Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Auta de Souza (Horto)

Análise por Adelina Maria, especialista em Literatura, professora de Língua Portuguesa e Literatura

O livro Horto, de Auta de Souza, é a história de uma grande dor. Formou-o a autora recordando, sentindo, penando. Não se tratava apenas de um relato de vida em versos, tampouco de uma escritora feminina oitocentista, preparada apenas para amar Cristo sob todas as circunstâncias, ela também rompia as barreiras da escrita feminina, pois nessa época, a sociedade estava voltada em especial, para conferir visibilidade social ao homem, não a mulher, havia o sexismo da crítica, a figura feminina era preparada para “anjo do lar”.

Sua poesia é dotada de um lirismo cheio de pureza e com uma vocação legitimada que marca um estilo próprio, vocação essa reconhecida por ela mesma, ao se definir como “noiva da poesia”, amava o verso. Despreocupada com qualquer engajamento literário, não se filiou a nenhuma escola. O gosto pelo individual em detrimento a objetividade da vida, mística de seus versos, permite o questionamento dos críticos literários em torno de seu estilo: simbolista? parnasiano? romântico? Do ponto de vista da técnica inconfundível do uso de letras maiúsculas nos substantivos comuns, na busca de evidenciar um conteúdo sugestivo e ainda, se considerarmos o caráter místico e religioso de sua obra, revela-se o Simbolismo, a exemplo disso “Crepúsculo”:

O Ângelus soa vagarosamente
A noite desce plácida e divina.
Ouço gemer meu coração doente
chorando a tarde, a noiva peregrina.


Evidentemente o título do livro Horto, numa construção metafórica, faz menção ao local em que Jesus se refugiou para os seus últimos momentos de agonia na cruz e menção ao interior do eu-poético, marcando assim a religiosidade e o subjetivismo, marcas também do Simbolismo. Percebe-se que em seus escritos também se refletem as leituras de românticos como Castro Alves, Álvares de Azevedo, Junqueira Freire, Casimiro de Abreu e Gonçalves Dias, esses dois últimos responsáveis pela entrada da literatura em sua vida. Não há como negar que o estilo desses autores se presenteia em sua poesia, há um forte apelo do momento com marcas de romantismo. Atrelando-se a esse estilo, de certa forma o Simbolismo, que é nela uma continuação do Romantismo, tendo como elementos comuns a espiritualidade, a interiorização, o subjetivo, o vago, o misterioso, o ilógico, há sim um neo-romantismo, até porque os dois em sua obra não se anulam, se complementam.

Há ainda um inegável conhecimento da forma: soneto com 16 versos, que abre com os dois primeiros decassílabos do segundo quarteto, como epígrafe:

Há pelo espaço um ciciar dolente
De prece em torno da igrejinha em ruínas...

Um prestígio parnasiano em sua obra, o que explica a presença de Olavo Bilac como responsável pelo prefácio da obra. O poeta compartilha com a criação poética de Auta de Souza ao fazer referência à obra “Horto”: “[...] O labor pertinaz de uma artista, transformando as suas ideias, as suas torturas, as suas esperança em pequenas jóias”.

Tratava-se antes de tudo, de uma jovem solitária que buscava em sua poesia a aceitação da existência, versos de sua alma e a razão de viver. Trata-se de uma poeta do “sensível” e “invisível”, que põe em seus versos o discurso de Jesus, num diálogo de confiança.

[...]
“Filha adorada que o teu gemido
Ergueste n’ asa de uma oração,
Na treva escura sempre envolvido,
Por que soluça teu coração?”
[...]


Nos versos da poeta pode-se estabelecer uma relação do sentimento de vida do eu poético comparando-os ao momento de sofrimento de Jesus na cruz, Auta de Souza sofreu unida à cruz do Salvador. E foi esse o grande e iluminoso consolo, principalmente para familiares e amigos que viam a cada momento definhando uma jovem pela doença conhecida como mal-do século (tuberculose), também como “A dama branca”. Não se pode esquecer que o modelo católico ocidental da época preparava as moças católicas para a morte, identificando-a com os sofrimentos do Cristo.

Em palestra pronunciada em Macaíba, pequena cidade Rio Grande do Norte, no dia 12 de setembro de 1976, em comemoração ao centenário de nascimento da poeta (1876-1976), o professor e membro da Academia de Letras, José Melquiades, considerou exagero a afirmação de que a poesia de Auta de Souza fosse apenas uma poesia essencialmente católica. Se considerarmos o poema “Versos ligeiros”, percebemos a amplitude de uma escritora que não está emblemática a um tema, mas sim a um “devaneio cósmico que se insere em sua realidade”, que ousa quebrar tabu e que não deve apenas ser reconhecida como poesia “católica”, mesmo que seus textos sejam marcados com alusões aos cânones católicos e influência de formação da época. Na obra, eles são resignificados como metáforas, numa busca do eu-poético em alcançar a plenitude em Jesus Cristo, independentemente de sua condição humana . Ela deixou sim, uma mensagem espiritual, não apenas para igreja, mas para as crianças de sua terra, para a sua família, para os amigos, desnudando o seu cotidiano de forma sublime, poética e não divina. Assim, a sua poesia como “Num leque”, abre-se para possibilitar um sopro novo e não apenas crenças cristalizadas. É possível perceber em Auta de Souza uma poesia simples, mas madura, que rompe a barreira de um Romantismo “piegas” e navega na imaginação “doce” de uma realidade “dura”, marcada muitas vezes pelo realismo que se projeta em temas do cotidiano, a conferir-lhes em sua obra os poemas: “Versos ligeiros”, “No álbum de Dolores”.

“A noiva do verso” despediu-se cedo da vida, não cantou “amores” como era de esperar de uma jovem de sua idade, a convivência com “a dama branca” impedia-lhe de uma vida natural e assim o sofrimento diário, junto à intimidade do verso, levou-a uma relação maior com um outro amado, Jesus Cristo, sentimento esse que aparece como exemplo de contemplação ao divino e refúgio para lhe aliviar o constante sofrimento. “A via crucis de Jesus” se repete no livro Horto, através de um eu lírico carregado de um sentimento panteísta que junto ao cotidiano dessa jovem poeta, promove a transformação do universo poético e místico em um sentimento paradoxal de viver e morrer em plenitude.

RENASCIMENTO

A Olegária Siqueira

Manhã de rosas. Lá no etéreo manto,
O sol derrama lúcidos fulgores,
E eu vou cantando pela estrada, enquanto
Riem crianças e desabrocham flores.

Quero viver! Há quanto tempo, quanto!
Não venho ouvir na selva os trovadores!
Quero sentir este consolo santo
De quem, voltando à vida, esquece as dores.

Ouves, minh’alma? Que prazer no ninhos!
Como é suave a voz dos passarinhos
Neste tranqüilo e plácido deserto!
 
Ah! entre os risos da Natura em festa,
Entoa o hino da alegria honesta,
Canta o Te Deum, meu coração liberto!


Fonte:
Adelina Maria, especialista em Literatura, professora de Língua Portuguesa e Literatura, disponível em Passeiweb

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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