quinta-feira, 5 de março de 2026

Renato Benvindo Frata (Vade retro!)


Se tristeza é uma charada
que atrasa o tempo da gente,
a vida é longa piada
que manda adiante o presente.

Sexta à tarde, estressado, pensei: "quando voltar, estarão à minha espera aqueles a quem detesto. Maldita Solidão, maldito Tédio." Nesse tempo de recolhimento forçado não é fácil me amoitar no fim de semana com a presença desses indesejáveis.

Tudo vira "um saco"!

Pois tiro e queda! Lá estavam.

Só que exageraram: trouxeram outra personagem: a Ansiedade. E, indisciplinados, esbarraram na minha sombra, me angustiando mais.

"Sexta, com o corpo pedindo banho morno e sossego, obrigar-me a fazer sala a esses doidos, é dose pra leão... Preciso de luz!", pensei.

Não existe coisa pior num fim de semana gasto com visita inconveniente. Então, para me distrair, abri uma garrafa de Merlot e, ao tirar a rolha e sentir o espraiar do aroma especial do vinho, notei que os visitantes se encolheram, olhando-me assustados, o que me levou ao raciocínio de que talvez estivesse ali a solução: "se Solidão, Tédio e Ansiedade se constrangem diante do Merlot, irei usá-lo como antídoto aos seus venenos, claro!"

E, sem muito esperar, enchi logo uma taça bojuda, alta, transparente, dessas que fazem tintim logo na primeira pegada e mandei o conteúdo pro peito em goles grandes, sedentos. O resultado - que esperava - foi a leva de palavrões que as visitas, ao se sentirem afrontadas, por certo proferiram.

Tá bem que somente eu escutei, mas, enquanto reclamavam, servi-me rapidamente da segunda taça e, aproveitando a oportunidade, mandei-a para dentro com uns salgadinhos de queijo, salame, azeitona e petiscos que se leva para casa numa sexta-feira. E aí a coisa pegou: eles se rebelaram prometendo nunca mais voltar.

Bem, é evidente que logo vieram a terceira e a quarta taças e, com elas, a segunda garrafa, que logo foi aberta, a comprovar que na sexta à tarde, na friagem desse ingrato inverno, com um sábado e domingo a enfrentar pelo isolamento que a Covid impôs, nosso autocontrole tem que ter um aliado e, com ele, a estratégia Macbeth: "aos amigos, tudo; aos inimigos, o veneno", Pois "Danem-se esses insolentes!".

Ao sorver a quinta taça (não se deve entrar numa guerra com pouca munição), descobri que o Merlot também guarda segredo: traz em si a alegria que, se puxada como laço como fazem os cowboys, põe-nos brilho nos olhos, riso na cara e gargalhada na garganta. E mais; põe-nos alegria no coração. É um fenomenal espantador de tristeza! A quinta taça de Merlot, pela jovialidade que a envolve, se transborda em um mundo de estrelas, solta-nos o riso que se prendeu na semana e flui de maneira desbragada.

Esquece o tudo de ruim, especialmente dessa pandemia dos infernos que leva sem piedade nossos amigos, vizinhos e parentes.

O vinho faz mais: transforma a borda tingida da taça em um escancarado sorriso de felicidade, mesmo que isso se dê apenas na efemeridade do torpor. Por isso mandei ligeirinho pro peito aquela taça e preparei a sexta. E, de taça em taça, ri, gargalhei da cara de desânimo do "Trio Parada Dura" na sua visita de fim de sexta.

Tenho certeza de que eles, Solidão, Tédio e Ansiedade, não esperavam por essa! Merlot neles!
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.

Renato Benvindo Frata. Fragmentos. SP: Scortecci, 2022. Enviado pelo autor
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing