Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Outros Contistas – Ray Silveira

               
Ray Silveira (Raymundo Silveira) nasceu em Fortaleza, 1947. Médico aposentado. Adepto da literatura na Internet. Vencedor de vários concursos literários. Seus contos estão espalhados em sites e blogs, assim como em antologias. Conquistou diversos prêmios literários.

                Alguns narradores de Ray Silveira são seres incomuns, em constante conflito interior, como se delirassem em suas ruminações. O de “Lembranças do inexistido”, na verdade, “jamais tivera mãe. Fruto de geração espontânea, começara a ser sem pré-existir. Enteado de Deus, nasci-me. Ninguém me pariu”. Busca explicações para sua vida e a morte de sua mãe, em narração de acontecimentos em tempos variados. Em “Sacrifício” o contista se vale de outro expediente: ao lado do narrador principal, o protagonista, dá voz a outro personagem. As falas de ambos se intercalam, em diálogos (“Falei com o diretor. Estão te esperando. Senhor... O quê? Desististe? Não! Pelo contrário: o mecanismo de lavagem interior não funcionou ontem.”) e em narrações (“Senti-me como quem entra são numa clínica de check-up, e sai com um diagnóstico de te prepara. Passou aquela noite transpirando poças de terror...”).

                Ray dá aos personagens uma liberdade quase que ilimitada, como se perdesse o controle sobre eles. Disso resultam considerações filosóficas, éticas, umas demasiadamente óbvias ou há muito repetidas ou desgastadas pelo uso: “A condição humana é um emaranhado de contradições”; “Só os bêbados conhecem este hiato diabólico entre a embriaguez e a sobriedade.”

                Talvez nem seja essa a razão pela qual Ray se abeire tanto da filosofia, dos conceitos, das definições, em detrimento da narração. Sua vontade quiçá nem seja a de contar histórias ou pintar personagens e paisagens. Certamente a ele interessam os temas essenciais do ser, motivo por que se vale tanto da alegoria. “Deplorável véu”, que lembra sonho, pelo ambiente opaco, nebuloso, sombrio, nos remete à busca da essencialidade humana: a alma, o ser. “Quem?” poderia ser crônica, não fosse a alegoria da feminilidade, afirmada no final da peça.

                Há também nas narrativas de Ray Silveira um constante jogo de palavras e sons: “dos hediondos cozinheiros que flambaram, tostaram, fritaram, refogaram, guisaram, torraram, assaram, cozinharam, sapecaram, esturricaram, carbonizaram o corpo e a alma da Joana do Arco e de milhares de outros inocentes”. Faz uso também da associação de ideias e nomes: “valsando às margens de vienenses Danúbios straussianos. Bailando o bailado das Alegorias da Primavera, ao som de sinfonias entremeadas de bemóis de suspiros e sustenidos de desejos, acompanhada de cavalheiros de longos cabedais e de cavaleiros de távolas redondas”. Vale-se ainda das sequências de substantivos e adjetivos: “sonatas mozartianas, tocatas e cantatas bachianas, cavalgatas wagnerianas e sambatas noelroseanas...”. Além disso, se dá bem com os neologismos.

                Percebe-se também a preocupação do escritor em se mostrar cosmopolita, como na ambientação das tramas em cidades europeias (sem explicação aparente). No conto “Via dolorosa”, o protagonista explica: “Soube apenas, em fragmentos, que fui removido do Hotel Ibis, no centro da cidade, para o setor de Urologia do Kaiser-Franz-Josef-Spital, na zona sul da capital austríaca.” Em “A última vez que viu Paris” toda ação se passa na capital de França. “... E os dois choraram” é de inspiração grega: “Viveu, no Asclepion de Trica, na Tessália”. Em Londres se ambienta “O duplo eu”. Mas nem só na Europa vivem os seres fictícios de Ray. Moram também em Fortaleza, como o narrador de “Alguém me viu?”: “Moro nas proximidades da rua Treze de Maio, entre Assunção e Floriano Peixoto”.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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