O bar de esquina, onde a luz pisca num tom âmbar cansado, estava vazio, exceto por uma mesa redonda ao fundo. Ali, quatro figuras se encaravam sobre copos de intensidades diferentes.
O Desânimo girava o gelo no copo com um dedo pálido. Ele usava um casaco cinza três tamanhos maior, como se o próprio tecido estivesse desistindo de manter a forma.
— Por que diabos nós marcamos isso? — resmungou ele, a voz arrastada como lixa em madeira velha. — O esforço de subir essa ladeira quase me convenceu a ficar deitado no meio do caminho.
A Alegria, que usava uma jaqueta amarela vibrante e parecia incapaz de piscar sem sorrir, deu um tapa sonoro na mesa, fazendo o gelo do Desânimo pular.
— Ora, Des, pare com isso! É o nosso encontro centenário! Olhe para este lugar, tem um charme... rústico! — Ela gesticulou para a parede descascada como se fosse uma obra no Louvre.
— É mofo, Alegria. É apenas mofo — rebateu a Solidão, que estava sentada um pouco mais afastada da borda da mesa. Ela usava um cachecol azul marinho que subia até o queixo e segurava uma taça de vinho tinto com uma elegância silenciosa. — Mas o mofo tem o seu valor. Ele não exige companhia para crescer.
— Mas nós exigimos! — interveio a Esperança, que tinha olhos que pareciam refletir uma luz que não vinha de nenhuma lâmpada do bar. Ela segurava uma xícara de café quente, o vapor subindo como uma promessa. — Se não nos encontrarmos de vez em quando, os humanos lá fora perdem o equilíbrio. Se um de nós domina a mesa por muito tempo, a história deles vira um rascunho mal escrito.
O Desânimo soltou um suspiro profundo, daqueles que parecem esvaziar os pulmões de toda a cidade.
— Eles já estão exaustos, Esperança. Você vende um produto que eles não podem pagar. Ontem, um rapaz olhou para o currículo e depois para o teto por quatro horas. Eu sentei no colo dele. Foi confortável. Nós dois apenas... fomos.
— E por que você não me deixou entrar? — perguntou a Alegria, inclinando-se para frente, os brincos balançando. — Eu estava logo ali, na notificação de um vídeo de gato que um amigo mandou pra ele! Eu tentei, juro que tentei!
— Ele não precisava de um vídeo de gato — disse a Solidão, com a voz suave e profunda. — Ele precisava de mim. Precisava entender que o silêncio do quarto não era um inimigo, mas um espelho. Eu estava lá, no canto, esperando ele parar de lutar contra o vazio. Mas o Desânimo é ganancioso, ele se deita em cima das pessoas e não deixa espaço nem para o meu silêncio.
A Esperança tocou o braço da Solidão.
— Você é necessária, Sol. Mas ele precisa saber que o espelho que você segura não é o fim da estrada. — Ela se virou para o Desânimo. — E você... você é um descanso que insiste em virar residência. Isso não é justo.
— Justiça é uma palavra muito pesada para uma terça-feira — retrucou o Desânimo. — Eu só dou o que eles pedem: o direito de não sentir nada. Sentir dói. A Alegria cansa, a Solidão corta, e você, Esperança... você é a mais cruel. Você faz eles correrem maratonas com as pernas quebradas.
A mesa ficou em silêncio por um momento. O garçom, um homem que parecia ser a personificação da Paciência, trouxe mais uma rodada.
— Eu não sou cruel — disse a Esperança, a voz baixa mas firme. — Eu sou a única razão pela qual eles remendam as pernas. Eu sou o "talvez" que impede o ponto final.
A Alegria deu um gole no seu drink colorido.
— Eu acho que vocês pensam demais. Sabe o que eu fiz hoje? Uma senhora achou uma nota de dez reais no bolso de um casaco de inverno. Foi um brilho puro! Três segundos de "uau!". Foi simples, foi leve. Por que tudo tem que ser uma tragédia existencial com vocês?
— Porque dez reais não pagam o aluguel da alma, Alegria — disse a Solidão, voltando seu olhar para a janela escura. — Eles me buscam quando os dez reais acabam. Eles me buscam quando você vai embora e deixa aquele eco barulhento na sala de estar.
— Eu não deixo eco! — protestou a Alegria, ofendida.
— Deixa sim — confirmou o Desânimo. — Depois que você sai da festa, eu entro com o pé na porta. O contraste é o meu melhor marketing.
A Esperança levantou sua xícara, brindando ao nada.
— O segredo é que nenhum de nós ganha a discussão. Desânimo, você dá o repouso que vira tédio. Solidão, você dá a profundidade que vira abismo. Alegria, você dá o brilho que vira saudade. E eu... eu dou o caminho que, às vezes, não tem mapa.
— E o que fazemos agora? — perguntou o Desânimo, fechando os olhos, quase cochilando.
— O de sempre — sorriu a Alegria, levantando-se e ajeitando a jaqueta. — Vamos lá fora. Tem um show de comédia ruim começando em dois quarteirões, um término de namoro acontecendo num banco de praça e um artista plástico começando uma tela em branco.
— Eu vou para o banco da praça — disse a Solidão, levantando-se com graça. — O rapaz vai precisar de um tempo comigo antes de procurar a Esperança.
— Eu vou com o artista — anunciou a Esperança. — Ele está achando que não tem talento. É o meu momento favorito para sussurrar.
— E você, Des? — perguntou a Alegria, puxando-o pela manga do casaco imenso.
O Desânimo bocejou, esticando os braços.
— Vou para o show de comédia. Alguém tem que garantir que as piadas não tenham graça nenhuma para o cara da terceira fila que acabou de perder o emprego.
Eles saíram juntos do bar.
Na calçada, as luzes da cidade brilhavam sobre as poças de chuva. Por um breve segundo, antes de seguirem em direções opostas, as quatro sombras se misturaram no asfalto, formando uma única silhueta humana, complexa, confusa e terrivelmente viva.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).
José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
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