segunda-feira, 9 de março de 2026

Asas da Poesia * 159*


Poema de
ROBERT WALSER
Bienna/Suiça (1879 – 1956) Herisau/Suiça

Estrela D'Alva

Abro a janela,
uma luz opaca matinal perdura.
Já parou de nevar,
a grande estrela está no seu lugar.

A estrela, a estrela
como é maravilhosa!
O horizonte está branco de neve,
brancos de neve estão todos os cumes.

Fresca e sagrada
a quietude matinal no mundo.
Cada voz ressoa clara,
os telhados brilham como carteiras de escola.

Tão silencioso e branco:
um deserto enorme e magnífico,
cuja fria quietude torna inútil
qualquer pensamento. Dentro de mim tudo arde.
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Poema de
MARIA LAURA ANDRADE LIMEIRA
Recife/PE

Inquietude

Passeio nas ruas, atravesso avenidas
Dobro esquinas, caminho nas calçadas
O tempo claro tornou-se escuro
E a chuva miúda vai espalhando
Um cheiro agradável de terra molhada...

O tempo nublado e a melancolia
Faz-me sentir triste, vazia...
Na rua, o barulho é tremendo!
Caminho apressada, com medo de tudo
Tomo um café na esquina
Arrumo o casaco, e sigo em frente...

Entro na loja e te busco entre aromas
Colônias, sabonetes, loções...
Volto para casa, escrevo um poema
Escuto aquela nossa música
Você está tão longe...

Escuto o telefone, quem dera fosse você...
Abro a caixa dos correios e não há nada lá
Tomo um banho, coloco o nosso perfume
Entro no quarto e deito-me à relaxar
Mas tua foto sorri na cabeceira da cama
Deixando-me nervosa a me desequilibrar...

A noite adentrou na madrugada
E a cidade lá fora continua nublada
Há muito a saudade só atormenta
Roubando-me a paz, deixando-me insone
Fazendo-me zanzar para lá e para cá
Deixando-me inquieta pelos cantos da casa
Nos recantos que há...
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TROVA POPULAR

Quem me dera ser a seda,
depois da seda o cetim,
para andar de mão em mão,
as moças pegando em mim!
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Soneto de
SÍLVIA ARAÚJO MOTTA
Belo Horizonte/MG

Saudades do amigo violão seresteiro

O violão me chama todo dia!
É meu AMIGO, quer meu forte abraço;
dou-lhe meu colo e a boca, quem diria:
para deitar, primeiro dou meu braço.

Passo-lhe as mãos no corpo...Que alegria!
Para agradar-lhe quase tudo faço...
Testar tarraxa, bem baixo, é mania!
Em cada corda tiro o tom, compasso...

Bem baixinho, pra nós dois são cantados
boleros, fados, valsas,  rock, canções!
Apaixonados pelos sons mostrados...

Olhos nos olhos, frente à frente vemos
composições famosas, que em lições
nos dão prazer que a vida toda temos.
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Trova do
LUIZ POETA
Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro/RJ

Alguns irmãos trovadores,
que se dizem tão... irmãos,
possuem tantos rancores,
que nem sequer dão as mãos.
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Poema de
CARLOS LÚCIO GONTIJO
Santo Antonio do Monte/MG

Reza

Abre-me os espaços, Senhor
No compasso das estrelas
Ilumina-me passos e janelas
Com velas e facho de sol
Mergulha-me em riacho limpo
Traze-me do "olimpo" caravelas cheias
Espanta-me as sentinelas da fome
Que consome o olhar da minha gente!
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Se põe pijama listrado,
de "zebra" a mulher o chama...
E alguém explica ao coitado:
"Zebra...é um burro de pijama"!
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Soneto de
VINÍCIUS DE MORAES
(Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro/RJ (1913 – 1980)

Soneto de Devoção

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! — uma cadela
Talvez... — mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!
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Spina de
ZEZÉ DE DEUS
Contagem/MG

Fez-se de surdo

Crédito não lhe
davam, era tido
como um sonhador.

Jamais deu ouvidos a falas
contrárias; sempre firme nos seus
ideais, seguiu com bastante fervor.
Ao final comemorou, conquistou a
coroa, sorriu; venceu todo torpor.
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Soneto de
VICENTE DE CARVALHO 
(Vicente Augusto de Carvalho)
Santos/SP (1866 – 1924)

Soneto da Defensiva

Enganei-me supondo que, de altiva,
Desdenhosa, tu vias sem receio
Desabrochar de um simples galanteio
A agreste flor desta paixão tão viva.

Era segredo teu? Adivinhei-o;
Hoje sei tudo: alerta, em defensiva,
O coração que eu tento e se me esquiva
Treme, treme de susto no teu seio.

Errou quem disse que as paixões são cegas;
Veem... Deixam-se ver... Debalde insistes;
Que mais defendes, se tu' alma entregas?

Bem vejo (vejo-o nos teus olhos tristes)
Que tu, negando o amor que em vão me negas,
Mais a ti mesma do que a mim resistes.
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Trova Premiada em Blumenau/SC, 2016, de
CLÁUDIO DE CÁPUA
São Paulo/SP, 1945 – 2021, Santos/SP

A vida, enigma estupendo,
com amor, comédia e drama,
com cuidados vai tecendo
uma fantástica trama.
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Poema de
ANUAR FARES
Barbacena/MG

Canto Festivo ao Amor Novo 

Nasceram palavras novas para o amor novo.
Nasceram ternuras novas para o amor novo.
Outros gestos surgiram
E morreram todas as saudades.
Nada houve antes dele e nada haverá depois.
Meus nervos hoje despertaram
E não mais irão adormecer.
Quando houver dias tristes e eu não os verei.
Quando houver dias alegres eu os sentirei melhor.
Todas as noites serão propícias.

Aleluia, porque chegou o grande dia do meu amor novo!
Serei panteísta.
Saberei cantar cousas festivas.
Serei simples e bom como S. Francisco.
Então os pássaros me entenderão.
Os meninos se acercarão de mim:
- A benção, poeta.
- Deus vos abençoe, crianças lindas.

Aleluia!
Hoje é o dia do meu amor novo.
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Sextilha de
THELMA TAVARES
São Simão/SP

Vou vivendo feliz e bem contente
porque Deus me deu mais do que mereço;
deu-me a lira e a pena do poeta
que é um prêmio dos céus e de alto preço,
pois com ele eu transformo cada dia
num feliz e profícuo recomeço.
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Hino de 
ARAUCÁRIA/ PR

Araucária, Araucária
És a terra mais linda que há
Araucária, Araucária
Cidade símbolo do Paraná

Vem de longe o teu nome pioneiro
Teu passado remoto e feliz
Tens a fama do altivo pinheiro
Fostes chão dos briosos tinguis

Araucária, Araucária
És a terra mais linda que há
Araucária, Araucária
Cidade símbolo do Paraná

Vem de longe romântica era
A tua história tão plácida enfim
És aquela gentil Tindiquera
Para nós que te amamos jardim

Araucária, Araucária
És a terra mais linda que há
Araucária, Araucária
Cidade símbolo do Paraná

Ainda ontem num sonho fecundo
Pura e simples quanto hoje ainda és
Mais desperta pras lutas do mundo
Sobre a argila que dorme aos teus pés

Araucária, Araucária
És a terra mais linda que há
Araucária, Araucária
Cidade símbolo do Paraná

Sim despertas de um plácido sonho
Tuas culturas tem viço e frescor
Sob o braço do altivo colono
Hoje cantas um hino ao labor

Araucária, Araucária
És a terra mais linda que há
Araucária, Araucária
Cidade símbolo do Paraná

Sim despertas valente operária
Sempre moça e mais linda só tu
Que o progresso te chame Araucária
Nos murmúrios do manso Iguaçu

Araucária, Araucária
És a terra mais linda que há
Araucária, Araucária
Cidade símbolo do Paraná
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Poema de
GRAÇA GRAÚNA
(Maria das Graças Ferreira)
São José do Rio Campestre/RN

Escritura ferida
(à Florbela Espanca)

Atiram mil pedras
na charneca em flor.

Ossos do ofício:
no mais fundo do poço
retirar o poema
encharcado de mágoas.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

A lebre e as rãs

Muito alapada, cismando,
Deixou-se a lebre ficar.
Quem vive só numa toca
Por força que há de cismar.

Ralava-a susto e tristeza,
Por isso entre si dizia:
«Quem veio ao mundo com medo
Não tem hora de alegria.

Nada me luz nem me sabe,
Meus passos vagam incertos,
E sou tal que, até dormindo,
Durmo com os olhos abertos!

É ter emenda! — convenho;
Mas quem é que a pode dar?
Neste ponto há de haver homens
Que me estejam muito ao par.»

Assim ponderava a lebre,
De olho vivo e orelha fita.
Se uma sombra ondula, treme,
Qualquer murmurinho a agita.

Eis que ouvindo um rumor leve,
Ao covil corre açodada.
No caminho havia um brejo
Onde as rãs tinham morada.

Estas mergulham de chofre,
Nas lapas buscando abrigo.
«Pois também eu causo medo,
Trazendo-o sempre comigo?

Pus o campo em debandada,
Em volta paira o terror!...
Não há poltrão neste mundo
Que não ache outro maior!»
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