Era uma tarde ensolarada em Arles, as cores vivas do Provence que pareciam dançar nas paletas dos três mestres. Van Gogh, Gauguin e Monet estavam reunidos em uma pequena casa onde as paredes estavam adornadas com suas obras. A conversa logo se transformou em um acalorado debate.
Van Gogh: (gesticulando para o seu quadro) Olhem para isso! A energia da pintura é palpável. Cada pincelada expressa a turbulência da minha alma. É como se cada estrela estivesse viva, pulsando com a luz.
Gauguin: (rindo) Ah, Vincent, não me diga que você ainda acredita que pintar a realidade é o que a arte deveria ser! Sua paisagem é como um grito, mas eu prefiro a suavidade e a simplicidade da vida. Olhem para a minha tela! (aponta para sua obra) Aqui, eu capturei a essência das coisas — um mundo mais espiritual e menos caótico.
Monet: (com um sorriso irônico) Vocês dois sempre emaranhados nos seus próprios demônios! Eu busco a beleza das coisas efêmeras. A luz e a cor que mudam constantemente. Minha série de Nenúfares é pura Harmonia — um jogo da natureza, não um grito desesperado.
Van Gogh: (frustrado) Harmonia? Claude, sua arte parece uma ilusão! Você está tão perdido na busca da luz que se esquece da luta real dentro de nós. Minhas galas de girassóis são um reflexo da paixão!
Gauguin: (levantando a voz) A luta não é tudo, Vincent! Existe uma sabedoria na simplicidade. A natureza não é apenas um campo de batalha ou um lugar de dor. É onde encontramos a paz. Os meus quadros buscam provocar um pensamento! Olhem para este! (aponta para seu trabalho) Há uma fantasia que revela a verdade, algo que fatos não podem capturar.
Monet: (sorrindo) E essa fantasia muitas vezes ofusca a realidade! Não podemos esquecer que a natureza é uma dançarina, uma musa que está sempre em transformação. (faz uma pausa) Vocês dois falam de alma e luta, mas eu vejo um jardim.
Van Gogh: Um jardim? Claude, existem jardins imaginários e jardins reais. O que eu vejo nas flores é a fragilidade da vida! Cada girassol em minha tela é um símbolo da luta contra a escuridão.
Gauguin: (interrompendo) E o que é a escuridão sem a luz? Uma obra de arte deve provocar reflexão! Estar em harmonia com o espírito da coisa é mais importante do que a técnica. Você pode ter traços intensos, mas sem compreensão, é apenas ruído.
Monet: (pensando) A técnica é a ponte entre a visão e a realidade! Se você está preocupado só com a mensagem, a pintura se torna um panfleto, não arte! (aponta para os quadros) O que eu desejo é capturar o instante — a beleza do agora.
Van Gogh: (com um sorriso triste) Então, somos todos diferentes, não somos? Vocês preferem sussurrar, enquanto eu grito com cada pincelada. Mas isso é o que torna a arte tão rica e variável!
Gauguin: E isso é o que devemos celebrar! Cada um de nós tem um olhar único. A arte é o reflexo da nossa experiência.
Monet: Concordo! Ao final, é a paixão que nos une, mesmo que as nossas paletas sejam diferentes.
E assim, os três mestres continuaram a discutir, rindo e debatendo, cada um defendendo seu mundo particular. O sol se pôs lentamente, lançando um brilho dourado sobre seus quadros, que pareciam, cada um à sua maneira, perfeitamente vivos.
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Ordo Equitum Calami et Calicis (Título Dux Magnus), Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna) etc. Certificados e Medalhas de Mérito Cultural de diversas Academias do Brasil, Portugal e Romênia. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações:
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”., “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas),
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".
Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos.
Imagem criada por Feldman com Microsoft Bing
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