grill" do cassino,
um fascista graúdo que tomou chumbo na cara, a mulher que teve quatro gêmeos,
a crônica sobre o vestido de Madame X, o político que promete um mundo melhor,
0 operário que caiu do 5 ° andar, o quilo de feijão a 3 cruzeiros,
Clark Gable que voltou da guerra, o último gol do América,
- tudo isto está na tua cabeça, que a tua cabeça é o mundo
debruçado sobre um bloco de papel...

Ninguém te vê. Mas tu vês o mundo, tu sentes o mundo, cada dia, cada noite,
captas o mundo, cada noite, cada dia,
e daqui a pouco, e amanhã bem cedo, terás milhões de olhos,
terás milhões de consciências,
porque te difundirás na multidão e andarás na multidão como os pés
no corpo    ...

És tu que mudas todos os dias a alma das multidões,
dá-lhes novo alimento, nova água, novas preocupações, novas alegrias,
ou novos tormentos,
depois do sol, é a tua manchete que brilha mais, e que clareia a rua,   
e depois da noite, é a tua manchete que enluta o mundo e encobre os homens

Ninguém te vê. E existes e estás presente em toda parte como Deus,
nas ruas, nas batalhas, no avião que ronca no céu, no navio que não chegará,
na hora do fuzilamento, no recado para a família, nas barricadas.
nos subterrâneos inconquistáveis onde a liberdade se recolheu,
na festa do ministro, no banquete do político, na cadeia,
na praça onde a bomba estourou,
na escadaria onde falava o orador, no salão de baile,
no microfone não localizado,
na "première" da grande fita,
- tens mil olhos, mil ouvidos, mil almas, mil mãos,
estás em toda parte e ninguém te vê
até o momento em que explodes na rua como uma granada
e a tua voz é o hino de mil letras dos homens heterogêneos e dispersos...

Alma nova do mundo a cada novo dia. Música das ruas todos os instantes.
História efêmera que passa e a memória esquecerá
se os livros não lembrarem;
sem ti reduziríamos o mundo ao alcance dos nossos olhos,
e ficaríamos surdos e mudos, e de tal forma haveria silêncio
e deserto ao redor,
que nos julgaríamos de repente saídos de uma bomba-foguete
sobre a face da lua...

Sem ti o mundo de hoje seria como mastro sem bandeira
como bandeira sem vento, como rádio sem antena,
como cérebro sem pensamento, como bússola sem norte,
como morte sem vida
como vida sem morte...

Sem ti, o mundo seria mundos
muitos mundos, o meu, o teu, o dele, mundinhos de cada um,
nunca um mundo só, nosso mundo, imenso mundo, mandão,
que sai da tua cabeça
e escorre da tua mão!

Fonte:
J.G. de Araújo Jorge. O Canto da Terra. 1945.

Paulo Mendes Campos (O Carioca e a Roupa)


Entre meus conterrâneos, os econômicos mineiros, é um motivo  de orgulho, de ampla e sorridente satisfação, confessar que uma gravata custou muito mais barato do que parece. No Rio é exatamente o contrário, o sentimento de exaltação interior nasce quando se pode dar para a gravata um preço alto que surpreenda o interlocutor.

Não conheço outra cidade em que a roupa tenha tanta  importância como aqui no Rio. O  carioca é duma ironia corrosiva, terrivelmente desmoralizadora para homens, instituições e ideias graves, uma  ironia também especialmente inimiga de qualquer pose ou afetação. Excetua-se a roupa; a roupa é sagrada. Um Charles Chaplin, uma Eleanor Roosevelt, um Mikoyan, um Oppenheimer, um Salk, um Alexander, um Schweitzer, um Picasso, um Casperson, um T. S. Eliot, um outro nome qualquer  entre  os expoentes contemporâneos em seus ramos de arte, ciência ou ofício, nenhum deles conseguiria manter por muito tempo aqui no Rio a aura de respeito que os cerca onde estejam. Sobretudo se  cuidassem  pouco  de sua encadernação, de sua roupa.

