Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 30 de maio de 2010

A. A. de Assis (A Língua da Gente) Parte 11



10. Um régulo na panturrilha

Não se assuste se ouvir alguém dizer que fulano tem um régulo na panturrilha. Significará apenas que o tal fulano tem um reizinho na barriguinha. Se os diminutivos em português fossem todos marcados por inho ou zinho, seria moleza (barquinho, barzinho). O problema é que muitos deles vieram prontos do latim, mantendo a forma erudita; outros chegaram até nós via espanhol, francês, italiano, e alguns nem parecem diminutivos. Por exemplo: é fácil entender que caixinha é diminutivo de caixa, porém nem todos percebem de imediato que cápsula (do latim capsa = caixa) é a mesma coisa, isto é, uma caixinha.

Assim também acontece com régulo, diminutivo erudito de rei, e com panturrilha, palavra que pedimos emprestada ao espanhol e que em geral é empregada no sentido de barriga da perna (daí que os jogadores de futebol frequentemente se queixam de “contratura na panturrilha”). A palavra tem origem no latim pantex (= barriga), que virou panza em espanhol e pança em português. De pantex temos também os verbos empanturrar e empanzinar.

Pode ser útil anotar outros diminutivos igualmente interessantes: asterisco (diminutivo do lat. aster = astro, estrela – repare que o asterisco [*] é uma estrelinha); botija (do lat. buttis = pote, tonel); caniço (de cana, cano); cassete (do fr. casse = caixa – cassete é a caixinha onde se guarda a fita); castanhola (de castanha); castelo (do lat. castrum = fortaleza); cedilha (diminutivo da letra grega zeta [z] – o sinal que colocamos embaixo da letra ç era originalmente um pequeno z); crepúsculo (do lat. crepus = escuro); cubículo (de cubo); donzela (de dona); edícula (do lat. aedes = casa); espátula (de espada); fascículo (do lat. fascis = feixe – de varas, de folhas de papel etc.); flâmula (do lat. flama = chama); flóculo (de floco); flósculo, florículo (de flor); folíolo (de folha); goela (do lat. gula = esôfago); gorjeta (de gorja = garganta); grânulo (de grão); janela (do lat. janua = entrada, porta); lagartixa (de lagarto); lamparina (de lâmpada); luneta (do lat. luna = lua); maçaneta (de maçã – as maçanetas antigas tinham, quase todas, a forma de uma pequena maçã); mantilha (de manta); moela (provavelmente de mo, moinho); molécula (do lat. moles = massa, corpo); músculo (do lat. mus, muris = rato – observe que o bíceps tem a forma de um ratinho); neblina (do lat. nebula = névoa); nódulo (do lat. nodus = nó); opúsculo (do lat. opus = obra); ósculo = beijo (do lat. os, oris = boca – para beijar a pessoa contrai os lábios, faz uma “boquinha”); palito (do lat. palus = pau); parcela, partícula (de parte); pastilha (de pasta); película (de pele); pipeta (de pipa); radícula (do lat. radix, radicis = raiz); roseta (de rosa); sarjeta (de sarja = escoadouro de águas); Venezuela (de Veneza – o nome foi dado pelos colonizadores ao observarem o grande número de cabanas construídas sobre estacas nas águas do lago Maracaibo, lembrando uma pequena Veneza); versículo (de verso); vesícula (do lat. vesica = bexiga); vírgula (do lat. virga = vara – a vírgula tem a forma de uma varinha).
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Fonte:
A. A. de Assis. A Língua da Gente. Maringá: Edição do Autor, 2010

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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