Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Márcia Theóphilo (1940)

artigo por Cláudio Willer

Márcia Theóphilo, poeta nascida em Fortaleza, CE, vem publicando poesia na Itália há mais de três décadas; mais precisamente, desde 1972. Além disso, desenvolve uma atuação importante, através de apresentações públicas e outras modalidades de intervenção, abrangendo não só aquele país, mas toda a Europa. Nesse percurso, também tem promovido a boa divulgação da literatura brasileira, reconhecendo como suas fontes o nosso romantismo, em sua temática indianista, e o nosso modernismo, especialmente em sua vertente primitivista, de Raul Bopp ou do Mário de Andrade de Macunaíma, além de evidenciar seu diálogo com a poesia contemporânea do Brasil.

Imediatamente após sua chegada a Roma, impelida pela diáspora provocada pelo regime militar, seu talento já foi reconhecido por figuras da estatura do extraordinário poeta brasileiro Murilo Mendes, do ensaísta e diretor teatral italiano Ruggero Jacobbi (participante da criação do TBC, Teatro Brasileiro de Comédia, na década de 1950 em São Paulo, Jacobbi, ao retornar à Itália, contribuiu enormemente para a difusão da literatura brasileira, chegando até mesmo a traduzir Invenção de Orfeu de Jorge de Lima – por motivos como esse, precisaria ser mais lembrado), e do expoente da geração espanhola de 1927, Rafael Alberti.

Personalidades literárias de primeiro plano continuam a prestigiá-la, a exemplo do notável poeta italiano Mario Luzi e do importante crítico brasileiro Fábio Lucas. O reconhecimento por esses e muitos outros leitores qualificados foi corroborado através de inserções da poesia de Márcia Theóphilo em boas antologias poéticas, de inúmeros convites para apresentações públicas, e pela outorga de prêmios importantes.

A poesia de Márcia Theóphilo é, evidentemente, de temática brasileira; mais especificamente, amazônica, como declara através de alguns dos seus títulos, a exemplo da recente coletânea Amazônia Canta (Abooks Editora, São Paulo, 2004) ou em Io canto l’Amazzonia (Edizioni dell’Elefante, Roma, 2002). Sua Amazônia é, evidentemente, aquela das matas a serem salvas, dos povos indígenas ameaçados de extinção, dos rios que, por suas dimensões, resistem aos avanços de uma civilização destruidora, e de um patrimônio simbólico, de usos, costumes, lendas e falas dos habitantes originários do Brasil, indissociável da riqueza natural.

Mas sua obra não se restringe ao tratamento da Amazônia e das culturas indígenas, como pode ser visto pelo exame de sua lírica, editada em antologias, e da série de poemas sobre a Sardenha. Contudo, Márcia Theóphilo se qualifica e se faz ouvir como “privilegiada intérprete”, como diz Fábio Lucas; e, por isso, como porta-voz da defesa do meio-ambiente, não apenas na condição de brasileira, porém como descendente de índios, e antropóloga. Portanto, sabe do que fala, tem um duplo conhecimento do assunto, por suas próprias raízes, sua origem familiar (seu pai veio do Acre), e por tê-lo estudado de modo sistemático, dispondo de uma sólida base factual, suporte da intuição poética e da expressão da sensibilidade.

Entre outros traços em sua poesia, que a caracterizam como individual, com estilo próprio, temos a enumeração dos termos indígenas, a exemplo da dramática enunciação dos nomes das tribos exterminadas em Mães e Pais da América (publicado, assim como as citações a seguir, em Amazônia Canta). Revela a disposição, conforme diz em Floresta meu Dicionário, de cantar o som das palavras/ Açana, Yana, Nacaira/ Cajá, Pacaba, Maçaranduba. Para ela, ; e, por isso, palavras que escrevo são aquelas de um ar cheio de palavras, pois a floresta é meu dicionário. Assim, o poeta não é apenas o narrador: é aquele que entende a linguagem da floresta, os signos da natureza, e que lhes confere sentido, por ser capaz de traduzi-los, em uma função semelhante à dos sacerdotes tribais, emissores e intérpretes dos mitos.

A marca distintiva dos poemas publicados em Amazônia Canta, até agora sua coletânea de maior vulto editada no Brasil, é mesmo a exuberância. Mimetiza e reproduz a vitalidade amazônica e seu mundo mágico, em textos que buscam relações de equivalência com o mundo neles apresentado, tornado-o presente, mais que representado ou meramente descrito. Por isso, apresenta-se como intérprete, narradora, e ao mesmo tempo como avatar, encarnação da vida selvagem. Usa a primeira pessoa, confunde o próprio “eu” com a natureza, como em Munguba, onde fala do …meu esplendoroso corpo/ mas eu, Munguba frondosa/ sou mais ampla. Em O Vento, também procede ao animismo, a confusão entre a esfera do sujeito e do mundo dos objetos: Eu danço, e tu?/ soa, baila, assobia, canta. Daí resulta a imagem poética, como em E o vento continua/ devorando a noite; dentro dele, há uma música dos ramos. A Kupahúba ou Copaíba, uma de suas plantas totêmicas, também é antropomorfizada, apresentada como pessoa, encarnação do arquétipo feminino, no poema do mesmo título.

De todas as metáforas de um confronto entre o mundo mítico, tribal, e a civilização moderna, a mais expressiva talvez seja aquela em Da Amazônia a Nova York, seu poema de 2001. Aponta para uma síntese, uma saída para os impasses e conflitos da sociedade em que vivemos, sugerindo que seja ocupada pela selva. A mesma já antevista em Última Orgia, equivalente à ruptura do limites do humano, confundindo-o de vez com o natural: Um rio caudaloso são nossas vozes/ que cantando arrastam tudo: as máscaras, os carros, a serpente sinuosa dos corpos. Essa fusão do pessoal e do natural, do mundo das coisas e da subjetividade, mostra as razões pelas quais Márcia Theóphilo se qualifica como poeta, e vem recebendo reconhecimento como tal, e não apenas como antropóloga ou jornalista. Como ela diz em Pitanga, O amor nasce como raízes. Por isso, o mundo mítico, natural, é o espaço verdadeiramente humano.

Fonte:
http://www.marciatheophilo.it/index.php/articolo-di-claudio-willer/?lang=pt

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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