Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Varal da Saudade em Trovas X


Teófilo Braga (A Noiva do Corvo)

Recolhido no Algarve

Havia numa terra uma mulher, que tinha em sua companhia um corvo. Defronte dela moravam três raparigas muito lindas. Como o corvo queria casar, mandou falar à mais velha; respondeu-lhe que não, e o corvo raivoso arrancou-lhe os olhos. Sucedeu o mesmo com a segunda, até que a terceira sempre se sujeitou a casar com o corvo.

Tempos depois de já viverem na sua casa, a rapariga falou a uma vizinha no seu desgosto de estar casada com um corvo; a vizinha aconselhou-lhe que lhe chamuscasse as penas, porque podia ser obra de encantamento, e assim se quebraria. Quando à noite se foram os dois deitar, a rapariga chegou a candeia às penas do corvo; ele acordou logo, dando um grande berro:

– Ai, que me dobraste o meu encantamento! Se me queres salvar, vai pôr-te àquela janela, e todos os pássaros que vires, chama-os e pede-lhes assim: «Venham, passarinhos, venham despir-se para vestir el-rei que está nu». De fato os passarinhos começaram a vir pousar na janela, e cada um deixava cair uma pena com que o corvo se foi cobrindo. Depois que ficou outra vez emplumado, o corvo bateu as asas, e desapareceu, dizendo para a mulher:

– Agora se me quiseres tornar a ver

Sapatos de ferro hás de romper.
   
A pobre rapariga ficou sozinha toda aquela noite, e logo que amanheceu foi comprar uns sapatos de ferro e meteu-se a correr o mundo. Tinha os sapatos quase estragados de andar, quando encontrou um velho e lhe perguntou se não tinha visto um pássaro. O velho respondeu:

– Eu venho da fonte da madrepérola, onde estavam bastantes.

Ela continuou o seu caminho, e antes de chegar à fonte ali encontrou um corvo, que lhe disse:

– Olha, se quiseres salvar o rei, vai à fonte, onde estará uma lavadeira a lavar um vestido de penas, tira-lho e lava-o tu. Ao pé da fonte está uma casa, e um velho que a guarda; entra aí, mata o velho para poderes quebrar todas as gaiolas e dar a liberdade aos pássaros que ele tem lá presos.

A rapariga chegou à fonte, e fez como o corvo lhe tinha dito; lavou o vestido de penas, e depois entrou na casa onde estava o velho, fingiu que via vir pelo mar uma linda embarcação; o velho chegou-se à janela e a rapariga pegou-lhe pelas pernas e deitou-o ao mar. Depois quebrou todas as gaiolas e os pássaros em liberdade tornaram-se príncipes que estavam encantados, e entre eles estava o seu marido, que era rei e lhes pôs obrigação de a servirem toda a vida.

Fonte:
Contos Tradicionais do Povo Português

Juvenal Galeno (Poesias)

A MODA

O que eu desejo, senhoras,
É que se cumpra o rifão:
— Cada terra com seu uso,
Cada roca com seu fuso: —
Eis a minha opinião!

Mas, vestir-se o brasileiro
Como lhe ordena o francês...
Não acho isso direito!
Viver o povo sujeito
Aos figurinos do mês!

É mesmo falta de brio,
É fazer-se manequim;
Dizem que somos macacos...
Pois antes trajarmos sacos,
Do que servir de saguim!

Devemos ter nossa moda,
Tenha a sua o japonês;
Vista o prusso à prussiana,
Ande o russo a russiana,
Ninguém roube a do chinês.

Cada qual conforme o clima
De sua terra natal;
Que se o Norte tem calores,
No sul existem rigores
Da viração glacial.

Mas ornar-se quem tirita
Como quem sopra... é de mais!
Se trajamos nos estios
Como a França nos seus frios,
Não somos racionais!

E que roupagem ridícula
Nos impõe o tal Paris!
Que não levem... rabos tais!
Às damas puseram rabo! —
Pois não é um menoscabo
A esta terra infeliz? —
(...)

Batinas e polonaise,
Hoje, bico — amanhã, não;
Muitas trouxas, muitos regos,
Babados e repolegos,
Arregaços... confusão!

E franjas, fitas e penas!
No meio dessa babel,
A mulher desaparece...
Nem o marido a conhece
Nequele horendo pastel!
(...)

E é tamanha a tirania,
Que aqui não sabe ninguém
Como andará pela rua,
Ou consorte ou filha sua,
Em dias do mês que vem!

Já disse o suficiente...
Às damas peço perdão!
Apenas bato o abuso...
Cada terra com seu uso...
Esta é minha opinião!

OS BARÕES

I

Eu não canto os barões assinalados
Por atos de virtude ou de heroismo...
Mas espertos e torpes titulados,
Egrégios na baixeza e no cinismo!
Que os primeiros são tão raros
Nesta terra em que nasci,
Ao passo que dos segundos
Mais de um cento conheci!
E deles cada qual o mais tratante,
Mais néscio e mais servil...
Em fidalgos ruins já ninguém vence
Por certo o meu Brasil!
E se alguém duvidar ponha a luneta
E o passado examine dos barões...
Empurre no presente uma lanceta
E verá o que sai... que podridões!
Ou procure, que tenho na gaveta,
Alguns apontamentos ou borrões...
Mas trabalho é demais... ninguém se meta,
Antes leia estes traços a crayons.

(...)

III

Que ativo contrabandista
Foi outrora, — e ainda o é —
Aquele esperto Fulgêncio,
O barão do Gereré!...

Quem mais ligeiro no ofício?...
Sagaz!
Por entre as trevas da noite...
Trás... zás!

As cousas vinham dos barcos,
Sem o fisco examinar...
Pelas artes de berliques,
Passavam todas no ar;

E por artes de berloques,
Nunca as poderam pegar!
E as que vinham pelo fisco
Mudavam de condição...
Popelinas despachadas
Por fazenda de algodão!

E desse modo Fulgêncio
Depressa se f'licitou...
Passando mil contrabandos
Em pouco tempo enricou,
E para não ser Fulgêncio,
Um baronato arranjou!

Hoje é fidalgo...
Dos nobres é:
Barão exímio
Do Gereré!...

(...)

ALFACE

A alface das nossas hortas
É do ópio sucedâneo:
Acalma dores e tosses,
Seu efeito é instantâneo.

Serve o chá das suas folhas
Para curar os nervosos,
E para banhar os olhos
Inflamados, dolorosos.

Quem o tomar, ao deitar-se,
Logo o sono concilia:
Galeno ceava alfaces,
Pois de insônia padecia.

As urinas facilitam,
E servem de laxativo;
Finalmente, em muitos males
Não há melhor lenitivo.

O CAIPORA

— No meio da mata, menino, não corras,
Que o vil caipora
Agora,
Nesta hora
Passeia montado no seu caititu;
E arteiro e malino
Se encontra o menino...
Ai dele! que o leva no seu grande uru!

Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.

Seus olhos pequenos são negros, e feros,
Quais d'onça, luzentes,
Ardentes...
E os dentes
São como os do mero, ferinos, cruéis;
E o duro cabelo,
Assim, como o pêlo
Dos bravos queixadas, que são-lhe fiéis.

Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.

Qu'ousado e valente o tal caboclinho,
De penas coberto,
Esperto...
Decerto
Se vê-te quer fumo, pedir-t'o lá vem;
Se acaso lh'o negas,
Se não lh'o entregas,
Quem é que te salva? Lá vais ao moquém!

Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.

Se acaso te encontra... lá vais para a grota
Debalde lutando,
Gritando,
Chorando,
Na embira amarrado do seu grande uru!
Não corras menino,
Que o índio malino
Na mata passeia no seu caititu!

E o louco menino
Não quis escutar;
Fugindo de casa
Não pôde voltar.

Fontes:
GALENO, Juvenal. Lendas e canções populares. 4.ed. Fortaleza: Casa de Juvenal Galeno, 1859/1865.
GALENO, Juvenal. Medicina caseira. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 1969.
GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 1969.
GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno.

Juvenal Galeno (1836-1931)

Neto de Albano da Costa dos Anjos e do português Manuel José Theóphilo, Juvenal Galeno da Costa e Silva nasceu em Fortaleza, a 27 de setembro de 1836, em uma residência na Rua Formosa, nº 66 (hoje Barão do Rio Branco). Filho de José Antônio da Costa e Silva e Maria do Carmo Teófilo e Silva, abastados agricultores cafeeiros na encosta da Serra de Aratanha em Pacatuba. Primo pelo lado paterno de Capistrano de Abreu e Clóvis Beviláqua e pelo lado materno de Rodolfo Teófilo.

Ainda pequeno se mudou com a família para o Sítio Boa Vista, recanto aconchegante que lhe embalou os sonhos de criança. O tempo foi passando e o menino Juvenal trazia a seiva da imensurável ramificação cultural.

Seus estudos primários ele os fez numa escola de Pacatuba. Aos treze anos de idade, já com noções de latim ministradas pelo padre Nogueira Braveza, mal ainda havendo despertado para a adolescência, fundou e fez circular o primeiro jornal puramente literário no Ceará, o “SEMPRE VIVA”, destinado ao sexo feminino. O jornal teve efêmera existência, porque vivia ainda sob a tutela dos pais, não tinha condições de dar continuidade a esse empreendimento.

Ainda na infância, acompanhou o tio, Dr. Marcos Theóphilo, médico, pai de Rodolfo Theóphilo, à cidade de Aracati, onde frequentou uma escola pública ministrada por Porfírio Sabóia. Voltando de Aracati em 1851, matriculou-se no Liceu do Ceará onde cursou Humanidades até 1855.

Em 1853, fundou e fez circular o primeiro jornal da imprensa estudantil no Ceará, o jornal “Mocidade Cearense”, também de efêmera existência, em virtude, da transferência de seu sócio e colega Joaquim Catunda para o Rio de Janeiro.

Após o Curso, foi para o Sitio Boa Vista ajudar o pai na administração das atividades agrícolas, principalmente na cultura cafeeira, numa época em que o café assumia expressiva importância na economia cearense.

Com o intuito de aperfeiçoá-lo em assuntos agrícolas, seu pai mandou-o para o Rio de Janeiro em busca de adquirir maior conhecimento nas técnicas do plantio do café. Levava consigo uma carta de recomendação de Rufino José de Almeida apresentando-o a Francisco Paula Brito, proprietário da Marmota Fluminense. Ali Juvenal Galeno travou relações de amizade com Machado de Assis, Saldanha Marinho, Joaquim Manoel de Macêdo, Quintino Bocaiúva e outros.

