segunda-feira, 23 de março de 2026

Asas da Poesia * 166 *


Poema de
MAURO MOTA
Mauro Ramos da Mota e Albuquerque
Nazaré da Mata/PE (1911-1984) Recife/PE
 
    Chuva de vento

    De que distância
    chega essa chuva
    de asas, tangida
    pela ventania?

    Vem de que tempo?
    Noturna agora
    a chuva morta
    bate na porta.

    (As biqueiras da infância, as lavadeiras
    correm, tiram as roupas do varal,
    relinchos do cavalo na campina,
    tangerinas e banhos no quintal,
    potes gorgolejando, tanajuras,
    os gansos, a lagoa, o milharal.)

    De onde vem essa
    chuva trazida
    na ventania?

    Que rosas fez abrir?
    Que cabelos molhou?

    Estendo-lhe a mão: a chuva fria.
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Soneto de
RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

Quero fugir com as flores

Ao passar pelo jardim, que as flores me acompanhasse
Que todas elas sorrissem e que juntas fugissem comigo
Fizessem em volta de mim uma roda, que eu a olhasse
No fundo da pétala onde o perfume se deita em abrigo!

Que todas as flores dançassem ao vento ao meu redor
Que exalassem por toda minha alma a sua fragrância
Fizessem com que eu degustasse um toque de amor
E deliciar-me nesse momento de abissal importância!

Que as flores fujam comigo, quero fugir com as flores
E as borboletas não ficam fora da minha imaginação
E essa imagem está tatuada em cores no meu coração.

Quero flores; do jardim do lado e do jardim da frente
Quero as flores da alma dos seres em nuança de amor
Quero fugir com as flores no outono, inverno e calor!
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Poema de
CASIMIRO DE BRITO
Casimiro Cavaco Correia de Brito
Loulé/Portugal, 1928 – 2024, Braga/Portugal

    O nascimento

    Nasces no instante em que tomo
    consciência de estar só

    Nasces no deserto das minhas mãos
    no espaço que separa as coisas
    umas das outras nasces renasces
    no mar que se visita ó sabor do sol
    de olhos abertos

    Nasces no instante em que tomo
    nas mãos o peso da morte o peso
    deste pobre movimento que nos vem
    do centro da terra ó vinho ó repouso
    Infinito
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Trova Popular

Se onde se mata um homem,
por uma cruz é preceito,
tu deves trazer, Maria,
um cemitério no peito.
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Soneto de
ANDERSON C. D. DE OLIVEIRA
Anderson Carmona Domingues de Oliveira
São Paulo/SP

Casa...

Aluguei uma casa,
O fogo em brasa,
Por timbres atalaia,
A essência arraia.

O coração geme,
A Deus tudo teme,
Um bom sentimento,
Aprendi o mandamento.

Chove pela tempestade,
Creio ser uma verdade,
Pelo coração contexto.

Um grande arvoredo,
O rochedo do texto,
Foi quando senti medo.
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Trova de
LUIZ POETA
Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro/RJ

Deus abençoa o artista
que invista no sentimento.
Quem faz parte desta lista,
transforma dons em talento.
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Poema de
SONIA RÉGIS
Florianópolis/SC

Um cais chamado saudade

havia um porto
antes
ao alcance da vista

um ponto
onde as naus
suspendiam viagem

as velas arfavam
desenfurnadas
e sonhavam

a lua sobre o mar
era um sabre
aparando a água

havia um porto
antes
ao alcance do corpo

(um ponto
onde hoje atraco a saudade
e mais nada)
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

"0 que faz dentro do armário ?!"
Nu, no aperto, ele se poupa:
- "tem traças!... e o esposo otário:
- "Xi !!! comeram sua roupa!?
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Poema de
GUILHERME BAPTISTA FADDA
Rio de Janeiro/RJ

A cigana

Olhou meus olhos, segurou minha mão,
por instante baixou a cabeça e murmurou,:
"sozinho está seu coração",
mas parece-me que um novo amor encontrou.

Intrigado com aquela ponderação
afinal, nunca ninguém me falou
a respeito de amor, de paixão,
nem sei como isso começou.

Era uma cigana graciosa e inteligente,
por coincidência, encontrou-me
e mexeu com meu coração...de repente.

Hoje, vivo num acampamento com ela
ouvindo o trinar de seu violão
debruçado numa tosca e improvisada janela.
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Trova de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DE CARLI
Bandeirantes/PR

Torna-se longo o momento
da mais breve despedida,
se atormenta o pensamento
no decorrer de uma vida.
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Poema de
MARI ANE ARAÚJO
João Pessoa/PB

O sentir do coração 

Relembro com saudade 
tremendo de emoções, 
ausente coração sente.

No amor, quero: Plenitude absoluta;
Versos lindos, caprichados de amor
pra minha alma dançar suavemente 
Corpos colados, numa só proporção
queira-me como sua dama presente!
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Soneto de
SÁ DE FREITAS
Samuel Freitas de Oliveira
Avaré/SP

Nos braços da saudade

Olhando pelas frestas dos meus dias,
Que já se foram pela vida afora,
Apenas vejo a luz daquela aurora
Da juventude, em sombras fugidias.

E hoje ao enfrentar as noites frias,
Neste vazio em que minh' alma chora,
Busco momentos que já foram embora,
Mergulhando a memória em fantasias.

Ah! Tempo que se foi! Por que deixaste
Essas recordações? Por que guardaste
Tantas coisas da minha mocidade?

Resta-me agora, após tantas andanças,
Adormecer no leito das lembranças
E acordar nos braços da saudade.
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Trova de
RENATO ALVES
Rio de Janeiro/RJ

Quando a feia se “embeleza”,
mas o resultado é trágico,
diz o espelho, que se preza:
– Ela pensa que sou mágico!…
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Poema de
ROBERVAL PEREYR
Feira de Santana/BA

Galope

 Meus pensamentos são meus camelos
Meus pensamentos são meus cavalos

(com uns cavalgo para o silêncio
com outros marcho para a saudade).

Meus pensamentos são meus cavalos
Meus pensamentos são meus camelos

(sou sertanejo, nasci nos matos,
ando a cavalo para mim mesmo).

Meus sentimentos são meus desejos
em que me vejo perdido, e calo.

Meus pensamentos são meus camelos
Meus pensamentos são meus cavalos
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Convido-os a partilhar 
uma gostosa jantinha: 
massa com frutos do mar, 
ou seja, pão com sardinha...
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Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Nemésio Prata Crisóstomo
Fortaleza/CE

Mote 
A cadeira sem balanço, 
a rede em triste orfandade... 
Uma se rende ao descanso, 
a outra embala a saudade. 
DOROTHY JANSSON MORETTI
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Glosa 
A cadeira sem balanço 
com sua perna partida, 
já não pode dar remanso 
a quem lhe pede guarida! 

Hoje, presa aos armadores, 
a rede em triste orfandade, 
cumpre sua pena, em dores; 
numa cadeia sem grade! 

A cigarra, no bem manso, 
a formiga, na migalha... 
Uma se rende ao descanso, 
a outra, duro, trabalha. 

A mocinha, no frescor, 
a velhota, já de idade... 
Uma a procura do amor, 
a outra embala a saudade.
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Hino de 
CAMPINA DA LAGOA/ PR

Oh, Campina da Lagoa, teu progresso é real,
O teu nome longe soa em território nacional.
És menina e formosa que inspira confiança
Em teu futuro colocamos toda nossa esperança

Rico solo abençoado, rainha dos cereais,
És o orgulho do Estado, da terra dos pinheirais.

Tua gente hospitaleira vem mostrando seu valor,
Nesta terra brasileira todos cultivando amor
És a terra prometida deste povo varonil,
Trabalhando em ordem unida construindo o nosso Brasil

Rico solo abençoado, rainha dos cereais,
És o orgulho do Estado, da terra dos pinheirais.
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Poema de
HENRIQUETA LISBOA
Lambari/MG (1901-1985) Belo Horizonte/MG

Os lírios

Certa madrugada fria
irei de cabelos soltos
ver como crescem os lírios.

Quero saber como crescem
simples e belos — perfeitos! —
ao abandono dos campos.

Antes que o sol apareça
neblina rompe neblina
com vestes brancas, irei.

Irei no maior sigilo
para que ninguém perceba
contendo a respiração.

Sobre a terra muito fria
dobrando meus frios joelhos
farei perguntas à terra.

Depois de ouvir-lhe o segredo
deitada por entre os lírios
adormecerei tranquila.
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Trova de
CLÁUDIO DE CÁPUA
São Paulo/SP, 1945 – 2021, Santos/SP

Nesta noite prateada
minha sombra, junto à tua,
vai trilhando a mesma estrada,
tendo por cúmplice a lua.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

A panela de ferro e a panela de barro

A panela de ferro, um certo dia,
Ao sair do esfregão da cozinheira
Mui fresca e luzidia,
Disse à de barro, sua companheira:

«Vamos dar um passeio,
Fazer uma viagem de recreio.
— Iria com prazer, disse a de barro;
Mas sou tão delicada,
Que se acaso num seixo ou tronco esbarro,
Lá fico esmigalhada!

Acho mais acertado aqui ficar,
Ao cantinho do lar.
Tu sim, que vais segura:
A pele tens mais dura.

— Se é só por isso, podes ir comigo;
É medo exagerado o teu — contudo,
Se houver qualquer perigo,
Serei o teu escudo».

A tal dedicação, a tal carinho
Não pôde a companheira replicar,
E as duas a caminho
Lá vão nos seus três pés a manquejar.

Mas, ai! não tinham dado quatro passos,
Numa vereda estreita,
Eis que se tocam — e a de barro é feita,
Coitada, em mil pedaços!

Para sócio não busques o mais forte,
Que te arriscas de certo à mesma sorte.
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