Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Bruno Seabra (O Senhor Papa-Suspiros)

Bruno Henrique de Almeida Seabra
Tatuoca (Pará), 6 de Outubro de 1837 — Salvador, 8 de Abril de 1876
–––––––––––-

Cena cômica

Personagem: O senhor papa-suspiros

Representa um homem de 45 à 50 anos, vestido burlescamente.

A ação passa-se no Rio de Janeiro

Época: atualidade (Século XIX)


O teatro apresenta uma pequena praça

À frente casas em perspectiva! À esquerda, um lampião. — É noite.

Ao levantar-se o pano a personagem entra em cena pela direita

Cena única

O senhor Papa-Suspiros,

(Indo até o lampião cantarolando fanhosamente)

Com jeito se leva o mundo,
De tudo o jeito é capaz,
O caso é ajeitar-se o jeito
Como muita gente faz.1

(Pára; tira de dentro do chapéu um grande ramo de flores, beija e o cheira com entusiasmo: vem à cena, torna a beijá-lo; e passeia vagaroso.)

(Recita; é burlesco até o fim.)

(Rindo:)

Ah-ah-ah! ah-ah-ah! Forte lembrança!
Ora a gente também tem seus amores?!

(Pára e se dirige à platéia:)

E esta! que massada! pois um homem
Não tem alma também como os senhores?

(Canta)

Amor é como defluxo
De qualquer venta se apossa
Sem dar contas ao nariz;
Seja nariz de visconde,
Ou de ministro ou de moça,
Branco, escuro ou verniz.

(Pequena pausa; depois pergunta, cantando desentoadamente:)

Sendo assim pois
Quem se livra destes dois?

(Passeando:)

Ah-ah-ah! ah-ah-ah! forte lembrança!
Ora a gente também tem seus amores?

(Beija o ramo com entusiasmo.)

(À platéia;)

Eu me chamo o senhor Papa-Suspiros,
Que é nome de família deste cujo;
Já sonhei uma vez com o baronato,
Apesar de me verem assim tão sujo:
E moro num quartinho muito estreito,
E não pago um vintém pela morada!
Filante não sou eu! porém pergunto,
Há de um homem teimar com a namorada?

(Passeando:)

Ah-ah-Ah! ah-ah-ah! forte lembrança!
Oh que bela invenção, que bela idéia!

(À platéia:)

Acreditem que a gente vive muito
Quando sabe viver à custa alheia.

(Passeando:)

 Ah-ah-Ah! ah-ah-ah! forte lembrança!
Oh que bela invenção, que bela idéia!

(À platéia:)

Eu nasci p’ra viver à custa alheia,
E vivo assim, assim meio contente;
Pois se a gente nasceu para ser pobre
É melhor ir vivendo assim a gente!

Cada qual vai vivendo como pode,
E porque foi com a gente a sorte avára
Há de a gente fazer-se de soberba,
E deixar de viver de meia-casa?!

(Passeando:)

Ah-ah-Ah! ah-ah-ah! forte lembrança!
Ora a gente tem seus amores!

(Á platéia:)

Eu como, visto e bebo à custa delas,
Que vida regalada, meus senhores!

(Passeando:)

Ah-ah-Ah! ah-ah-ah! forte lembrança!
Ora a gente tem seus amores!

(Á platéia:)

Namoro a rapariga mais galante,
Que meus olhos já viram sobre a terra;
Quando penso em casar com a rapariga,
Meu terno coração no peito (Forte) ber...ra!

(Passeando:)

Ah-ah-Ah! ah-ah-ah! forte lembrança!
Nasce um homem também p’ra ser marido!
Oh que dia feliz! (À platéia) quando me lembro
Tenho ânsias de ir como perdido!

(Canta)

Com jeito se leva o mundo,
De tudo o jeito é capaz,
O caso é ajeitar-se o jeito
Como muita gente faz.

(Passeando:)

Quero agora mandar fazer um fato.

