Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Rachel de Queiroz (Os Heróis)

Vieram me procurar uns jovens estudantes de literatura, e me pediram para responder a duas perguntas: Quais são seus heróis prediletos na literatura brasileira? E heroínas?

Lembrei-me de questionário idêntico, que me fora feito há muito tempo; encontrei o recorte em que lhe respondia e, com surpresa, verifico que as respostas a dar hoje seriam as mesmas de tantos anos atrás.

Em primeiro lugar venero Macunaíma, é claro. Macunaíma, herói da nossa gente. Macunaíma das incríveis aventuras, o herói sem nenhum caráter, que não é símbolo porque não se passa para isso, fica muito acima, quilômetros, léguas. Aquele que fez tudo que não fizemos e quereríamos fazer; com a sua gaiola de legornes debaixo do braço pode ser, à vontade, bandeirante, pirata, guerreiro, sedutor e ladrão; percorre os sete caminhos do mundo, descobre os limites indevassados da terra dos sem-fim, intriga, mente, ama, engana, briga e apanha, andando sempre muito acima do bem e do mal - pois não foi à toa que deixou a consciência na ilha de Marapatá.

Depois dele, meu predileto é o velho Vitorino Carneiro da Cunha, herói de Fogo Morto, esse nosso Quixote ou nosso cavalheiro Bayard, figura impecável, quase sem medo e sem reproche, dentro das suas limitações humaníssimas.

Incapaz de tolerar sujeição, encarnação de desassombro e da independência, advogado das causas perdidas, grandiloquente, farofeiro e eternamente a esbravejar em sagrada ira contra os poderosos e seus malefícios. Não há quem o conheça e não o ame e, amando-o, não faça como seu próprio criador, José Lins do Rego, que confessava haver alçado o bravo capitão a uma postura de árbitro dos seus atos e seus impulsos, de tal modo que jamais se atreve a praticar, de cabeça erguida, uma ação que o velho Vitorino pudesse reprovar.

Quanto às heroínas, o primeiro lugar nessa galeria é um clássico. Não tem de escolher, está por si só escolhido e aclamado. Pois esse primeiro posto é inegavelmente de Capitu, a dos olhos de cigana, oblíqua e dissimulada, imagem do eterno e venenoso feminino. Capitu, deusa de todos nós.

O segundo lugar está meio indeciso. Poderia ser Dona Janaína, rainha do mar, poderia ser a filha da Rainha Luzia. Talvez devesse pertencer a Iracema; mas Iracema não é bem uma mulher, é uma alegoria vestida de índia, com sua personalidade toda dissolvida na prosa poética de Alencar - e dela nenhuma outra lembrança temos, além dos lábios cor de mel, do talhe de palmeira, do cabelo de asa de graúna. E isso é pouco. Antes apelar para Moema, que sabia nadar e matou-se afogada.

Mas já que me pedem uma opinião pessoal, prefiro dar o segundo lugar àquela que é realmente a predileta do meu coração e uma espécie de equivalente, no mundo livre da infância, do velho Vitorino Carneiro da Cunha: é a boneca Emília, do Sítio do Pica-Pau Amarelo, nas histórias de Monteiro Lobato.

Emília não tem medo de ninguém; nem da vida, porque boneca propriamente não vive, nem da morte, porque boneca não morre. Não admite leis, nem regras, nem gramática. Não respeita cara nem autoridade. Bruxa de pano com olhos de linha preta, assim mesmo acha que tem tudo, não quer ouro nem fortuna, nem amantes, nem poder. Só quer aventuras e o direito de abrir a boca e opinar sobre o que bem entende. Emília, meu exemplo e minha aspiração, tantas vezes, meu raio de sol, asneirento, faísca de liberdade, de coragem, e de insolência, minha mestra e meus amores - Emília, Marquesa de Rabicó.

Fonte:
O Estado de São Paulo (São Paulo/SP) 30 de novembro de 2002

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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