A praça nunca parecia ensolarada para Jaime, mesmo sob o meio-dia de verão. Para ele, a luz era apenas um fator que definia a nitidez das sombras. Sentado diante de seu cavalete descascado, ele movia o pincel com uma precisão gélida. A tela exibia um quarto escuro, onde as pinceladas de cinza e preto pareciam pulsar como hematomas.
Ele era um homem de pedra. O rosto, sulcado por rugas prematuras, jamais havia conhecido a elasticidade de um sorriso em trinta anos. Desde os quinze, quando o som do mundo se resumiu ao estalo do cinto de seu pai e aos gritos agudos de sua mãe que, em uma noite de tempestade e álcool, silenciaram-se para sempre, Arthur morava naquele quarto escuro da memória.
— Por que você usa tanta tinta preta? O azul do céu hoje está tão bonito.
A voz era fina, como o toque de um sino de vento. Jaime não desviou os olhos da tela.
— O céu não é azul, menina — respondeu ele, a voz rouca pelo desuso. — É apenas um vácuo que espera a noite chegar.
Uma garotinha, de no máximo nove anos, com um vestido cor de pêssego e olhos que pareciam guardar todo o brilho que Jaime havia perdido, inclinou a cabeça para o lado, observando a pintura.
— Mas esse quadro... ele dá vontade de chorar — disse ela, sem medo. — Por que você desenha a dor?
Ele finalmente parou o pincel, olhou para as mãos pequenas da menina e depois para o rosto dela.
— Eu desenho o que sobrou de mim. Quando eu era da sua idade, o mundo parou de ter cores. Meu pai chegava com o cheiro do inferno nas roupas e as mãos pesadas. Eu ouvia minha mãe gritar... e eu não podia fazer nada. Até que um dia, o silêncio dela se tornou o meu silêncio. Entende agora? Não há alegria em pincéis que viram o que eu vi.
A menina não recuou. Em vez disso, ela deu um passo à frente e, com uma audácia que gelou o sangue de Jaime, segurou a mão dele — a mão que segurava o pincel. A palma dela era quente, uma temperatura que ele não sentia há décadas.
— O senhor está olhando para dentro do quarto escuro de novo — disse ela suavemente. — Mas a porta está aberta. Venha ver.
— Não há nada para ver, criança.
— Tem sim. Venha.
Ela o puxou. Contra toda a sua vontade de ferro, ele se levantou. O cavalete ficou para trás, com sua tragédia em óleo ainda fresca. A menina o levou até o centro da praça, onde um ipê amarelo explodia em flores.
— Olhe para cima, senhor Pintor — ela apontou. — Veja como o sol atravessa as pétalas. Elas parecem feitas de luz, não de planta. E ouça... aquele passarinho não está preocupado com o ontem. Ele só sabe que hoje tem vento para voar.
Ele tentou desviar o olhar, mas a menina segurou seu rosto com as duas mãos pequenas.
— O senhor guarda os gritos daquela noite, mas esqueceu de ouvir o riso das crianças aqui no parque. O senhor guarda o sangue da sua mãe, mas esqueceu que ela amava o perfume das flores, não amava?
As defesas de Jaime começaram a rachar. Uma imagem dele, bem pequeno, entregando uma flor amassada para a mãe enquanto ela sorria escondendo um roxo no braço, atravessou sua mente como um relâmpago.
— Ela... ela gostava de margaridas — sussurrou ele.
— Então por que o senhor só pinta o escuro? Se o senhor pintar o que ela amava, ela estará viva no seu quadro, e não morta no chão daquele quarto.
O impacto das palavras foi como um dique rompendo. Ele caiu de joelhos no asfalto quente da praça. O choro, represado por trinta anos de orgulho e dor, irrompeu em soluços que sacudiram seus ombros largos. Ele chorou pela mãe e pelo menino que foi quebrado.
A menina permaneceu ali, a mãozinha em seu ombro, firme como uma âncora.
Minutos depois, ele limpou o rosto com a manga da camisa. Quando levantou a cabeça e olhou para a garotinha, algo milagroso aconteceu. Os cantos de sua boca, atrofiados pela tristeza, moveram-se. Primeiro com hesitação, depois com entrega. Jaime sorriu. Foi um sorriso cansado, mas genuíno, que iluminou seus olhos pela primeira vez desde a adolescência.
— Obrigado — ele disse, a voz agora mais leve. — Eu... eu acho que vou comprar tinta amarela amanhã. Como você se chama, pequena?
A menina sorriu de volta, um brilho quase sobrenatural emanando de seu rosto, e começou a caminhar em direção à luz do sol que inundava o outro lado da praça. Antes de sumir entre as pessoas, ela olhou para trás e respondeu:
— Meu nome é Esperança.
Moral:
A dor do passado pode cegar nossos olhos para as cores do presente, mas enquanto houver um sopro de esperança, sempre haverá tempo para trocar o pincel da agonia pelas tintas do recomeço.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).
José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
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