Muito possivelmente, ganhariam  um  apelido, veriam os seus cacoetes imitados nas ruas e nos palcos mambembes, e passariam a ser conhecidos do povo através de um defeito mesquinho, e não pela soma de suas qualidades. Qualquer estrangeiro famoso, caso venha morar nesta  cidade, pode agradecer aos céus se não for rotulado de chato. O carioca decidiu-se por uma grande simplificação da natureza humana, classificando a humanidade em chatos e bons sujeitos; com a nuança única de admitir que certos tipos, embora  chatos, são no fundo uns bons sujeitos.

Sob este aspecto, São Paulo, com a sua  compostura, com o seu culto a toda pessoa que emerge do anonimato, é o antídoto do Rio. Para o estrangeiro, a Capital paulista é um respiradouro: depois da passagem pelo Rio, onde não o levaram muito a sério, o chamado ilustre  visitante vai contemplar, refletida no olhar respeitoso do paulistano, a verdadeira dimensão de sua glória.

E assim sempre foi, assim  continua  sendo,  assim  vai  ser:  o carioca tem o gosto e o dom de igualar os homens, de  refugar  as sofisticações, de considerar apenas  em  cada  pessoa,  independente  de qualquer outro valor, a sua capacidade de convívio.  O  resto  o  povo destrói facilmente com duas ou três maldades de espírito.

Menos a roupa. A roupa, o problema de vestir-se, o preço e a aparência das peças de seu vestuário, transformam o sorriso zombeteiro do carioca numa expressão soturna e sofredora. É o seu ponto fraco, uma zona que resiste à sua ironia e pode torná-lo infeliz.

Diante dum carioca típico, alegre, divertido, com respostas humorísticas para tudo, experimentem, no momento exato de sua  rigolade, colocar em dúvida a qualidade de sua roupa ou de sua elegância. Atingido por uma dolorosa pedrada, ele perderá instantaneamente o rebolado.

Sempre me chamou atenção no Rio a simplicidade com que as pessoas falam de suas dificuldades financeiras, de seus sacrifícios de orçamento, de suas turras, por falta  de  pagamento, com os fornecedores. Esta admirável franqueza desaparece por completo quando se trata de roupa. Neste capítulo, o carioca mente, exagera o preço de seus ternos e de suas camisas, mesmo porque as brigas com os fornecedores e os sacrifícios orçamentários são em grande parte devidos às verbas que se desviam para alfaiates e camisarias.

O proletário francês veste-se mal e come bem; o proletário alemão prefere vestir-se burguesmente e comer mal. É com este que se parece o proletário carioca. E as outras classes o acolhem mais complacentemente se ele passa fome mas se apresenta bem vestido. A roupa vem assim compensar uma fome que não é de pão. Estamos  diante  de  um preconceito complexo, inextirpável do meio social do Rio, terra que inventou e venera a lista dos dez mais, que realiza quase semanalmente um concurso de elegância, terra lucrativa para os comerciantes de tecidos e de roupa feita. Deu-se comigo outro dia  uma  experiência engraçada: fui ao centro da cidade de blusa, coisa que me aconteceu várias vezes, mas só então acrescida de um pormenor que introduziu um caráter inédito à situação: levava debaixo do braço uma pasta de papéis, feita de nylon.

Sim, pela primeira vez fui à cidade de blusa e pasta. Qualquer um desses fatores quase nada significa isoladamente; reunidos, alteraram radicalmente o tratamento que me deram todas as pessoas desconhecidas.

Quando tomei um táxi, vi que o motorista torceu a cara, mas  não percebi o que se passava, pois experimentei  Semelhante  má  vontade  em outras circunstâncias. Reparei  também certa estranheza do motorista quando lhe dei de gorjeta o troco, mas permaneci opaco ao fenômeno social que se realizava. Em um restaurante comum, sentei-me para almoçar. O garçom, que até então eu não vira mais gordo, tratou-me com uma intimidade surpreendente e, em vez de elogiar os pratos pelos quais eu indagava, entrou a diminuí-los: "aqui a gororoba é uma Coisa só; serve para encher o bandulho".

Não sou de raciocínio rápido mas, em  súbita  iluminação, percebi, com todo o prazer da novidade, que eu estava vestido de mensageiro: pasta e blusa. Ao longo da tarde, fui compreendendo que, até hoje, não  tinha  a menor ideia do que é ser um mensageiro. Pois eu lhes conto. Um mensageiro é, antes de tudo, um triste. Tratado com familiaridade agressiva pelos epítetos de amigo, chapa e garotão, o que há de  afetivo nestes nomes é apenas um disfarce, pois atrás deles o tom de voz é de comando. "Quer deixar o papai trabalhar, garotão", disse-me o  faxineiro de um Banco, cutucando-me os pés com a ponta da vassoura.

Entendi muitas outras coisas humildes: o mensageiro não tem direito a réplica; é barrado em elevadores de lotação ainda não atingida; posto a esperar sem oferecimento de cadeira; atendido com um máximo de lentidão; olhado de cima para baixo; batem-lhe com  vigor no ombro para pedir passagem; ninguém lhe diz "obrigado ou por favor"; prestam-lhe informações com relutância; as mulheres bonitas sentem-se ofendidas com o olhar de homenagem do mensageiro; os vendedores lhe dizem "não tem" com um deleite sádico.

Foi uma incursão involuntária à natureza de uma sociedade dividida em castas. Preso à minha classe e a algumas roupas, dizia o poeta, vou de branco pela rua cinzenta. No fim da tarde, eu já  procedia como um mensageiro, só me aproximando dos outros com precaução e humildade, recolhendo de meu rosto qualquer veleidade de um sorriso inútil, jamais correspondido. Dentro de mim uma vontade  de  sofrer.  Por todos os mensageiros do mundo, meus irmãos. Por todos os meus irmãos para os quais a humilhação de cada dia é certa como a própria morte. Porque o pior de tudo é que as pessoas não sorriam. O pior é que ninguém sorri para os mensageiros.

Fonte:
Paulo Mendes Campos. O Cego de Ipanema. RJ: Ed. do Autor, 1961.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Varal de Trovas n. 274


Contos e Lendas do Mundo (A Sabedoria do Vira-latas)

(autor desconhecido)

Uma velha senhora foi para um safári na África e levou seu velho vira-lata com ela.

Um dia, caçando borboletas, o velho cão, de repente, deu-se conta de que estava perdido.

Vagando a esmo, procurando o caminho de volta, o velho cão percebe que um jovem leopardo o viu e caminha em sua direção, com intenção de conseguir um bom almoço ..

O cachorro velho pensa:

— Oh, oh! Estou mesmo enrascado! Olhou à volta e viu ossos espalhados no chão por perto. Em vez de apavorar-se mais ainda, o velho cão ajeita-se junto ao osso mais próximo, e começa a roê-lo, dando as costas ao predador ...

Quando o leopardo estava a ponto de dar o bote, o velho cachorro exclama bem alto:

— Cara, este leopardo estava delicioso! Será que há outros por aí?

Ouvindo isso, o jovem leopardo, com um arrepio de terror, suspende seu ataque, já quase começado, e se esgueira na direção das árvores.

— Caramba! pensa o leopardo, essa foi por pouco! O velho vira-lata quase me pega!

Um macaco, numa árvore ali perto, viu toda a cena e logo imaginou como fazer bom uso do que vira: em troca de proteção para si, informaria ao predador que o vira-lata não havia comido leopardo algum.. .

E assim foi, rápido, em direção ao leopardo. Mas o velho cachorro o vê correndo na direção do predador em grande velocidade, e pensa:

— Aí tem coisa!

O macaco logo alcança o felino, cochicha-lhe o que interessa e faz um acordo com o leopardo. O jovem leopardo fica furioso por ter sido feito de bobo, e diz:

— Aí, macaco! Suba nas minhas costas para você ver o que acontece com aquele cachorro abusado!

Agora, o velho cachorro vê um leopardo furioso, vindo em sua direção, com um macaco nas costas, e pensa:

— E agora, o que é que eu posso fazer?

Mas, em vez de correr (sabe que suas pernas doloridas não o levariam longe...) o cachorro senta, mais uma vez dando costas aos agressores, e fazendo de conta que ainda não os viu, e quando estavam perto o bastante para ouvi-lo, o velho cão diz:

— Cadê aquele desgraçado do macaco? Tô morrendo de fome! Ele disse que ia trazer outro leopardo para mim e não chega nunca!

Moral da história: Não mexa com cachorro velho... idade e habilidade se sobrepõem à juventude e intriga. Sabedoria só vem com idade e experiência.

