quinta-feira, 12 de março de 2026

Laé de Souza (Tira o Dez)


Nunca fui bom de bola. Nem nos tempos de colégio, quando era sempre o último escolhido e, como peso morto, entrava para jogar no gol. Os ruins no campo iam para o gol e mesmo como goleiro eu era péssimo, reconheço. Num país do futebol, é muito desagradável não saber lidar com a bola. Assim, numa época fazia aulas, treinava embaixadas em casa, queria aprender mesmo. Mas não deu resultados. Nunca consegui entender as jogadas ensaiadas, dar dribles. Acreditem, nunca passei com a bola por um adversário e poucas vezes consegui retirar a bola de um atacante. Sonhava dando bicicletas, “chapelando” o adversário, fazendo gols fenomenais, a plateia vibrando, os companheiros me abraçando, sendo disputado pelos times, na hora do jogo, e levantava disposto a mudar a história. Mas, na hora H, qual nada. Ficava entrevado que não tinha jeito.

O tempo foi passando, continuava batendo minha bolinha, sem muita responsabilidade, irritando um ou outro parceiro do time em que estava jogando, mas a meu ver, o que valia era o exercício e o divertimento. Mas mudei de ideia num jogo em que disputavam um troféu a Rua de Baixo e a Rua de Cima. A coisa era pra valer. E, naquele memorável domingo, com o campo esburacado, porém, demarcado e enfeitado com bandeirolas, com juiz, bandeirinhas e torcida, nós, da Rua de Baixo, entramos em campo sob aplausos. Eu com a responsabilidade da camisa dez, confiante, pensamento firme, mentalizava “É hoje meu dia” e fazia flexões e alongamentos num aquecimento para o jogo.

Estávamos perdendo, mas ainda tinha jeito de recuperar. Eu ainda estava esperançoso até o momento em que ouvi um molequinho de seus doze anos gritar “Tira o dez”. Se fosse uma vez só, tudo bem. Mas o sapeca insistia “Troca o dez! O dez tá acabando com o nosso time.” E cutucava o pai apontando-me toda vez que a bola vinha na minha direção. E quem diz que eu conseguia tocar na bola? Travava e suava frio e não conseguia tirar os olhos do guri. Sem reservas no time, só vendo o adversário fazer gols e mais gols, e eu pedia a Deus que o jogo terminasse logo. 

No intervalo, quis fugir, mas me fizeram voltar na marra. Trocamos de lado no campo, o que foi pior, pois eu ficava bem de frente para o moleque que balançava a cabeça a cada erro meu. Que visão de jogo a do garoto! Com certeza, hoje deve ser técnico de algum time grande. Se bem, como disse o Sapo (técnico do time), quando comentei do garoto “Para ver que o problema era tu, não precisava ser bom.” 

A partir dali, resolvi parar de jogar. Sempre que surgia um jogo, na empresa ou numa reunião de amigos, eu me esquivava. Outro dia, num churrasco de final de ano, resolveram formar times para um bate-bola. O Com-camisa, completo; o Sem-camisa, faltando um. Insistiram. Falei que não tinha calção, tênis, que não jogava direito, mas não teve jeito. Inventei que não podia ficar sem camisa, mas me trocaram com outro jogador do Com-camisa. Enfim, lá estava eu em campo e de novo com a camisa dez. As mulheres e filhos torcendo. Mas não tinha jeito, pra todo lado que olhava, eu via um molequinho apontando para mim. Não toquei na bola durante todo o jogo e, na bebedeira do churrasco, fui objeto de galhofa.

Hoje, em qualquer confraternização, vou de pé engessado e jurei nunca mais entrar em campo pra defender time de ninguém.
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LAÉ DE SOUZA é cronista, poeta, articulista, dramaturgo, palestrante, produtor cultural e autor de vários projetos de incentivo à leitura. Bacharel em Direito e Administração de Empresas, Laé de Souza, 55 anos, unifica sua vivência em direito, literatura e teatro (como ator, diretor e dramaturgo) para desenvolver seus textos utilizando uma narrativa envolvente, bem-humorada e crítica. Nos campos da poesia e crônica iniciou sua carreira em 1971, tendo escrito para "O Labor"(Jequié, BA), "A Cidade" (Olímpia, SP), "O Tatuapé" (São Paulo, SP), "Nossa Terra" (Itapetininga, SP); como colaborador no "Diário de Sorocaba", O "Avaré" (Avaré, SP) e o "Periscópio" (Itu, SP). Obras de sua autoria: Acontece, Acredite se Quiser!, Coisas de Homem & Coisas de Mulher, Espiando o Mundo pela Fechadura, Nos Bastidores do Cotidiano (impressão regular e em braille) e o infantil Quinho e o seu cãozinho - Um cãozinho especial. Projetos: "Encontro com o Escritor", "Ler É Bom, Experimente!", "Lendo na Escola", "Minha Escola Lê", "Viajando na Leitura", "Leitura no Parque", "Dose de Leitura", "Caravana da Leitura”, “Livro na Cesta”, "Minha Cidade Lê", "Dia do Livro" e "Leitura não tem idade". Ministrou palestras em mais de 300 escolas de todo o Brasil, cujo foco é o incentivo à leitura. "A importância da Leitura no Desenvolvimento do Ser Humano", dirigida a estudantes e "Como formar leitores", voltada para professores são alguns dos temas abordados nessas palestras. Com estilo cômico e mantendo a leveza em temas fortes, escreveu as peças "Noite de Variedades" (1972), "Casa dos Conflitos" (1974/75) e "Minha Linda Ró" (1976). Iniciou no teatro aos 17 anos, participou de festivais de teatro amador e filiou-se à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. Criou o jornal "O Casca" e grupos de teatro no Colégio Tuiuti e na Universidade Camilo Castelo Branco. 

Fontes:
Laé de Souza. Espiando o Mundo pela Fechadura: crônicas. SP: Ecoarte, 2018.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing