Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Laé de Souza (Tá Chegando)


O jantar de confraternização já está marcado para a próxima quarta. Avisei que não iria e vieram falando de falta de coleguismo, o ano todo juntos, e me convenceram. Mas se for igual ao de sempre, e tenho certeza que será, vão se arrepender.

O Dilermando, depois de uns pileques, dará umas piscadinhas para a Clotilde, que corresponderá com um sorriso disfarçado e aceitará sua oferta de carona. Eu já estou com o celular do noivo dela, para avisar, assim que saiam, que espere a chegada dos dois e vou insinuar que não tenha pressa, pois do jeito que saíram melosos, vão demorar um bocado.

O patrão com certeza fará seu discurso e nos presenteará com aquele vinho. Assim que receber vou falar: "De novo esta porcaria. O ano passado me deu uma ressaca..." Quero ver a cara dele.

Edilei, vai ficar com aquela sua alegria costumeira e lá pelas tantas começará a dançar com todo mundo. Já avisei para minha mulher: "Conheço bem o tipo. Se você se atrever a dançar com ele, como no ano passado, vão levar uns sopapos os dois." De qualquer forma, seja com quem o pé-de-valsa estiver dançando, vou ficar falando: 'Aperta menos Edilei."

Vou ser o último a sair e, no dia seguinte, com todos sóbrios, vou contar tintim por tintim tudo o que aconteceu com cada qual.

Em casa, já começaram a chegar os cartões de natal, até do banco, me desejando felicidades. Que contra-senso. Será que esqueceram que são eles os culpados de fazer meu nome virar o século no SPC?

Minha sogra já avisou: 'A noite do Natal vai ser lá em casa." Nem precisava, sempre foi e sempre será. Meus sobrinhos e também meus filhos estarão naquela gritaria e aquele som nas alturas. Meu cunhado de pileque desde cedo e com umas conversas sem lógica. A mulher estará de cara emburrada e reclamando da vida. Minha sogra querendo que a gente coma mais e mais. Aquele namorado da minha sobrinha vai querer novamente fazer chuva de champanhe. E eu vou ficar bem do lado para lhe aplicar um tabefe. A Laurinha vai beber legal e ficará dando risadas escandalosas, enquanto a Gertrudes, sem deixar a coxa do peru, ficará chorando e lembrando de quem não tem o que comer. Fazendo fita, de novo. O marido da minha cunhada estará soltando rojões e insistindo para que todos saiam para ver. E, com certeza, estará novamente brigando com ela e afirmando que não tem perigo nenhum o filho de doze anos soltar um foguete. Ele garante.

Dessa vez, eu vou ficar bem lúcido e falar as verdades pra todo mundo: "Não quero ouvir suas bobagens"; "vou comer só isto e pronto"; "não acha que você está alegre demais não, caboclo?"; "Pare com essas risadas horríveis"; "Deixa de cena"; "Neste fogo, tu não cuida nem de ti, quanto mais..."; "Que feliz Natal, que nada, você sempre quis me ferrar". Pena que aquela, sobrinha esnobe vai estar em viagem com o noivo. Paciência.

Olha amigo, não me venha com conversas de que estou assim por estresse, excesso de trabalho, porque meu médico me falou isto a semana passada e o seu olho ainda continua roxo.

Fonte:
Laé de Souza. Acredite se quiser. SP: Ecoarte, 2000.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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