(Atoleimado:)

E então fui comprar dez réis de flores;

(Mostrando o ramo para a platéia:)

O ramo é o capital... o fato os juros,
Que me hão de pagar os meus amores.

(Beija o ramo com entusiasmo:)
(Passeando:)

Ah-ah-Ah! ah-ah-ah! forte lembrança!
Ora um homem também já compra flores?!

(À platéia:)

Pois o caso é assim, comprei-lhe flores
Faz-se um mimo de um ramo à rapariga,
Depois... a gente pede qualquer coisa...
Não tem mais que dizer, — vendeu a espiga!

Pois amor é assim, o mais é bucha,
Eu cá sigo os amores desta laia.
Para paio de amor sou muito pobre,
Ela é mais rica, seja ela — paia!

(Canta:)

Com jeito se leva o mundo
De tudo o jeito é capaz,
O caso é ajeitar-se o jeito
Como muita gente faz.

A gente é como é — diz o que pensa,
Quem não pensa o que diz — faz como a gente,
Põe-se aí a pregar sermão aos outros
E pega — vai fazendo o que não sente.

Namorar, namorar como eu namoro,
Isto sim fica bem e a todos cabe;
Não é andar aí quebrando cantos.

(Rindo burlesco:)

Suspirando de amor por quem não sabe!

(Dentro batem 10 horas.)
(Depois de contar as horas:)

Já dez horas, Jesus! Não tarda a bicha!

(À platéia:)

Ai! que tenho ciúmes dos senhores!

(Olhando com atenção para a platéia e camarotes.)

Tanta gente... e que olhos curiosos
Para a cena gentil de meus amores!

Mas senhores, desejo a sós com ela,
A minha namorada, os meus amores,
Um momento ficar, para entregar-lhe.

(Mostrando:)

Este raminho de inocentes flores.

Como podem porém nos seus juízos,
De nós — ambos fazer — idéia injusta,
Eu lhes passo a contar um episódio
Para que vejam — quanto a moça custa.

(Canta ou recita ao som da música:)

A moça que eu amo
Tem olhos de gata
A cor da mulata,
Cabelos de lã;
Seus dentes são brancos,
Seus lábios vermelhos,
Que lembram dos velhos
A calva louçã.

Só veste os vestidos
À moda da França,
Seu nome é ‘Sperança,
Negaça de amor;
‘Svelta e gorducha
Tem fina cintura,
Na boca doçura,
No hálito odor.

Dez vezes lhe tenho
Um beijo pedido,
Não é meu marido,
— Responde, — e não dá!
Se intento agarrá-la
Me foge sorrindo,
E eu fico fingindo,
Dizendo-lhe que má!

Mas, amo esta moça,
Que nega-me um beijo,
E foge, e tem pejo,
Se teimo em pedir;
A moça, que fácil
Consente o amante
Beijá-la... adiante...
Promete — cair.

Há dias, a furto,
Beijei-a na orelha,
Se fez tão vermelha
Qual brasa em fogão!
Que mal faz na orelha
Beijar minha amante?
Tornou-me — tratante,
Cachorro... vilão! (Forte)

Que mal? Pois não sabe...
Não sabe e calou-se!
A moça engasgou-se

Com o fim da oração
Fitou-me nos olhos
— Em chamas ardidos;
Os meus atrevidos
Fitei-os no chão!

**

Já vem que essa moça
‘Stá fora de moda,
Não cabe, não se engoda
Com choros de amor!
Já vêem meus senhores,
Que a moça é inocente,
Palavra da gente
É toda pudor.

**

Eu me chamo o senhor Papa-Suspiros
Porque tenho vivido deste modo,
Suspirando d’amor pela Esperança,
Criada a mais gentil do mundo todo!

(Retirando-se:)

Ah-ah-Ah! ah-ah-ah! forte lembrança!
Ora a gente também tem na esperança!

FIM

1 Note-se que, na grafia da época, século XIX, jeito e ajeita-se grafavam-se com a letra gê, com o que o autor faria uma sugestão psicológica entre “geito”, “ageita-se” e gente.

Fonte:
Portal Domínio Público

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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