Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Carolina Ramos (O Garotão)


A tarde se esvaía, quando o garotão passou pelo casal de velhos.

Aliás, velho é força de expressão. Todo mundo sabe, ou deveria saber que, velhice, na maioria das vezes, é estado de espírito — há velhos jovens e jovens velhos, tudo dependendo da disposição. No caso, seria mais exato dizer — casal de meia idade, que ainda sabia dividir os encantos vespertinos de uma caminhada a dois.

Pois é, mesmo que a tarde estivesse morrente, havia sol a pino na alma daquele garoto de camiseta ampla, bermudas largas, aba do boné cobrindo a orelha esquerda, tênis sem griffe definida e de cordões desatados.

O jovem diminui o passo ao ultrapassar o par grisalho que, ternamente abraçado, seguia o mesmo rumo.

Jogou a pergunta como quem, de improviso, atira uma bola:

— Vocês gostariam de ser jovens como eu?

Após o instante de surpresa ante a inusitada abordagem, o casal sorriu, aprovando a desenvoltura do rapaz que, embora taludo, andaria aí pelos treze ou catorze anos de idade. Por sinal, fase de transição em que os braços e as pernas crescem tanto quanto o próprio ego e as dificuldades de comunicação com os adultos mais se complicam.

— Claro, que gostaríamos de ser jovens novamente, como não?! — respondeu o caminhante, interpretando também o pensamento da mulher.

O garoto estava com a corda toda. Continuou falando:

— Sabe... no outro dia, eu estava na praia com o meu iguana. Pintou gente assim... pra ver o bichinho! Homens, mulheres, velhos, moços, todos viraram crianças!... Igualzinho ao que aconteceu quando também fui até lá empinar a minha pipa com o emblema do Santos. Era todo o mundo de nariz pra cima, doido por uma puxadinha na linha, pra ver a pipa cabecear, lá no alto, presa pelo cabresto! Legal!

Emendou o assunto:

Na aula de ontem, meu professor de português me deu uma nota vermelha... e eu avisei: — Não quero uma nota vermelha... eu quero é nota azul. Aí, ele me perguntou: — Por quê azul, Rodrigo? E então respondi que vermelho é cor de coisa errada, cor de sangue, cor de guerra, de violência... e azul é a cor mais bonita de todas, senão, o céu não seria azul! — concordam? — O professor entrou na minha, abanou a cabeça, me chamou de poeta e me deu uma nota azul, bonita pra caramba! É isso, a gente tem de lutar pelo que quer!

A esse tempo o garotão já adiantara o passo, distanciando-se, embora não o bastante que lhe impedisse de ouvir o que dizia a emocionada senhora:

— Deus te conserve essa alegria, meu filho!

— Obrigado... Tchau...

O aceno de despedida e lá se foi ele, solto nas suas largas bermudas, trauteando um ritmo qualquer, de bem com a vida e em absoluta paz com a humanidade!

Mais jovens, mais leves, o homem e a mulher de meia idade, acompanharam, com olhos carinhosos, a figura mágica daquele garoto que dobrava a esquina, desaparecendo, feliz, no turbilhão do seu tempo.

As primeiras luzes do Natal, que se avizinhava, principiavam a ser acesas.

Pairou no ar uma certeza marota: — para cumprir sua missão, o velho Noel nem sempre precisa de barbas brancas e pode até se chamar Rodrigo!

Fonte:
Carolina Ramos. Feliz Natal: contos natalinos. São Paulo/SP: EditorAção, 2015.
Livro enviado pela autora.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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