Seduzido pelo convívio das letras, passou, a partir de então, a escrever poesias e a publicá-las na Marmota Fluminense ao lado de Machado de Assis e outros escritores. Demorou no Rio pouco mais de um ano, mas antes de seu regresso ao Ceará reuniu tais produções, editando-as em 1856, sob o título de Prelúdios Poéticos.

De volta ao Ceará, Juvenal Galeno trouxe dois exemplares de “PRELÚDIOS POÉTICOS”, ricamente encadernados com sua fotografia, que ofereceu a seus pais.

“PRELÚDIOS POÉTICOS” livro de estreia de Juvenal Galeno, editado em 1856, foi o primeiro livro da literatura cearense, tornando-se o marco inicial do Romantismo no Ceará, como afirmaram Mario Linhares, na sua “Historia da Literatura”, Antônio Sales e outros.

A partir de então sua existência passou a transcorrer entre o Sítio Boa Vista, na Serra de Aratanha, e a cidade de Fortaleza. Ainda por esse tempo ingressou como alferes nos quadros da Guarda Nacional, como também no Partido Liberal , em cujo jornal passou a colaborar. Em 1858 foi eleito Suplente de Deputado Provincial pelo círculo de Icó, onde defendeu um projeto para criação de uma escola prática de agricultura.

Em 1859, desembarcava em Fortaleza, trazida a bordo do Tocantins, a célebre Comissão Cientifica de Exploração, dirigida por Freire Alemão, composta por doze pessoas, entre as quais se destacavam Raja Gabaglia, Capanema e o poeta Gonçalves Dias, que chefiava a Seção Etnográfica e Narrativa da Missão.

De Fortaleza rumaram para Pacatuba ficando hospedados na casa dos pais de Juvenal Galeno. Ali na serra e na capital cearense, Juvenal teve como amigo e conselheiro, Gonçalves Dias, que lhe estimulou os pendores literários, aliás, já manifestados nas poesias “A Noite de São João”, “A Canção do Jangadeiro”, “Cantiga do Violeiro” e outras mais do livro “Prelúdios Poéticos”.

Gonçalves Dias, estabelecendo conversação com o poeta Juvenal Galeno, convidou-o para participar de um banquete com todos os membros da Comissão Cientifica de Exploração, do Senador Tomás Pompeu e de Silva Coutinho em Fortaleza. Juvenal Galeno atendeu de pronto ao convite do amigo, e em função do evento, deixou de comparecer à uma revista do Batalhão da Reserva do Exército a que pertencia. Isto irritou o Comandante da Guarda Nacional de Fortaleza, João Antônio Machado, que em seguida determinou o recolhimento do subalterno à prisão.

A penalidade lançada a Juvenal Galeno trouxe como resultado a confecção de um livro severíssimo e duro contra o tal Machado e, esse trabalho ele publicou num volume, o qual deu o título de “A MACHADADA”, aproveitando o simbolismo do sobrenome de João Antônio Machado. Esse livro foi a primeira obra literária impressa no Ceará.

Em 1861, Juvenal Galeno aparece em público como teatrólogo. É levada à cena, pela primeira vez, no Teatro Taliense, 3 de novembro de 1861, a comédia de sua autoria intitulada “ QUEM COM FERRO FERE COM FERRO SERÁ FERIDO”. Esse drama sociológico foi a primeira peça teatral produzida e encenada no Ceará. Nesse mesmo ano presenteou o público com o poemeto indianista denominado “A PORANGABA” (descrição em versos de uma lenda que Juvenal Galeno disse ter ouvido de um velho caboclo que escutara dos seus pais, e estes a seus maiores).

A poesia de Juvenal Galeno reflete toda a psicologia da alma da gente humilde, digo da alma da população do nordeste em todas as modalidades do seu sentir, nos seus lances heroicos, infelizes ou gloriosos.

Os sentimentos, os anseios dessa gente toda, da serra, praias e sertões, ele os gravou indelevelmente em seus versos.

Em 1865, no prólogo de “LENDAS E CANÇÕES POPULARES” ( obra-prima de Juvenal Galeno que foi saudado por Machado de Assis e outros renomados escritores, o que atesta o valor nacional do vate montanhês), ele declarou: “ Escrevi este livro acompanhando o povo no trabalho, no lar, na política, na vida particular e pública, na praia, na montanha e no sertão, onde ouvi os seus cantos e os reproduzi, ampliei sem desprezar a frase singela, a palavra de seu dialeto, a sua metrificação e até o seu próprio verso”.

Franklin Távora considerou-o não só como uma obra de arte em que se revelou o gênio do poeta, mas como documentário precioso devendo ser detidamente estudado, podendo se constituir um guieiro para a indagação e pesquisa dos usos, costumes e tradições populares.

O amor e a dedicação de Juvenal às Letras eram tais, que só aceitava empregos no setor intelectual. Desempenhou as funções de Inspetor Escolar, numa época em que os transportes eram difíceis,  penosos. Só havia acesso a certos lugares por meio de animais, fazendo-se o percurso de léguas, debaixo de uma soalheira causticante de uma escola para outra, tal a distância em que ficavam localizadas. Estradas inteiramente desertas. Contudo ele trabalhava com prazer e não sentia fadigas, gostava do convívio das crianças, orientava as professoras e tanto se fez a esse meio que chegou a compor singelas e tocantes “CANÇÕES DA ESCOLA”, que foram impressas e distribuídas nas escolas para serem cantadas. Esse livro que se esgotou em poucos dias, consagrou-o, também, como Poeta da Juventude. Essa obra foi adotada pelo Conselho de Instrução Pública do Ceará para uso das aulas primárias.

Nessa sua tarefa de Inspetor da Instrução Pública, ele se hospedava sempre em casa do velho pescador João Gomes, homem humilde, casado e com vários filhos, residia em Freixeiras. Numa destas ocasiões, Juvenal ouviu a narração dos sofrimentos que assaltaram inopinadamente o pescador e sua mulher, devidos à perseguição cruel de um potentado que, por vingança, aprisionara para o recrutamento militar o seu genro querido, deixando ao desamparo e na maior dor a esposa e o filho recém-nascido. Indignado, Juvenal tomou a si, com o entusiasmo que sentia na defesa das causas justas, retirar Vicente do recrutamento. Jurou que o conseguiria, afirmou destemido ao velho pescador que livraria seu genro e retornou logo a Fortaleza para não perder tempo. Escreveu então a seu cunhado e amigo Dr. José Gonçalves da Justa, que ocupava importante cargo no Rio de Janeiro, pedindo-lhe a liberdade de Vicente como o maior favor que lhe poderia prestar. O poeta era queridíssimo de toda família e seu cunhado conseguiu satisfazer-lhe o pedido.

Inspirado nessa verdadeira e altamente comovedora cena da vida real, escreveu ele o conto intitulado “AMOR DO CÉU” enfeixado no seu livro “CENAS POPULARES “ editado em 1891.

Sobre “Cenas Populares” disse José de Alencar: “ livro tão original ainda não se escreveu entre nós”. Ao invés do verso, o autor preferiu a prosa em que descreve lugares, pessoas, costumes típicos de sumo interesse para o folclore em alguns contos singelos: “Os pescadores”, “Dia de feira”, “Folhas secas”, “Noite de núpcias”, etc. Esse livro foi o primeiro livro de conto publicado no Ceará.

Juvenal Galeno montou uma tipografia expressamente para impressão de “LIRA CEARENSE”, livro impresso em fascículos e distribuídos aos domingos em formato de jornal, com o mesmo título, Lira Cearense, com seu primeiro número circulando a 7 de janeiro de 1872. Fascículos depois reunidos em um volume, dividido em três partes: Lira Popular, Lira Americana e Lira Íntima.

Foi nomeado em 19 de maio de 1876 terceiro suplente do Juiz Municipal de Pacatuba. Naquele ano casou-se com sua vizinha Dona Maria do Carmo Cabral , filha do Comendador Cabral de Melo. Depois de alguns anos, Juvenal e sua esposa querendo proporcionar uma melhor educação para os três filhos: José, Antônio e Maria do Carmo, deixam o sítio e vão morar num sobrado da Vila de Pacatuba. Até 1886, o seu domicílio seria a Vila de Pacatuba, em cujas ruas mantinha um estabelecimento de lojista.

Em 1887 fixa residência em Fortaleza, na Rua General Sampaio 1128, ali nascendo João, Henriqueta e Julinha.

Em 1887 quando da fundação a 4 de março do Instituto do Ceará, foi considerado Sócio Fundador daquela entidade. Dois anos depois, em 1889 foi nomeado pelo presidente da Província de Fortaleza, Caio Prado, para a função de Diretor da Biblioteca Pública, então localizada na Rua Sena Madureira, cargo que ocupou por longos dezenove anos. Nesta função divertia-se em policiar a leitura dos estudantes tirando-lhes das mãos as obras de Júlio Verne substituindo-as pela História de um Bocadinho de Pão. Juvenal Galeno costumava dizer, amava aquela repartição como se fosse um de seus próprios filhos.

O Conde D”Eu quando por aqui passou antes da inauguração do regime republicano, comparecendo à recepção que lhe foi oferecida, em palácio, pelo presidente da Província, foi apresentado ao nosso poeta. E para espanto da altas figuras ali presentes, o genro do imperador em voz alta, recitou, naturalmente querendo dar provas de que já conhecia muitas de suas poesias, algumas estrofes de “O Filho do Vaqueiro”.

Juvenal por algum tempo escreveu no Jornal “A CONSTITUIÇÃO”, um dos mais lidos no século XIX, em Fortaleza. Suas crônicas eram verdadeiras caricaturas dos costumes então em uso, e assim, ora em versos tersos e vibrantes, ora em prosa causticante, ele combatia a torto e direito os vícios e abusos daquela época.

Acastelhava-se por identificar o autor, e “A CONSTITUIÇÃO” aumentava a tiragem, esgotando-se, tal era a procura.

