sexta-feira, 27 de março de 2026

Hans Christian Andersen (É a pura verdade)


- Que história medonha! - disse a galinha.

Ela estava em um quarteirão da cidade - não naquele onde acontecera o caso, E repetia:

- Que história medonha! E acontecer num terreiro! Eu nem tenho coragem de dormir sozinha esta noite... O que vale é que estão tantas hoje no poleiro!

E ela contou a história. As outras galinhas ficaram com as penas em pé, e a crista do galo achatou-se. É a pura verdade!

Mas vamos contar do princípio.

O sol já ia entrando, e as galinhas subiram para o poleiro. Havia uma delas, toda branca, de pernas curtas, porque era nanica, que punha ovos regularmente, e era um modelo de galinha, em todos os sentidos. Quando ia voando para o poleiro, bateu com o bico no peito, e caiu uma peninha. E ela disse:

- Lá se foi uma pena! Ora, quanto mais eu me bicar, mais bonita fico!

Disse isso rindo, porque era uma galinha brincalhona, e vivia caçoando com as outras. E logo tratou de dormir.

Era já noite escura. As galinhas estavam empoleiradas ao lado umas das outras, mas a que ficava ao lado da galinha alegre não podia dormir. Ela ouviu e não ouviu, como devia fazer neste mundo quem quer viver em paz, contudo não pode deixar de dizer à vizinha:

- Ouviste o que ela estava dizendo? Eu não cito nomes, mas há aqui uma galinha que quer arrancar todas as penas do corpo, para ficar bonita. Se eu fosse o galo, não me importava mais com ela.

Justamente acima das galinhas estava aninhada a coruja, com o marido e os filhos. Toda a família tinha ouvido fino, e todos eles ouviram tudo o que a galinha disse. Piscaram os olhos, e a mãe-coruja, batendo as asas, recomendou:

- Não ouçam, não ouçam isso! Mas creio que vocês ouviram o que diziam lá embaixo, não? Eu ouvi, com estes ouvidos que a terra há de comer! E a gente tem de acreditar no que ouve, senão fica surda. Pois já naquele galinheiro alguém que se esqueceu tão completamente das boas maneira que deve ter uma galinha que arranca todas as penas enquanto o galo está olhando para ela!

- Que horror! - disse o pai-coruja. - Vou contar isso aos vizinhos.

E saiu voando.

- Hu...huu...huu! - piava ele, em frente do pombal próximo.

E disse às pombas que estavam lá dentro:

- Vocês ouviram? Vocês ouviram? Hummm...huuu!...Pois a galinha arrancou todas as penas do corpo, por causa do galo. Ela vai morrer de frio? Quem sabe lá se até já não morreu?

- Cou...Cou...Cooou! Onde? Onde? Onde!...- gritaram as pombas.

- Ali naquele galinheiro - respondeu o pai-coruja. - Eu mesmo vi! Parece impossível, mas é a pura verdade!

- Eu creio... Eu creio...- arrulhavam  as pombas; porque tinham em grande respeito o pai- coruja.

E desceram do pombal, para arrulhar no pátio:

- Escutem! Escutem! Uma galinha, dizem até que duas galinhas, arrancaram todas as penas do corpo, para ficarem diferentes das outras, e chamarem assim a atenção, E isso é muito perigoso, porque  a gente pode apanhar frio, e morrer de febre! Elas já morreram!

E o galo, voando para cima do muro do jardim, cantava:

- Acordem! Acoooordem!

Ainda tinha os olhos meio fechados de sono, mas assim mesmo cantava:

- Três galinhas morreram! Elas se depenaram todas! ...É uma história medonha, mas eu não vou guardá-la só para mim, não! Passa adiante! Passa adiante!

- Passa adiante! Passa adiante! - repetiram os morcegos.

E as galinhas cacarejavam, e os galos cantavam:

- Passa adiante! Passa adiante!

E a história viajou assim, de galinheiro em galinheiro, e foi bater afinal naquele de onde tinha saído.

- Cinco galinhas arrancaram as penas do corpo, para ver qual delas ficava mais delgada! Bicaram-se tanto, que morreram todas. Que vergonha! Além do descrédito da família, ainda o prejuízo do dono!

A galinha que tinha perdido uma peninha não reconheceu, é claro, sua própria história e, como se prezava de ter boa conduta, disse:

- Eu acho que essas galinhas só merecem desprezo, mas há muitas dessa espécie! A gente não deve deixar isso ficar assim: é preciso que a história saia nos jornais. Desse jeito se espalhará por todo o país, e servirá para as galinhas honestas se acautelarem.

E a história foi publicada nos jornais.
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Hans Christian Andersen foi um escritor dinamarquês, autor de famosos contos infantis. Nasceu em Odense/Dinamarca, em 1805. Era filho de um humilde sapateiro gravemente doente morrendo quando tinha 11 anos. Quando sua mãe se casou novamente, Hans se sentiu abandonado. Sabia ler e escrever e começou a criar histórias curtas e pequenas peças teatrais. Com uma carta de recomendação e algumas moedas, seguiu para Copenhague disposto a fazer carreira no teatro. Durante seis anos, Hans Christian Andersen frequentou a Escola de Slagelse com uma bolsa de estudos. Com 22 anos terminou os estudos. Para sair de uma crise financeira escreveu algumas histórias infantis baseadas no folclore dinamarquês. Pela primeira vez os contos fizeram sucesso. Conseguiu publicar dois livros. Em 1833, estando na Itália, escreveu “O Improvisador”, seu primeiro romance de sucesso. Entre os anos de 1835 e 1842, o escritor publicou seis volumes de contos infantis. Suas primeiras quatro histórias foram publicadas em "Contos de Fadas e Histórias (1835). Em suas histórias buscava sempre passar os padrões de comportamento que deveriam ser seguidos pela sociedade. O comportamento autobiográfico apresenta-se em muitas de suas histórias, como em “O Patinho Feio” e “O Soldadinho de Chumbo”, embora todas sejam sobre problemas humanos universais. Até 1872, Andersen havia escrito um total de 168 contos infantis e conquistou imensa fama. Hans Christian Andersen mostrava muitas vezes o confronto entre o forte e o fraco, o bonito e o feio etc. A história da infância triste do "Patinho Feio" foi o seu tema mais famoso - e talvez o mais bonito - dos contos criados pelo escritor. Um dos livros de grande sucesso de Hans Christian Andersen foi a "Pequena Sereia", uma estátua da pequena sereia de Andersen, esculpida em 1913 e colocada junto ao porto de Copenhague/ Dinamarca, é hoje o símbolo da cidade. Quando regressou ao seu país, com 70 anos de idade, Andersen estava carregado de glórias e sua chegada foi festejada por toda a Dinamarca. Após uma vida de luta contra a solidão, Andersen logo se viu cercado de amigos. Faleceu em Copenhague, Dinamarca, em 1865. Devido a importância de Andersen para a literatura infantil, o dia 2 de abril - data de seu nascimento - é comemorado o Dia Internacional do Livro Infanto-juvenil. Muitas das obras de Andersen foram adaptadas para a TV e para o cinema.

Fontes:
Hans Christian Andersen. Contos. Publicados originalmente em 1859. 
Disponível em Domínio Público
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing