Arthur sempre foi um adorador da velocidade. Aos 32 anos, tornou-se CEO da NeoTech, uma startup de inteligência artificial que valia milhões. Ele vivia em uma cobertura triplex, comia nos restaurantes mais caros e viajava de jato particular.
Seu amigo de infância, Marcos, um professor universitário com uma vida pacata, costumava dizer, com certa inveja velada: "Cara, você zerou a vida. Não tem um problema na sua mesa. É só prazer e poder."
Arthur ria.
"Poder tem seu preço, Marcos. Mas honestamente? Vale a pena."
A "NeoTech" lançou um software revolucionário, mas que lidava com dados sensíveis de forma limítrofe. Arthur sabia que se algo desse errado, o processo seria devastador. Mas o sucesso era tão alto, a bajulação de investidores tão constante, que ele se sentia intocável.
Uma noite, durante um banquete de comemoração da fusão da empresa, Arthur convidou Marcos para a sua cobertura. Enquanto bebiam champanhe caro, Arthur recebeu uma notificação no celular: uma denúncia anônima na agência de regulação e um grupo de hackers ameaçando expor os dados. Era a "espada".
Arthur empalideceu. A mesa estava farta, a música ambiente era relaxante, e ele estava no auge financeiro. Porém, ele sentiu um suor frio na nuca. O fio era invisível: um único erro jurídico, uma quebra de sigilo, e tudo — fortuna, reputação, liberdade — cairia sobre sua cabeça.
Ele olhou para Marcos e disse: "Sabe, Marcos, eu passo meus dias fingindo que sou um rei, mas vivo sob uma espada invisível. Cada curtida, cada contrato assinado, é um centímetro a mais que o fio se desgasta."
Naquela noite, sentado à mesa de jantar, Arthur não conseguiu comer. A ansiedade era um peso no peito. O poder, ele percebeu, não era o prazer de ter; era o medo constante de perder.
Moral:
A "Espada de Damocles" moderna é a ansiedade que acompanha o poder e a riqueza extrema. Muitas vezes invejamos o sucesso alheio, sem enxergar os riscos iminentes e a falta de paz que sustentam quem está no topo. Viver sem medo é mais valioso do que ter tudo.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados e 7 livros em andamento. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).
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