domingo, 18 de janeiro de 2026

Renato Benvindo Frata (Aos cães da minha rua)


O bom da minha rua é que nela não há cachorros vadios. Não!

Todos, mais de cem talvez, têm o que fazer à noite. E o fazem bem.

Latem!

Bem alto e claro com seus latidos estridentes, contínuos e repetitivos. Embora permaneçam no escuro, mal deitemos nossos corpos para dormir. Ou tentar fazê-lo.

Ladram para a lua, esteja na crescente, na nova, na cheia e na pequena minguante. Ela os fascina, incita a que cantem em coro como bêbados apaixonados à frente da janela escolhida. Ladram também para as estrelas que apontam aqui, ali, acolá, na infinidade ponteada no céu.

Entre a lua e as estrelas, ladram também para as sombras. Às sombras que o vento move – folhas, roupas estendidas – e às imóveis das paredes e postes, porque a noite para eles foi feita para latirem.

Com isso não se importam com os ouvidos alheios, nem com as necessidades de descanso tão comuns a quem trabalha. Para eles, os latidos são iguais, repetidos e constantes, até que o sol dê as caras. Depois dormem a sono solto!

Por que a maioria que é posta para fora por seus donos ladra à noite?

A ciência diz que por diversas razões: o medo, a ansiedade criada pela separação (passou o dia entre as pernas dos donos, circulando pela casa; ao escurecer, porém, é posto para fora – como cachorro.) Não é mesmo contraditório? Se o cão andou pela casa, buliu em objetos, adentrou quartos, salas, banheiro, não pode ter também na casa o seu canto?

Eles latem por tédio ou para alertar sobre barulhos e outros estímulos, como o escuro, o silêncio, as ventanias, as tempestades, a passagem de nuvens, de pessoas na rua que podem assustá-los. A ansiedade criada pela ausência dos donos, pelo incentivo de outros cachorros na mesma condição, pela busca por atenção, pelas dores por estresse e pela sensação de desprezo agravada pela condição imposta a eles é um fator importante.

Na verdade, os cães que permanecem abandonados pelos quintais à noite, ladram para se dizerem vivos! E chamam à atenção de quem têm por amigos, mas que dormem em placidez a despeito dos barulhos que fazem, e do incômodo que produzem.

Tente passar a noite no quintal e ao relento sob o vento gelado ou chuva, depois fale se não sentiu desejo de gritar. Eles o fazem latindo.

Simples, assim.
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

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