Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Jangada de Versos do Ceará (10) – Márcia Theóphilo

Márcia Theóphilo
Fortaleza/CE, 1940


A NOITE

No princípio havia noite
não se sabia o que era noite
havia somente luz e era tão intensa, nos trópicos
que se tinha a sensação de passar períodos de azul
de vermelho, de verde
era tão forte a luz que as pessoas tinham
a sensação de flutuar
dentro das cores
dentro das plantas
tudo o que hoje não fala, falava
intercomunicava-se entre si
as árvores falavam
e estimulavam o pensamento com suas flores
não se sabia o que era negro
existiam somente as cores que emanavam da luz
e distribuíam energia-pensamento
mas não se dormia
porque a música nasceu com o silêncio e com a noite
a música nasceu com a consciência dos primeiros ritmos
e com a noite nasceu o primeiro canto.

OS COQUEIROS

 O rosto daquela mulher
impressionou-me muito
éramos cinco
um morreu pelo caminho
e os outros
será que estão vivos?:

—olha o puxa-puxa criançada  olha o puxa-puxa!—

outro dia viajei
por terras desconhecidas
nos contornos das praias
os coqueiros

—água de coco gela água de coco gelada!—

as porções de açúcar estão crescendo
o fôlego
estou perdendo fôlego

está havendo aumento de terra
não existe mais água.

AS VITÓRIAS RÉGIAS

Eram estrelas que caiam no rio, eram estrelas:
as vitórias régias. Eu sei, Yanoá pensa,
não só os animais, tudo da natureza têm uma alma
uma alma alada que deixa o mundo quando sonha.
E ela sempre sonha lugares desconhecidos.
«Yanoá, Yanoá desperta
que os pássaros podem te levar em suas asas
os sonhos podem te destruir».
Acordava espantada de seus gritos.
«Os pássaros querem levar minha alma,
eu não quero ficar sozinha com meus pensamentos».
Seu rosto se ilumina e os cabelos espessos e lisos escorriam
pelo rosto enrugado, antigo, esculpido dos sonhos e do sol.
Um dia Yanoá, andará com seus sonhos, junto com Yara
ao fundos das águas. Yanoá,
vem brincar comigo, protege-me
dos peixes que dominam as águas e as plantas
crescidas no fundo do mar.»
O dia inteiro os peixes vão e vêem
entre teus longos cabelos.

FLORESTA MEU DICIONÁRIO

Louca risada a tua
ressoa afiada
mandioca brava, tua risada
tuas caricias, teu prazer agudo.
Kupahúba vive, anda, e volta
até o sol desaparecer, no dia
entre folhas e ervas,insetos, apodrecidas
matérias vegetais; nos multiplicaremos
o movimento não é deserto, é rio
rouba, saqueia, bebe o que quiseres
é abundante este rio, não para continua
para cantar o som das palavras
Açana, Yana, Nacaira
Caja, Pacaba, Maçaranduba
cada palavra um ser, palavras que escrevo
eu vejo um ar cheio de palavras
a floresta é meu dicionário
palavras, vivas e machucadas
ásperas de caminhos percorridos
Acana, Tapajura, Igarapé
cada palavra um ser, ressoando afiada.
Kupahúba abriu os olhos e aprendeu a ler.

FESTA DA LUA NOVA

Não escutas as músicas que se expandem no alto?
Todos cantam e bailam sem parar.
Invocam a lua nova.
Por quatro dias dançando
com corpo pintado de um vermelho vivo.
Para a festa da lua
os dançarinos vão à casa das máscaras.
Vestem-se de animais e troncos de arvores.
Depois, na praça da aldeia,
todos cantam e contam: seus ódios, seus amores.

MUNGUBA

Alguém olhando-me
mede meu esplendoroso corpo
mas eu, Munguba frondosa
sou mais ampla
grandes são minhas flores
brancas, amarelas, rosadas
um olhar não basta para me conter
luzes e sombras, alargam-me, diluem-me
no grande rio, em terrenos alagadiços
embriões de luzes
fertilizo cores irredutíveis
semente e fruto corpos em transmutação
ferruginoso - avermelhado
congrego as energias
em minhas vísceras
atraio o apetite, o desejo voraz
de cutias, onças, macacos.
No hálito quente das águas tropicais
em meus ramos, milhares
de penas e plumas, arco-íris de pássaros
cantam seus sonhos de sedução

Fontes:
Antonio Miranda 
– Revista Eletrônica do Instituto de Humanidades. Unigranrio. Volume II, Número VIII - Jan-Mar 2004
– http://www.marciatheophilo.it/index.php/category/poesie/?lang=pt

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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