Joelmir era mestre de obra em uma construtora especializada em casas populares na cidade de Maringá, no Paraná. Ganhava um salário, que ele considerava razoável, acima dos padrões pagos no Brasil.
Era casado com Mirianilsen, uma bela mulher, já um tanto gordinha, de quase 40 anos, com quem não tivera filhos. Mirianilsen trabalhava vendendo cosméticos porque lhe rendia o suficiente para os gastos com a cadelinha Sunshine, que adotara de uma ninhada nascida na casa de uma prima, e a quem dedicava todo o amor que poderia ter dado ao filho que não teve.
Certa manhã, Joelmir foi avisado que um membro da igreja viria visitar a obra. Ao chegar, o Monsenhor Teixeira falou que estava fazendo uma rifa para ajudar na construção de uma igreja na região em que estavam construindo as casas.
Todos ficaram interessados porque o prêmio era uma viagem para a Flórida com tudo pago, porém, na hora que o Monsenhor disse o valor de R$1000 por número, todos voltaram discretamente para a obra, deixando Joelmir sozinho perante o religioso.
Ele lembrou-se de uma poupança que fazia secretamente para um dia levar Mirianilsen a uma viagem que ela tanto sonhava. Então efetuou o pagamento da rifa.
O Monsenhor avisou que eram 100 números e que ele poderia escolher qualquer um. Joelmir lembrou-se da casa da sua mãe em Campinas, no Estado de São Paulo, e que tinha o número 329. Escolheu o número 29, despediu-se do Monsenhor, e passou o dia sentindo uma ponta de remorso.
Ao final do expediente, como quase sempre fazia, passou pelo boteco, onde o seu remorso foi imediatamente aplacado por uma dose de cachaça que um companheiro trouxe de Salinas, Minas Gerais. Na segunda dose já estava alegre, esquecido do remorso e contente com o seu feito.
Quase chegando em casa, pensou que hoje iria fazer amor com Mirianilsen para compensar esse gasto que ele jamais contaria a ela. Porém, ao chegar e abraçar a esposa, ela imediatamente gritou:
– Você andou bebendo de novo, Joelmir? Vá tomar banho, jantar e depois vá para a cama imediatamente.
Dormiu sem remorso e também sem o amor.
Meses depois, já quase esquecido da rifa, foi avisado que o sorteio seria realizado no salão da catedral, aberto ao público, no sábado seguinte.
Foi até lá, e junto a outros 99 ansiosos concorrentes, presenciou a moça com uma cestinha de bingo sortear o primeiro número. A bolinha foi a de número dois. Imediatamente, noventa pessoas retiraram-se desapontadas do salão.
Ansioso, Joelmir aguardou a saída do outro número. Quando ele ouviu o número nove, não sabendo o que fazer, gritou:
– Bingo!
Provocando muitas risadas.
Foi abraçado por todos os presentes, e sem conter a euforia, repetia sem parar:
– Eu sabia, eu sabia que ia ganhar.
Monsenhor Teixeira veio até ele, e apresentou-lhe a moça da companhia de viagens que iria providenciar tudo a respeito da viagem conquistada. Foi com a moça da agência até em casa contar o acontecido, só omitindo o valor da rifa.
Após algum tempo de intensos preparativos, chegou o dia da tão esperada viagem. Foram levados pela companhia até o aeroporto internacional de Curitiba.
Mesmo sabendo que eram apenas cinco dias de estadia, Mirianilsen apareceu com uma enorme e pesada mala, o que fez o casal pagar uma boa quantia pelo excesso de peso.
Ao acomodarem-se nos assentos do avião, a aeromoça veio pedir a Mirianilsen que retirasse o chapéu colorido com enormes abas, que o vendedor havia lhe garantido ser a última moda na Flórida, porque estava encostando no rosto do passageiro ao lado.
Querendo mostrar erudição, ela disse:
– Yes, Yes.
Ao chegarem na Flórida, outra moça da companhia, e que falava português, levou-os até o Hotel Resort Golf Club, fez o check-in e instalou-os no quarto. Ela avisou que o horário das refeições eram: 7h (café da manhã), 12h (almoço) e 20h (jantar). Também acertou os horários nos relógios deles, sem tentar explicar a diferença de fuso horário com o Brasil.
Na primeira refeição, que foi um jantar, o garçom, muito solícito, colocou uma pequena quantidade de vinho na taça para que Joelmir fizesse a degustação e aprovasse o produto, conforme a etiqueta. Ele tomou a garrafa do garçom, encheu as taças dele e da mulher, colocou a garrafa na mesa e continuou a comer, deixando o garçom estupefato.
Após o lauto jantar, Joelmir notou que o garçom ficava ao lado da mesa com a mão espalmada. Não teve dúvida, achou que era para cumprimentá-lo e apertou a mão dele e despediu- -se. E foram passando os dias, extasiados com as atrações que o Hotel oferecia. Fizeram um tour de ônibus pela cidade de Boca Raton, que os deixou maravilhados com a modernidade e as belezas naturais do local.
Durante o dia, aproveitavam a piscina, onde Joelmir tomava algumas Bud de latinha, pagando 5 dólares cada, e também onde Mirianilsen exibia seu talento de nadadora, com seu estilo cachorrinho. Em uma das noites foram até o cassino.
Joelmir procurou uma mesa para jogar truco ou bingo. Não encontrando, queixou-se da qualidade do cassino.
Mirianilsen comprou algumas fichas e apostou no número 29 na roleta. Ganhou 40 dólares, e disse que já sabia onde os gastaria. E então, chegou o tão esperado dia do jogo de golfe. Nesse jogo específico, em vez de dois jogadores disputando o mesmo buraco, eram cinco, para agilizar.
O caddie, designado para acompanhá-los, deu um taco para cada um, e sorteou a ordem de início. Sorteado em primeiro, ao tentar a tacada, Joelmir golpeou o ar duas vezes, e na terceira arrancou um enorme tufo de grama. Mesmo assim, impulsionou a bolinha a cem metros, sendo aplaudido pelos outros jogadores.
Nesse momento, o caddie veio pegar o taco para carregar. Joelmir gritou:
– No! É meu. Só devolvo na secretaria.
Ao chegarem ao quinto buraco, o caddie comunicou-se com os promotores do evento, que enviaram dois carrinhos de golfe para buscá-los. Como nenhum havia conseguido um ponto sequer, consideraram todos vitoriosos. Individualmente, todos subiram ao pódio para receberem suas medalhas e serem fotografados.
Joelmir, entusiasmado com a medalha, agarrado ao taco, e ainda bravo com o caddie que ficara o tempo todo tentando tirar o objeto de suas mãos, foi até a secretaria do hotel registrar uma queixa.
O gerente que não falava português, vendo a inutilidade da conversa, deu o taco de brinde a ele, e ainda retirou da parede um quadro com a foto da visão aérea do campo de golfe, feita por um drone.
Ao retornarem ao quarto, foram avisados que o jantar dessa noite seria a última refeição deles no hotel, porque a moça da companhia de viagens viria às 6h para fazer o check-out e o translado ao aeroporto.
Nessa noite, enquanto fazia as malas, Mirianilsen comentou:
– A educação aqui nesse país é muito melhor do que a do Brasil. Diariamente, os garçons e garçonetes vieram cumprimentar a gente depois de todas as refeições.
Prosseguiu:
– Se fosse no Brasil, eles e elas estariam pedindo gorjetas acintosamente.
Depois do jantar, que seria o último, empolgado com as palavras da esposa, Joelmir, na hora em que o garçom espalmou a mão, levantou-se e deu um forte abraço nele, deixando surpresos todos no salão.
Na manhã seguinte, após o check-out e o translado, embarcaram para Curitiba.
Ao chegarem a Maringá, foram descansar da exaustiva viagem, mal contendo a ansiedade em contar aos amigos as peripécias no país estrangeiro.
Na manhã seguinte, Mirianilsen colocou o seu enorme chapéu colorido, a camiseta com “I Love Flórida”, e vestiu a cadelinha Sunshine com o casaquinho de quarenta dólares que comprara na loja do hotel, que estampava o logotipo do local, e foi vender seus cosméticos e narrar às amigas curiosas as aventuras no exterior.
Como o boteco não abria de manhã, Joelmir foi até a obra para mostrar os objetos e descrever aos companheiros as proezas vividas lá nos Estados Unidos.
Foi contando, mas o ponto alto deu-se na hora em que exibiu a medalha, o taco, o quadro do campo e as fotos recebendo a medalha no pódio.
De lá, foi até o boteco, onde pagou uma rodada aos amigos e começou a relatar as aventuras nas terras do Tio Sam.
Na história, ele acertou quase todas as tacadas. Nessa hora, subia nas mesas e simulava dar as tacadas, causando exclamações de admiração dos colegas de bar.
Dizia também ter ganho o primeiro lugar, exibia a medalha para provar o feito. Para realçar a conquista, mostrava as fotos e o quadro do enorme campo de golfe. Mirianilsen e Joelmir foram a sensação da cidade por um longo tempo.
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Arthur Thomaz é natural de Campinas/SP. Segundo Tenente da Reserva do Exército Brasileiro e médico anestesista, aposentado. Trovador e escritor, úblicou os livros: “Rimando Ilusões”, “Leves Contos ao Léu – Volume I, “Leves Contos ao Léu Mirabolantes – Volume II”, “Leves Contos ao Léu – Imponderáveis”, “Leves Aventuras ao Léu: O Mistério da Princesa dos Rios”, “Leves Contos ao Léu – Insondáveis”, “Rimando Sonhos” e “Leves Romances ao Léu: Pedro Centauro”.
Fontes:
Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing
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