O poeta mostrou-se, nesse gênero, de uma verve admirável, e ora enérgico e destemido, ora trocista e brincalhão, ia fazendo cócegas e irritando aqueles em cuja cabeça a carapuça tão bem se ajustava. SILVANUS, com sua verve inesgotável, marcou um acontecimento no mundo social, e ele soube se haver com tal inteligência e habilidade, que não feriu diretamente a este ou aquele. E o sucesso foi tamanho que, quando o poeta deu por finda a sua publicidade, recebeu pedidos insistentes para enfeixar em livros aquelas produções. A princípio não quis fazê-lo, mas acabou cedendo, e eis, ereto e altivo o “FOLHETINS DE SILVANUS”, editado e descoberto em 1891 para gáudio de seus numerosos leitores. “Folhetins de Silvanus” é uma fina sátira dos costumes, hábitos, fielmente observados e descritos com um humorismo encantador.

A maior parte do livro foi escrita em verso, em que estigmatizava o luxo, o pedantismo provinciano, a falsa ciência dos diletantes, em plena Fortaleza do século XIX.

Aos setenta e três anos de idade, atacado de glaucoma, acaba por se aposentar do serviço público, já irremediavelmente cego, isso em 1908, passando a viver da aposentadoria, dos rendimentos próprios
auferidos não só da produção de seu sítio como dos aluguéis de suas vinte casas.

Em 1897, Juvenal Galeno dita à sua filha Henriqueta os seus versos de “Medicina Caseira”, livro somente impresso em 1969, no cinquentenário de fundação da Casa de Juvenal Galeno.

Continuou a produzir ditando poemas para sua filha, Henriqueta Galeno, que o assistiu, juntamente com sua esposa, até o fim da vida. Uma de suas imagens mais conhecidas retratou esse momento: no salão de sua residência, sentado em uma rede de varandas bordadas, as barbas alvas e longas, o olhar perdido, e a filha ao lado, sentada em uma cadeira, a tomar nota dos últimos versos ditados pelo grande bardo.

Desde 1916, a residência do poeta era frequentada por intelectuais como Alfredo Castro, Cruz Filho,
Leonardo Mota, Mário Linhares, Antônio Furtado, Irineu Filho, Antônio Sales, José Albano, Beni Carvalho, Papi Júnior, Sales Campos, José Sombra, entre outros.

Atribui-se às irmãs Júlia e Henriqueta Galeno a ideia de reunir o escol das letras cearenses, nos moldes dos salões literários franceses. Por iniciativa delas, a Casa se constituiu um palco de recitais, palestras, conferências, números de canto, audições ao piano, concertos de violões e danças. Tais eventos se realizavam a propósito de qualquer ocasião: despedidas, homenagens, aniversário de membros do círculo, lançamento de livros e recepção a visitantes ou intelectuais que tornavam à capital cearense, depois de longa ausência. Tudo era motivo para as sessões literárias que se realizavam na Casa de Juvenal Galeno, em presença do velho poeta, que não tomava parte nas apresentações, mas, segundo apontavam, fazia questão de ouvi-las.

Juvenal Galeno faleceu de uremia em 7 de março de 1931, aos noventa e cinco anos de idade, deixando uma volumosa produção literária e a Casa que se tornara referência e ponto de encontro preferido de intelectuais.

Dia 28 de setembro de 2013, na casa de Cultura Juvenal Galeno houve a solenidade de fundação da Academia de Letras Juvenal Galeno. Projeto da escritora Eliane Arruda, Patrono JUVENAL GALENO DA COSTA E SILVA. Presidente: Eliane Maria Arruda Silva – Cadeira 01.

Casa de Juvenal Galeno
Rua General Sampaio, 1128 - Centro
Fortaleza – Ceará
CEP: 60020030
Fone: (0xx85) 3252-3561
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Prêmio de Poesia e Trova Juvenal Galeno (ALJUG e UBT-Maranguape) 2014 (Prazo: 30 de Junho)

UNIÃO BRASILEIRA DE TROVADORES SEÇÃO DE MARANGUAPE (UBT-MARANGUAPE)

Academia de Letras Juvenal Galeno - ALJUG
aljug.concursos@gmail.com
UBT-Maranguape [ ubt.mpe@gmail.com ]
Programa Brasil Trovador - Rádio Maranguape FM [www.maranguapefm.com.br]

1. ÂMBITO: Nacional/internacional e Estadual, em língua portuguesa.

2. REQUESITOS: Poesias inéditas, destinadas a homenagear ao poeta, trovador, escritor, folclorista, ator, contista e teatrólogo Juvenal Galeno, natural de Fortaleza/Ceará nas seguintes categorias [constar o tema JUVENAL GALENO no trabalho, em qualquer categoria]:

2A) Cordel, sextilha, septilha, décima, glosa ou outro gênero de poesia popular;

2B) Poesia em trovas, poesia em quadras, acróstico, haicai, soneto, poema, poesia livre
ou outro estilo;

2C) Trova - duas trovas por tema, âmbitos Nacional/Internacional e Estadual:

i) “Trovador (es)” [duas trovas Lírica/filosófica (L/F)]

ii) “Juvenal Galeno” [duas trovas Lírica/filosófica (L/F)]

Obs: a) Serão desclassificadas as trovas que fugirem ao tema proposto e/ou sem métrica, sem rima, bem como aquelas postadas ou enviadas por e-mail após a data limite do concurso.

b) Constar o tema na trova. Nas poesias (demais categorias) deve constar o nome
de Juvenal Galeno.

c) informações sobre JUVENAL GALENO podem ser obtidas na Internet.

3. LIMITES: Um trabalho por concorrente, para cada categoria/gênero (2A e 2B), e duas trovas na forma do item 2C, de qualquer local do país/exterior.

4. PRAZO PARA REMESSA: Até 30 de junho de 2014

5. ENDEREÇO PARA REMESSA DAS TROVAS:

Por e-mail exclusivamente para o endereço eletrônico:.aljug.concursos@gmail.com indicando o nome do autor, endereço completo, município, estado CEP.

As poesias e trovas podem ser enviadas no próprio corpo do e-mail ou em arquivo anexo
para o e-mail: aljug.concursos@gmail.com.

6. PREMIAÇÃO:

Troféu Juvenal Galeno, instituído concedido pela ALJUG para o 1º. Colocado em cada categoria e diploma para cada um dos classificados: 3 vencedores, 3 Menções honrosas e 3 Menções Especiais, por tema, âmbito e categoria. Os diplomas serão enviados pela Internet quando o premiado residir em outro estado ou país.

A premiação está prevista para o dia 27 / 09 / 2014, data da comemoração do 1º aniversário da ALJUG, na Casa de Juvenal Galeno em solenidade programada pela Academia de Letras Juvenal Galeno. Não serão concedidos diplomas de participação especial em nenhum dos âmbitos e temas.

7) JULGAMENTO:

A UBT-Maranguape e o Conselho de UBTs do Ceará formarão as comissões julgadora e apuradora do concurso e suas decisões serão irrevogáveis. A simples participação no concurso autoriza a publicação dos trabalhos não eliminados pela UBTMaranguape e ALJUG.

Fortaleza, CE, em 26 / 02 / 2014.
Eliane Arruda
Presidente da Academia de Letras Juvenal Galeno - ALJUG
Fco. José Moreira Lopes (Dedé Lopes)
Presidente da UBT-MARANGUAPE/CE - Coordenador do Concurso e Acadêmico da ALJUG.

José Feldman (Chuva de Versos n. 56)


Uma Trova do Paraná
DARI PEREIRA

Poeta não faz escolha,
desafia qualquer tema,
desdobra folha por folha
e compõe o seu poema.

Uma Trova Humorística do Paraná
No Primeiro Festival de Maringá (1966), com três dias de festa, o A. A. DE ASSIS estava realmente cansado, e em dado momento, solicitado para dizer trovas, escapou com esta:

Senhores, estou cansado,
Embora muito feliz.
Por isso deixem sentado
O pobrezinho do Assis...

Uma Trova Premiada em Cantagalo/RJ, 2012
VANDA FAGUNDES QUEIROZ (PR)

Um casebre na favela…
o espaço ganhou fulgor,
quando alguém pôs na janela
um simples vaso de flor!

Uma Trova da Bahia
HILDEMAR DE ARAÚJO COSTA

Todo conto do vigário
encerra duplo sentido:
há sempre um sabido, otário,
e um otário mais sabido.

Um Poema da França
JEAN LA FONTAINE
A Rã e o Boi


Num prado uma rã
Um boi contemplou,
E ser maior que ele
Vaidosa intentou.

A pela enrugada
Inchando alargou,
E às leves irmãs
Assim perguntou:

- Maior que o Boi
Ó Manas, já sou?
- Não és, lhe disseram
E a rã lhes tornou,

- E agora, inda não?
E mais ainda inchou;
Eis logo de todas
Um não escutou.

Inchar-se invejosa
De novo buscou,
Mas dando um estouro
A vida acabou.

Também, se em grandeza
Vencer procurou
O pobre ao potente,
Por força estourou.

Trovadores que Deixaram Saudades
COLBERT RANGEL COELHO (MG)


A todo mundo insinuas
que não mando no que é teu,
mas tenho saudades tuas
e o dono delas sou eu.

Um Haikai de São Paulo
SILVIO GARGANO

Sob o sol de inverno
todos correm apressados
para se esquentar.


Um Epigrama do Rio de Janeiro
LAURINDO RABELO
(Laurindo José da Silva Rabelo)
1826 – 1864

 

Dizem que a Morte e Maurício
Andaram na mesma escola;
A Morte mata somente…
O Maurício mata e esfola

(Visava a José Maurício Nunes Garcia, médico e professor de anatomia)

Um Soneto do Rio de Janeiro
GIUSEPPE ARTIDORO GHIARONI
Continuidade


Existe um cão que ladra quando eu passo,
como se visse um bêbedo, um mendigo.
E no entanto, esse cão foi meu amigo,
como tantos amigos que ainda faço.

À noite, com que alegre estardalhaço
vinha encontrar-me no portão antigo;
enquanto a dona vinha ter comigo
e, sorrindo, apoiava-se ao meu braço.

Hoje ele faz a outro a mesma festa
e ela o mesmo carinho, tão honesta
como se nem notasse a transição.

Eu rio dessa triste brincadeira,
mas quando uma mulher é traiçoeira,
não se pode confiar nem no seu cão!

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

José Feldman (Chuva de Versos n. 55)


Uma Trova do Paraná
ALDO SILVA JÚNIOR

Sempre que ponho em versos
as coisas do coração,
os pensamentos dispersos
tomam forma de oração.

Uma Trova Humorística do Paraná
OSVALDO REIS

Mostra o sábio o que destaca
 do burro a paca, e sussurra:
 – é que o burro sempre empaca,
 e a paca jamais emburra…

Uma Trova Premiada em Nova Friburgo/RJ, 2007
ADILSON MAIA (RJ)

Nos momentos de incerteza,
a mensagem de afeição
pode estar na sutileza
de um simples toque de mão.

