ZACARIAS MARTINS
Gurupi/TO
Sorriso enigmático
À noite,
ficava horas a fio
com aquele sorriso maroto,
mergulhada em seus pensamentos.
Jamais se conformou por ser apenas
uma dentadura num copo d´água!
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Soneto de
SÔNIA MARIA DE FARIA
Paraisópolis/MG
Travessia
Se num belo sonho se envolve a vida,
Traz ele novos ares de alegria,
Uma força com meta definida
E um desejo incontido se anuncia.
Mergulha o coração no desafio…
Busca firme traçar a sintonia
Entre dias de sol, noites de frio,
Nada fere sua essência, a euforia.
Se é difícil a paz na travessia,
São os sonhos as borbulhas de magia,
A força estranha, o caminho, a certeza…
Escolher sonhar é sabedoria:
É dos que sonham o raiar do dia…
É dos que lutam sua realeza.
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Poema de
GUTEMBERG GUERRA
Marabá/TO
A questão
Deu um tiro no peito
por ser cidadão com direito à busca
da (in)felicidade,
conforme o seu sentimento.
Morrer ou não é outra.
Ser ou não ser é uma.
A dor é
a questão.
Deu um tiro no peito!
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Soneto de
IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS
Soneto a Arthur Azevedo (In Memoriam)
Foi dramaturgo, poeta e contista,
com “Arrufos”, um soneto forte,
após desentender-se com a consorte,
fez uns ares de quem do amor desista...
Toma o chapéu e sai, sem que suporte,
fingir que não mais ama e se contrista,
mas algo o faz voltar e então persista
a manter a paixão até a morte...
Assim são os amores verdadeiros,
ao menos na aparência dos amantes,
que às vezes têm questiúnculas por nada...
E quando voltam ficam companheiros
para viverem todos os instantes,
seguindo adiante pela mesma estrada…
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Poema de
ISABEL DIAS NEVES
Tocantinópolis/TO
Pomar de nós
Para Marcelina Dias Neves, minha mãe
É doce e vão esse pomar;
sombra feita,
flores fartas,
frutos gerados
sensualizam a boca.
Pomar que se almeja e conta
é o que se planta.
Sombra firme - reduzida,
flores novas - raras,
frutos fartos - racionados.
Tudo à mão - sem suor
nem invenção.
Pomar que se almeja e planta
é o que conta.
O trabalho com a terra
é um gesto de promessa:
molha a raiz com pranto e riso,
canta o plantio e a colheita,
sonha e arde a todo canto.
Pomar que se planta e conta
é o que se canta.
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Soneto de
LUCAS MUNHOZ
Indaiatuba/SP
O espelho do mar
Olha-me, pelo espelho... Os meus poderes!
Lembro-me, se cessar os teus fulgores;
Lembro-me, ao meu olhar dos ditadores
Ao luar poderoso, sem tolheres!...
D´água que chora o Deus, pelos colheres!
A lua primorosa, e os teus rigores
Dos ares perfumosos, pelas flores
Tens os entes perfeitos dos cozeres.
Quanto a ti, pelos sonhos desejáveis!
Lua, e os meus corações que me conheces
São os deuses amáveis e adoráveis.
Ao mar dos corações, pelo carinho!
Amo-te, agora foste o mar que teces...
Olho-te, pelo véu limpo, sozinho.
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Soneto de
CRUZ E SOUSA
Florianópolis/SC, 1861 – 1898, Antônio Carlos/MG
Ironia de Lágrimas
Junto da morte é que floresce a vida!
Andamos rindo junto a sepultura.
A boca aberta, escancarada, escura
da cova é como flor apodrecida.
A Morte lembra a estranha Margarida
do nosso corpo, Fausto sem ventura…
Ela anda em torno a toda criatura
numa dança macabra indefinida.
Vem revestida em suas negras sedas
e a marteladas lúgubres e tredas
das Ilusões o eterno esquife prega.
E adeus caminhos vãos mundos risonhos!
Lá vem a loba que devora os sonhos,
faminta, absconsa, imponderada cega!
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Poema de
XAVIER SANTOS
Marabá/TO
Infâncias
O mundo fez piruetas
Com o pé de manga-rosa
Pintou as bolas-de-gude
Com as sobras do arco-íris.
Brincavam de amarelinhas
Felizes muricizeiros.
Curiós, xexéus e sanhaços
Faziam o maior furdunço
Nas frutas, nos arvoredos.
Os anos de todos eles
A gente contava nos dedos.
Com argamassa dos sonhos
A terra forjava os homens:
Era Bruno, Erick, Carol e Rafa
Brincando de lobisomem.
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Pantun de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN
Pantun da eterna ilusão
TEMA:
Foi pela guerra enlutada...
Mas a ilusão de Maria
Fincava os olhos na estrada
Quando a porteira batia!...
José Messias Braz
Juiz de Fora/MG
PANTUN:
Mas a ilusão de Maria
era um eterno estribilho;
quando a porteira batia
ela ouvia a voz do filho.
Era um eterno estribilho;
quanto mais a mãe rezava,
ela ouvia a voz do filho
que da guerra não voltava.
Quanto mais a mãe rezava,
mais sentia entre os arcanjos
que da guerra não voltava,
que o filho estava entre os anjos.
Mais sentia entre os arcanjos
já chegando ao fim da estrada,
que o filho estava entre os anjos.
Foi pela guerra enlutada!...
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Hino de
JUNDIAÍ/SP
Ó terra querida, Jundiaí
Teus filhos amantes são de ti
que Deus abençoe eternamente
esta terra onde nasci.
Ó terra querida, Jundiaí
Teus filhos amantes são de ti
saudades mil levam
os que passam por aqui.
Terra gentil, altruísta,
De ti me orgulho,
Pois és bem Paulista!
Teus filhos com devoção
Marcham pra luta como heróis
Cheios de fé em tua oração.
Que belas tardes amenas!
Que lindas noites,
Felizes, serenas!
Teu jardim, é um paraíso
Onde a mocidade sempre jovial,
Com seu odor, confunde o riso.
Quem poderia imitar
O teu céu com suas cores?
Com teus lindos fulgores?
Os teus campos, tuas flores?
Só a natureza guiada pelo Criador
É que pode pintar este arrebol
Que jamais vi,
Tardes ao pôr do Sol!
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Poema de
FRANCISCO PERNA FILHO
Miracema do Norte/TO
Estado
Embora presa,
a água borbulha solta na chaleira
efervescente.
É de fora
a sua natureza líquida.
Não há fôrma que a aprisione,
não há temperatura que a molde.
Embora verso,
embora prosa,
A poesia sabe-se leve,
sabe-se solta.
Amorfa,
não se prende ao vocábulo.
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Soneto de
AGRIPPINO GRIECO
Paraíba do Sul/RJ, 1888 – 1973, Rio de Janeiro/RJ
Copo de Cristal
Naquele quarto estreito e abandonado,
onde passo estirado na rede,
horas de tédio, enquanto o sol despede
as setas de ouro sobre o campo ao lado,
esquecido num canto, e, da parede
junto, entre flores, vasos, e um bordado,
há um velho copo de cristal lavrado,
em que, às vezes, aplaco a dor da sede.
Contam-me que esse copo pertencera
outrora a uma esquisita e romanesca
jovem, que nele muita vez bebera.
E ainda hoje a extravagar – cabeça louca ! -
se ao lábio o levo, sinto na água fresca
o perfume e o sabor daquela boca...
