Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 30 de junho de 2019

Carolina Ramos (Tragédia Doméstica)


Tinha dois amores. Aliás, três, se somada a mulher miúda, clara, trabalhadeira, espalhando plantas e flores por toda a casa. Viviam todos no mesmo lar, sem complicações, em plena harmonia.

Os outros dois amores pertenciam, um, ao sexo feminino, o outro, ao masculino. Não, nada de alarmar. E quem pensou em filhos, também errou. O casal jovem ainda não os encomendara. Então, quem eram esses dois amores? Pois, um era a Juma, ruiva, olhos lânguidos, sempre fidalgamente bem penteada. O outro, frágil, lindo, exuberantemente alegre, dotado de voz privilegiada que a todos encantava. Uma cadela setter, pelo avermelhado, e um loiro canarinho cantador — os outros dois amores de Raul, marido de Tereza.

Havia ainda, uns três ou quatros gatos, hospedes bissextos, descompromissados com a casa, que apareciam quando lhes dava na telha. Mas, era inegavelmente, Sol, o canarinho cantador, que enchia de alegria o lar, conquistando, com sua graça, as boas graças da pequena família. Despertava ao despertar o sol, justificando o nome. Iniciada a função matinal, ninguém mais dormia! E, sem função, os despertadores perderam o emprego. Loiro como pé de ipê em tempos de primavera, biquinho sempre aberto, trinava a plenos pulmões o canarinho, expandindo seu canto ensolarado, ainda que chovesse. Canto vibrante de amor à vida!

O que ninguém entendia é como, Raul, que sempre, ostensivamente se opusera aos que mantinham aves em cativeiro, agora, sem mais nem menos, gabava os méritos do canarinho cativo. E defendia-se com os mesmos argumentos que antes contestava! Se outrora enfatizava:

— As aves nasceram para ser livres. Mais livres do que qualquer outro ser! Já nasceram com asas! Para voar. Para irem aonde quiserem. Sem ninguém para impedi-las. São donas do espaço. Se conseguimos voar, fabricando asas de aço, é porque somos invasores. O chão é nosso. O azul só delas! Prender uma ave, é condená-la sem culpas. Patati-pa-tatá, seguia, intransigente, nessa linha. Convicto de suas verdades. E, de repente, lá estava ele, fascinado, a defender a facção oposta, com a mesma convicção! E, com a mesma eloquência, justificava-se:

– O "bichinho" já nasceu na gaiola. Soltá-lo é matá-lo! Não sabe enfrentar o mundo lá fora! Qualquer gatinho neném faz dele um camundongo temperado para almoço. Coitadinho! Aqui, tem tudo de graça! Não precisa nem lutar pela subsistência. Falta-lhe apenas uma companheira. Logo vou tratar disso, etc, etc.,.

Antes do fim do discurso, todo o mundo adivinhava que Raul estava absolutamente apaixonado pelo canarinho cantador! Começara assim: — Todos os dias, antes das aulas, passava pela pequena livraria do Simon, para vasculhar, descontraidamente, as prateleiras e os escaninhos, à procura de um novo livro, ou de um livro velho ou, sabe-se lá o quê lhe pudesse prender o interesse. Questão de rotina. Um dia, despertou-lhe a atenção o canto mavioso que vinha do interior. Espetacular! Isto acontecera algumas vezes. Até que se decidira a indagar:

— Seu Simon, posso ver de perto esse canário? Como canta!

— Pois não, lá está ele. Foi presente do meu neto. Tem raça. Raça demais! Canta, canta, e canta, que até chega a me incomodar! Coisas de velho. Meus ouvidos não se dão bem com essa cantoria toda, dia após dia. Nem consigo pensar! Já quase o devolvi ao neto.

Pararam ao pé da gaiola. O canarinho belga calou-se tão logo percebeu gente estranha nas paragens. Raul, enamorado, achegou-se mais um pouco. A avezinha grudou nele o olho irrequieto, conquistando-o, definitivamente, com pio significativo que, para Raul, soou como convite: — Me leva pra casa?

— Eu compro! Seu Simon, me venda o canarinho. Faça preço.

— E que preço vou fazer? Nunca vendi canário nenhum! Nem sei quanto custa. Meu neto é que cuida disso. Faz criação. Eu não entendo nada de nada, além de livros, revistas e jornais.

— Olhe. Dou tudo o que tiver nos bolsos — insistiu Raul.