Uma Trova do Ceará
FERNANDO CÂNCIO ARAUJO

Este amor que me consome,
e esta saudade – entonteia! …
traço nas dunas teu nome
e beijo as letras na areia!…

Um Poema do Paraná
ORLANDO WOCZICOSKY
Prova Convincente


O trovador Vasco Taborda fez ao Orlando Woczikosky aquela pergunta clássica:
- Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
O Orlando não titubeou e, disparou:
- Nenhum dos dois! Foi o galo!!!
Alguns dias depois entregou ao Vasco uma “prova” do que dissera, nesta “jóia”!


Gente sábia ou adivinha,
me responda bem ligeiro:
Quem foi que nasceu primeiro,
foi o ovo ou foi a galinha?

Deixa comigo que eu falo:
Pela experiência minha,
não foi ovo nem galinha,
Deus fez por primeiro o galo.

Ao ver o galo sem tanga
botando no mundo a goela,
tirou dele uma costela
fazendo dela uma franga.

Depois de uma conversinha
e de uma boa “cantada”
que o galo deu na coitada,
a franga virou galinha.

Assim o casal distinto
caiu na boca do povo:
Nascendo o primeiro ovo
e, do ovo, o primeiro pinto.

Esclareci, num repente,
essa polêmica antiga.
Quem não gostou que me diga
se há prova mais convincente!

Trovadores que Deixaram Saudades
ALOÍSIO ALVES DA COSTA (CE)

Chega a noite…aumenta o frio…
e esta revolta em meu peito,
se faz maior que o vazio,
que tu deixaste em meu leito!…

Um Haikai de São Paulo
AKIKO KOIKE

Em pleno outono –
Flor de maio em penca
Enfeita a sacada. 


Um Epigrama de Serro/MG
JOÃO SALOMÉ QUEIROGA
1810 – 1878


Pagam médicos na China
Só quando eles curam lá.
Sofrerão fome canina
Se tal moda pegar cá.
 

Um Poema do Rio de Janeiro
HERMOCLYDES S. FRANCO
No Silêncio da Noite


No fim do dia, quando a noite vem,
Meu quarto triste, já sem claridade,
Depois da tarde em que partiu meu bem,
Nada mais guarda senão a saudade...

Nesta tristeza em que me abato, agora,
Marcando o fim dos dias de ventura,
Meu peito sofre e o coração deplora
A falta dos momentos de ternura.

A noite chega, enfim, e uma oração
Faço, contrito, a Deus Onipotente,
Para acalmar meu ser, em solidão,
E dar-me a luz e a paz, em tom silente!...

Bem nesse instante de silêncio e calma
Vejo, no céu, estrelas luminosas
Que parecem dizer para a minha alma:
"Enquanto a noite dorme, nascem rosas"!...

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Varal da Saudade em Trovas IX


Alfredo Mendes (Caderno de Poemas) I

A LIBERDADE 

Que se eliminem todas as grilhetas.
Que sejam retiradas as mordaças
Que seja o mundo livre de arruaças,
dos ditadores tipo, proxenetas.

Que se ouçam de novo as trombetas,
Anunciando ao povo novas graças.
Já bastam tantos ódios e desgraças,
Retirem as promessas das gavetas.
  
As promessas de paz anunciadas
E por conveniência propaladas.
Se querem dividendos receber.

Ao teatro da guerra digam não!
A Terra é um planeta em convulsão...
Não ponham tantos povos a sofrer!

AMAR O PRÓXIMO

Amar sem condição, amar somente!
Abrir o coração ao semelhante.
Fazer do nosso amor, uma constante,
E nas horas amargas, ‘star presente!

Amar sem condição, devotamente.
Amar só por amar, ser tolerante.
Com o próximo, não ser arrogante,
P’ra com seus impropérios, indulgente!

Tratemos toda a gente tal e qual.
Com a mesma ternura, e modo igual,
Como gostamos nós de ser tratados!

Se estendermos a todos nossas mãos!
E fizermos vivência como irmãos!
Por certo nós seremos mais amados!

A MINHA GUITARRA
(Sextilhas)

Dedilhei a guitarra em tom dolente.
Foi saindo um acorde confrangente,
Como um soluço preso na garganta!
O seu tanger é fado, mal fadado…
É fífia em coração atraiçoado,
Ciúme que no peito se agiganta!

A adaga que lançaste me acertou.
Teu beijo de mentira envenenou,
O ar que recebi da tua boca!
Que triste fado foi o nosso amor,
Uma letra sem rima, sem primor,
Cantada por fadista de voz rouca!

O ventre da guitarra soluçou.
A melodia, em ais se transformou…
Emitindo o tinir de alguém gemendo.
É a minha guitarra se finando…
As suas cordas frouxas se soltando,
Enquanto nossos fados vão morrendo!

 CALENDÁRIO

Arranquei uma folha ao calendário.
Foram mais trinta dias que passaram.
Tentei imaginar quantos ficaram,
privados deste gesto tão primário!

E a quantos foi mostrado o itinerário,
que as leis do passamento decretaram!
E o sono mais que eterno iniciaram...
Com suas mãos envoltas num rosário!
  
E tento equacionar o tempo ido.
Analisar o tempo decorrido...
E quantas folhas posso ‘inda mudar!

Fito o meu calendário e o seu mês!
E penso que chegada a minha vez...
A folhinha não mais vou arrancar!

CONTRADIÇÃO
 

Tenho meu coração amordaçado,
as asas lhe cortei p’ra não voar.
Não vá fugir de mim e te contar,
quanto anseio que estejas a meu lado!

Quero que faças parte do passado.
Não quero mais de ti me recordar.
Quero rasgar lembranças, apagar...
O sabor do teu beijo apaixonado!

A luz do teu olhar quero esquecer.
Teus lábios de carmim, não quero ver,
desejando o calor dos lábios meus!

Eu não quero teu corpo desejar...
Mas quanto mais eu quero me afastar,
mais desejo cair nos braços teus!

CORTAR O PASSADO

Rasguei as lembranças do tempo passado.
Os sonhos guardados, desfiz em pedaços.
Da caixa com fotos atada com laços,
Eu fiz um braseiro; foi tudo queimado!

Tristeza, amargura, tirei do meu lado.
Mandei-as embora para outros espaços.
Fugi da mentira, dos falsos abraços…
Que às vezes sentia, ao ser abraçado!

Do zero farei, outra forma de vida.
Será mais concreta, serena, sentida,
Apenas cercado p’los grandes amigos.

Amigos que sabem, o que é amizade.
Que no peito ostentam a fraternidade,
Que é arma letal para os seus inimigos!

DIA DA MULHER

Hoje se cantam odes à mulher.
Dizem ser o seu dia especial.
Hoje a mulher é símbolo nacional,
é superior a tudo e a qualquer!
  
Chegado o amanhã não é sequer,
lembrado o seu carinho maternal!
Tudo volta à rotina natural...
Outro ano virá, se Deus quiser!

Sendo por este, ou por aquele motivo.
Se foi criando um dia mais festivo,
ao sabor do que mais se lhe aprouver...
  
Os homens podem dias inventar...
Mas por mais voltas que lhes possam dar...
Sempre os dias serão: de ti, mulher!

ERRANTE

Caminhei pela noite sem destino.
Errando como um pobre peregrino
Que busca avidamente a fé de Deus.
A luz que iluminava meu caminho.
‘scondia tanto cravo, tanto espinho...
que foi rasgando a carne aos braços meus!

Indiferente à dor, ao sofrimento.
Ao frio gelado, à chuva, ao forte vento
Que me sulcava a face cruelmente.
Segui o meu caminho sem traçado,
Ao acaso, sem ter rumo acertado...
Seguia por seguir, seguia em frente!

Sentia-me empurrado por alguém...
Seria alguma força do além
Dando impulso à inércia dos meus passos?
Que forças me empurravam desse jeito?
Apertei minhas mãos juntas ao peito,
E tive a sensação de mil abraços!

Mil abraços de amor e de ternura,
Que eram bálsamo p’ra tanta tortura,
Que germinava dentro do meu ser!
Era farol intenso a me indicar
O caminho melhor p’ra te encontrar,
Que eu sabendo, fingia não saber!

Cheguei por fim a Ti, meu Bom Jesus!
À minha escuridão Tu deste luz,
E foste iluminando os passos meus.
A paz reencontrei no teu caminho.
Já não ando perdido, tão sozinho...
Obrigado por tudo Meu Bom Deus!

(2º Prémio Literário - Paul Harris 2001)

FANTASIA

Queria ser o Sol que te bronzeia.
O gel que no teu corpo vais usar.
O colar que teu colo vai beijar...
E ser para o teu mal, a panaceia!

Ser a seda que fez a tua meia.
O perfume que tens p’ra te aromar.
O lencinho que tens para limpar,
A lágrima teimosa que te enleia!

O lençol que te aquece em noite fria.
Do sonho, ser a tua fantasia.
De corpos se fundindo ternamente.

Ser o copo que toca em tua boca.
E ser o tal, da tua noite louca...
E te ficar beijando loucamente!

Alfredo Mendes (1933)

Alfredo dos Santos Mendes nasceu na cidade de Lisboa/Portugal, em 1933. Desde cedo, e talvez devido a seus hábitos de leitura, onde predominava a poesia, treinou a composição das suas primeiras quadras, com as quais enfeitava os vasos de manjericos, que tradicionalmente, e quase como que por obrigação, tinha de estar presente no meio da minúscula folhagem verde, do célebre manjerico. O tema das quadras era e continua a ser, o namorico e as fogueiras. Essa tradição ainda hoje se mantém, por ocasião das festas dos Santos Populares. Santo António, São Pedro e São João.

Teve uma infância muito ligada à leitura. Começou a ler toda a coleção de Júlio Dinis. O seu modo de escrever, inserindo nos diálogos o modo de falar de cada região, fascinou-o. Recorda também, que era raro Júlio Dinis não incluir nos seus livros, um pouco de poesia. Júlio Dinis, serviu de trampolim para outros voos. Camilo Castelo Branco, ensinou-o a gostar ainda mais da leitura. Na poesia, o seu soneto (AMIGOS), marcou-o de tal modo, que até hoje hoje não esqueceu. Fernando Pessoa, Florbela Espanca, assim como o poeta popular António Aleixo, foram os grandes responsáveis pela iniciação em poemas.

O primeiro soneto, foi escrito em 1952, dedicado à irmã, no dia do seu casamento.

Em 1995, fixou-se na cidade de Lagos Algarve.

Em 1998, começou a colaborar com alguns jornais locais, que regularmente editavam os seu poemas, e posteriormente começou a concorrer a Jogos Florais.

Em 1999, conseguiu três menções honrosas.

Em janeiro de 2012, possui: 6 Primeiras colocações. 4 Segundas colocações. 1 Menção Especial. 28 Menções Honrosas, nas modalidades: Soneto, Glosa, Poesia Lírica, e Quadra.

Nunca editou nenhum livro.

Rachel de Queiroz (Tragédia no mar)

Parece título de filme B - mas anda mesmo morrendo muita gente. São os recentes conflitos no Balcãs, são os judeus e palestinos se matando uns aos outros, são as bombas dos terroristas bascos, ou irlandeses, ou muçulmanos, e agora essa tragédia com a plataforma de petróleo, na bacia de Campos.

As pessoas se chocam com as perdas de vida, em massa; paira nos ares da mídia um clima de catástrofe - clima, aliás, criado pela própria mídia, que consegue cada vez mais eliminar distâncias, transmitindo as cenas de terremoto ao vivo, enquanto ele ocorre; ou pegando a queda livre dos pedaços do avião em chamas.

Antigamente valia aquela observação do Eça de Queiroz, segundo a qual a nossa reação de horror e pena diante de um desastre está na razão direta da nossa proximidade. E assim a gente se impressiona muito mais com a perna quebrada da vizinha do que com a morte de milheiros de pessoas na China. Mas foi-se esse tempo. Agora a gente vê ao vivo e em cores a cara das criancinhas sendo desenterradas dos escombros, e escuta os gemidos dos que ainda estão sob o entulho. Aquela espécie de privacidade que nos era facultada pelo fato de estarmos longe acabou. Hoje ninguém está longe. É uma das características da atual psicologia. De massa, e a reação dessa dita massa ante a notícia das mortes ocorridas uma a uma. Quero dizer; numa grande cidade como o Rio morre diariamente uma meia centena dos seus milhões de habitantes - como seria fácil de verificar nos obituários dos jornais, se eles dessem realmente a conta exata dos que morrem dentro da área urbana. (Parece que a publicação se faz por amostragem, já que não confere nunca sequer com os convites para enterro publicados na mesma página, ou com o número dos presuntos desovados por aí além, em praias e matagais.)

De qualquer forma, como todos, sem exceção, estamos à espera da morte, em qualquer esquina e em qualquer momento, deveríamos receber com naturalidade a notícia de que morreram alguns tantos de nós num acidente. Não é esse o destino de toda carne? Mas não. A gente se assombra, se apavora, se revolta. Como se Deus estivesse extrapolando dos seus privilégios, tirando-nos a vida de forma injusta e exagerada. Vá lá que venha a morte, mas que ela vá pinçando de uma em uma as suas vítimas, no meio da multidão. Pois até os massacres de presos dentro dos presídios chocaram muito, contrastando mesmo com a crença pouco cristã da maioria da população de que “bandido tem mesmo é que morrer”. Pois até morte de bandido, vindo em massa, assusta. O nosso acordo com Deus Nosso Senhor é que Ele nos mate de modo salteado, disfarçando. Filosofias à parte, foi horrível mesmo esse caso da plataforma da Petrobrás - a P-36. Primeiro, a grande dor pelos que se foram de repente, no acidente inesperado. Depois, a morte afogada, que só tem pior a do fogo. Afogados naquelas águas profundas e traiçoeiras.

Mas parece que a dor pior é a dos que sobreviveram. Deixando os seus no fundo do mar. Aquele sentimento de culpa: “eles foram e eu fiquei. Por que:” Ai, a vida é assim - ou antes, a morte é assim. Além da dor da perda, o misterioso sentimento de culpa - por que eles e não eu? Verdade que há também, em muitos casos, um sentimento oposto ( que ocorre especialmente entre os mais velhos): “Eles se vão, mas eu - eu estou ficando!” Espécie de triunfo do sobrevivente.

Fonte:
Correio Brasiliense. Brasília/DF, 09 de abril de 2001

4º Concurso de Poesias "Professor Aparecido Roberto Tonellotti" (Prazo: 31 de Março)

REGULAMENTO

1. Dos Objetivos

A Ôxe! Produtora Comunitária institui o IV Concurso de Poesias “Professor Aparecido Roberto Tonellotti” com o objetivo de incentivar e divulgar novos talentos na arte da poesia, bem como mapear a produção poética em Francisco Morato e Região.

2. Das Participações

Poderão concorrer autores brasileiros natos ou naturalizados, com obras obrigatoriamente inéditas (sem publicação), com temáticas e gênero livres, escritas em Língua Portuguesa, sob pseudônimo, desde que observem as particularidades de cada categoria. Fica vetada a participação de membros das Comissões Organizadora e Julgadora.

3. Das Categorias

Infantil (até 12 anos de idade);
Juvenil (de 13 a 18 anos de idade);
Adulta (a partir de 19 anos).

4. Das Inscrições e Apresentação das Obras

As inscrições encontram-se abertas no período de 01 de Fevereiro a 31 de Março de 2014 (valendo a data da postagem ou entrega).

Poderá ser inscrito apenas 01 (um) poema por autor.

A obra deverá ser apresentada em 05 vias, digitadas ou datilografadas em uma só face do papel A4.

As cinco vias da obra deverão ser inseridas em envelope grande,  acompanhadas da ficha de inscrição, informando externamente o nome do concurso, a categoria pretendida e o pseudônimo do autor.

A ficha de inscrição serão disponibilizados no sítio: www.blogduoxe.blogspot.com.

Endereçar para:

IV CONCURSO DE POESIAS
“PROFESSOR APARECIDO ROBERTO TONELLOTTI/2013” –
Ôxe Produtora Comunitária –
Av. São Paulo nº 965 – Vila Suíça –
Francisco Morato – SP –
CEP 07904-000.


Também poderá ser entregue no endereço acima, até a data limite das inscrições.

5. Do julgamento e da Premiação:

Os trabalhos serão apreciados por uma Comissão Julgadora composta por três profissionais ligados à Língua Portuguesa e Literatura, e esta, terá plena autonomia de julgamento, não cabendo recurso às suas decisões.

Será oferecida uma premiação com troféus e certificados de participação aos 3 (três) primeiros colocados de cada categoria.

As escolas que tiverem algum aluno entre os classificados também receberão certificados de participação.

6. Das Comissões e Disposições Gerais

A Comissão Julgadora poderá conceder Menção Honrosa para um ou mais trabalhos, se assim julgar necessário, que receberão certificados.

Todos os participantes que desejarem, poderão solicitar via e-mail seu certificado digital de participação no concurso. Fica também a critério da Comissão Julgadora uma seleção de trabalhos que, juntamente dos premiados, serão publicados no Informativo Ôxe!.

As premiações acontecerão no Sarau ConPoeMa, que integrará a programação do Oxandolá [In] Festa 2014, no mês de Maio deste ano (em local, data e horário a serem posteriormente divulgados).

Os resultados serão divulgados através do sítio: www.blogduoxe.blogspot.com, bem como, através do Informativo Ôxe! em sua publicação impressa.

Os trabalhos vencedores poderão ser declamados ou encenados, no todo ou em parte, na noite de premiação, por artista ou grupo teatral previamente contratado pela Ôxe! Produtora Comunitária.

Os trabalhos inscritos não serão devolvidos, sendo incinerados 30 dias após a data da divulgação dos resultados.

A inscrição implica automaticamente a aceitação das condições desse regulamento, bem como a autorização para a publicação das obras inscritas em quaisquer mídias que a comissão organizadora julgar conveniente, portanto o autor assume total responsabilidade pela autoria, podendo responder por plágio, cópia indevida e demais crimes previstos em lei.

O não cumprimento de qualquer item do regulamento implicará na desclassificação automática da obra inscrita.

Os casos omissos serão resolvidos pela Comissão Organizadora. .::

José Feldman (Chuva de Versos n. 54)


Uma Trova do Paraná
LOURDES STROZZI
 

O pranto na mocidade,
qualquer brisa põe em fuga;
E o que restar de umidade,
o toque de um beijo enxuga.

Uma Trova Humorística do Pernambuco
MARIO BARRETO FRANÇA

Case e estará sossegado
(ao solteiro alguém falou).
Assim fez ele (coitado)
e nunca mais sossegou!…

Uma Trova Premiada em Cantagalo/RJ, 2012
ÉLBEA PRISCILA DE SOUZA (SP)

A maquiagem pesada,
diante do espelho, desfaço
e em minha cara lavada
rugas brigam por espaço…

Uma Trova do Ceará
SINÉSIO CABRAL
 

Quatro versos: eis a prova,
sim, num texto independente,
da grandeza de uma trova.
Sete sílabas somente.

Um Poema do Rio de Janeiro
CECÍLIA MEIRELES
O Menino Azul

 

O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
— de tudo o que aparecer.

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)

Trovadores que Deixaram Saudades
ERNESTO TAVARES DE SOUZA (SP)

Janela, a bem da verdade,
teu ranger, esse chiado,
são gemidos de saudade
na voz rouca do passado.

Um Haikai do Rio de Janeiro
BENEDITA AZEVEDO

Nas águas do lago
Uma sombra em movimento –
Voo da libélula.


Um Epigrama de São Paulo/SP 

MARTIM FRANCISCO III
(Martim Francisco de Ribeiro Andrada)
1853 – 1927


Ó caso feio! O caso extraordinário!
Caso que me entrou fundo na lembrança!
Tem o vigário a cara da criança,
Tem a criança a cara do vigário!

(Improvisado, por ocasião de um Batizado em Limeira, em 1876)
 


Um Soneto de Portugal
GLÓRIA MARREIROS
O Meu Relicário


No meu relicário há rosas sem fim,
já murchas, caídas, no tempo que passa,
perderam seu âmbar, vestígios de graça,
lembrando os pedaços que noivam meu fim.

E nesses sudários, meu rosto carmim,
carmim?... Mas na hora em que o riso esvoaça
em castos poemas, escritos com raça,
na chuva a bailar em redor do meu sim.

Mas eu já não sei dos fracassos da vida...
Torturas de outrora, deixando vencida
a caixa das contas que tem meu rosário.

