O sinal de fé por três vezes: testa, lábios e peito, com olhos fechados, joelhos dobrados. A seguida genuflexão. O agradecimento à noite, para benzer o dia. A profissão de fé, o sentimento de paz, o pensamento positivo.
O espelho do banheiro retrata o sorriso alargando a cara de meio sono. Os olhos teimosos se abrem até a metade; o ranço da cama ainda se gruda às costas, e o pijama amassado posto no cesto, compõe, embaixo dos fios do chuveiro o “bom dia”, na sequência de atos inspiradores ao dia.
Pardais no telhado teimam em bem acordar o sol com chilreares curtos, repetitivos e barulhentos. Como gritam os pequeninos!
É algazarra de segunda, que se repetirá na terça, na quarta, na quinta... sem pressa de acabar.
A primeira da segunda-feira.
Um ou outro barulho de carros, choro de meninos, carroceiro que ralha com a parelha teimosa, o farinhar de vassouras, enquanto cenas da novela se repetem nas bocas de quem as manobra, sem a preocupação com o volume de suas vozes.
A segunda é feita de barulho!
Do banho à roupa limpa, bem passada; do cheiro de sabonete e amaciante; do sapato engraxado, gravata de nó ajustado e paletó escovado; do perfume do café colorindo a cozinha, do pão aquecido, sorriso franco e encontro de lábios em desejo de “bom dia”.
A segunda é feita de cuidados — e promessas para logo mais à noite.
A pasta com papéis, os documentos pessoais e o dinheiro, as chaves do carro, o livro começado, a olhada rápida para conferir os ponteiros, o sentimento de pressa, o pensamento em cuidados — especialmente nas esquinas. Nas esquinas moram os demônios.
Um tchau com abraço e outra bicota, a passada de mão no cachorro que abana a alegria com o rabo, a chave na porta, os olhos de brilho vivaz, o querer medita o sucesso. O dia vai ser supimpa!
A segunda será especial.
Abre as grandes portas da garagem, as do carro, entra, senta-se, vira a chave, aquece o motor e sai. Ou tenta.
De motor ligado e freio puxado, abre a porta, olha os pneus — e xinga.
Range os dentes, desliga o motor, bate a porta.
Tranca a outra enorme e sai. A pé. Vai chegar atrasado.
A segunda nunca seria segunda se tudo se desse de primeira.
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs: Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.
Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing
