Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 23 de fevereiro de 2014

João Ubaldo Ribeiro (Viajar, viajar)

Estou em Paris e sou um fenômeno. Pagaram minha passagem, deram-me ajuda de custos e aqui estou eu. Dirão vós: que há de tão fenomenal nisso? Afinal, alguns brasileiros, talvez em número bem maior do que estimamos, já estiveram ou estarão em Paris. Verdade, verdade, mas meu caso é raro, pois que sou o único que se queixa de viajar a uma cidade sem rival e, com perdão da má palavra, imperdível, ainda por cima sem gastar praticamente nada do parco dinheirinho que ganho escrevendo coisas sem as quais o mundo permaneceria tal e qual. Verdade, verdade, mas encaro minhas viagens como uma sina, porque detesto viajar e cada vez detesto mais. Conto-vos por quê, na esperança de encontrar alguma compreensão.

Viajar dá trabalho, em primeiro lugar. Não sei, e não por falta de empenho, Deus é testemunha, fazer malas. Por alguma razão que escapa a meu entendimento, tudo o que já foi posto com folga na mala, por minha heróica consorte, sobra na hora de voltar. Diriam vós: “Ah, o safardana passa o tempo nas lojas, se entope de compras e aí não vê jeito de encontrar lugar na mala para botar tudo”. Ledo engano, eu não compro nada, fujo de lojas e, atentai para o que vos chamo a atenção, sou do tempo em que Nova York era uma viagem na qual as senhoras elegantes usavam chapéu, não era coisa para qualquer um. Hoje, Nova York talvez seja mais fácil de alcançar do que a Barra da Tijuca, nos horários de pique. E pensando bem, quem vai à Barra não precisa de Nova York: está tudo lá, inclusive em inglês, língua hoje pouco falada na Nova York propriamente dita.

Mas o que acontece comigo e as malas é um mistério. Rotineiramente, as roupas se duplicam, os bagulhos e remédios que todo coroa e paranóico, categorias em que me encaixo belamente, carrega consigo se transformam num mar de caixas e embalagens, camisas e afins assumem proporções extraordinárias e vários problemas correlatos me afligem. Enfim, para vos confessar a mais pura verdade, eu levo uma sacola extra em qualquer viagem ao exterior. Ela vai vazia dentro da mala principal e, empanturrada, se torna indispensável na volta. Devo reconhecer que, em meu favor, depõe o fato de sempre me darem livros, com dedicatórias, que não tenho coragem de jogar na cesta e até me deram, numa vez em que estive na feira de Arles, na Provence, dois salames - não sei se estavam querendo me dizer alguma coisa não tão sutil.

E tem o problema da viagem de avião, agora sem poder fumar e com uma comida que provocaria tumultos e apedrejamentos em qualquer bandejão do planeta. Classe econômica, turística, ou outro eufemismo para o que as equipes de bordo chamam de “galpão”, é um horror que Dante não pôde incluir em seu inferno (se já houvesse aviões naquele tempo, ele botaria algum desafeto nela), notadamente quando um grupo em excursão começa a tocar violões e pandeiros, geralmente, não sei bem por quê, cantando o “Trem das onze”. Para não falar no fato de que as poltronas, nome artístico aplicado a cadeiras claustrofobilizantes, não deixam espaço nem para um anão (“verticalmente prejudicado”, perdão; de vez em quando esqueço de ser politicamente correto, perdão, perdão) sentar. Imagino que alguns nórdicos altões já se submeteram a amputações voluntárias, no aeroporto mesmo, antes de embarcarem em certas classes econômicas.

E tem o problema da cara errada. Minha cara é sempre errada. Os únicos lugares em que eu não tenho, acho eu, a cara errada são Itaparica, Aracaju, uns dois bairros ou favelas de São Paulo e aqui o Leblon mesmo. Nos Estados Unidos, tenho cara de cucaracha. Na Alemanha, tenho cara de turco. Na França, tenho cara de árabe. Em Milão, tenho cara de calabrês. Em Buenos Aires, tenho cara de brasileiro. E, no meu passaporte, tenho cara de contrabandista de maconha paraguaio. Acresça-se a isto o fato de que, mesmo vestido com um terno caro, transformo-o imediatamente em andrajos, tal a minha elegância inata. Quem não passou pelo que eu já passei, por problemas de cara errada, não faz idéia do doloroso transe que isso constitui. E, pior ainda, consigo me dar bem em inglês, língua desconhecida em Miami e Manhattan, mas meu francês seria considerado de baixo nível numa escola para débeis mentais até os oito anos de idade (depois eu seria internado, francês não dá moleza para ninguém), ainda mais alguém com a minha cara.

Mas, assim mesmo, viajo. É sina, carma, já me conformei. Conheci Nova York, na época via Belém, Trinidad e Porto Rico, antes de conhecer Rio e São Paulo. Estou aqui em Paris, caros amigos. Vou dar uma rezadinha na Notre Dame, vou passear no Quartier Latin e vou até entrar, pela terceira vez, na fila do Museu do Louvre. Isso se conseguir sobreviver ao trauma de carregar o laptop, que fica dez quilos mais pesado a cada quilômetro - estimativa modesta para o que nos obrigam a caminhar por minuto em aeroportos, inclusive o Tom Jobim. Sim, e desta vez a Alfândega não me pegou, o que, aliás, não me surpreendeu muito, porque a Alfândega só costuma me pegar feio em Portugal, de cujos aeroportos já quis até dar uma escapulidazinha para ver se conseguia comprar um baseado e assim fazer a felicidade do fiscal que não acreditava em minha condição de escritor e, com a cara muito sabida (foi no Porto, não em Lisboa, manda a honestidade que eu faça a ressalva), contestou-a, dizendo que na minha mala não havia livros.

- Mas eu não sou livreiro - disse eu. - Sou somente escritor.

- Pois sim - respondeu ele, enquanto apalpava, com cara de quem gostaria de usar uma gilete, o único paletó em minha mala, e até hoje deve estar convicto de que foi vítima de alguma astúcia brasileira desconhecida. Enfim, eis-me em Paris. Prometo que, na minha rezadinha em Notre Dame, dou carona a todos vós. Mal não há de trazer-vos.

O GLOBO em 24/03/2002

Fonte:
Academia Brasileira de Letras

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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