Perdi a esperança no espaço da lei,
onde há rosas secas e beijos que dei
sem troca, a murcharem no meu relicário.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Varal da Saudade em Trovas VIII


Rachel de Queiroz (Morrer sonhando)

Sempre me sinto entre a vida e a morte, mais para a morte do que para a vida, neste calor medonho do verão do Rio. Um calor de boca do inferno, um ar pesado que pode ser tirado às colheradas. Em plena praia do Leblon, mesmo com o pé na água, se você riscar um fósforo, ele queima sem tremer até lhe sapecar o dedo. E, nesse ambiente de forno, a gente, talvez por associação, sonha com um iglu, daqueles dos esquimós, todo armado em tijolinhos de gelo, no feitio dos fornos de barro, do sertão. Dentro do iglu, em vez desse suor viscoso que nos gruda a roupa à pele, uma gotinha de água gelada de vez em quando nos pinga no rosto, ou pousa, feito uma pérola, nos pelos de nosso agasalho de couro. O iglu é, assim, uma visão de paraíso, miragem de viajante derrubado pela insolação na areia ardente do deserto.

O pior é que, ante nossas queixas, o pessoal carioca vem e diz: "Logo você, do Norte, reclamando contra o calor!" Triste ignorância. Primeiro, eu não sou do norte, sou do Nordeste. E as pessoas que ainda chamam o Nordeste de Norte são tão antigas! Do tempo em que se considerava como Norte tudo o que ficasse da Bahia para cima. A distinção entre Nordeste e Norte é um conceito moderno, que entrou em voga pela década de 30. E, no Nordeste, o clima é muito diferente do clima equatorial do Pará e do Amazonas. Norte autêntico é o calor pesado e úmido que te envolve com um ar feito de lã, só ocasionalmente aliviado por pancadas bruscas de chuva - violentas e repentinas como se a água do céu fosse despejada sobre o chão. No Nordeste o calor é limpo, claro, todo puro sol. O sol é sempre esticado e transparente como uma gaze azul, cortado aqui e além por raros flocos de nuvens brancas, postas ali só para compor a paisagem.

Tão raro é um céu nosso pejado de nuvens que a gente lá, enfadada de tanta claridade, costuma dizer, ante um promissor céu enfarruscado: "Olha como o tempo está bonito para chover!" Note-se que, para nosso alívio (o que não acontece no sul nem no norte), naquela teimosa limpidez de sol nordestino, sopra sempre, abençoadamente, uma brisa: a viração. Basta você se abrigar do sol debaixo de uma sombra, imediatamente a viração te afaga o rosto, suave e fresca. Por isso é que a viração que sopra na boca da noite, a mais constante e amena, é chamada "o aracati" - palavra que, na linguagem dos índios, quer dizer brisa boa, brisa bonita.

Tem horas, aqui no Rio, em que a gente sai de um ar refrigerado e recebe de chofre, na cara, o bafo incendiário do calor de fora. Mal comparando, recordo nessa hora o que se informava sobre a explosão atômica, logo após o primeiro emprego do artefato em Hiroshima: "Quando a bomba explode, segue-se imediatamente uma rajada de calor violentíssimo; em seguida é que sobe ao céu o cogumelo de fogo". Não é a cara do verão do Rio?

Quando penso no fim do mundo e na infinidade de previsões com que sábios e adivinhos o descrevem, só faço a Deus um pedido: "Se o mundo se acabar ainda no meu tempo, por favor, que não seja pelo fogo!"

Pode vir por contaminação atmosférica, por peste, por colisão com outro astro, por uma grande maré que afogue os continentes. Contanto que não seja pelo fogo. Parece que o fim melhor ainda seria pelo frio. Nada de explosões e chamas, só o ar gelado tomando tudo. A gente vai se encolhendo, se amontoando uns contra os outros, tiritando, batendo o queixo. E aí, sendo o frio cada vez mais forte, baixa aquela sonolência; e se adormece e se morre, sonhando. Pelo menos assim me contou um russo, que quase morreu congelado e já foi salvo dormindo.

Pelo fogo, não!

Fonte:
Correio Braziliense. 03  de fevereiro de 2002.

Irmãos Grimm (Cinderella ou A Gata Borralheira)

A esposa de um homem rico ficou doente, e quando ela percebeu que o seu fim estava se aproximando, ela chamou a sua única filha até a cabeceira da sua cama e disse,

— Filhinha, seja boa e piedosa, e assim o bom Deus sempre te protegerá, e eu olharei por ti do céu e sempre estarei perto de ti. Dito isto, ela fechou os seus olhos e morreu. Todos os dias a jovem visitava o túmulo de sua mãe e chorava, porém, ela permaneceu boa e piedosa. Quando chegou o inverno, a neve espalhou como que um lençol branco sobre o túmulo, e quando o sol da primavera se afastou novamente, o homem conheceu uma outra esposa.

A mulher trouxe consigo duas filhas para a casa com ela, que tinham um rosto lindo e eram muito belas, porém, tinham um coração malvado e negro. Começava agora um período ruim para a pobre criança adotiva.

— Será que essa pata choca vai se sentar na sala conosco? diziam elas. Quem quer comer pão, deve trabalhar para consegui-lo; vai lá com a criada da cozinha. Elas tiraram as belas roupas que ela usava, vestiram-na com um camisolão velho e cinzento, e lhe calçaram os tamancos de madeira.

— Olhem só a princesa orgulhosa, como ela está enfeitada! elas gritavam, e riam, e a conduziram para a cozinha. Lá ela tinha de fazer o trabalho difícil desde manhã até a noite, levantar-se antes do sol raiar, carregar água, acender o fogo, cozinhar e lavar. Além disso, as irmãs a maltratavam de todas as formas possíveis — zombavam dela e derramavam todas as ervilhas e as lentilhas sobre a brasa, de modo que ela era forçada a sentar e a catar tudo de novo.

À noitinha, quando ela tinha trabalhado até se cansar, ela não tinha uma cama para dormir, mas tinha de dormir ao lado da lareira perto das cinzas. E por esse motivo ela estava sempre suja e empoeirada, e elas a chamavam de Cinderella. Aconteceu que um dia seu pai estava indo para a feira, e ele perguntou às suas duas filhas adotivas o que elas queriam que ele trouxesse para elas.

— Lindos vestidos, disse uma delas,

— Pérolas e Joias, disse a outra.

— E tu, Cinderella, disse ele, o que tu desejas?

— Pai, traga para mim o primeiro galho de árvore que bater no seu chapéu ao voltar para casa. Então ele comprou lindos vestidos, pérolas e joias para suas duas filhas adotivas, e ao retornar para casa, quando ele estava cavalgando através de um verde e denso matagal, um galho de um pé de avelã raspou nele e bateu no seu chapéu. Então ele quebrou o galho e o levou consigo. Quando ele chegou em casa, ele deu às suas duas filhas adotivas, as coisas que elas tinham pedido, e à Cinderella ele deu o galho do pé de avelã.

Cinderella lhe agradeceu, foi até o túmulo de sua mãe e plantou o galho lá, e chorou tanto que as lágrimas caíram sobre ele e o regaram. Ele cresceu, contudo, e se tornou uma bela árvore. Três vezes por dia Cinderella ia e sentava debaixo da árvore, e chorava e orava, e um pequeno pássaro branco sempre vinha também na árvore, e se Cinderella expressava um desejo, o pássaro lançava para ela o que ela tinha desejado.

Um dia, porém, o rei anunciou que haveria uma festa, a qual haveria de durar três dias, e à qual foram convidadas todas as lindas e jovens garotas do país, para que o seu filho pudesse escolher ele mesmo a esposa. Quando as duas filhas adotivas souberam que elas iriam estar presente entre os convidados, ficaram eufóricas, e chamaram Cinderella e disseram,

— Penteie o nosso cabelo, engraxe os nossos sapatos e amarre os nossos cintos, pois estamos indo a uma festa no palácio do rei.

Cinderella obedeceu, porém, chorou, porque ela também teria gostado de ir com elas para o baile, e implorou à sua madrasta que a deixasse ir. — Ires tu, Cinderella! disse ela; — Estás suja e empoeirada, e queres ir à festa? Não tendes sapatos nem roupas, e ainda queres dançar! Mas como Cinderella continuasse insistindo, a madrasta disse afinal,

— Despejei um prato de lentilhas nas cinzas para ti, se conseguires catar todas elas em duas horas, tu irás conosco. A jovem atravessou a porta dos fundos que dava para o jardim, e chamou, Oh, pombinhos bonzinhos, oh, rolinhas amorosas, e todas as aves que voam no céu, venham me ajudar
As boas podem guardar
As ruins podem comer.

Então dois pombos brancos entraram pela janela da cozinha, e depois vieram as rolinhas, e no fim todas as aves do céu, vieram chiando e fazendo algazarra, e pousaram entre as cinzas. E os pombinhos balançavam suas cabecinhas e começaram a bicar, bicar, bicar, e os outros começaram também a bicar, bicar, bicar, bicar, e colheram todos os grãos que estavam bons no prato. Nem uma hora tinha se passado quando terminaram o serviço, e todos voaram para longe novamente.

Então a garota levou o prato de lentilhas para a sua madrasta, e ficou contente acreditando que agora a madrasta deixaria que ela as acompanhasse à festa. Mas a madrasta disse,
   
— Não, Cinderella, tu não tens roupa e não sabes dançar; tu serias apenas motivo de risos. E como Cinderella começasse a chorar, a madrasta disse,

— Se conseguires juntar para mim dois pratos de lentilhas das cinzas em uma hora, tu irá conosco. E ela pensou consigo mesma, que ela com toda certeza não conseguiria. Quando a madrasta esvaziou os dois pratos de lentilhas entre as cinzas, a donzela atravessou a porta dos fundos que dava para o jardim e gritou, Oh, pombinhos bonzinhos, oh, rolinhas amorosas, e todas as aves que voam no céu, venham me ajudar.
As boas podem guardar
As ruins podem comer.

Então os dois pombos brancos entraram pela janela da cozinha, e depois vieram as rolinhas, e finalmente todas as aves do céu, vieram chiando e fazendo algazarra, e pousaram entre as cinzas. E os pombinhos balançavam suas cabecinhas e começaram a bicar, bicar, bicar, e os outros começaram também a bicar, bicar, bicar, bicar, e colheram todos as sementes que estavam boas no prato. Nem meia hora tinha se passado quando terminaram o serviço, e todos voaram para longe novamente.

Então a donzela levou os pratos para a madrasta e ficou muito feliz, acreditando que ela poderia ir com elas a festa. Mas a madrasta disse,

— Nada disto vai adiantar; tu não irás conosco, porque não tens roupa e não sabes dançar; Nós teríamos vergonha de ti! Dizendo isso, virou as costas para Cinderella, e desapareceu, com suas duas filhas orgulhosas.

Como ainda não havia ninguém em casa, Cinderella foi até o túmulo de sua mãe, debaixo do pé de avelã, e clamou,

Balance e se agite, árvore querida,
Ouro e prata encham a minha vida.

Então o pássaro lançou para ela um vestido de ouro e prata, e sapatos enfeitados de seda e prata. Ela colocou o vestido com toda pressa, e foi para a festa. As irmãs adotivas e a madrasta entretanto não a reconheceram, e pensavam que ela devia ser uma princesa estrangeira, porque ela estava tão linda em seu vestido dourado. Jamais poderiam pensar sequer que ela fosse Cinderella, e acreditavam que ela tinha ficado em casa sentada na sujeira, catando lentilhas das cinzas. O príncipe foi encontrá-la, pegou-a pela mão e dançou com ela. Ele não quis dançar com nenhuma outra donzela, e jamais soltava de suas mãos, e se alguma outra pessoa vinha para convidá-la, ele dizia,

— Ela é a minha companheira.

la dançou até o anoitecer, e então ela quis ir para casa. Mas o filho do rei disse,

— Irei contigo e te farei companhia, porque ele queria conhecer a família da bela donzela. Ela fugiu dele, todavia, e se escondeu na casa do pombo. O filho do rei esperou até que o pai dela chegou, e então ele lhe disse que a estranha donzela havia se escondido na casa do pombo. O velho pensou, — Terá sido Cinderella? e lhe trouxeram um machado e uma picareta para que ele pudesse reduzir a pedacinhos a casa do pombo, mas não havia ninguém dentro.

E quando eles chegaram em casa Cinderella estava com suas roupas sujas mexendo nas cinzas, e uma lamparina pequena e fraca que estava queimando na lareira, pois Cinderella tinha pulado rapidamente dos fundos da casa do pombo e correu para o pé de avelãs, e lá el tirou o seu belo vestido e o colocou em cima do túmulo, e o pássaro o levou de volta novamente, e depois ela voltou para a cozinha entre as cinzas com seu vestido cinzento.

No dia seguinte, quando a festa começou novamente, e os pais dela e as duas irmãs tinham ido mais uma vez, Cinderella foi até o pé de avelã e disse

Balance e se agite, árvore querida,
Ouro e prata encham a minha vida.

Então o pássaro lançou para ela um vestido mais lindo do que o dia anterior. E quando Cinderella apareceu na festa com esse vestido, todos ficaram maravilhados com a sua beleza. O filho do rei havia esperado até que ela chegasse, e imediatamente a pegou pelas mãos e não dançou com nenhuma outra, apenas com ela. Quando outros vinham e a convidavam para dançar, ele dizia,

— Ela é a minha companheira. Quando a noite chegou ela quis sair, e o filho do rei a seguiu e queria ver em que casa ela tinha entrado.

Mas ela escapou dele, e correu para o jardim que havia atrás da casa. Lá ficava uma árvore bela e alta onde havia as peras mais maravilhosas. Ela subiu com tanta agilidade entre os galhos, como se fosse um esquilo, que o filho do rei não percebeu onde ela tinha ido. Ele esperou até que o pai dela chegasse, e disse-lhe, A estranha donzela fugiu de mim, e eu acho que ela subiu o pé de pera. O pai dela pensou, Teria sido Cinderella? então ele pegou um machado e derrubou e destruiu a árvore, mas não havia ninguém nela. E quando eles chegaram à cozinha, Cinderella estava entre as cinzas, como sempre, pois ela tinha pulado do outro lado da árvore, tinha levado o lindo vestido para o pássaro que ficava no pequeno pé de avelãs, e vestiu o seu vestido cinzento.

No terceiro dia, quando seus pais e suas irmãs já tinham ido para a festa, Cinderella foi mais uma vez ao túmulo de sua mãe e disse para a pequena árvore

Balance e se agite, árvore querida,
Ouro e prata encham a minha vida.

E então o pássaro lançou para ela um vestido que era mais esplêndido e magnífico do que qualquer um que ela já tivesse visto, e os sapatos eram de ouro. E quando ela foi para a festa usando o vestido, ninguém nem conseguia falar de tanto deslumbramento. O filho do rei dançou somente com ela, e se alguém a convidasse para dançar, ele dizia,

— Ela é a minha companheira.

Quando a noite chegou, Cinderella queria ir embora, e o filho do rei estava ansioso para ir com ela, mas ela fugiu dele tão rapidamente que ele não conseguiu segui-la. O filho do rei, no entanto, usou de um estratagema, e tinha mandado que toda a escada fosse untada com piche, e então, quando ela fugiu, o sapato esquerdo da donzela ficou colado. O filho do rei o apanhou, e ele era pequeno e gracioso, e todo de ouro.

Na manhã seguinte, ele levou o sapato para o seu pai, e disse para ele, — Ninguém será a minha esposa, exceto aquela cujo pé couber dentro destes sapatos de ouro.
   
Então as duas irmãs ficaram contentes, porque elas tinham pés bonitos. A mais velha delas entrou com a sandália no seu quarto e quis experimentá-lo, e a mãe dela ficou por perto. Mas ela não conseguiu colocar o seu dedão enorme dentro dela, e a sandália era muito pequena para ela. Então a mãe dela lhe deu uma faca e disse,

— Corte o dedão fora; quando fores a rainha não precisarás mais andar a pé. A donzela cortou o dedão fora, forçou o pé dentro do sapato, engoliu a dor, e foi até o filho do rei. Então ele a levou em seu cavalo como sua noiva cavalgou para muito longe com ela. Contudo, eles foram obrigados a passar perto do túmulo, e lá, em cima do pé de avelãs, estavam dois pombos que gritavam,

Preste atenção, preste atenção,
Há sangue dentro do sapato,
O sapato é pequeno demais para ela,
A verdadeira noiva está te esperando.

Então ele olhou o pé dela e viu que havia sangue pingando dele. Deu a volta com o cavalo e levou a falsa noiva de volta pra casa, e disse que ela não era a verdadeira, e então a outra irmã também quis colocar o sapato. Então ela entrou no seu quarto e os dedos dela entraram no sapato sem problemas, mas o seu calcanhar era grande demais. Então a mãe dela pegou uma faca e disse,

— Corte um pedaço do seu calcanhar; quando fores rainha não precisarás mais andar a pé. A donzela cortou um pedaço do seu calcanhar, forçou o seu pé até entrar no sapato, engoliu a dor, e foi até a casa do filho do rei. Ele a levou em seu cavalo como sua noiva, e cavalgou para longe com ela, mas quando eles passavam perto do pé de avelãs, dois pombinhos estavam sentados no galho e gritavam,

Preste atenção, preste atenção,
Há sangue dentro do sapato,
O sapato é pequeno demais para ela,
A verdadeira noiva está te esperando.

Ele olhos os pés dela e viu que sangue estava escorrendo de seu sapato, e que ele havia manchado as meias brancas dela. Então ele virou o seu cavalo e levou a falsa noiva novamente para casa. Esta também não é a verdadeira, disse ele, você não tem uma outra filha?

— Não, disse o homem, — Há ainda uma pequena e raquítica ajudante de cozinha que a minha falecida esposa me deixou, mas possivelmente ela não poderá ser a noiva. O filho do rei exigiu que fosse chamá-la para que viesse até ele; mas a mãe respondeu, — Oh não, ela é muito suja, ela não pode se apresentar! Ele voltou a insistir, e Cinderella teve de ser chamada.

Ela lavou primeiro as suas mãos e o seu rosto, e depois foi e fez reverência diante do filho do rei, que ofereceu a ela o sapato de ouro. Então ela se sentou em um banquinho, e tirou de seus pés o pesado tamanco de madeira, e os colocou dentro do sapato, o qual entrou como uma luva. E quando ela se levantou e o filho do rei olhou para o rosto dela ele reconheceu a linda donzela que havia dançado com ele e gritou,

— Essa é a noiva verdadeira! A madrasta e as duas irmãs ficaram horrorizadas e pálidas de tanto ódio; ele, entretanto, levou Cinderella em seu cavalo e cavalgou para longe com ela. Quando eles passavam perto do pé de avelãs, os dois pombinhos brancos gritavam,

Preste atenção, preste atenção,
Não há sangue dentro do sapato,
O sapato não é pequeno demais para ela,
A verdadeira noiva está com você.

E depois de terem dito isso, os dois pombinhos desceram voando e pousaram nos ombros de Cinderella, um à direita, e o outro à esquerda, e ali permaneceram sentados.

Quando o casamento com o filho do rei foi celebrado, as duas falsas irmãs vieram e queriam conquistar os favores de Cinderella e dividir com ela a sorte conquistada. Quando o casal de noivos foram para a cidade, a mais velha ficou do lado direito e a mais jovem do lado esquerdo, e os pombinhos arrancou um olho de cada uma dela. Depois que elas voltaram para casa, a mais velha ficou à esquerda, e a mais jovem a direita, e os pombinhos arrancaram o outro olho de cada uma delas. E assim, por causa da maldade e da falsidade delas, elas foram punidas com a cegueira até o fim da vida delas.

Fonte:
Contos de Grimm

Jangada de Versos do Ceará (11) – Quintino Cunha

José Quintino da Cunha
Itapajé  (1875 -1943) Fortaleza


ENCONTRO DAS ÁGUAS
(Rios Negro e Solimões)

Vê bem, Maria, aqui se cruzam: este
É o rio Negro, aquele á o Solimões.
Vê bem como este contra aquele investe,
Como as saudades com as recordações.

Vê com se separam duas águas.
Que, se querem reunir, mas visualmente;
É um coração que quer reunir as mágoas
De um passado, às venturas de um presente.

 É um  simulador só, que as águas donas
Desta terra não seguem curso adverso,
Todas convergem para o Amazonas,
O real rei dos rios do Universo;

Para o velho Amazonas, Soberano
Que, no solo brasílio, tem o Paço;
Para o Amazonas, que nasceu humano,
Porque afinal é filho de um abraço!

Olha esta água, que é negra como tinta,
Posta nas mãos, é alva que faz gosto;
Dá por visto o nanquim com que se pinta,
Nos olhos, a paisagem de um desgosto.

