quarta-feira, 4 de março de 2026

Aparecido Raimundo de Souza (Onde as duas estradas se confundem e se tornam um só caminho)


“ESTAR SÓ” é diferente de “estar sozinho”. Será? E qual a diferença entre um e outro? O “estar só” pode ser povoado de lembranças, de vozes que ecoam dentro da memória, de fantasmas, os mais diversos que atormentam com seus traços remotos e obsoletos e que por sua vez nos acompanham sem pedir licença. O “estar só” pinta do nada, escorrega pelo corpo como uma dor de barriga fortemente armada trazendo presságios maléficos como se ressuscitasse fatos passados, lembranças de feições iracundas e sem mais nem menos, nos deixa no meio do mato sem os latidos cativos do cachorro. 

Nessa hora, o “estar só” é como caminhar por um espaço sem paredes, sem chão, sem teto. É como ser transportado para um lugar de mata carbonizada pelo desconhecido. Um lugar hediondo, onde o tempo não passa, apenas se arrasta. Nesse ponto sem volta, o coração aflito mendiga por uma gota de felicidade. E ela, a felicidade, não aparece, não marca presença, se distancia sem coragem de mostrar o rosto. O silêncio, nesse lugar é o pesadelo maior. Se torna obsoleto, retrógrado e sem limites. Entra numa espécie de dança esquizofrênica que além de machucar profundamente, também maltrata, fere o âmago, pega pesado e desequilibra a alma. 

Além de pegar pesado, se faz denso e odioso, se agiganta não só de uma ausência infame como se reveste de uma balbúrdia ensurdecedora e constante que nos lembra a falta de um abraço amigo ou de qualquer resquício benfazejo que nos acolha e nos dê o abrigo procurado. “Estar só” revive o vazio imensurável. O medo planta flores carregadas de maus presságios onde até os pensamentos parecem perder o peso do brilho, a candura do viço, a sensatez de uma palavra de consolo. No “estar sozinho” não há certezas, não há direção, não há porto seguro. Apenas um mar revolto se apresenta insólito.   

O “estar só” vem com sensações iracundas que se projetam em sustos assombrosos, que do nada transformam tudo ao redor, numa via de mão incerta, de suspensão, sem escapatória, como se o mundo tivesse, desse “nada” e num piscar de olhos, esquecido de dizer que apesar dos pesares, apesar dos desconfortos, tudo, no final ficará bem e em paz. Do mesmo modo, no “estar sozinho” encontramos algo raro: como assim, algo raro? Uma anormalidade brutal, com a possibilidade de nos perdermos da verdadeira paz interior. Ela vem sem distrações, se apresenta sem máscaras, e sem pressa de ir embora. 

O vazio de “estar sozinho” pode ser assustador, pedante, mas também pode ser fértil. É nele que germina a coragem de recomeçar. No “estar só” o vazio imensurável não se condensa em apenas o se sentir envolvido ou se quedar num talvez ou na ausência do sem companhia. É como se o mundo inteiro se recolhesse, deixando apenas o retumbar da própria existência. Nesse espaço sem portas abertas do “estar só” e se ver sem fronteiras, cada pensamento se amplia, cada lembrança se torna mais nítida, cada dúvida mais operosa e pesada. O vazio não tem divisória, mas aprisiona. Não tem relógio, mas prolonga o tempo. É um território onde o coração se pergunta se ainda pulsa por alguém ou apenas por si mesmo? 

No “estar sozinho” também há uma estranha beleza, verdade seja dita, nesse silêncio. E nele, percebemos que a solidão não é inimiga, mas espelho. O vazio nos devolve aquilo que tentamos esconder. Por assim dizer, medos, desejos, esperanças... eles de comum acordo nos obrigam a olhar para dentro, mesmo quando preferiríamos fugir de nós mesmos. Talvez seja nesse espaço imensurável que se revela a essência da vida: a consciência de que somos pequenos diante do infinito, mas ainda capazes de preencher o nada com significados. O vazio não é fim, é convite. Convite para escutar o que nunca ousamos dizer em voz alta. 

“Estar só” é dizer tudo, a bem da verdade, gritar a nós mesmos. Há momentos em que “estar só” não é apenas ausência de companhia, mas mergulho num espaço sem medidas. O vazio imensurável não se descreve: ele se sente. É como se o mundo se afastasse, deixando apenas o peso mórbido da própria consciência contida no Universo. Nesse silêncio, cada pensamento se torna um espelho. O que antes era distração vira revelação. O vazio não é apenas falta é presença de tudo aquilo que evitamos encarar. Ele nos devolve a nós mesmos, nos agrega, e o faz sem máscaras, sem ruídos, sem fuga.

No “estar só”, a solidão se torna paradoxal: vira um pássaro de voo incerto, ao mesmo tempo que nos assusta, do mesmo modo nos abre. Nesse abrir, nos revela por inteiro. O vazio nos lembra que somos finitos diante do infinito, mas capazes de dar sentido ao Nada. É nesse espaço suspenso que nasce a pergunta essencial: quem sou eu, quando não há ninguém para me definir? Talvez o estado de “estar só”, o vazio seja menos um abismo e mais um convite. Um convite para escutar o que sempre esteve dentro, mas que só se revela quando o mundo se cala. E, de certa forma, tenta nos emudecer também.

“Estar só” num vazio imensurável é como caminhar por dentro de nós mesmos, sem mapa, sem bússola. O silêncio se torna espesso, quase palpável, e a alma se pergunta se ainda há chão sob os pés. Mas há sempre um chão. Sempre! Para mim, ele tem cheiro de terra molhada. É nele, no “estar só”, que meus medos e receios trabalham entre o sol que castiga e a sombra que consola. Enquanto eles cuidam da vida que brota da Terra, eu me descubro refazendo a vida que jorra, que desponta, que cultiva os meus pensamentos.

O desabitado, de “estar só” num certo momento, deixa de ser apenas ausência. Ele se mistura ao canto dos pássaros, ao vento que atravessa o campo, ao ritmo lento das horas rurais. E nesse contraste, percebo que a solidão não é deserta, mas se faz dócil numa espécie de espaço fértil. O nada pode ser preenchido com raízes, memórias e pertencimentos. Talvez o oco imensurável do “estar só” seja apenas o outro nome do “estar só” Entre tapas e beijos, percebo que ambos buscam por alguma coisa.  É no silêncio do “estar só” que essa busca encontra repouso: entre o trabalho dos meus braços e o meu próprio mergulho interior. 

No “estar só”, ah, no estar só, existe uma ponte invisível que me lembra que não “estou só”. Aliás, resumindo, nunca estarei “totalmente só”. Jamais me verei, “completamente só”. Ambos os tempos mudam de nome, não importa. A toda hora, a todo momento algo novo aparece do nada e me renova o espírito. O “estar só” e o “viver só” me enaltecem, sobremaneira, me engrandecem, me aprimoram, vivificam a minha vida “sempre para melhor, como ser humano”. “Todos os dias, sobre todos os pontos de vista, como dizia Omar Cardoso, eu vou cada vez melhor”.  

Texto enviado pelo autor. 
Imagem: IA Microsoft Bing