quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

José Feldman (Os calos das mãos)


Texto construído tendo por base a trova de Mara Melinni (Caicó/RN)
Meu senhor, por caridade,
não me julgue em atos vãos...
Trago a minha identidade
nos calos das minhas mãos.

Foi num dia quente, desses em que o sol parece querer derreter até as sombras, que o velho homem entrou na padaria. Trajava roupas simples, gastas pelo tempo e pelo trabalho. Seus sapatos, já sem brilho, guardavam histórias de longas caminhadas, e suas mãos... Ah, suas mãos eram um livro à parte. Grossas, calejadas, desenhadas por linhas que pareciam mapas de uma vida inteira de esforço.

Ele pediu um pão e um café, com voz baixa, quase um sussurro. O atendente, um jovem de rosto liso e mãos macias, o olhou como quem avalia uma mercadoria. Desconfiado, hesitou antes de atender o pedido, observando o homem com olhos que julgavam sem compreender. "Será que vai pagar?", parecia pensar. E ali, naquele instante, o velho sentiu o peso de um mundo que insiste em medir o valor das pessoas pelo que aparentam.

Quando o café chegou à mesa, o homem segurou a xícara com cuidado, como se segurasse algo precioso. O calor do líquido encontrou as marcas de décadas de trabalho, e por um momento ele se perdeu em pensamentos. Lembrou-se das enxadas que havia empunhado, dos sacos de cimento que carregara, dos dias começados antes do sol nascer. Cada calo era uma prova de sua história, uma assinatura invisível que o mundo parecia ignorar.

"Meu senhor, por caridade, não me julgue em atos vãos..." – ele murmurou baixinho, como se falasse para si mesmo. O jovem atrás do balcão lançou outro olhar, talvez arrependido de sua desconfiança inicial, talvez apenas curioso. O velho completou o pensamento em silêncio: "Trago a minha identidade nos calos das minhas mãos."

E não era verdade? Cada linha naquelas mãos era um testemunho de dignidade, um grito mudo contra o preconceito. Na sociedade dos rostos lisos e das aparências impecáveis, os calos eram vistos como sinais de fraqueza, quando, na verdade, eram medalhas de força.

O velho terminou seu café, deixou o dinheiro sobre a mesa e saiu. O jovem atendente o observou pela janela, agora com outro olhar. Talvez, naquele instante, tenha entendido que o valor de um homem não está na maciez de suas mãos, mas na história que elas carregam.

E assim o velho seguiu, com seus sapatos gastos e sua identidade bem marcada. Porque, no fim, são os calos que contam quem somos — não como fardos, mas como troféus que a vida nos dá por termos enfrentado a luta de existir.
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Ordo Equitum Calami et Calicis (Dux Magnus), Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna). Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”.
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas), “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".

Fontes:
José Feldman. Caleidoscópio da vida.
Imagem criada por Feldman com Microsoft Bing

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