segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Asas da Poesia * 145 *


Poema de
ANTONIO JURACI SIQUEIRA
Belém/PA

Meu canto

Meu canto aprendi com a água
bulindo na ribanceira
ao som do vento brincando
na copa da seringueira.

Aprendi a rimar com a chuva
no telhado a batucar,
com o urutau que ensaiava
canções à luz do luar.

Meu cantar é como a voz
do mar na areia quebrando
e o canto do rouxinol
quando a aurora vem raiando.

Meu canto escala montanhas,
vence dunas, soa no ar,
transpõe rios e florestas,
dança nas ondas do mar!
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Soneto de
OLIVALDO JÚNIOR
Mogi-Guaçu/SP

Um rapaz, um homem só…

Nas esquinas do meu quarto,
um rapaz, um homem só,
guarda os versos que reparto
com alguém que vira pó.

Das porções com que me farto,
um rapaz, um homem só,
já não pensa mais no infarto
que faria alguém ter dó.

Sem ninguém que a vida inflame,
dobra esquinas da cidade
como peças de origami.

Já não quer ninguém que o chame
pela alcunha de "saudade",
mas que, ao vê-lo só, o ame.
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Desejos

Queria ser 
o seu “tudo” na vida...
o caminho a percorrer,
os perigos a enfrentar,
o amanhã por nascer,
o sorriso 
do seu olhar.

Queria 
ser o seu 
agora;
o seu melhor 
momento 
de felicidade
e encantamento...

Queria, 
ser também,
a sua, 
esperança.
A sua alegria,
a sua ilusão, 
e fantasia.

Queria, 
finalmente,
estar em seu coração...
ser seu momento
de reflexão
na calma tarde 
refletida lá fora.
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TROVA POPULAR

Passarinhos, meus amigos,
eu também sou vosso irmão:
vós tendes penas nas asas,
eu tenho-as no coração.
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Soneto de
CARMEN CINIRA
Rio de Janeiro/RJ (1902 – 1933)

Ser mulher

Ser mulher não é ter nas formas de escultura,
no traço do perfil, no corpo fascinante,
a beleza que, um dia, o tempo transfigura
e um olhar deslumbrado atrai a cada instante.

Ser mulher não é só ter a graça empolgante,
o feitiço absorvente, a lascívia e a ternura;
ser mulher não é ter na carne provocante
a volúpia infernal que arrasta e desfigura...

Ser mulher é ter na alma essa imortal beleza
de quem sabe pensar com toda a sutileza
e no próprio ideal rara virtude alcança...

É ter, simples e pura, os sentimentos francos,
E, ainda no fulgor dos seus cabelos brancos,
sonhar como mulher, sentir como criança!
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Poema de
JAQUELINE MACHADO
Cachoeira do Sul/RS

Quero abraçar o mundo

 Sou amiga da paz.
Mas paradoxalmente, sou barulhenta!
Penso demais...
E vou confessar um defeito:
sou um pouco controladora.
Quero abraçar o mundo e seus espaços,
impedir erros e sofrimentos.
Preciso aceitar que, na verdade,
não controlo nem meus sentimentos...
Ficar de bem comigo do jeito que sou, incontrolável...
Igual ao sopro do um vento...
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Soneto de
CÍCERO ACAIABA
Cambuquira/MG, 1925 – 2009, Varginha/MG

Minha sombra

Depois de te esperar inutilmente
na esquina desta rua abandonada,
eu volto mais sozinho e, lentamente,
marcam meus passos versos na calçada.

O coração, de súbito, se sente
liberto dessa angústia exasperada,
ao ver que minha sombra, obediente,
arrasta-se a meus pés, escravizada.

Ao menos, a que sempre me acompanha,
sombra fiel de tantas confidências,
mártir da mesma dor, do mesmo espinho,

ouve em silêncio minha voz estranha,
e vai beijando as longas reticências
das lágrimas que deixo no caminho.
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Poema de
ROBERTO PINHEIRO ACRUCHE
São Francisco de Itabapoana/RJ

Quando morre um poeta

“Quando morre um Poeta
Uma luz se apaga
Uma rima deixa de ser feita
Um trovador se cala.
-  O belo é menos escrito
Do jeito mais bonito
de externar a inspiração.”
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Soneto de
LINO VITTI
Piracicaba/SP (1920 – 2016)

Veleiro do amor

Coração - débil barco aventureiro -
pelo oceano do amor, toma cautela.
Pode surgir um vendaval traiçoeiro
que te arrebate e te estraçalhe a vela.

Perscruta o rumo. Sobre o mar inteiro
se prepare talvez árdua procela.
Busca horizontes claros, meu veleiro,
onde o sol brilha e o mar não se encapela.

Não te faças ao largo em demasia
que vem a noite horrenda e a treva zás
queira roubar-te a luz que te alumia.

