O casarão de Tomás cheirava a papel antigo e chá esquecido. Aos oitenta anos, o escritor era uma ilha cercada por um oceano de silêncio. Seus livros, outrora lidos, agora repousavam em estantes cobertas de pó, e a caneta tinteiro sobre a mesa parecia um monumento a uma era que já não lhe pertencia. Ele não esperava visitas, não desejava fama e, acima de tudo, não tinha mais aspirações.
Ele estava sentado em sua poltrona de couro puído, observando a poeira dançar em um raio de sol, quando notou alguém encostado na estante de clássicos. Não era um homem comum. A figura vestia uma túnica que parecia tecida com a névoa da manhã e seus olhos mudavam de cor conforme ele respirava.
— Você está atrasado para o chá, Tomás — disse o visitante, com uma voz que ressoava como o som de águas calmas.
Tomás não se assustou. A essa altura da vida, a fronteira entre o sonho e a vigília era uma linha tênue e borrada.
— Eu não fiz chá para dois — respondeu o velho escritor, sem se mexer. — E, se você é fruto da minha demência, espero que seja pelo menos um interlocutor interessante.
O estranho sorriu, e a sala pareceu aquecer dois graus.
— Alguns me chamam de anjo, outros de inspiração. Eu prefiro pensar que sou apenas alguém que veio lhe lembrar do que você esqueceu enquanto olhava para as suas derrotas.
— Vitórias e derrotas... — Tomás soltou um riso seco. — Palavras vazias para quem terminou a jornada sozinho. Eu escrevi milhões de palavras, e hoje elas não passam de alimento para traças. Minha vida foi uma sucessão de tentativas fracassadas de ser "grande".
O visitante caminhou até a mesa e tocou um dos manuscritos inacabados.
— Você persegue a "Grande Vitória", Tomás. Aquela que brilha como um farol, mas que é perigosa. Grandes triunfos são como acrobatas se equilibrando em um arame alto; um sopro de vaidade e tudo desmorona. O que você não vê são as pequenas vitórias.
— Pequenas vitórias não mudam o mundo — rebateu o velho, amargurado.
— É aí que você se engana — disse o anjo, aproximando-se. — Uma praia majestosa não é um bloco maciço de pedra. Ela é composta por bilhões de pequeninos grãos de areia. Cada frase que você escreveu, cada gesto de honestidade em seus textos, é um grão. Sozinho, parece insignificante. No conjunto, ele sustenta o peso do oceano.
— Ninguém lê o que eu escrevo — sussurrou o escritor. — Não tenho família, não tenho amigos. Sou um zero à esquerda na soma do universo.
O visitante colocou a mão sobre o ombro dele. O toque era leve, mas carregava uma autoridade milenar.
— Você acha que não significa nada? Neste exato momento, em uma cidade que você nunca visitou, um jovem está lendo um parágrafo que você escreveu há quarenta anos. Aquele parágrafo o impediu de desistir de si mesmo hoje. Você tem valor, Tomás. Um valor imenso para alguém que você nem sabe que existe. Você faz parte de um conjunto maior, uma tapeçaria onde cada fio, por mais escondido que esteja, segura a estrutura toda.
Tomás sentiu uma pontada no peito. Não era dor, era algo que ele não sentia há décadas: a percepção de pertencimento.
— Então... eu não estou sozinho?
— Nunca esteve. A sua reclusão é física, mas a sua alma está espalhada em cada mente que foi tocada pela sua verdade. Não despreze o pequeno. O eterno é feito de instantes miúdos.
O anjo começou a desvanecer, tornando-se novamente poeira dourada sob o raio de sol. Antes de sumir completamente, sua voz ecoou uma última vez:
— Escreva mais uma linha hoje, Tomás. Apenas uma. O grão de areia de hoje é o que manterá a praia de amanhã.
Tomás olhou para a caneta. Sua mão tremia, mas não de fraqueza. Ele a molhou no tinteiro e, no papel em branco, escreveu uma única frase sobre a luz. Ele não sabia se era realidade ou imaginação, mas pela primeira vez em anos, ele se sentiu em casa.
Moral:
A verdadeira grandeza não reside em um único feito monumental, mas na soma das pequenas e silenciosas contribuições que, como grãos de areia, formam o solo onde outros caminharão.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).
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