Algumas horas após o cometimento do crime, familiares, amigos e vizinhos da vítima se dirigiram à delegacia de polícia da pequena cidade. Revoltados, gritavam, exigiam a imediata prisão do criminoso, ameaçavam invadir o prédio. Se o celerado já estivesse preso, que o soltassem. Queriam linchá-lo. A multidão crescia e a rua parecia em pé de guerra. Nenhum soldado aparecia.
Passados alguns minutos, o delegado se aproximou da porta, aparentemente muito calmo. O povo urrava sem parar. Cadê o criminoso? Queremos fazer justiça!
O homem pediu serenidade de ânimo e silêncio. E iniciou breve discurso. Meia dúzia de frases sem sentido, obscuras, incompreensíveis, como se falasse latim. Para encerrar, convidou as pessoas a se dirigirem à sua sala.
Uma a uma ou casal após casal. Primeiro os pais da vítima. Fizessem fila. Dois minutos depois, o casal saiu, silencioso e cabisbaixo. E caminhou na direção de casa. A terceira pessoa voltou mais silenciosa e mais cabisbaixa ainda. E assim aconteceu com todos e a rua da delegacia voltou à paz de antes.
Passaram-se dias, meses, anos, e nunca mais na pequena cidade se falou do crime ou do criminoso. Na rua os cidadãos apenas se cumprimentavam, ainda cabisbaixos: bom-dia, boa-tarde, boa-noite. E voltavam para suas casas, calados.
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999).
“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)
(Nilto Maciel. A Leste da Morte. Porto Alegre, RS: Editora Bestiário, 2006. Enviado pelo autor.)
