terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Renato Benvindo Frata (A Mulher – trabalho não considerado)


Sem qualquer alusão metafórica, pejorativa ou discriminatória ao ato da Criação, como consta na Bíblia (Gênesis, 2…), a mulher teria sido moldada com o fim de distrair o homem, como mera auxiliadora, com papel complementar. Isto é: estaria disponível para que dela — corpo e serviços — ele usasse a seu bel-prazer e necessidade, já que penava por solidão.

Não é preciso grande esforço intelectual para assim se entender. Deixo claro que não é intenção condenar ou questionar preceitos, nem incentivar levantes contra o parceiro explorador de mão de obra — que, se não chega a ser escrava, é, no mínimo, parcial e desprovida de reciprocidade.

Ocorre que, desde a manhãzinha, à mulher são destinadas tarefas que se iniciam com (todas) as do lar e dos familiares — estendendo-se aos negócios — e que, por não serem reconhecidas como trabalho, deixam de ser remuneradas. E aí mora a injustiça.

Só entenderá a que me refiro o homem que se obrigar — por um só dia que seja — aos cuidados dispensados às crianças e às demais tarefas de lavar, limpar, esfregar, cozer, passar, recolher, corrigir, vestir e… sorrir… desde o amanhecer até o apagar das luzes, nos trezentos e sessenta e cinco dias do ano, por toda uma vida. E mais: obrigar-se a aturar o que vier depois do apagar das luzes.

Se uma casa com mulher dentro já é um hospício (e o é…), imagine uma casa sem a figura dela a comandar! — Esse raciocínio não é meu: é público e notório.

O segredo dessa injustiça social esconde-se na “essencialidade dos serviços” a ela destinados e dos quais nós, homens, nos aproveitamos, por termos cedido ao Sagrado Artesão uma de nossas costelas.

Não sei se Adão, sabedor do desejo do Senhor em lhe propiciar uma companhia, teria pedido que caprichasse modelando-a assim ou assado, com ou sem curvas e outros apetrechos que fazem de nossas mãos, olhos e outras partes do corpo verdadeiras estrepolias quando próximos. O fato é que o projeto deu certo e bem representa alegria ao todo — aí incluídos o corpo e a mente do vivente.

Pois bem: se tudo foi bem pensado, planejado e construído, onde então está o erro?

Na essencialidade da prestação de seu serviço. Na não geração de renda pelo trabalho desenvolvido. No excesso de carga horária. No desgaste emocional e na sobrecarga mental. Mas, se essa “companheira-ajudante” é reconhecida como a “sustentação das bases para o desenvolvimento de toda uma sociedade”, qual o motivo de tamanha desvalorização?

Quanto valem — em dinheiro — as tarefas domésticas, os cuidados com as crianças, o amparo a idosos ou pessoas dependentes, a gestão familiar, o voluntariado comunitário? A pensar.

Até porque reconhecimento e valorização do trabalho (independentemente do sexo do trabalhador) são essenciais para garantir que todas as formas de labor sejam devidamente apreciadas e recompensadas, como também para que se alcance a igualdade de gênero tão buscada. A hora é de mudança, é ou não é? 
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

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