E então sem rumo, sem farol, sem paz
quiçá não possas mais voltar um dia
à imensa praia que deixaste atrás.
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Poema de
CARLOS LÚCIO GONTIJO
Santo Antonio do Monte/MG

Amora Doce

Ainda cora no céu de minha boca
Aquele gosto de nuvem do teu beijo
Mora em mim toda janela do teu rosto
Amora doce em calda de raios de lua
Ofuscando as ruas de neon da madrugada
Foi bom sentir-me horizonte ensolarado
Mas se quebrado o bandoneón do amor
Sob as sanhas do batom a dor é branda
A lágrima que corre é apenas vida que anda
Num eterno "quiereme, besame mucho"
Sussurrado em terno de linho branco
Manchado pelo vinho santo da paixão!
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Escada de Trovas de
FILEMON MARTINS
São Paulo/SP

Deus

NO TOPO:
"Quando chegam dissabores,
Vejo o céu todo estrelado,
Nos campos eu vejo flores,
E a Deus eu digo; obrigado"!
Carlos Ribeiro Rocha
(Ipupiara/BA, 1923 – 2011, Salvador/BA)

SUBINDO:
"E a Deus eu digo: obrigado"
ao ver a vida na serra,
o mundo fica encantado
com as belezas da Terra.

"Nos campos eu vejo flores"
iguais no mundo não há,
perfumadas são amores
que a Natureza me dá.

"Vejo o céu todo estrelado"
a nutrir os sonhos meus,
e eu fico mais deslumbrado
ante a beleza de Deus.

"Quando chegam dissabores"
que a própria vida me traz,
esqueço das minhas dores
e escrevo versos de paz.
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Hino de 
Rio Negro/PR

Na pequena capela da mata,
Nos caminhos dos Campos Gerais,
Tu nasceste, querida Rio Negro,
Da bravura dos seus ancestrais.
És da Mafra fiel companheira
E seguindo caminhos iguais
És imagem de felicidade
Desde os tempos dos Campos Gerais.

(Refrão)
Oh! Rio Negro, singela e formosa.
És a ternura de um botão de rosa.

Em teu seio, querida Rio Negro,
Vive um povo ordeiro e feliz
Que tem fé e amor ao trabalho
E a Deus agradece e bendiz
Pela glória dos teus fundadores,
Pela honra dos seus ancestrais,
Por teus feitos brilhantes na história
Nos caminhos dos campos gerais.

Na beleza da tua paisagem,
És um hino a fraternidade,
És ternura de um botão de rosa
A florir na fronteira da amizade.
Na pujança do bravo Rio Negro,
Na candura de um riso infantil,
És prelúdio de fé e esperança
No amanhã de um grandioso Brasil.
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Poema de
APOLÔNIA GASTALDI
Ibirama/SC

Palhaço

Já te desejei
Desesperadamente
Sem imaginar
Que num repente
Irias te afastar

Havia em tuas palavras
Um ar de eternidade
Que me fez
Acreditar.
Depois assim indiferente
Tudo se afogou
Morreu na correnteza
Daquele rio
Que era só beleza

E meus sonhos feneceram
Um por um
No regaço da tristeza
Na aurora que eu vi
Apenas nascer

E tu sumiste
Nem palavras tinhas
Eu fiquei
Na penumbra
No desespero de não ter

Sorrindo segues outro destino
Como um palhaço
Escondido pelas tintas
Que não deixam ver emoções

Escondido na mentira. 
Palhaço !
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

A leoa e a ursa

Caiu-lhe o filho na cilada
Que o mendaz caçador lhe veio ao bosque armar;
E pelo bosque andava, irada,
A mãe leoa a urrar — a urrar, a urrar, a urrar...

E a noite toda e todo o dia
Soltou berros cruéis, urros descomunais;
E não só ela não dormia,
Mas nem dormir deixava os outros animais.

Tamanho e tal berreiro a fera
Fazia, que fazia os bichos mais tremer;
Até que veio a ursa (que era
Comadre dela) em prol dos mais interceder.

«Comadre, disse, os inocentes
Que, famulenta e crua, estrangulando vai
A aguda serra de teus dentes,
Não têm eles também, acaso, mãe nem pai?

Têm. Entretanto, estes, pungidos,
Loucos por um desastre ao teu desastre igual,
Não vêm quebrar nossos ouvidos;
Não nos quebres tu, pois, com algazarra tal!

—  Eu, sem meu filho! Ai! que velhice
Sem ele arrastarei, com este fado atroz!»
Disse a leoa. E a ursa disse:
«Do teu fado, porém, que culpa temos nós?!

— É o destino que me odeia!...»
E quem no mesmo caso o mesmo não dirá,
Se dessa frase a boca cheia
De todo o mundo (diz o La Fontaine) está?…
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