Aquela outra parece amarelaça,
Muito, no entanto, é também limpa, engana;
É direito a virtude quando passa
Pela flexível virtude quando passa

Que profundeza extraordinária, imensa,
Que profundeza ais que desconforme!
Este navio é uma estrela, suspensa
 Neste céu d’água, brutalmente enorme.

Se estes dois rios fôssemos, Maria,
Todas as vezes que nos encontramos,
Que Amazonas de amor não sairia
De mim, de ti, de nós que nos amamos!...

A PIRACEMA

Aqui é um lago, feito de água clara;
Visualmente negro se mostrando;
Calmo que sobre si passa uma igara,
Como no espaço um passarinho voando.

Sol, das dez da manhã. O amor compara
Este quadro à virtude. Um vento brando...
Mas lá fora no rio. Ele aqui pára,
O lago, a mata e o Céu quietos deixando.

Do anivelado espelho d'água, apenas
Manchado levemente por pequenas
Nódoas que lhe colorem, nódoas cérulas,

Aos bandos, as sardinhas vão surgindo,
Frágeis, cambiantes, rápidas fugindo,
Como travessas conchas madrepérolas.

VISTA IGNOTA

Há um ruído infernal, dentro do leito
Do rio. A lontra rosna. A capivara
Espavorida esconde-se no estreito
De um paraná, que a enchente ali formara.

O jacaré, levando tudo de eito,
Foge, estrugindo horrivelmente; e, para
Mais aumentar o grande ruído feito,
O rio inteiro se convulsionara...

E, enquanto em medo tudo se alvorota,
Nesta paisagem visualmente ignota,
Mas facilmente do índio percebida,

Uma anta firme, calma que arrebata,
Corta o fundo das éguas, distraída,
Como se fosse andando pela mata!...

VAZANTE
O mês de julho mostra um tempo novo
Em tudo: à margem pousa alegre bando
De borboletas, cor de gema de ovo,
O declive das águas anunciando.

Da floresta central, de lá de ignotas
Matas, voltam, da imensa arribação,
Os maguaris, as garças e as gaivotas,
- A beleza das praias no verão!

E o uirapajé cantando, e a saracura
Cantando, em fim o plácido barulho
Das aves todas, dá-nos a envoltura
Dessas manhãs esplêndidas de julho.

A própria vida mais amor exalta,
Nesses dias magníficos, sem-par,
Quando mais se ouve o canto da pernalta,
No alegre anseio de nidificar.

EPÍLOGO
Só de um lance de vista a ideia morre,
Sem ver no Solimões grandeza alguma;
Porque assim de relance, mal parece
Um vasto espelho de moldura verde
Onde o Céu tem costume de mirar-se!

Vede-o alternadamente:

                                      É um mar tranquilo
Onde passa um navio. Agora, é a praia
— Branca toalha de Deus ao Sol corando,
Uma igara, que o desça, a vida lembra
No declive do mundo enfurecido,
E ora tão calmo, das paixões humanas.
A garça que ali pouse, é o ponto branco
Da pulcra proposição: — a ave é a poesia.
Se porventura o vento o agita, um coro
De banzeiros, em lágrimas desfeito,
Ecoa ao longe, no íntimo das matas!

O louro-rosa, o cedro, a samaumeira,
Quando derivam na voraz corrente,
Lembram destroços de cruel derrota
Da mais tremenda luta pela vida.
Quando à margem fervilha a piracema
De jaraquis, pacus, mandis, sardinhas,
Frágeis, cambiantes, madreperoladas,
Vezes subindo à flor d'água, e de novo,
Quando o dourado ou o boto lhes persegue,
Caindo como bátegas de chuva
Na coberta de zinco das barracas,
Igualando-os, no meio, a piraiua
Como a queda de um'árvore na mata,
Ou mesmo a pirarara, arremedando
As lavadeiras quando batem roupa;
Quando estrugindo o jacaré bubuia,
Na defesa dos filhos pequeninos,
Se humana voz em terra os arremeda;
Quando, à mercê da simples correnteza,
De bubuia, nas árvores que descem,
As gaivotas também descem reunidas,
Como um bando de náufragos, que buscam
Salvação nos destroços, que flutuam,
Da galera infeliz da humanidade,
Se tal galera a mata imensa fosse;
E quando outras no ar recurvam voares
E o corta-água e a ariramba gaivoteiam,
Assim, sim, já se pode ter em mente
Que o território desse rio imenso,
Sem marcos miliários confinantes,
É um país ideal, cheio de assombros,
E de verdades e d'encantos cheio!

Vede-o profundamente:

                                      No seu seio
Milhões de seres encantados moram,
Mitologicamente idealizados:
De Uirará, de Unutara, de Honorato,
À virginal Ararambóia, à Iara,
Iara — a formosa imperatriz netúnica,
A sereia fluvial, por cujo canto,
Perdera a fala a fauna ictiológica,
Subjugando-a, vencendo-a, dominando-a,
Como o próprio Tupã, do alto de Iuaca

Na pátria pois das ilhas flutuantes,
Onde Boiaçu nos dera a noite.
E onde Membiíra rosna como a onça,
Quando os botos suspiram como gente,
Os botos, filhos da encantada corte,
Nesse canto, patrícios, a poesia
Não flutua, mas vive como os peixes!...
.............................................................

Dá-me, Amor Pátrio, com que agora o veja
De um moroso galerno, espanejado,
Como uma taça imensa, onde Iara beba
À saúde do Sol que nos aclara,
Com esse licor original de sombras
— Sombras de nuvens, dissolvidas n'água!

Fontes:
– CUNHA, Quintino. Pelo Solimões : versos norte-brasileiros. Paris: 1907.
–  Antonio Miranda

Teófilo Braga (A da Varanda)

Recolhido no Algarve

Era uma vez um mercador que tinha uma filha linda como as estrelas e ladina como os diabos. Pegado à varanda dela era o quintal do rei. Todas as tardes ela ia regar as suas flores, e tinha um grande manjericão. O rei começou a gostar muito dela, e já a esperava à hora certa para a ver, e perguntava-lhe sempre:

– Oh menina, visto ser
De tanta discrição,
Há de me saber dizer
Quantas folhas tem o seu manjericão?

Ela dava-lhe o troco, dizendo:

– Vossa majestade, que sabe
Ler, escrever e contar,
Há de saber quantos bagos
De areia tem o mar?

O rei começou então a ver se podia pregar uma peça à rapariga, e aproveitou uma ocasião em que o mercador tinha saído para fora da terra. Arranjou uma tenda com quinquilharias, e foi vestido de tendeira a casa dela. A filha do mercador mandou-a entrar sem suspeitar mal; o rei levava um anel muito rico, que deixou a rapariga encantada. Gabou-o muito com pena de o não poder comprar; mas a tendeira disse-lhe:

– Eu, minha menina, dou-lhe o anel se me der um beijinho; estou perdida por si; mesmo que seja por cima deste véu que trago pela cara.

Quem mal não pensa mal não vê, a rapariga deu o beijo e ficou com o anel.

De tarde quando foi regar as flores, apareceu o rei, como de costume:

– Oh menina, visto ser
De tanta discrição,
Há de me saber dizer
Quantas folhas tem o seu manjericão?

E ela retrucou logo:

– Vossa majestade, que sabe
Ler, escrever e contar,
Há de saber quantos bagos
De areia tem o mar?

O rei, que ficou calado, continuou:

– E aquele beijo que deu
Mesmo por cima do véu?…

A rapariga ficou capaz de morrer; fez-se muito vermelha e jurou de si para si que se havia de vingar. Vai um dia, veste-se de preta, e foi a casa do rei oferecer-se para criada; primeiro combinou com o seu criado, que de noite botasse na varanda do rei a cabra que tinham no quintal.

O rei tomou logo a pretinha para si, porque era muito engraçada, e com medo que ela lhe fugisse deitou-a num quarto ao pé do seu, com uma fita amarrada ao braço dela.

De noite o rei puxou pela fita e ainda a pretinha respondeu; mas assim que o rei pegou no primeiro sono, a rapariga desamarrou-se, foi buscar a cabra muito devagarinho, pô-la em seu lugar, e foi-se embora.

Quando o rei acordou, lembrou-se da pretinha, que era de encantar, puxou-a pela fita para a sua cama, mas a cabra começou a berrar, e o rei espantado a gritar que tinha o diabo em casa; acudiu muita gente e todos viram a cabra em vez da preta no quarto do rei.

No outro dia à tarde, o rei foi ver a filha do mercador, que andava a regar e perguntou-lhe:
– Oh menina, visto ser
De tanta discrição,
Há de me saber dizer
Quantas folhas tem o seu manjericão?

E ela, em despique:

– Vossa majestade, que sabe
Ler, escrever e contar,
Há de saber quantos bagos
De areia tem o mar?

Diz o rei:

– E o beijinho por cima do véu?…

E ela:

– E a cabra que fez méu, méu?…
   
O rei conheceu que ela o tinha desfrutado, mas achou-lhe graça. A rapariga não quis ficar por aqui. Soube que o rei ia para uma caçada, vestiu-se de homem, montou numa mula, e levou consigo uma máscara, e foi seguindo a comitiva de longe.

Depois de muito andar, o rei disse para parar um pouco, e que o deixassem sozinho. Assim que os cavaleiros se afastaram para longe, a rapariga tira a máscara da algibeira, saca de um punhal e vai para o rei, como quem quer matá-lo, e grita-lhe:

– Beije já o rabo da minha mula, senão mato-o aqui já.

Naqueles apertos, o rei como estava ali sozinho beijou o rabo da mula.

A rapariga voltou para casa; no outro dia estava regando as flores, e o rei apareceu, e fez as perguntas do costume:

– Oh menina, visto ser
De tanta discrição,
Há de me saber dizer
Quantas folhas tem o seu manjericão?

E ela:

– Vossa majestade, que sabe
Ler, escrever e contar,
Há de saber quantos bagos
De areia tem o mar?

Diz o rei:

– E aquele beijo que deu
Mesmo por cima do véu?…

Ela:

– E a cabra que fez méu, méu?…

O rei:

– Não se finja tão fula.

Ela:

– E o beijo no rabo da mula?

O rei lembrou-se do acontecido, achou-lhe muita graça, e quando o mercador voltou à terra foi pedir-lhe a filha em casamento, porque com uma mulher tão esperta havia de ser por força muito feliz.

Fonte:
Contos Tradicionais do Povo Português

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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