Fonte:
Fábula de autor desconhecido enviado por Ialmar Pio Schneider

Professor Garcia (Trovas que sonhei cantar) 7


A abelha sugando a flor,
tem por fiel compromisso,
por mais delícia de amor
na doçura do cortiço!
- - - - - -
A cor rubra, enfraquecida,
que ao por do sol transparece,
tem a dor da despedida
e a ternura de uma prece!
- - - - - -
A dor da ausência, em verdade,
é uma rica companheira...
Quem beija e abraça a saudade,
tem fortuna a vida inteira!
- - - - - -
A mãe e o bebê sofrendo,
eu vi com desconfiança...
Uma esperança morrendo
nos braços de outra esperança!
- - - - - -
A vela triste, enxugando
do velho nauta, os seus ais...
É uma saudade chorando
sem saber se volta ao cais!
- - - - - -
Carrilhão - por que chorais?
vosso gemer, diz quem sois!
E. essa dor de vossos ais
é a mesma dor de nós dois!
- - - - - -
Criança de vida dura,
pobre, faminta e sem lar...
Quantas lições de ternura
na luz tosca deste olhar!!!
- - - - - -
Das bravuras do meu chão,
herdei por tudo que fiz…
Esse velho corpo são
coberto de cicatriz!
- - - - - -
Desafio do meu sonho
desde do tempo de criança,
é não ver num lar tristonho
faltar o pão da esperança!
- - - - - -
Em tudo que a gente faz,
há uma pitada de amor;
desse amor que a gente traz
no coração trovador!
- - - - - -
Fiz quase tudo na vida,
só lamento o que não fiz.
Deus vendo a missão cumprida
me fez muito mais feliz!
- - - - - -
Lágrima, orvalho que cai
dos olhos, da noite calma,
que aos poucos, regando vai,
a solidão de minha alma!
- - - - - -
Mãe!... É o mais lindo estribilho
da canção que Deus modela,
e o que ela faz pelo filho,
filho nenhum faz por ela!
- - - - - -
Não sei se faltou decoro
na voz do meu acalanto...
Só quis consolar teu choro,
mas fiz foi dobrar teu pranto!
- - - - - –
No entardecer já sem vida,
Deus deixa no entardecer,
um verso de despedida
antes do sol se esconder!
- - - - - -
No outono triste da idade,
o velho andarilho chora
e anda abraçado á saudade
do filho que foi embora!
- - - - - –
Nós somos dois passarinhos,
sem agasalhos, sem teto,
mas o chão de nossos ninhos
é atapetado de afeto!
- - - - - -
O mar gemendo se alteia,
e aos poucos, por entre as brumas...
derrama espumas na areia
e adormece entre as espumas!
- - - - - –
Penso que a gota de orvalho
é uma lágrima de amor,
dos olhos de cada galho
que vê brotar uma flor!
- - - - - –
Perdoar, deixar de lado,
é tudo que me convém;
que o perdão, lava o pecado
de alma que perdoa alguém!
- - - - - -
São tantas as consequências
ante o amor que se desfaz...
Que há medos temendo ausências
e há gritos pedindo paz!
- - - - - –
Se alguém, ingrato e cruel,
me der amargo licor,
eu lhe dou favos de mel
cristalizados de amor!
- - - - - -
Se Deus fez um diadema
do sol, e essa luz nos deu...
Da lua, fez o poema
mais lindo que Ele escreveu!
- - - - - -
Se o amor tem sabor de mel,
prove da ausência o sabor,
que a ausência transforma em fel
os cristais doces do amor!
- - - - - -
Sou tão pequeno, meu Deus,
mas cresço um pouco, ó Senhor...
ante o amor dos olhos teus
e os teus exemplos de amor!
- - - - - -
Um lenço, entre os lenços seus,
no cais, me acena tristonho!...
Lembra um sonho dando adeus
ao silêncio de outro sonho!
- - - - - –
Um vento brando, mansinho,
toda tarde, ao fim do dia,
discreto, oscula o meu ninho,
com beijos de nostalgia!
- - - - - -
Vai-se o sol! E a tarde, é aquela,
instante em que mais medito,
tentando pintar a tela
da solidão do infinito!


Fonte:
Professor Garcia. Trovas que sonhei cantar. vol.2. Caicó: Ed. do Autor, 2018. 
Livro gentilmente enviado pelo autor.

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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