Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Outros Contistas – Natalício Barroso

Natalício Barroso nasceu em Itapipoca, 1957. Em 1977 ingressou na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Ceará. Trabalhou no Instituto Municipal de Arte e Cultura – RioArte – e na Fundação Biblioteca Nacional. Publicou Poemas de abril, Philobiblion, 1987; Sintonia, Achiamé, 1992; A triste sina do Imperial, Espaço e Tempo, 1998; e O capacete de Aquiles, Esteio, 1997. De 2006 são A vida amorosa de Marco Polo, Aníbal Barca e a Família Cordebar, num único volume.

Nas quatro narrativas enfeixadas no volume intitulado Novelas Reunidas, Natalício Barroso se mostra um narrador consciente de seu ofício, movendo-se em diversos espaços temáticos. Assim, sem nos atermos à ordem dada por ele às narrativas, parte do passado mitológico e mítico da Grécia antiga, passa pelo século XX e termina num futuro remoto, numa viagem interestelar. Aparentemente, não há nada em comum entre as novelas. No entanto, há muito de “grego”, de busca do destino do homem, na novela “interestelar”. O mesmo se pode afirmar em relação às novelas “cariocas”: nelas está também presente o mito da eterna busca da origem do homem, do destino, do fim. Sendo assim, os conflitos poderiam ser de ordens diversas. Todavia, há um elo comum entre as novelas, no que diz respeito ao cerne do prisma dramático – a morte, a angústia, a dor.

Na primeira novela, “Viagem Sem Fim”, a própria viagem pelo espaço se constitui na célula dramática central, não fosse também o conflito de gerações: os astronautas humanos, de um lado, e os astronautas nascidos na espaçonave, descendentes dos primeiros, de outro. Os dramas vão se desenrolando no dia-a-dia: mortes, crimes, traições. O grande drama é, pois, a infinitude da viagem, como se vê na última frase: “A nossa viagem, definitivamente, não tem fim”. E aí reside a angústia dos personagens, dos navegadores do espaço: nunca mais regressarão à Terra. Como se isso significasse a morte.

As duas novelas intermediárias, “A Triste Sina do Imperial” (na verdade, “O Velho Marinheiro, a Baía de Guanabara e a Triste Sina do Imperial”) e “A Casa de Gustavo”, são de um mesmo tempo histórico, o final do século XX. Os dramas são semelhantes: na primeira, a vida atribulada do velho marinheiro José Valdivino, suas peripécias, suas andanças ou naveganças, e a obsessão do romancista Matheus por escrever o romance da vida do marinheiro; na segunda, mais uma vez um narrador-literato às voltas com um personagem incomum, um jogador de futebol que, após pendurar as chuteiras, decide ser poeta, e, mais do que isso, escrever o grande poema épico brasileiro. Na verdade, não há conflitos nas duas narrativas. As histórias vão se desenrolando como num diário. O tempo vai passando, os personagens vão envelhecendo, perdendo as ilusões, e morrendo. Apenas isto. Nada de tragédias, de grandes traições, de crimes bárbaros.

A última novela (será mesmo novela?), “Cartas de Pilos”, é uma transcriação de um capítulo da Guerra de Troia, dos dias seguintes ao conflito entre gregos e troianos. Não há propriamente dramas. Na verdade, são mencionados alguns “trechos” de dramas (ou tragédias) da Grécia antiga, encontrados nos livros de mitologia e nos poemas homéricos, como o de Édipo.

Natalício Barroso sabe situar muito bem os personagens no espaço da ação, embora na novela “espacial” isto se torne mais difícil. Fora da nave os personagens terão como espaço o “vácuo” e as estrelas; dentro da nave (e há pouca descrição dela) o espaço é minimamente mencionado. Acredito até que Natalício não tenha tido a intenção de escrever ficção científica. Conhecedor da cidade do Rio de Janeiro, onde viveu durante alguns anos, locomove os personagens das duas novelas lá ambientadas pelos mais famosos logradouros e pelas ilhas. O velho marinheiro e o narrador Matheus palmilham a Cidade Maravilhosa, palco da ação de ambos: um como aventureiro, outro como caçador de histórias. Para o leitor é um passeio turístico dos mais gostosos. O espaço da ação na narrativa do  jogador de futebol é mais restrito: a casa onde morava. Os personagens aparecem jogando xadrez na sala de jogos, passeando pelos corredores e pelos jardins, ceando na sala de jantar. E por que o espaço nesta novela não é um estádio ou um campo de futebol? Talvez porque o herói da narrativa seja um ex-jogador de futebol, cujo grande mérito consistia em converter em gol pelo menos um chute em cada partida, e cujo grande demérito se resumia em nada jogar.

O tempo nas novelas de Natalício é um tempo longo, quase interminável na viagem espacial. Nas “Cartas de Pilos” ele flui lentamente: vão cartas, vêm cartas. A cada missiva, uma novidade. A história do marinheiro dura anos e anos. Ora estamos na juventude do herói, ora na sua velhice. Assim também na história do jogador. O tempo referido em ambas novelas é, porém, “controlado” por seus respectivos  narradores, no uso constante do flashback.

            Os personagens de Natalício são bem delineados, sobretudo os principais. São notáveis as aparições de Sorel, o primeiro narrador; Heidegger, “um poeta nato”, filho de Sorel; Kátia, a mulher de Sorel; a outra Kátia; Helsing, Dilthey e outros. As personalidades de cada um afloram a cada momento. Lembrar do velho marinheiro José Valdivino e do jogador-poeta Gustavo é mais fácil ainda. As loucuras sublimes de ambos, seus sonhos, suas angústias – tudo neles é narrado com a riqueza das histórias fabulosas. E o que dizer dos narradores (alter-ego de Natalício?), com seus problemas de relacionamento conjugal e amoroso, suas ânsias de colher os melhores frutos nos pomares das vidas de seus amigos “personagens”?

A linguagem nas novelas de Natalício Barroso é simples, sem ser coloquial. Vê-se concisão nas frases, embora quase não use a frase curta, cortada. Não há excesso de frases. O diálogo cede lugar à narração. O uso do travessão nas falas é pouco frequente nestas narrativas. É mais comum o narrador transmitir as falas dos demais personagens no interior de suas narrações. A descrição é discreta, a não ser num momento, quando se refere às ilhas do Rio de Janeiro. Mesmo nesse caso, a narrativa não perde fôlego e não enfada o leitor.

O ponto de vista na primeira novela, apesar de ser o da primeira pessoa ou o do narrador-testemunha, traz uma novidade: ao morrer o primeiro narrador, outro o substitui, como na vida, como numa viagem, como na “viagem sem fim”.  Nas novelas “cariocas” o narrador às vezes assume a posição de protagonista, sem nunca se confundir com o narrador onisciente. São técnicas usadas por quem leu muito e exercitou em larga escala a arte de narrar.

                Natalício Barroso, poeta de grandes méritos, deu-nos quatro boas novelas, verdadeira viagem sem fim pelos caminhos da imaginação. A prosa de ficção tem mais um cultor erudito, consciente de seu papel no palco da literatura brasileira e da importância de ser um cultivador de palavras e histórias.

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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