WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ
Irapuato/ Guanajuato/ México
O fim
A névoa me envolve,
impedindo-me de entrar no mundo
da criação.
Devo esperar
esperar…
Com muita paciência
Esperar que algo chegue
que nem sempre é o que eu esperava
e que destrói a esperança.
Há um aviso confuso,
a névoa não se dissipa
e me encontro aos pés
de uma parede branca.
As palavras se perdem
entre as sombras.
O ato criativo
desvanece lentamente.
É o fim da poesia.
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Poema de
CRIS ANVAGO
Setúbal/ Portugal
Diz-me algo que eu não saiba.
Faz-me perceber
Que o mundo
não gira à minha volta,
que sou frágil,
tenho medos…
Faz-me perceber
que todos os dias
são para ser bem vividos,
que o sol não nasce só por querer.
Faz-me perceber
que o “nós” é mais importante que o “eu”!
Diz-me o que realmente pensas,
o que sonhas, o que queres.
Poderia dizer-te
que sei a importância e a força
de sermos nós,
que sei que o mundo gira
independente de mim,
que o amor é o meu alimento
e amar-te é renascer todos os dias...
Tudo isto…. tu sabes?
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Trova de
TIAGO
António José Barradas Barroso
Paredes/Portugal
Não há nada, nesta vida,
que acabe com o penar
da tristeza da partida
com lenço branco a acenar.
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Poema de
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Porto/Portugal, 1919 – 2004, Lisboa/Portugal
A Forma Justa
Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos - se ninguém atraiçoasse – proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
- Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
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Soneto de
CAIO DE MELO FRANCO
Montevidéu/Uruguai, 1896 – 1955, Paris/França
Evangelho da velhice
— "Quando a Velhice te bater à porta,
queres ouvir nosso Evangelho? — escuta:
Abre de manso e trêmula perscruta
aquela face que a tristeza corta.
Olha-a de frente... e uma alegria morta
verás em cada sulco que a labuta
deixou, fundo, ficar da insana luta,
que não nos confortou, nem nos conforta!...
Enxugarás o olhar inconsolado...
E ficarás pungentemente olhando,
de mãos postas, a orar para o Passado...
E assim, velhinha e triste, e eu triste e velho,
viveremos tremendo... mas rezando
a saudade sem fim desse Evangelho..."
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES
Inquestionável
A mentira
é o grande espelho
onde todos
se defrontarão,
um dia,
com a verdade
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Trova Popular
Todo o verso que eu sabia
veio o vento e carregou;
só o amor e o querer-bem
na memória me ficou.
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Soneto de
COMPADRE LEMOS
Luiz Carlos Lemos
Juiz de Fora/MG
Remédio Bom
Essa saudade mais parece moça nova
Que, de mansinho, vem chegando, devagar.
E vem querendo no meu peito se alojar,
Buscando teto, moradia, ou mesmo cova!
Mas eu conheço sua manha e sua trova.
Ela se encosta, mas eu não posso deixar.
E digo a ela: -- Vai bater noutro lugar,
Porque, na vida, para mim, já basta a prova!
Se ela insiste, eu procuro uma folia,
Um pé de valsa, uma fogueira, uma alegria,
Ou um bom gole, para não sentir a dor.
Então, eu pego na viola esquecida
E faço um verso, porque sei que, nesta vida,
Remédio bom para saudade... é novo amor!
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Poema de
NOÊMIA DE SOUZA
Catembe/Moçambique (1926– 2001) Cascais/Portugal
Infelizmente Jamais
No instintivo temor das ruas
Maria hesitava nos passeios
até não pressentir
o mais fugaz
presságio.
Contorno de sombra
à berma de uma além –asfalto
fatal presságio da rua
infelizmente já não
a intimida.
Cumprido o funesto prenúncio
já atravessava uma avenida
infortunadamente já nenhum risco
intimida o espírito
de Maria.
Doentiamente eu amaria ver
Maria ainda amedrontada
e nunca como depois
em que já nada a intimida.
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Soneto de
ALFREDO DOS SANTOS MENDES
Lagos Algarve/Portugal
Há de haver tempo
Há de haver tempo em mim para gritar:
A revolta que sinto no meu peito.
Não quero ficar preso, estar sujeito,
A quem quer minha voz amordaçar!
A minha boca, alguns querem calar,
E modelar meu ser a seu preceito.
Mordaça posta em mim eu não aceito,
Meu tempo de falar, há de chegar.
Há de haver tempo então para exprimir,
E em luta de palavras esgrimir…
A razão da revolta no meu peito!
Eu juro, há de haver tempo pra provar,
Que meio mundo nos anda a enganar,
Com milhares de cifrões em seu proveito!
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Spina de
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo/SP
Primavera
Invernos chuvosos saem
levando apenas saudade,
deixando ilusões serenas.
São brisas amenas que valsam
no jardim intenso da primavera,
um beijo nas pétalas pequenas.
Os vestígios carmins das rosas
serão versos das futuras cenas.
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Trova Humorística de
HERMOCLYDES SIQUEIRA FRANCO
Niterói/RJ (1929 – 2012) Rio de Janeiro/RJ
Pobre mulher do Carvalho
que até hoje ainda reclama,
pois, de tanto “quebrar galho”,
foi multada... pelo “Ibama”!…
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Soneto de
ORLANDO RODRIGUES FERREIRA
Campinas/SP
Estações
Vicejam, no verão, descomunais paixões
Para desfolharem quando outonais,
Empalidecem, muitas vezes sem razões,
No taciturno frio dos tempos invernais.
Mas recrudesce a vida em ocasiões,
Qual no céu esplendendo luzes aurorais,
Presenteando-nos com tantas provisões
De selvas verdejantes e campos florais.
Jamais se perca ou venha se apartar
O primaveril viçoso das ambições,
Porque o nosso amor não vai soçobrar,
Pois firmado está em veraz emoções
Que constantemente hão de se renovar
como o próprio ciclo das quatro estações.
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Poema de
RAIÇA BONFIM DE CARVALHO
Salvador/BA
No telhado
Querendo ver novela
eu saio no sereno
e subo no telhado
pra ajeitar a antena
O velho do outro lado
olhando aquela cena
fala pra vizinhança
que sou gato
E eu ganho sete vidas e um baita resfriado...
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Antonio Augusto de Assis
Maringá/PR
A palavra acalma e instiga;
a palavra adoça e inflama.
– Com ela é que a gente briga;
com ela é que a gente ama!
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Hino de
FLORIANÓPOLIS/ SC
Um pedacinho de terra,
perdido no mar!...
Num pedacinho de terra,
beleza sem par...
Jamais a natureza
reuniu tanta beleza
jamais algum poeta
teve tanto pra cantar!
Num pedacinho de terra
belezas sem par!
Ilha da moça faceira,
da velha rendeira tradicional
Ilha da velha figueira
onde em tarde fagueira
vou ler meu jornal.
Tua lagoa formosa
ternura de rosa
poema ao luar,
cristal onde a lua vaidosa
sestrosa, dengosa
vem se espelhar...
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Trova de
MARIA ALIETE CAVACO PENHA
Faro/Portugal
Esta vida é um jardim
onde ninguém é capaz,
depois de chegar ao fim
poder voltar para trás…
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Soneto de
CARMO VASCONCELLOS
Lisboa/Portugal
Maria das Flores
Doloridas violetas traz nos olhos,
pelos dedos escorrem-lhe martírios,
e, tal em novena, ardem-lhe quais círios,
no peito amante, pálidos abrolhos.
Por que, teimosa, inda cultiva flores;
paisagens coloridas de desejos
que sonha salpicadas de ígneos beijos?...
Se na hora da colheita, colhe dores!
Alimenta-as de amor e rubro sangue,
porém os caules, meros lambareiros,
saciados, deixam-na... sozinha e exangue.
Florista acorrentada à fantasia,
só tem a flor-saudade nos canteiros…
Mas o sonho ainda habita na Maria!
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Escada de Trovas de
FILEMON MARTINS
(Filemon Francisco Martins)
São Paulo /SP
Amores
NO TOPO:
"Saudade, de quando em quando,
Provoca mágoas e dores,
Pois vai de amores matando
Quem vive lembrando amores".
Mário Barreto França
(Recife/PE, 1909 – 1983, Rio de Janeiro/RJ)
SUBINDO:
"Quem vive lembrando amores"
vai perdendo a emoção,
porque viver velhas dores
não faz bem ao coração.
"Pois vai de amores matando"
momentos bons, sem iguais,
que a vida vai cultivando
ao longo dos ideais.
"Provoca mágoas e dores"
quem parte e fica também,
pois todos os dissabores
são as saudades de alguém.
"Saudade, de quando em quando"
sem ser plantada, floresce,
no peito já vai brotando
como se fosse uma prece.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França
O filósofo cita
Na Cítia, certa vez, por motivo severo,
Crendo encontrar o bem nas privações do exílio,
Saíra a viajar um pensador austero.
Vivia então na Grécia, em farto domicílio,
Junto às flores que amava e na paz respeitado,
Um sábio igual àquele ancião de Virgílio.
O cita o foi achar no jardim ocupado:
Separava da erva as árvores de fruto
E do galho atrofiado.
Ali cortava um ramo, aqui outro corrupto;
E à cega natureza
Ia pagando a arte o liberal tributo.
O filósofo a olhar, tomado de surpresa,
Lhe disse: «O que fazeis? pois um sábio mutila
Os pobres vegetais com tão grande dureza?
Dai-me o vosso instrumento, o qual tudo aniquila;
O tempo obra melhor.» Sem se alterar em nada,
O outro respondeu na sua voz tranquila:
«Eu só tiro o que sobra; à planta decotada
Melhor seiva aproveita.»
E o cita então volveu à sua triste morada.
Lá chegado uma vez, previne-se e endireita
Contra raro vergel, e do útil ofício
Ensina à vizinhança uma falsa receita.
Nada deixa de pé: os rebentos sem vício,
O caule mais florido, o tronco mais correto,
E sem escolher lua e nem dia propício.
Afinal morreu tudo. Imita este indiscreto
Aquele que da alma, e posto indiferente,
Repele o mau e o bom e o mais sagrado afeto.
Eu me acautelo bem e temo uma tal gente...
O estoico, incapaz do mais leve conforto,
Fazendo sempre o mal, vai levando o vivente
A já nem existir muito antes de estar morto
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