Sabendo não arriscar demasiado, esvaziou as algibeiras. Por oitenta mil, levou o canarinho para casa. Feliz! Não menos feliz, ficou o dono da livraria, que vendeu o canário por preço superior a um livro e ainda ficou livre da "barulheira" que lhe perturbava a senilidade.

Tereza, acostumada a aceitar sem discutir, recebeu o novo hospede com naturalidade, sem sequer indagar o porquê da mudança de princípios do marido. Nem tentou questioná-la. Arrumou o prego para pendurar a gaiola e ponto final. A própria ave encarregou-se, logo, de explicar tudo.

Ninguém ficava imune à sua magia. Não havia como resistir ao pequeno Sol! Realmente um campeão! A partir de então, houve mais luz naquela casa. Mais alegria! Mais aconchego. Era o centro do sistema. Planetas e satélites gravitavam-lhe ao redor.

— Olha o Sol se balançando ao poleiro! Olha lá.., está bebendo água. Tomando banho na tigela de areia! Que coisa linda! Como canta!

E Juma? Apesar de ser cão de raça, Juma fora achada na rua, abandonada, portadora de doença aparentemente incurável. Doença grave a requerer cuidados sérios, despesas altas, e, principalmente, muito amor. Nada disto lhe faltou. Livre da moléstia, a cadela transformou-se num belo exemplar da raça. E vários ''donos' apareceram de pronto. E se de pronto vieram, de pronto se foram, ao tomarem conhecimento da possível exigência de ressarcimento de despesas.

Findo o assédio, Juma foi integrada à família, para alegria de todos.

Um dia, a tragédia aconteceu. Juma foi o pivô da questão. Ou teria sido Sol? Ciúmes da Juma? Quem saberá? Talvez que a ruiva temperamental contasse alguns tapinhas carinhosos a menos, desde a chegada do canarinho. Talvez. Ou quem sabe se o chinelo que trazia na boca e entregava ao dono, quando chegava da Faculdade, não recebesse a mesma acolhida pronta, seguida de afagos. Raul, chegado, ia direto para a frente da gaiola. E Sol, todo exibido, saltava de poleiro a poleiro, batendo as asas, saudando alegremente a presença do dono. Ou teria sido apenas impulso instintivo? Irresistível, inevitável? O mais viável. Bicho é gente boa! Naquele dia de triste memória, quando a gaiola era limpa, tarefa exclusiva de Raul, a avezinha escapuliu e foi pousar na área externa, bem próximo a Juma, aparentemente adormecida. Um bote só! E Sol sumiu, para sempre, nas sombras. Berros, tapas, pontapés e muito desespero, antes que a cadela devolvesse á luz o corpinho masserado da pequena vítima, pescoço mole, quebrado, biquinho semi-aberto, mudo!

Houve "choro e ranger de dentes" naquele dia sombrio!

Sol morrera, deixando em seu lugar as sombras da saudade. Por sua vez Juma sofreu por muito tempo o repúdio do dono, sem que atinasse o porquê. Desistiu do transporte do pé de chinelo, não mais recebido com alegria. Não perdeu, contudo, o costume de deitar-se aos pés do jovem professor, sempre que se dispunha a preparar aulas ou corrigir provas.

Lutou, por algum tempo, contra a porta intencionalmente fechada, com arranhadelas, grunhidos e lamentosos latidos. 

Venceu! Sem carinhos, sem festas, cauda murcha, reconquistou o direito de deitar-se, desconsolada, junto aos pés que a haviam chutado, nada pedindo para si, a não ser a consolação de amar a quem não mais a amava. O amor não aceita limites! Juma, um dia, ousou mais, passando a língua morna na mão que se estendera quase até ela, num esboço de carinho abortado. Foi um choque para Raul a carícia morna de Juma. Um toque de amor que encontrou eco. Em resposta, coçou-lhe, de leve, a cabeça ruiva, onde brilhavam dois olhos tristes. Nada mais foi preciso. Um rio de ternura recalcada, saltou diques, atirando-se sobre Raul que, lambido da cabeça aos pés não reprimiu os afagos.

Um raio de sol entrou pela janela e veio brincar com eles.

Dependurada no teto, vazia, a gaiola deixou de ser estigma. Virou jardineira, abrigando plantas cujas folhas evadiam-se pelas grades, oferecendo beleza e perdão. Toque feminino encerrando a história.

Fonte:
Carolina Ramos. Interlúdio: contos. São Paulo: EditorAção, 1993.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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