WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ
Irapuato/ Guanajuato/ México
Alçando voo
Uma realidade construída,
entre sonhos e realidades,
desdobrando metáforas
letra por letra,
construindo palavras
meticulosamente,
buscando novas coordenadas para o caminho,
em uma conjunção de silêncios,
rompendo
o eco da perpetuidade,
refletido em uma lua
vermelha e negra
com sombras arredondadas.
Abrindo braços como pássaros,
alçando voo.
Destino:
alcançar o amanhecer
perseguindo a lua
contemplando o horizonte eterno,
dando à luz versos
entre a noite e o alvorecer.
(tradução do espanhol por José Feldman)
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Poema de
JOAQUIM CARDOSO
Joaquim Maria Moreira Cardozo
Recife/PE, 1897-1978, OlindaPE
Chuva de caju
Como te chamas, pequena chuva inconstante e breve?
Como te chamas, dize, chuva simples e leve?
Tereza? Maria?
Entra, invade a casa, molha o chão,
Molha a mesa e os livros.
Sei de onde vens, sei por onde andaste.
Vens dos subúrbios distantes, dos sítios aromáticos.
Onde as mangueiras florescem, onde há cajus e mangabas,
Onde os coqueiros se aprumam nos baldes dos viveiros
E em noites de lua cheia passam rondando os maruins:
Lama viva, espírito do ar noturno do mangue.
Invade a casa, molha o chão,
Muito me agrada a tua companhia,
Porque eu te quero muito bem, doce chuva,
Quer te chames Tereza ou Maria.
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Soneto de
CLÁUDIA DUTRA GALLO
Rio de Janeiro/RJ
Espectro de natal
O brilho das luzes já se faz presente.
Na praça o presépio, a grande aventura.
No ar um aroma de doce e candura.
Nos rostos os risos, os ares contentes.
Na chuva miúda promessas de paz.
Nas mãos as sacolas, muitos presentes.
As ruas bonitas tão cheias de gente
Rindo, apressadas, em busca de mais.
Jogado à sarjeta, num canto escuro,
Um ente sofrido encostado no muro
Estende ao mundo seu olho comprido.
Parece um fantasma assombrando a festa
Lembrando às pessoas ali manifestas:
-Não existe Natal para os esquecidos!
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Trova Premiada em Vila Velha/ES, 2018, de
LUZIA BRISOLLA FUIM
São Paulo/SP
Ao romper os horizontes,
em seus muares cargueiros,
tropeiros teceram pontes
integrando os brasileiros!
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Poema de
IEDA ESTERGILDA DE ABREU
São Paulo/SP
P de palavra e pedra
Palavras às vezes pesam como pedras
ferem a boca como pedra que se mastiga.
Agudas, acertam rápidas como pedras
dirigidas
esfriam como pedras frias na boca
ressentida
pensam e "pedram" como pedras no caminho.
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TROVA POPULAR
Quem quiser ter vida longa
fuja sempre que puder
do médico, boticário,
melão, pepino e mulher.
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Soneto de
LAÉRCIO BORSATO
Poços de Caldas/MG
A orquídea
NA ENTRADA da casa, a orquídea abriu
Seu vasto sorriso, lilás e amarelo.
O verde das folhas também aderiu,
Esbanjando um quadro, nobre e mui belo!
Da sacada eu contemplo de perfil
Essa obra que Deus, de modo singelo,
Mormente nos recantos de meu Brasil,
Faz da graça e da beleza, um forte elo!
Quem passar por ali, sentirá a candura
Dessa flor, que com delicadeza pura,
Indelével toca o coração humano...
Nesse meditar a minha alma cogita.
Meu ser acende, se rende e acredita:
Isso só é possível, com toque soberano!
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Poema de
TARSO DE MELO
Santo André/SP
Seus cacos
ao alcance do olho
estilhaços: um cão late
ao longe, talvez ao acaso
o que sobra da vida
entre um e outro passo
poça, o que fica da chuva
como uma flor — precisa
em seus disparos; a dor
como presença
nos detalhes; o corpo de
uma cor, seus claros
espaço que se abre
temporário
no agosto desse concreto
armado
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP
"No fogão eu passo o dia",
disse ele antes de casar.
Só não disse pra Maria
que o tal "fogão"... era um bar!
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Soneto de
JORGE CARDOZO
Nova Iguaçu/RJ
O Poeta e a Dor
Desabita de mim esta tristeza,
Que não cabe num corpo tanto mal.
Toda febre agora ficou fria.
Todo doce tornou-se agora sal.
Que se afaste de mim a taça escassa
Onde o vinho vinagre se tornou.
Uma dor verdadeira que não passa,
Mesmo o tempo passando; e passou.
Um poeta falou por toda a praça
(E virou do seu tempo professor)
A pergunta proposta pela esfinge:
Se ao poeta de fato nada atinge,
Ou se finge a dor completamente,
Como agir, se a dor deveras sente?
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Spina de
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo/SP
O som do silêncio
Ouvindo meu silêncio,
liberto este momento
disfarçado em dilema,
em um aroma de alfazema.
A vida devolve em sorrisos
a esperança, abre a algema
do meu silêncio, que enreda
linhas de um singelo poema.
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Soneto de
LUCAS MUNHOZ
Indaiatuba/SP
O pássaro
Canto-te, saio da gaiola e vivo
Cantando a linda melodia e o canto,
Que voa, aninha e memoriza em pranto...
Com que precises do carinho ativo.
Quem ama o dono do balsão passivo,
É cuidadoso... É o coração do encanto!
