Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Outros Contistas: Ricardo Kelmer

      
      Ricardo Kelmer (Fortaleza, 1964) estreou como cronista de jornal em 1994 e no ano seguinte publicou o primeiro livro. Cursou Letras e Comunicação Social e foi redator de publicidade. Livros publicados: Quem apagou a Luz?, ideias espiritualistas,1995; O irresistível charme da insanidade, romance, 1996; Guia Prático de sobrevivência para o final dos tempos, contos, 1997; Baseado nisso – viagem pelo universo folclórico da maconha, contos; Matrix: o segredo dos predestinados, artigos, 2003;  A arte zen de tanger caranguejos, crônicas, 2003; Matrix e o despertar do herói, 2005; Blues da vida crônica, crônica, 2006, e Guia do Escritor independente.

            Em Guia prático de sobrevivência para o final dos tempos, Ricardo Kelmer reuniu nove narrativas, quase todas longas. Trata-se de uma literatura diferente da que se vem publicando no Brasil, sobretudo nos gêneros conto e romance. Na obra de Ricardo não se vê nada de violência urbana, infância desamparada, miséria, favelização das cidades, etc, temas tão caros à maioria dos escritores brasileiros desde os anos 1970. Para ele a “realidade” se encontra muito longe disso. Seus personagens convivem com íncubos, demônios, princesas perdidas em bosques e sonhos, mortos que vivem em outras dimensões, bichinhos invisíveis, etc.

                Em “O íncubo” o narrador onisciente fala a uma mulher ideal, faz suposições, usa muitas vezes os verbos no futuro, como se fizesse a defesa do íncubo, que estaria nos sonhos de todas as mulheres. No final observa: “Lera certa vez alguma coisa sobre demônios que invadem o sono das mulheres para copular com elas, lendas medievais.” Temas como esse reaparecem em outras peças do livro. Em “Quando os homens não voltam para casa”, um casal – Luciane e Junior – vive uma história inteiramente insólita: o homem deixa uma carta para a moça, desaparece e... A carta narra uma estranha sequência de fatos: a aquisição de um quadro em que uma princesa posa diante de um lago, um sonho, uma briga do casal, outros sonhos. Lida a missiva (ponto de vista de Junior), se inicia (ou se completa) a narração, por narrador onisciente, de uma série de fatos, com o surgimento de outros personagens e o desfecho misterioso.

                Esse clima de mistério aparece em todas as narrativas do livro. Em “O presente de Mariana” o leitor deparará o mundo do espiritismo, dos transes, dos orixás. No belíssimo “Há algo de podre no 202” (o conto não merece este título), veem-se o amor de duas meninas, a sequência da vida delas, a separação, o reencontro (já moças), a morte de uma delas, e, sobretudo, os misteriosos seres que atormentavam a narradora. História terna e, ao mesmo tempo, chocante.

                Não há como negar a vocação de Kelmer para o fantástico. Não o realismo mágico dos hispano-americanos, mas o fantástico puro ou mais próximo do absurdo. Em “O cilindro da luz azul” o leitor poderá até vislumbrar nele uma alegoria, uma sátira às sociedades totalitárias, como o fizeram Aldous Huxley, George Orwell, Anthony Burgess e outros. O povo é dividido em categorias: desobedientes, destoantes, resistentes, etc. Ao surgirem uns cilindros nas areias das praias, o leitor percebe que não se trata de literatura de protesto e pode até pensar em ficção científica. Entretanto, no final verá que o conto nada tem nem de uma coisa nem de outra. Mas Kelmer também pratica ficção científica, como em “Pequeno incidente em Hukat”.

                As tramas de Ricardo Kelmer se desenrolam quase sempre em espaços irreais ou imaginários. Uma das poucas histórias em que os personagens se movimentam em espaço real é “A vertigem”. Em Quixadá, cidade do sertão cearense, vive seo Pepeu, um velho aloucado que conversa com uns “bichinhos”, seres invisíveis, pequenos demônios. Também a cidade de Fortaleza é palco de outra narrativa: “Crimes de Paixão”, que destoa das demais, por seu realismo urbano.

                Em algumas composições, mundos opostos – o real e o irreal – se mesclam. Luciene de “Quando os homens não voltam para casa” trabalha num escritório, mora em apartamento, vive numa cidade grande. Outra “realidade”, no entanto, se manifesta no mundo pintado num quadro de sua casa. A cidade de “Cilindro azul” é absolutamente irreal, fantasmagórica.

                Ricardo se vale dos mais variados recursos expressivos. Em algumas peças utiliza somente a narração. Em outras intercala, como se tem feito ao longo dos tempos, diálogos (ainda com travessão) à narração. A linguagem coloquial das falas, com seus erros gramaticais comuns, ele a usa com muita frequência. Há um conto – “O strip-tease”– constituído somente de diálogo. Não há, portanto, em sua literatura, insubordinação de linguagem, como se pode ver em Jorge Pieiro. Pelo contrário, Ricardo Kelmer cultiva as formas tradicionais de contar. Mas isto não desmerece a sua arte.   

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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