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Aldravia de
ÂNGELA FONSECA
Belo Horizonte/MG
lápis
sobre
papel
tessitura
de
ideias
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Soneto de
VINÍCIUS GREGÓRIO
São José do Egito/PE
Eu e o Galo de Campina
Triste sina de um Galo-de-Campina
Que era alegre bem antes da prisão,
Mas foi preso nas grades do alçapão
E hoje chora no canto a triste sina.
Eu também tive a sina repentina,
Pois um dia fui livre e hoje não.
Na tristeza, esse Galo é meu irmão:
Minha sina da dele é copia fina.
Hoje a casa do Galo é a gaiola.
Notas tristes no canto é que ele sola.
A saudade do Galo - a vastidão.
O meu canto é um canto de lamento.
A gaiola é o meu apartamento.
E a saudade que eu sinto é do sertão.
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Poema de
CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ, 1901 – 1964
Fantasma
Para onde vais, assim calado,
de olhos hirtos, quieto e deitado,
as mãos imóveis de cada lado?
Tua longa barca desliza
por não sei que onda, límpida e lisa,
sem leme, sem vela, sem brisa...
Passas por mim na órbita imensa
de uma secreta indiferença,
que qualquer pergunta dispensa.
Desapareces do lado oposto
e, então, com súbito desgosto,
vejo que teu rosto é o meu rosto,
e que vais levando contigo,
pelo silencioso perigo
dessa tua navegação,
minha voz na tua garganta,
e tanta cinza, tanta, tanta,
de mim, sobre o teu coração!
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QUADRA POPULAR
Acordei antes da aurora
dando suspiros por ti,
suspirei o dia inteiro,
suspirando adormeci.
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Soneto de
PEDRO SATURNINO
Cabo Verde/MG, 1883 – 1953, Curitiba/PR
Cavalo Pampa
Devo contar (naturalmente em rima)
que também tive o meu cavalo pampa,
de muita fibra, de bonita estampa,
em que eu montava para ver a prima.
O soberbo animal de minha estima,
que bem marchava pela estrada escampa,
ao pé da casa dela, numa rampa,
estralava as ferragens rua acima.
Adivinhando que eu gostava dela,
com tal força batia as ferraduras,
que ela vinha postar-se na janela.
E eu lograva da flor do lugarejo,
das mais belas e gentil das criaturas,
um sorriso de amor melhor que um beijo!
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Trovador Homenageado
Príncipe dos Trovadores
LUIZ OTÁVIO
(Gilson de Castro)
Rio de Janeiro/RJ, 1916 – 1977, Santos/SP
1
Ao partir para a outra vida,
aquilo que mais receio,
é deixar nessa partida,
tanta coisa pelo meio …
2
Às vezes, tenho pensado
que a nostalgia é, somente,
desejo de que o Passado
seja, de novo, Presente…
3
Brinquedo de porcelana
na mão de criança arteira...
Assim é a ventura humana,
tão frágil... tão passageira…
5
Creio em ti e sem favor…
Sabes bem que é mesmo assim!
E em mim tu crês, meu amor,
bem mais do que creio em mim!…
6
Enfrentando tantas provas,
ao desenrolar dos anos,
vou tirando da alma Trovas,
e enchendo-a de desenganos…
7
Glórias, riqueza, esplendor,
nunca te dei... e nem tive...
Porém, mais dura um amor
quando com pouco ele vive…
8
O que meu filho herdará?
(Esta dúvida me atrai...)
— Da mãe a franca alegria,
ou a tristeza do pai?!
9
Poupou-me, Deus não querendo
que eu filhos viesse a ter,
pois não quis me ver sofrendo,
vendo os meus filhos sofrer…
10
— Quem só deseja encontrar
no futuro lar; bonança,
entre rosas há de achar
um chorinho de criança…
11
Se foi sua alma ferida,
não culpe à Vida, rapaz...
— Não é má ou boa a Vida...
É só Vida... e nada mais…
12
Se trazes em ti, querida,
um amor igual ao meu,
ninguém jamais nesta vida,
amor assim conheceu...
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