Para abraçar e eternizar, portanto...
Se és amoroso, isso é bonito! Eu privo!
Solta a cadeia e ama o bichinho amado!
Um sentimento do maior cuidado!
Que o deixes livre, totalmente belo.
Mas ele volta, eis a alegria amável
E muito fofa, em reviver notável,
É bom sorrir alegremente a vê-lo.
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Poema de
VERA LÚCIA DE OLIVEIRA
Cândido Mota/SP
Andorinhas
Estou de bem com o mundo até
um tanque de guerra se cansa
da guerra até um pássaro para
para
repousar
e depois o céu hoje é de um
azul que faz mal aos olhos
agudo que a gente fica ali
barriga pro ar
admirando as andorinhas
que volteiam
matutando no que pensam lá no alto
no que
sabem
se sabem que estou de bem com o mundo
que volteiam lá em cima também para mim
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Pantun de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN
Pantun da vida circense
TEMA:
No picadeiro da vida
às vezes somos palhaços:
com atitude fingida
maquiamos os fracassos.
Hélio Pedro
Natal/RN
PANTUN:
Às vezes somos palhaços:
E nesse circo sem pano,
maquiamos os fracassos
ante a incerteza e o engano.
E nesse circo sem pano,
com tanta banalidade,
ante a incerteza e o engano,
as marcas vis da maldade.
Com tanta banalidade,
vê-se em qualquer direção,
as marcas vis da maldade
moldando as marcas no chão.
Vê-se em qualquer direção,
a maldade desmedida,
moldando as marcas no chão
no picadeiro da vida.
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Hino de
PEDRO LEOPOLDO/ MG
Pedro Leopoldo ditosa,
"progressista do sertão"
Cidade boa e formosa
de teus filhos és rincão!
Entre matas já frondosas
e colinas bem garbosas
margeando a ferrovia,
tu nasceste mui gentil,
tendo, a porta, a rodovia
mais bonita do Brasil!
Tua origem é singela,
A história nos revela,
grandes vultos de coragem
transformaram a ribeira
numa indústria: tecelagem
com a bela cachoeira!
Pedro Leopoldo ditosa,
"progressista do sertão"
Cidade boa e formosa
de teus filhos és rincão!
Veneramos com carinho
o artista "Aleijadinho"
escultor do belo altar
lá na Quinta, Sumidoro;
onde foram explorar
bandeirantes minas d'ouro!
Com as lindas cachoeiras
e a riqueza das pedreiras
tens progresso e muita vida
e belezas naturais,
cada vez mais conhecida
vais ficando nas "Gerais"! (bis)
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Poema de
PAULO HENRIQUES BRITTO
Rio de Janeiro/RJ
II
As coisas que te cercam, até onde
alcança tua vista, tão passivas
em sua opacidade, que te impedem
de enxergar o (inexistente) horizonte,
que justamente por não serem vivas
se prestam para tudo, e nunca pedem
nem mesmo uma migalha de atenção,
essas coisas que você usa e esquece
assim que larga na primeira mesa —
pois bem: elas vão ficar. Você, não.
Tudo que pensa passa. Permanece
a alvenaria do mundo, o que pesa.
O mais é enchimento, e se consome.
As tais formas eternas, as ideias,
e a mente que as inventa, acabam em pó,
e delas ficam, quando muito, os nomes.
Muita louça ainda resta de Pompeia,
mas lábios que a tocaram, nem um só.
As testemunhas cegas da existência,
sempre a te olhar sem que você se importe,
vão assistir sem compaixão nem ânsia,
com a mais absoluta indiferença,
quando chegar a hora, a tua morte.
(Não que isso tenha a mínima importância.)
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França
Os tavões* e as abelhas
Na produção se reconhece o artífice.
Alguns favos de mel não tinham dono:
Logo a si os chamaram os tavões;
As abelhas, opondo-se, levaram
O pleito a certa vespa. Era difícil
De tirar deste caso as conclusões.
Depondo, as testemunhas declararam
Que alados animais, um tanto longos,
Zumbindo, escuros, tais como as abelhas,
Rondando os favos por ali andaram.
Mas, ah! que nos tavões estes sinais
São os mesmos — tais quais.
Não sabendo que opor a estas razões,
A vespa quis mais luz e decidira
Tirar, segunda vez, inquirições.
Ouviu um formigueiro;
Mas o caso, ainda assim, que era intricado,
Ficara no tinteiro.
Uma abelha ladina exclama então:
«A que vem para aqui, fazem favor,
Todo este arrazoado?
Há seis meses que o pleito está pendente.
E nós como a princípio, exatamente.
Com a tardança o mal ganha bolor.
Decida-se o juiz;
Já nos levou a pele como bem quis.
Nós agora sem réplicas nem tréplicas,
Sem contraditas mais, nem mais farragem,
Mãos à obra, e munidas de coragem,
De par com os tavões a trabalhar,
Deste mimoso suco a ver quem sabe
Tão primorosas celas fabricar.»
Recusando os tavões, claro se via
Que o seu estreito engenho não podia
Tal arte exercitar.
Julgando a vespa, então, à parte contra
O mel foi dar.
Provera a Deus que todos os processos
Se julgassem assim. Ah! quem seguira
O método dos turcos neste ponto —
O bom senso de código servira!
Não se fora o melhor gasto nas custas:
Não fôramos sugados, arrasados,
Com delongas constantes:
Afinal o juiz faz-se com a ostra,
E atira com a casca aos litigantes!
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* Tavões = mutucas, moscões.
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