Tradução do Espanhol por José Feldman
O vagabundo urbano cinzento
caminha sem rumo,
chutando objetos que cruzam
seu caminho.
Entre sombras
e os detritos do tempo.
Desapontado e entediado,
buscando incessantemente o arco-íris da vida.
Os homens,
como os pássaros,
têm muitos destinos.
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ESPERANÇA
Que se espatifa
no asfalto, fazendo-nos sentir
a queda amarga.
Às vezes,
é um crânio desdentado,
um suspiro rouco,
ansiedade,
inquietação.
Outras vezes,
um buraco negro.
Ternura íntima,
conforto,
amor,
respiração,
plenitude,
abrigo.
Vale a pena lutar por ela
antes que
a arranquem de nós.
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FLOR DE CACTO,
Poesia em Peralta*
As cinzas da aurora se dispersaram
e uma pomba-rola canta
aos raios do sol.
As nuvens dançam
e os ventos sopram
onde passado e presente convergem.
Pedra sobre pedra
carregadas de histórias
dormem hoje,
talvez tenham sido espectadoras
dos aviadores
memória nas paredes
do “recinto dos governantes”.
É abril, a terra está sedenta
um lagarto-de-colarinho-espinhoso
para abruptamente
e borboletas azuis esvoaçam
inquietas ao seu lado
uma coreografia magistral.
Em meio à vegetação raquítica e escassa
os cactos estoicos se destacam
esbeltos, testemunhas silenciosas do tempo.
Um deles me atrai
apresenta a dualidade da vida e da morte
parte do órgão parece seca
cor de ocre, outra resplandecente, muito verde.
Vestida com uma bela flor
coroada de espinhos
com a suavidade de suas pétalas abertas
ela cresce áspera e solitária.
Ao meu lado, graças a você
uma palavra vibra
uma palavra relâmpago
e versos germinam
ao longo dos caminhos pedregosos
de um poema que desabrocha docemente
como a flor do cacto.
*Peralta - Zona Arqueológica do Estado de Guanajuato. Foi um centro cívico, cerimonial e religioso das civilizações tolteca e chichimeca. Construída por volta de 300 d.C., possui magníficas estruturas, muitas delas de natureza cerimonial.
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GAIOLA POÉTICA
As grades estão vazias,
apenas uma sombra percorre os corredores.
O dia inexorável se encerra,
a borracha das consciências noturnas
foge pelas cornijas,
telhados mudos e úmidos.
À tarde,
choveu torrencialmente,
isto é, em torrentes.
Pela rua do tempo,
a poeira do esquecimento voa,
chicoteada pelo lento e doloroso açoite das horas.
Tudo permanecerá em seu lugar,
os livros afogados em suas tintas,
rios de letras enferrujadas
de cores acobreadas.
As palavras são testemunhas,
poesia eternamente eficaz,
verbos conjugados pelo sol e pela lua,
metáforas,
imagens cegas,
escritas em mesas tortas.
Dócil, frágil, volátil,
como uma folha seca
acariciada pelo vento.
Você está preso,
em sua gaiola de papel,
vivendo a solidão
fragilidade de uma pétala
como um grão
em uma ampulheta.
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LETRAS MISTERIOSAS
Minhas palavras
não são minhas,
eu as tomo emprestadas.
Minha poesia é inaudível,
guarda o mistério
de letras desbotadas,
e vence a morte
apenas com palavras.
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MATANDO O TEMPO
Com palavras,
busco uma explicação.
Não estamos navegando
com certeza.
Às vezes, a náusea me domina
pela humanidade e pela sociedade.
Um homem que habita
o vazio.
Convencido de que nesta vida
só existe uma máxima
da qual não pode escapar:
matar o tempo,
quando os sonhos se desvanecem.
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O FIM
A névoa me envolve,
impedindo-me de entrar no mundo
da criação.
Devo esperar
esperar…
Com muita paciência
Esperar que algo chegue
que nem sempre é o que eu esperava
e que destrói a esperança.
Há um aviso confuso,
a névoa não se dissipa
e me encontro aos pés
de uma parede branca.
As palavras se perdem
entre as sombras.
O ato criativo
desvanece lentamente.
É o fim da poesia.
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PERCEPÇÃO
A morte
não mata a poesia,
se necessita algo mais.
Esse silêncio eterno
que nada quer,
o poeta o percebe.
Como a orquídea lilás
que tem um cheiro doce
e treme nua
no outono
esperando a última
carícia
do vento
que parece estar adormecido.
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PESCADOR DE VERSOS
Um bando de gaivotas
mergulha, arranhando o mar.
A vasta extensão azul-esverdeada é êxtase.
Há restos de barcos adormecidos nas rochas,
fragmentos de histórias de naufrágios
de pescadores e poetas
que compartilharam águas
povoadas por peixes esquivos
e versos à deriva.
Uma paixão marítima que atormenta
a consciência rebelde do homem,
buscando o caminho para a libertação
na brisa do mar
que acaricia suavemente as velas.
Enquanto isso…
As horas se esvaem,
as estrelas guiam a escrita,
e a palavra teimosa
deixa sua marca na água.
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VENCIDOS
Uma gaivota solitária
anuncia a chegada
dos navios vencidos.
Não havia cardumes agitados de peixes
nas profundezas das águas
do Rio da Prata.
Um golpe fatal para os
pescadores.
No cais do porto, as águas afiadas
feriam as rochas ruidosas
que exalam sons harmoniosos.
Enquanto inúmeras
borboletas de espuma voam,
a tarde oxida
e a luz adormece.
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Washington Daniel Gorosito Pérez nasceu em Montevidéu/Uruguai, em 24 de junho de 1961. Vive em Irapuato, Guanajuato/ México, desde 1991. Em 1999, obteve a cidadania mexicana. Formou-se em Jornalismo, possui graduação em Sociologia da Educação, pós-graduação em Ensino Universitário e mestrado em Ciências com especialização em Sociologia. Atualmente, é doutorando em Ciências com especialização em Pedagogia. É professor universitário, jornalista e poeta. Recebeu prêmios por jornalismo, ensaios, contos e poesia em diversos países das Américas e da Europa. Seus trabalhos foram incluídos em 31 antologias literárias. Alguns de seus poemas sobre a história uruguaia, como "Victoria Oriental en Las Piedras" e "El genocidio Charrúa", são material de estudo recomendado e também são recitados e apresentados em escolas e em eventos patrióticos oficiais. Seu poema "Gaucho del Uruguay" foi ilustrado pelo pintor Mario Giacoy.
