segunda-feira, 23 de março de 2026

Aparecido Raimundo de Souza (Estar sozinho, como estou agora...)


DESCOBRI QUE estar sozinho, como estou agora, não significa estar incompleto. É, a bem da verdade, uma oportunidade única de perceber que a companhia mais constante que temos é a nossa própria. Quando a solidão é bem vivida, ela deixa de ser ausência e se torna presença, ou seja, a presença de nós mesmo em dose dupla. Nesse momento, meu relógio de pulso marca seis horas da tarde e a cidade lá embaixo, começa a se encher de vozes, buzinas e passos apressados. Mas dentro do meu quarto, há apenas o silêncio. Um silencio que só eu tenho o privilégio de ouvir.

É, confesso, um silencio pesado, denso, quase visceral. Estar sozinho é como abrir uma janela para dentro do nada, ou de nossa solidão e perceber, que não há distrações, não há plateia, apenas o eco dos próprios pensamentos se embaralhando num vendaval incontrolável. No início, a solidão pesa. Pesa muito. Machuca. Tira do sério. Dá medo. O vazio que fica, parece gritar mais alto do que qualquer multidão. Todavia, aos poucos, ela se revela como uma companhia discreta, quase tímida. É nesse espaço que surgem lembranças, ideias e até pequenas descobertas, tipo como perceber que o som da própria respiração pode ser tão reconfortante quanto uma conversa, ainda que fora de esquadro. 

Sozinho, o mundo se torna mais lento. Mais tímido.  O café demora a esfriar, o livro que leio repousa aberto na mesa, e o tempo, o meu tempo parece se esticar numa sonolência impactante. É nesse intervalo que a gente aprende que estar sozinho é estar consigo mesmo, sem máscaras, sem pressa, sem pressão de quem quer que seja. A solidão, quando bem vivida, não é ausência: é presença. Presença de si, presença do que se sente, presença do que se é. E talvez seja esse o grande segredo: compreender que estar sozinho não significa estar incompleto, vazio, oco, sem nada, mas estar inteiro. 

Inteiro, sem estar dentro de mim, ou de alguma coisa que queremos muito, mas dentro de uma solidão amena, pacata, calma, tranquila, que não diz nada, apenas mostra o nosso lado avesso da coisa. O lado contrário que nunca demos importância. Seguir, pois, sozinho é como caminhar por uma rua longa e deserta ao entardecer de um dia completamente vazio. As casas estão ali, as pessoas, os carros, as luzes acesas, mas nenhuma porta se abre. O silêncio se torna companheiro, e cada passo ecoa como se lembrasse que não há ninguém ao lado. 

Não ter com quem conversar é sentir que as palavras se acumulam dentro da boca, esperando um ouvido para ouvir seu lamento, mas um ouvido que nunca chega. É olhar para o telefone e perceber que não há para quem ligar. É viver sem eira nem beira, como se o mundo tivesse se afastado alguns metros, deixando a nossa figura abobalhada à margem de um vazio que sempre esteve ali, mas nunca o percebemos. A solidão, nesse sentido, não é escolha: é ausência. Ausência de vozes, de risadas, de mãos que seguram. 

É um labirinto enorme, grandioso, sem saída, onde cada esquina leva ao mesmo vazio de sempre. Mas, paradoxalmente, é nesse vazio desconexo e abrupto, que se descobre a própria resistência. Seguir sozinho é também aprender a se ouvir, a se sustentar, a se reinventar. É doloroso, sim, muito, às vezes penoso, mas pode ser também a prova de que, mesmo sem ninguém, ainda se pode caminhar. Estar sozinho como agora estou é um tema profundo, que pode ser visto de diferentes formas. A solidão pode ser um espaço de silêncio e reflexão, onde a pessoa se reconecta consigo mesma, que do nada descobre seus próprios limites e fortalece a sua identidade. 

Do mesmo modo, pode trazer sentimentos de um vazio imenso e isolamento, especialmente quando não é uma escolha, mas uma circunstância imposta. Aprendi, a duras penas, que o tempo sozinho, melhor dito, o meu tempo permite olhar para dentro, entender desejos e medos, e desenvolver autonomia. Acredito que muitos, muitos escritores e pensadores encontram inspiração na solitude, transformando o silêncio em produção criativa.  A solidão também pode ser dolorosa, infame, triste, melancólica, tipo assim, como um desafio emocional, despertando inseguranças e a necessidade de pertencimento. 

Resumindo o que acima acabei de escrever, tudo o que eu disse nessa crônica, aprendi a estar sozinho sem me sentir solitário. Isso, a bem da verdade, é um exercício constante de maturidade emocional. Nessa maturidade emocional, você vai ou racha. Eu fui, pode ser que daqui a pouco eu rache de vez e me acabe. Talvez eu rache e me veja em outra dimensão, como se fosse um espírito vagando ao Deus dará, ou no pior dos mundos, um fantasma tresloucado, assustando a mim mesmo dentro de uma teoria que nunca consegui explicar o verdadeiro sentido.
=========================================
Aparecido Raimundo de Souza, natural de Andirá/PR, 1953. Em Osasco, foi responsável, de 1973 a 1981, pela coluna Social no jornal “Municípios em Marcha” (hoje “Diário de Osasco”). Neste jornal, além de sua coluna social, escrevia também crônicas, embora seu foco fosse viver e trazer à público as efervescências apenas em prol da sociedade local. Aos vinte anos, ingressou na Faculdade de Direito de Itu, formando-se bacharel em direito. Após este curso, matriculou-se na Faculdade da Fundação Cásper Líbero, diplomando-se em jornalismo. Colaborou como cronista, para diversos jornais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, como A Gazeta do Rio de Janeiro, A Tribuna de Vitória e Jornal A Gazeta, entre outras.  Hoje, é free lancer da Revista ”QUEM” (da Rede Globo de Televisão), onde se dedica a publicar diariamente fofocas.  Escreve crônicas sobre os mais diversos temas as quintas-feiras para o jornal “O Dia, no Rio de Janeiro.” Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Reside atualmente em Vila Velha/ES.

Texto enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing